Horror em Manhattan

Uma jovem mãe leva a filhinha de três anos a uma aula de natação. Quando volta para casa, encontra os outros dois filhos, de seis e dois anos, mortos a facadas. Ao lado das crianças, no banheiro, a babá tenta o suicídio, esfaqueando-se na garganta. A mãe entra em choque. Seus gritos chamam a atenção dos vizinhos, que ligam para a polícia. A babá é transferida ainda com vida para um hospital. A mãe e a criancinha que sobrou são levadas a um segundo hospital, onde, horas depois, se reencontram com o marido e pai, que estava em viagem de negócios.

Uma notícia de crime, como tantas notícias de crime. Raro é o dia em que não ficamos sabendo de casos igualmente horrendos, em que pais matam os filhos, filhos matam os pais, estranhos matam famílias inteiras. Eu já devia estar acostumada. Mas poucas notícias me abalaram tanto quanto a deste crime em Nova York.

Tomei conhecimento do caso assim que foi publicado pelo New York Times. O choque foi instantâneo. Fui assaltada por uma onda de horror tão intensa que se transformou num sentimento físico. Corri para os foruns da internet, onde tanta gente manifestava a mesma sensação: lágrimas, aperto no coração, uma angústia sem fim ao pensar naquela mãe, naquela pobre criança sobrevivente, naquela família.

Li o blog em que Marina Krim descrevia o dia-a-dia dos filhos. Um blog normal, típico diário de boa mãe apaixonada. Fotos das crianças. Pequenos vídeos. Notícias do cachorro, que se machucou. Material sem qualquer interesse para pessoas de fora da família, que ganhou uma dimensão metafísica com a tragédia. Observei que a mãe, que tinha boa ortografia, errava consistentemente a grafia de “nightmare”, pesadelo; me senti culpada por prestar atenção nisso, vi coincidências sinistras entre palavra e realidade, fiz uma xícara de chá para arrumar as idéias. Leo, o menininho assassinado, gostava de brincar de morto. Havia duas fotos dele espichado no chão, quando a brincadeira era só uma gracinha.

Ao começar a leitura, cerca de 150 pessoas já tinham escrito mensagens de condolências. Ao sair, talvez meia hora depois, eram mais de 500, de todas as partes do mundo, manifestando-se às vezes de forma extremamente comoventes. Aí também já apareciam os primeiros trolls, escória da humanidade, com suas mensagens nojentas. O blog saiu do ar ao amanhecer.

Enquanto olhava as fotos, eu sentia a incomoda sensação de que não devia estar vendo aquelas imagens, de que estava mexendo em segredos de família agora sagrados: que direito tinha eu de fuçar as vidinhas das crianças mortas? Levei algum tempo para descobrir que, como tantas outras pessoas que chegaram ao blog, eu também procurava uma pista  que levasse à explicação do que ocorrera. Mas isso foi bem depois. Naquele momento, sob o impacto da notícia, eu apenas absorvia informações e tentava administrar a minha perplexidade. A maldade em estado puro é impossível de aceitar; a loucura é tenebrosa e tão incompreensível quanto o infinito.

o O o

Alguns dias antes, na Inglaterra, um pai matou os dois filhos e se suicidou em seguida. Não admitia a separação da mulher. Um caso chocante, mas quase banal de tão comum. Não me lembro de ter dado à notícia maior atenção. O mesmo aconteceu com a imprensa em geral que, fora da Inglaterra, só registrou o crime por ter acontecido depois que a mãe dos meninos trocou de status no Facebook, o que ainda é uma relativa novidade social.

O fato é que, por terrível que seja este crime, conseguimos montar para ele uma sequência de acontecimentos: “O marido era ciumento, a mulher arranjou outro e, por causa disso, ele matou as crianças e se matou”. Quando conseguimos fazer isso, estamos de alguma forma salvos, porque conseguimos compreender o que aconteceu.

