Cidadania em retalhos

Como os demais 30% de otários que pagam IPTU no Rio de Janeiro, eu também estou perplexa com a cara de pau do prefeito, que passou a campanha inteira garantindo que não ia mexer nesse imposto e que agora, mal reeleito, já quer meter a mão no nosso bolso. Sou do tempo em que ser homem de palavra era qualidade básica para definir o caráter de alguém, e estranho essas coisas.

O argumento de que o imposto está defasado e não corresponde à realidade do mercado não corresponde a uma realidade maior, a da vida. Ninguém ignora o aumento maluco dos preços dos imóveis no Rio. A questão, porém,  é que, para a maioria de nós, que simplesmente vivemos nas nossas casas e não temos intenção de negociá-las, esse aumento não tem qualquer significado real. Nossas vidas continuam as mesmas. Nossos rendimentos não dispararam, nem nos tornamos milionários de uma hora para a outra.

Os contornos demográficos dos nossos bairros estão mudando; sempre mudam. Aqui mesmo na Lagoa já vi vários velhinhos serem expulsos da vizinhança por causa de aposentadorias em baixa e impostos em alta. Os carros nas garagens estão ficando mais sofisticados, as portarias mais elegantes. Aumentar o IPTU quando os imóveis trocam de mãos e passam a assumir seus novos preços faz sentido; mas não faz sentido algum reajustar por valor de mercado moradias familiares que, pura e simplesmente, não estão no mercado.

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Leio as cartas indignadas que os leitores mandam para o jornal, tuito e escrevo a minha revolta mas, francamente, não tenho qualquer esperança de sermos ouvidos. Ser cidadão do Rio de Janeiro é ser uma criatura espezinhada, que só tem valor na hora do voto; é ser uma voz gritando no deserto; é buscar diálogo com quem não ouve nem quer ouvir. Basta ver o que está acontecendo em relação às obras do metrô da Praça Nossa Senhora da Paz.

Moradores de Ipanema têm manifestado a sua preocupação desde que elas foram anunciadas. Ninguém quer a Nossa Senhora da Paz transformada numa segunda General Osório, feia, deserta, com aquela horrenda construção do metrô piorando ainda mais o que já estava péssimo. A Praça da Paz, um oásis verde em meio ao concreto, é a única decente do bairro, com suas árvores lindas e sua bucólica vidinha de praça de verdade.  O governo alega que fez audiências públicas sobre as obras, mas isso é uma meia-verdade, já que à população coube escutar e às autoridades falar.

Como o governo começou as obras na marra, ignorando um abaixo assinado com quase 20 mil adesões, o pessoal do Projeto Segurança de Ipanema entrou na Justiça, pedindo opções de construção que poupem a praça. As obras estão paralisadas. Guerra é guerra. De um lado as árvores, do outro as escavadeiras; de um lado os moradores do bairro, do outro a turma do guardanapo.

o O o

Levei um susto quando vi que a árvore da Lagoa já está sendo montada. Apesar de saber que estamos em novembro, não tinha me dado conta, para valer, de que o ano está quase acabando. Lá vamos nós entrar em ritmo de compras, de shoppings lotados, de caixinhas a torto e a direito, de cartões de crédito estourados. Mas pelo menos num aspecto, ainda que pequenino, o meu Natal vai ser diferente: estou dando adeus aos pacotes tradicionais.

Sempre tive muita pena de papel de embrulho. Acho uma tristeza ver aquelas belas folhas terem vida tão curta, e a cena final das festas, em que montanhas de papel bonito vão para o lixo, me lembra invariavelmente uma mortandade de peixes.

Agora encontrei  a solução para o problema: a arte do furoshiki japonês. Furoshiki — pronuncia-se furoshikí, com tônica na última sílaba — é um quadrado de pano com que se fazem os mais lindos embrulhos. Furoshikis são inteiramente recicláveis. Podem virar écharpes ou bolsas, podem ser usados como guardanapos ou jogos americanos, podem até vir a embrulhar outros presentes. Em vez de ir para o lixo, fazem a alegria de quem os recebe. E, ao contrário das folhas de papel, prestam-se aos mais complicados embrulhos, tirando bolas e formas irregulares de letra.

