Bodas de prata

Foi preciso receber o material de aniversário da Kingston para me dar conta de que estou comemorando bodas de prata com o jornalismo de tecnologia. É que a Kingston e eu começamos juntas, e ao ver aquele 1987 em destaque na sua timeline, acendeu-se uma lampadazinha imaginária acima da minha cabeça: 25 anos! Como o tempo passou depressa!

Comecei a escrever sobre computadores e tudo o mais que na época se chamava informática porque queria ler sobre o mundo que começara a desbravar. Eu vinha de uma máquina de escrever elétrica quebrada que, por sugestão de um amigo, troquei por um computador. A idéia de poder alterar a ordem os parágrafos sem ter que cortar e colar, como acontecia com as páginas produzidas pela máquina de escrever, me pareceu muito atraente. Além disso, o computador, diziam, podia jogar xadrez, coisa que a velha máquina elétrica nunca foi capaz de fazer.

Não foi um começo suave. Eu não sabia que o hardware precisava de software para funcionar — na verdade, eu nem sabia o que era hardware e software! — e passei algumas semanas rodando um dBase, tentando descobrir como diabos se escrevia naquilo. Foi um alívio descobrir, junto com o primeiro processador de texto, que o meu computador não estava com defeito.

Viviamos, então, em plena reserva de mercado, uma das medidas mais burras e retrógradas que este país já adotou. Como todo mundo, eu também comprei meu primeiro (e segundo, e terceiro, e quarto…) computador com um contrabandista. Custou US$ 2.200, fora o monitor (mais US$ 850). Lembrem-se de que estamos falando de dólares de meados dos anos 80, equivalentes, hoje, a pelo menos o dobro disso. Se comprasse um computador brasileiro levaria uma máquina inferior pelo triplo do preço. Pessoa física alguma, em sã consciência, fazia essa loucura.

Ouvi muita recriminação de amigos intelectuais por ter me rendido àquela coisa. Nenhum tinha ideia do que era um micro. Todos lembravam-se do HAL de “2001, uma odisseia no espaço” e de outros computadores malignos do mundo da ficção científica, e achavam que gente de bem não se associava a máquinas do mal.

Não sabiam o que estavam perdendo. Um subproduto inesperado da reserva de mercado foi o solidário clima de tribo que se instalou entre os “micreiros” da época, relegados à própria sorte por um governo que não entendia que proibir o acesso a bens de tecnologia era proibir o próprio desenvolvimento do país. Não existiam entre nós as barreiras sociais habituais; nossas máquinas maravilhosas uniam jovens e velhos, intelectuais sofisticados e técnicos sem qualquer interesse além das placas de circuito integrado. Programas sorrateiramente trazidos do exterior eram logo copiados e distribuídos entre os amigos. Manuais eram traduzidos e xerocados. A vida era uma festa cheia de momentos de grande emoção proporcionados pela Polícia Federal, que apreendia até disquete virgem.

O disquete era uma forma primitiva de armazenagem de dados, capaz de conter até 360K de material. No dia em que comprei a minha primeira caixa com dez disquetes, achei que aquilo ia me durar até o fim dos tempos. O pen drive que a Kingston acaba de distribuir com a sua história é um produtinho minúsculo com 8Gb, ou seja, 8.388.608 Kilobytes — o equivalente ao conteúdo de 23.301 disquetes…

Eu trabalhava no falecido Jornal do Brasil. Depois de muito atazanar a chefia, consegui finalmente uma coluna, que às vezes saía às segundas, às vezes às terças; às vezes na Economia, às vezes na Inter. Nem a minha Mãe conseguia encontrá-la. Mas ali fui contando as minhas descobertas e fui aprendendo junto com os leitores que, como eu, percebiam que o mundo nunca mais seria o mesmo. Alguns deles tornaram-se grandes amigos.

Hoje os desktops estão incorporados ao cotidiano de todos e já até ameaçam sair de cena, vencidos por notebooks e tablets. Qualquer um leva no bolso, em forma de celular, uma máquina infinitamente mais poderosa do que aquele meu primeiro PC. O que será que nos reservam os próximos 25 anos?