O que dá aos assassinatos de Nova York  seu caráter particularmente angustiante é que, além de escapar à compreensão, ele nos lembra que, ao contrário do que gostamos de imaginar, não temos real controle sobre nosso destino. Leo e Lulu tinham  pais amorosos e vidas privilegiadas. Viviam num dos melhores bairros de uma das melhores cidades do mundo. Tinham, em suma, o máximo de segurança que se pode ter — e, ainda assim, tiveram um fim trágico.

Não havia nada que seus pais pudessem ter feito, em qualquer momento, que pudesse ter evitado isso. Na internet, pessoas aflitas se questionavam a respeito de uma possível falha na checagem dos dados da babá. Inútil precaução. Ela havia sido recomendada por amigos,  não tinha antecedentes criminais, parecia gostar do trabalho. Não há nada que possa vir a dizer, quando e se recobrar a razão, que possa explicar o que fez. Não havia tomado drogas, não tinha um caso com o patrão, não matou as crianças durante um sequestro mal resolvido.

Não há nada que possa ser reconhecido e decodificado pelo nosso saber ou nosso sentimento. Nada, em suma, que nos dê o alívio de imaginar que isso nunca poderia acontecer conosco.

(O Globo, Segundo Caderno, 1.11.2012)

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32 respostas em “Horror em Manhattan

  1. Cora,

    a babá é tão vítima quanto as crianças.

    Um dia antes do crime o pai das crianças, Kevin Krim, vice presidente da CNBC, peitou os banqueiros e membros da elite política dos EUA, acusados de uma lavagem de dinheiro de 43 trilhões de dólares. Krim permitiu que seus editores publicassem o artigo abaixo, extraído de um release da PR Newswire, que esclarecia o envolvimento de membros do governo e do mercado financeiro nesse crime financeiro sem precedentes, mas que passou invisível aos olhos do cidadão médio americano, até a CNBC quebrar o media blackout sobre o assunto.

    Segue o link com o texto que a CNBC usou como base para o artigo:

    http://pt.scribd.com/doc/111316579/Major-Banks-Governmental-Officials-and-Their-Comrade-Capitalists-Targets-of-Spire-Law-Group-LLP-s-Racketeering-and-Money-Laundering-Lawsuit-Seeking

    No dia seguinte ao crime, o artigo foi deletado do site e dos servidores da CNBC. Ninguém mais toca no assunto. Ninguém raciocina que a babá teria matado as crianças de forma mais eficiente as envenenando. Duvido muito que ela sobreviva para contar a sua versão da história.

    A família foi destruída como aviso. No dia seguinte, a CNBC matou as crianças outra vez, ao remover a postagem sobre o escândalo.

    Por aqui, a história sequer fez marola entre os coleguinhas. O crime cumpriu sua dupla função: assombrou a família e a de outros jornalistas que buscam a verdade e desviou a atenção dos verdadeiros assassinos.

    Em alguns dias, esse assassinato cairá no esquecimento, assim como a história que o provocou.
    Em semana de psy-ops sendo reveladas, como o false flag de Obama em Benghazi (o susposto video anti-islã era uma farsa – não existiu o protesto que todos os nossos coleguinhas publicaram, comentaram e postularam a respeito), talvez fosse o momento dos coleguinhas colocarem alguma luz sobre esse assunto.

  2. Cora, interessante esse post, porque comigo foi como você. Casos horrendos a gente vê toda hora no noticiario, mas este também me marcou de modo especial (tal como o caso de canibalismo em Pernambuco, não há nem o que se dizer… não há palavras, parece ficção, não dá pra acreditar que aconteceu de verdade). Acho que na verdade, só pode ter alguma peça faltando nesse quebra-cabeça. Não podemos avaliar a dinâmica familiar apenas pelo que Marina publicava no blog, saber o comportamento da babá, se ela realmente nunca apresentou nenhum sinal de “estranheza” que a família falhou em perceber… enfim, muitas coisas. Em último caso, há quem diga algo que pode proceder: investigações ainda são necessárias! Não se tem certeza ainda se realmente foi a babá quem matou as crianças… tudo é possível! Pode ter havido alguma pessoa estranha na casa, sabe-se lá o que… Só nos resta mesmo rezar e manter sempre as boas sintonias para tentar manter tais coisas longe de nós.