Há furoshikis de todos os tipos e tamanhos na internet. Os mais comuns são de algodão ou seda e medem entre 50cm e 100cm de lado. Os mais baratos estão no ebay.com e custam seis dólares cada, mas o céu é o limite, ou quase: vi sofisticadíssimos furoshikis tecidos à mão saindo pelo equivalente a R$ 500. Outros, em seda, com dupla face, andam na casa dos US$ 100. Quem sabe costurar para fazer o acabamento pode economizar um bocado. Basta comprar qualquer pano bonito e produzir em casa os seus próprios furoshikis. Para saber como usá-los é só consultar o Google, que tem toda a espécie de referência e tutorial.

No sábado passado, dei meu primeiro presente embrulhado num furoshiki. Foi o primeiro de uma longa série. Os que mandei vir do Japão devem chegar dentro de uma ou duas semanas. Junto com eles, espero também um livro sobre a elegante arte de dobrar e amarrar esses inteligentes quadrados de pano

(O Globo, Segundo Caderno, 8.11.2012)

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32 respostas em “Cidadania em retalhos

  1. vamos convir, também, que os jornais cariocas tratam o prefeito e o governador com bem pouco senso crítico. a dança dos guardanapos já foi esquecida. o prefeito, falando sobre a demolição da rampa de acesso à perimetral (que está em andamento), disse que os motoristas nem iriam sentir porque ela já está fechada há quase dois anos. caraca! e não apareceu um único repórter para lembrar que desde o seu fechamento os engarrafamentos na via começam muito mais cedo pela manhã e se tornaram muito maiores. mas nem vou falar sobre demolição da perimetral que me dá engulhos…
    os seus embrulhos vão ficar lindos (meu aniversário é 09/01). ;¬)

    []’s

  2. Puxa,o mundo e´igual em muita coisa.Mas,hoje eu acordei com fe´. 🙂
    Vou pular o IPTU,amei essa embalagem japonesa,vou aderir!
    Por falar em presentes,tô trazendo na bagagem algumas Birkenstocks pra família.
    Se tivermos o “Nosso” encontro ,posso levar mais algumas pra vcs.
    O.T. Cora,ja´tenho o telefone da Fátima!!!! Beijao.

  3. É o fim da picada… este aumento abusivo de IPTU ser capaz de explusar pessoas que viveram muitos anos numa casa e que por causa de um aumento absurdo desses no IPTU e de uma aposentadoria vergonhosa para quem trabalhou a vida inteira. Não é justo que essas pessoas não possam permanecer em suas casas por um motivo tão … não encontro a palavra exata…
    Será que não poderiam ter um diferencial para quem só tem um imóvel e mora nele há mais de 20 ou 30 anos ou até mais??? e o morador ou o casal tem mais de 60 anos??? Isto tinha que ser levado em consideração. Se eu pudesse … ah!!! nem sei o que seria capaz de fazer com esse prefeitinho se ele aparecesse na minha frente… o meu voto ele NUNCA teve e nem terá.

    Adorei a idéia dos furoshikis. Vou fazer alguns para embrulhar os meus presentes. Vou comprar os tecidos e usar a minha máquina de costura e pronto. Que idéia genial! Obrigada.

  4. Se o povo brasileiro gostou de sermos sede dos dois eventos esportivos internacionais, eu fiquei muito triste. Triste de verdade. Os políticos, na ocasião, celebraram o fato como sendo ganhar sozinho o valor do PIB norte-americano. E, pra coisa piorar, colocaram na CBF um político profissional, que entende nada de nada… Triste país este, em que temos um Robin Hood às avessas. Mais triste, ainda, é a nossa vitória de pirro… Que lástima!

  5. Eu tenho a certeza de que as autoridades nos acham uns otários de marca tão grande que não dá pra ter ideia do tamanho. Dona Dilma veio a público, via TV, alegrar os brasileiros e as brasileiras com a grandiosa notícia de que teríamos desconto de até 16% nas contas de luz.. Agora ficamos sabendo do seu aumento que será maior do que a inflação do período. Só pode ser sacanagem.