(O Globo, Economia, 10.11.2012)

 

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24 respostas em “Bodas de prata

  1. Parabéns, Cora. Voltei no tempo lendo seu texto. Passei noites em claro tentando desvendar os recursos junto com as letras verdes da tela. Mas valeu a pena. Suas informações são sempre foram bemvindas e continuarão sendo. Sou sua fã. bjs

  2. Meu primeiro computador foi montado pelo meu irmão, com peças compradas na Santa Ifigênia, num gabinete usado. Era um 386 pirata com uma memória enorme pra época – 256 Megas – um monitor de tubo colorido e uma ótima impressora matricial, Epson LQ. Ano 1991.

    Na hora de montar meu irmão percebeu que havia esquecido o botão de liga/desliga, mas, não tinha problemas, eu desligava tudo pelo botão do filtro de linha. Aliás, o filtro de linha é o mesmo que uso até hoje :O

    Sistema DOS 5, processador de texto Carta Certa, Lotus 1,2,3, disquetes de 5 1/4″e, coisa muito moderna de 3 1/2″.

    CD, pen drive, hd externo? Ninguém usava ainda. E mouse era algo muito raro. Pra que mouse se todo mundo sabia usar os comandos do wordstar? :p

    Nem monitor tela plana, ou notebook. No máximo um gabinete pequeno que ficava deitado embaixo do teclado.

    Depois vieram outros, veio a internet discada e seu som característico, o e-mail, as salas de bate papo, o ICQ, o MSN, as redes sociais, e todos os recursos que usamos hoje.

    Por que será que estou me sentindo velha?

  3. Paguei do próprio bolso meu mestrado em computação pela Universidade de Londres. Por não ser súdito britânico nem ter bolsa, cobraram-me o valor integral: 250 libras esterlinas, bem menos que o preço de meu calhambeque de segunda mão. Se não tivesse bolsa mas fosse, por exemplo, canadense, portanto súdito de Sua Magestade, o valor caía para 50 libras. Eram os anos 70, antes do laissez-faire neoliberal de Margareth Thatcher. Pode-se dizer que fui mais um brasileiro picareta mamando nas tetas do socialismo britânico. O Reino Unido evoluiu muito: 20.000 libras já não bastam para um mestradozinho no Imperial College e a plebe que se dane.

    Quero ver para onde irá o Brasil se as universidades federais passarem a cobrar dos vagabundos que por lá estudam e se dão bem às custas de idiotas que pagam impostos.

  4. parabéns, cora. eu sempre encontrei as suas colunas no jb, mas realmente tinha que ter paciência. coisa que eu tinha, porque já havia passado pela experiência de gravar e ler dados numa fita cassete. eu, como um simples usuário (doméstico e profissional) também acho a reserva de mercado a coisa mais burra que já foi feita no país. obviamente, os que foram privilegiados com ela não acham. ou seja, como sempre, a gente paga para alguns “eleitos” se darem bem e eles se acham no direito divino de receber nossa dádiva. é a nossa história, os atrasados sempre se entendem: “nacionalistas” e “socialistas”…
    []’s

    • Hoje, 1 de dezembro de 2012, ainda me perguntava o que tanto passou a me chatear no querido blog de nossa Cora. Descobri: é você, homúnculo de merda.

      Este caju aqui está incomodadíssimo com o nauseabundo teor de seus comentários. Seguramente, o asco que me provoca tem o condão de me espantar daqui de uma vez por todas.

      Meus parabéns!

  5. Parabéns pelas bodas de prata, Cora.
    Eu só me entendi com um computador quando meus filhos saíram de casa, quando descobri que podia me comunicar com eles por meio dele. Que bom! E um belo dia me comuniquei com você por causa das capivaras do Bosque da Barra… que maravilha que é esta comunicação. Nem imagino o que pode surgir nos próximos 25 anos… tudo está aparecendo numa rapidez incrível e temos que nos atualizar sempre para não virar peça de museu…
    Daqui a 25 anos você estará super atualizada, como sua mãe está sempre em dia com seu esporte, não é? Parabéns… parabéns e mais parabéns, para você e para a sua mãe por ser quem ela é e também por ser responsável pela sua existência.