  3. A maldade humana não tem limites e é disparada por diversos motivos, alguns justificáveis, outros inexplicáveis, mas é assim em qualquer lugar, em qualquer país. Quem já trabalhou na polícia de qualquer lugar do mundo sabe disso.
    O choque de uma notícia assim abala mais as pessoas que a vida poupou de conhecer o “lado B” do ser humano.

  4. Matar por matar as crias dos outros…O retrocesso parece evidente, até por inexplicável. Talvez os shrinks tenham respostas, mas eu não tenho essa ilusão.

  5. A história contada em seguida do pai que mata os filhos fica estranhamente leve perto desta. Concordo que o inexplicável torna mais assombrosa a história. Talvez a noção de “surto”, como disse alguém por aqui, seja o mais próximo que possamos chegar de uma explicação. Mas continuamos no escuro. Só a loucura pode isentar, por pouco que seja, o episódio de sua carga de maldade.

  6. Com todo os respeito às vítimas dos EUA, mas ninguém fala no estrago que este furacão Sandy fez em CUBA. Só casa foram 180 mil destruidas. E o país não tem a grana e a logística que os americanos tem.

    • Richard: Lamento muitíssimo pelas pessoas tão duramente atingidas em Cuba. Sigo a Yoani Sanchez no twitter e é através de seus posts que me apercebo de toda a extensão dos problemas.
      Mas…porque o governo de Cuba não se abre e faz,ou pelo menos deixa fazer, pedidos de ajuda? Ninguém liga para situação de Cuba, porque não se encontram por todo o lado, mas principalmente na Net, muitas fotos e relatos
      dramáticos que, em ultima análise, atrairiam o apoio e doação.

  7. Não gosto de ler esse tipo de crônica, não acrescenta nada, acho que fica um mal estar muito grande. Maria Amélia

  8. “A Nightmare on Elm Street”(A Hora do Pesadelo,em português)Freddy Krueger… que também gostava de esfaquear pessoas inocentes,só que nesse caso,não foi uma ficção de filme de terror,foi,isso sim,
    um filme real de extremo horror,”A Nightmare in New York” …
    sem palavras …

  9. Cora, é o inimaginável, o indizível. O incômodo de saber que o Mal simplesmente existe e que como não podemos prever, não há controle possível contra ele. Rezemos para que essa família consiga algum dia ter PAZ.

  10. Não há nada que possa ser reconhecido e decodificado pelo nosso saber ou nosso sentimento. Nada, em suma, que nos dê o alívio de imaginar que isso nunca poderia acontecer conosco.
    Cora Rónai

  11. A babá não é americana – ela é da República Dominicana. E recentemente a família havia viajado de férias com a babá para seu país de origem para conhecer sua família.

  12. Pra mim, a única palavra que dá sentido ao que não tem nenhum é SURTO.

    E eu fico refletindo sem parar em duas coisas:
    O trauma (assassinato), que interrompe todos os outros sofrimentos que teriam as crianças caso vivessem uma vida longa e normal, e aquele ao qual estão condenados pra sempre enquanto viverem, as pessoas relacionadas a eles.
    O cessar de tudo pra quem morre é um alívio. Viver nunca foi para os fracos.

    😥

  13. Toda história é tão absurda que confunde o racional só em ler.
    Que simbolismo macabro pode existir aí: “nightmare” e Leo brincando de morto?
    Causa horror e tristeza, além de uma insegurança bem fora da normalidade.

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