  6. Cora, você disse tudo sobre o abusivo aumento do IPTU. Moro no Leblon, não pretedo me mudar do meu apê, meus rendimentos diminuem ano após ano, e não faz o menor sentido ter meu IPTU aumentado, mesmo por que não há o devido retorno da Prefeitura. O calçadão da praia está uma buraqueira, por total falta de manutenção (cadê os famosos calceteiros?), as ruas estão sujas, praia polúida, o Hospital Miguel Couto é a ante-sala do inferno, enfim, pagamos sem receber a contrapartida dos serviços públicos. Nunca votei no Eduardo Paz, e não consigo imaginar por que os cariocas lhe deram esta votação maciça.. Conte comigo para qualquer campanha contra este verdadeiro roubo que será o aumento do IPTU. De quebra, um carinho nos gatos, pois, como você, também adoro os bichanos.
    Um forte abraço,
    Selma Beila Chvidchenko

  7. Cora,

    Como carioca, lamento muito a situação política/administrativa em que nos encontramos. Ouso dizer que sequer temos como nos socorrer com as instituições altenativas (judiciário e ministério público do estado), uma vez que todos me parecem de acordo com as práticas do alcaide.

    Espero que seja um acordo puramente ideológico, ainda que seja uma ideologia contrária a minha.

    Os absurdos cometidos pelo Eduardo Paes não estão restritos à Ipanema e às Larajeiras. Vide o que ele vai ajudar a fazer na perimetral, a destruição desnecessária do Museu do Indio, a “doação” de terras para General Electric (nas proximidades da Ilha do Governador) e a desafetação de VÁRIOS terrrenos públicos em Jacarépaguá e no Recreio.

    O que me incomoda é que ninguém veja isso. Ou que quem vê e grita, seja solenemente ignorado.

    Perdoe-me o abuso, não estou fazendo política. Mas sou sua leitora há anos, desde os primórdios do Informatica e etc.. Mais ou menos desde a época em que fui aluna (na universidade) de uma pessoal admirável que, recentemente, aceitou a incumbêmcia de ser vereadora do nosso município. É séria, correta e combativa.

    Os discursos de vcs são muito semelhantes ou, ao menos, as preocupações de vcs (que coincidem com as minhas) são semelhantes. De modo que eu (mais uma vez, pedindo licença), sugiro que vc dê uma “googlada” no nome “Sonia Rabello de Castro”. Quem sabe nao rola uma associação de ideias e ela, ainda na Câmara de Vereadores, possa dar alguma voz aos seus anseios.

    Triste, terrível e inceitável foi o cheque em branco dado pela população carioca ao seu prefeito. Uma eleição em que não se discutiram idéias ou soluções para essa nossa amada cidade.

    Como pode haver uma aceitação expressa de 64% da população, com tudo o que vemos por aí?

    Não era prá ter me estendido tanto, mas a indignação com esse “provável” aumento, na ordem de 30%, do IPTU, cumulada com a indignação com o “provável” aumento das passagens de ônibus, foi demais prá mim…

    Cristiana.

  8. Vergonhosos o pretendido aumento do IPTU por parte do prefeito e a intransigência do (des)governo estadual quanto às obras na N.S. da Paz.
    A ideia do Furoshiki é um verdadeiro achado. Andei passeando pelos sites e fiquei encantada.
    Mandei email pra vc com links para os vídeos da soltura do “Zé” Carreras.

  9. Se gato é tudo doido, como diz Cora, prefeito é tudo igual. Aqui em Sampa nada é diferente. Com construções de linhas de metrô, os preços dos imóveis estão subindo desbragadamente. Não sei se é bom ou ruim, mas o apartamento onde moro há 13 anos, teve seu valor multiplicado por cinco! Porém, a infraestrutura continua a mesma. Se você não olhar onde pisa, na rua, com certeza cairá. E o prefeito eleito, que não teve competência para cuidar do Enem, já quer aumentar o preço das passagens de ônibus. O Planalto quer aumentar o preço dos combustíveis, e nós vamos pagando o pato, ou melhor, os novos preços. Precisamos urgentemente fazer uma reciclagem em nossa política e nos homens públicos. E não podemos demorar, pois até os “mortos-vivos” estão querendo voltar!

  10. Apoiadíssima, quanto ao IPTU.
    E, desminto tudo de bom que falei sobre o choque de ordem: viajei depois das eleições e ,no meu retorno, encontrei uma população enorme de pedintes e moradores de rua, vivendo no Aterro e ruas adjacentes – o que não existia antes.. Ainda não fui assaltada, mas me parece questão de tempo, pois sou achacada toda vez que saio de casa.