  6. Antigamente pré-história era coisa muito antiga… Hoje escrevemos pré-história contemporânea. 🙂 Cabe entre a gente nascer e morrer!

    Quando eu penso que fui ver como se usava um computador por sua causa e por causa do Paulo Vianna, fico abismada. Eu lia você no jornal e um dia apareceu no final da coluna: ‘blog da colunista: www. tal e tal…’
    Fiquei curiosa e pronto. Eu tinha aprendido pouco tempo antes o que era um blog, pelo Paulo.
    Sou recém-nascida nesse mundo que fica velho tão depressa. Com todos os recursos pra se viver mais, com mais facilidades, mais conforto e mais juventude, a evolução tecnológica encurta o tempo e nos faz sentir mais velhos em menos tempo.
    Estou confusa?

    Eu poderia ter evoluido de outra maneira. Fiz um cursinho de ‘Basic’ antes de entrar pra faculdade de odonto em 84 mas achei meio bobo e inútil na ocasião. Eu não precisava daquilo pra nada! Mergulhei na formação acadêmica sem precisar de computador por muitos anos.
    Parabéns, Corinha. Tenho orgulho e gratidão pelo seu espírito pioneiro e destemido. Aprendo um monte com você!

  7. PS: Mas,, como assim “os intelectuais achavam”? Fui relegada ao ostracismo por incontáveis pessoas de e du bem que acreditam, piamente- no verdadeiro sentido da palavra- que um artista deve permanecer puro sem qualquer associação com as “máquinas do mal”, como bem diz você.
    Ainda em 2012…

  8. Parabéns pelas Bodas, Cora. Que venham as de Ouro.
    Meu primeiro computador foi um 386 de segunda mão, mas muito “moderno”. Eu mal sabia ligar aquela parafernália. Um verdadeiro burro olhando para uma Igreja…
    Aguardava ansiosamente pelo Caderno de Informática, que lia de cabo a rabo sem entender absolutamente nada. Aos poucos fui-me familiarizando com os termos e, o pouco que sei hoje em dia devo a você, ao Piropo, ao CAT, ao Laercio Vasconcelos, ao Abel Alves, ao Gravatá e a tantos outros.
    Saudades daquele Caderno!

  9. Lembro-me dos anos 90, vc já no GLOBO e eu lendo sua coluna. Não entendia absolutamente nada, mas já gostava bastante do seu estilo e lia assim msm. Eram mil termos (que cá entre nós, defasados ou não continuo sem entendê-los direito) com os quais acabei me habituando a ler em sua coluna . Hj em dia , ao menos me “viro” com notes e celulares . Mesmo ainda usando o termo “informática”, nem sabia que não se usava mais, sou antiga (defasada) msm, haha… Bjs e parabéns!

  10. realmente é um dia para comemorar! e eu fiz instalando o win8 em uma partição do disco, por conta dos conselhos e leituras dessa querida amiga, que infelizmente não conheço pessoalmente, mas isso é irrelevante, pois seu modo de escrever supre essa lacuna. é uma conversa amiga sempre!
    obrigado por clarear as nossas dúvidas e servir de ponte para conhecer, mesmo que virtualmente, gente bacana como o CAT, o BPiropo e todos os bons amigos que ‘ralavam’ no Infoetc. , que boa saudade e longa vida aos seus ‘escritos’.

  11. Para o consumidor doméstico e para o simples jornalismo gadgetológico não técnico, a reserva de mercado em microinformática pode ter sido ‘uma das medidas mais burras e retrógradas que este país já adotou’. Para engenheiros de hardware e de software, e para os meus calos, não.

    Devemos nos lembrar que, nos primeiros anos da reserva, computador doméstico era luxo de poucos. Naquele tempo, Steve Jobs ainda brincava com ‘blue boxes’ e o termo ‘hacker’ era gíria privada de fedelhos de um clube de trenzinhos de brinquedo no MIT que invadiam os aposentos de um PDP-8 (um MINI-computador) nas altas madrugadas.

    Quando a reserva acabou, NINGUÉM precisou refazer software nacional que rodava em máquina nacional, não há registro de problemas de migração. Tampouco há registro de empresas simplesmente jogando no lixo as ‘porcarias’ feitas aqui. O que sobrou da reserva foi um contingente de profissionais em todos os ramos da indústria. Multinacionais, que rotineiramente importavam estrangeiros, muito se beneficiaram da posterior absorção da espertíssima competência brasileira nessa (e em qualquer) área. Aliás, vários queridos e estimados colegas estrangeiros trabalharam na indústria nacional de informática: não havia absolutamente nenhum segredo no que fazíamos, muito menos xenofobia.

    Quanto a retrocesso, nosso excelente jornalismo de consumo tecnológico só está atrasado alguns segundos ao gastar tempo escrevendo e opinando em Português o que é divulgado lá fora e se lê instantaneamente em Inglês.

    Meus Parabéns!

  12. Ah Cora! Como esquecer os bravos tempos de experiências e descobertas, das noites em claro ou muito mal dormidas, seguidas de dias bucejantes e mal produzidos no trabalho: “Como diabo vou eu configurar o periférico que mandei vir de Miami?…” E na noite seguinte, lá continuava a batalha, até ao indescritivelmente prazeroso “EUREKA!!! Vê!: Eu consegui!” E sentia-me o todo-poderoso-omnisciente-mestre-das-ciências cibernéticas! Num tempo em que transportar um computador dentro do carro do ponto A para o ponto B era tão arriscado quanto portar uma arma de uso exclusivo das forças armadas, todos nós, dos mais obscuros amadores aos mais respeitados e admirados ícons da praça, formávamos afinal, um exército em permanente luta contra as hostes dos terríveis e numerosíssimos “Retards”, liderados pelos “Retards-in-chief” das tenebrosas coisas políticas.
    Um grupo formado pelos tais “admirados Ícons da praça”, de Cora Rónai a B Piropo, sem mensionar muitos outros expressivos e mui respeitados nomes que não vou aqui listar por medo de esquecer algum, foram os visionários-guia de tantos visionários-seguidores que intermináveis horas de dedicação colocaram nesta ciência.

    Muito obrigado, Cora!

  13. “Áureos tempos” em que, ou você aprendia a se familiarizar com o computador, ou estava fora dos planos da empresa. E lá fui eu, me embrenhando no emaranhado do teclado, mas telas verdes e dos disquetes fininhos, de 5 1/4, e dobráveis, que mal davam para armazenar aquilo do qual precisava.
    Como sou apressada, não ouço a frase até o final (vou por dedução) e não esperei parteira para nascer (nasci sozinha, às 03h45, embora com plateia não chorei e coloquei o dedo na boca – sim, quando nasci, a parteira ia em casa!) não posso esperar nada da vida. Me virei e consegui aprender. Até hoje, aprendo apenas aquilo do qual necessito, sem alçar maiores voos. Não tenho muita afinidade com PC e quetais, não. Vou me virando conforme a necessidade. Até agora está dando certo. Quanto ao futuro, não sei não…
    Antes que me esqueça: Cora, parabéns pelas suas bodas de prata. Abraços e mais sucesso (se é que isso é possível…).

  14. Meus sinceros parabéns, Cora.
    Eu confesso que até 2001 não sabia a função do mouse. Meu primeiro computador foi um PC com o Windows Millenium- que eu batizei justamente de HAL- e a Internet discada, que foi instalada na semana da queda do WTC. Nada funcionava e eu não sei como não desisti.
    Hoje em dia pouco uso o desktop: utilizo computador de bolsa e bolso. E, claro, a velha caixa de lápis-de-cor- que continua custando, em sua versão mais completa, no Brasil, o mesmo preço de um IPhone.

  15. e num disquete de 360k cabia um CP/M 2.2, um WordStar e sobrava espaço pra texto. Algo que consumia 3k por pagina de texto de 50 linhas com 65 toques…..

    • Os primeiros disquetes de 360Kb que eu editei, já sabendo um pouquinho mais das coisas, tinham o DOS, o Volkswriter e o Sidekick. Eram rodados no Drive A; no Drive B ficava um segundo disquete onde eu gravava os documentos.

      • Sidekick era ótimo, o teclado funcionava igual Wordstar e rodava em segundo plano, sendo ativado por e mais uma tecla qquer.

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