    Quanto aos furoshikis feitos por você, não precisa esperar pelo Natal: meu niver é segunda-feira 😉

  11. Prezada Cora, a vice presidente da IAB e professora da UFRJ, Fabiana Izaga, em entrevista Felipe Werneck do Estadão no dia 4 de novembro, ridicularizou a discussão dos mais de 20 mil moradores de Ipanema, identificando o movimento equivocadamente como nimb (not in my backyard). Essa afirmação é uma bobagem, levando em conta que a gente já tem uma estação “no nosso quintal”, além de uma favela e dezenas de linhas de ônibus para quem quiser vir para cá. Quem diz que Ipanema é hoje em dia um bairro elitista não anda pelo bairro, passa de carro e olhe lá. A maioria dos moradores quer sim novas estações. E dá para fazer sem destruir a única praça que restou do bairro. A professora confunde o leitor ao comparar o movimento pela praça NS da Paz com os ridículos atos contra o metrô de Higienópolis em São Paulo, que nem de longe representavam o desejo dos moradores daquele bairro. Para o paulistano leitor do Estadão entender bem, era preciso ter explicado que detonar com a NS da Paz em Ipanema é o mesmo que destruir a praça Buenos Aires em Higienópolis para fazer ali a obra e as saídas do metrô, em vez de fazer a obra subterrânea e deixar as saídas do outro lado da Av. Angélica! O que o paulistano iria achar de ter a Buenos Aires inteirinha destruída, se transformar em passagem do usuário do metrô e nunca mais voltar a ser como era antes? O que os mais de 20 mil moradores de Ipanema que assinaram o abaixo assinado querem é que empurrem as saídas do metrô para o outro lado da rua, na quadra seguinte. No nosso quintal, sim, mas preservando a praça!

  12. Quanto aos pacotes de presente para o Natal. Eu já fiz algumas coisas que funcionam lindamente, sem gastar muito. Uso as páginas dos classificados (tanto pela delicadeza dos temas e imagens mais homogêneas), cobertas com celofane transparente. Laço de fitilho ou fita larga …et voilà! Ficam lindíssimos! Quando ao Prefeito, prefiro comentar sobre os pacotes de presentes de Natal …

  13. Cora, quero te agradecer por ter dado voz a muitos cariocas que, órfãos de um alcaide comprometido com o que fala e promete, nada podem fazer, a não ser reclamar em redes sociais, jornais e Blogs.
    Não votei no Eduardo Paes e nunca terá meu voto (nem para síndico!).

    Agora, muita ingenuidade supor que isso não iria ocorrer… Quem votou nele deveria pagar em dobro. Nada mais correto, sensato e justo.
    #64%nao podem reclamar

    Marise Caetano,Eliana Corrêa Lima e Claudia, se permitirem, eu assino embaixo dos comentários precisos.

  14. Esse cara é o maior pilantra com cara de bonzinho…. Votaram nele, talvez por engano!!!!!
    Bravo, Cora: espalhe seus furoshikis por aí. Inove. Seus presentes vão ficar lindos.

  15. Cora, aqui em Laranjeiras – único bairro onde não ganhou – ele mandou retirar todos os frades das ruas e obrigou os condomínios a refazerem as calçadas. Até aí, tudo bem. Mas os carros voltaram a ocupar as calçadas e não há fiscalização. Não temos calçadas para caminhar. Não há lixeiras – as laranjinhas – e as poucas que existem estão sempre lotadas. Para que minha rua seja limpa, preciso ligar ou twittar reclamando. Uma vergonha. Não teve meu voto e jamais terá.

  16. Córa, assino tudo que vc escreveu a respeito do IPTU; aqui, na Lagoa, as árvores não são tratadas como deveriam e falta GRAMA – apesar de ouvirmos o barulho irritante daquelas maquininhas “aparadoras de grama”(?) todo mês. Um abraço.

  17. Claro que só não enxergam essa lógica do IPTU as “autoridades”, pouco afeitas a pensar na realidade da vida, e muito preocupadas em rechear seus bolsos. Se quisessem ser justos, aplicariam critérios diferenciados para, por exemplo, quem só dispõe de um imóvel, utilizado como moradia. Não é justo que algúem tenha de sair de onde sempre morou, simplesmente porque a área se valorizou e o governo, com sua garganta sem fim, quer um naco dessa valorização.
    Agora mesmo, com a disputa dos royalties, o do guardanapo só fala que “não vai ter dinheiro para olimpíadas, para copa” como se o povo vivesse disso. A preocupação deveria ser com o bem-estar da população e não com esses eventos, que serão enormes sorvedouros do dinheiro público e meio fácil e ilícito de enriquecimento para alguns. Tudo tão triste, dá até um desânimo na gente ;-(

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