A festa de Paris

Detesto horário de verão. Detesto quando começa e, alguns meses depois, detesto quando acaba. Fico fora de esquadro, perdida com a luz que não combina com as horas que o relógio marca. Fico de mau humor. Perco o estímulo para fazer o que quer que seja. A primeira segunda-feira logo depois do início do horário de verão, então, é sempre um dia cruel.

Não foi diferente dessa vez. Me enrolei toda com as várias coisas que tinha para fazer na rua, cheguei tarde em casa, aquele calor, aquela má-vontade, aquela vontade má de me espichar na rede e não fazer mais nada, daqui não saio — mas ia perder a oportunidade de ir à exposição dos impressionistas no CCBB, a famosa exposição que teve filas de quatro horas em São Paulo? Por outro lado, quantas vezes já não vi os mesmos quadros no Museu d’Orsay?

Tomei um café bem quente, lavei a cara com uma água bem fria e tomei a difícil decisão de sair de novo. Os gatos me olharam com o ar desconsolado que fazem sempre que me arrumo. Coitados, foram todos abandonados nas ruas, sofreram sabe-se lá que horrores; é normal que achem o mundo um lugar perigosíssimo, onde não se deve jamais por pé ou pata. Muitas vezes lhes dou razão. Em suma: fui para a cidade pensando se não teria sido melhor ficar em casa. Às vezes cometemos esses erros de avaliação.

O fato é que a exposição é das mais bonitas que já vi, exemplo perfeito do que fazem uma boa curadoria e uma boa ambientação. Tem quadros magníficos, é lógico, que são a sua alma e razão de ser. Mas os textos que os acompanham são ótimos e a apresentação sobre o Museu d’Orsay e sua cronologia, espécie de prefácio do que vamos ver, muito competentes. Valem, sozinhos, uma aula: assim se faz uma exposição.

O primeiro andar, onde estão as 85 obras que vieram para o Brasil, ganhou ares e cores do Museu d’Orsay. Fiquei com a impressão de que até aquele banco que se põe no meio das salas era igual aos que vi em Paris, mas não pude tirar a dúvida por uma razão cretina: como a mostra está no Banco do Brasil, não encontrei forma de fazer o Google entender que o que eu estava procurando era outra espécie de banco.

Quanto a já ter visto os quadros anteriormente, a verdade é que cada vez que os vemos eles são outros. A história que contam muda também, de acordo com a forma como são expostos. Além disso, o fato de estarem em menor número do que no museu faz com que se preste mais atenção a cada um, o que é — a gente acaba aprendendo — a melhor forma de apreciar a arte.

(Hoje, ao contrário do que fazia quando achava que podia dar conta de tudo, vou a museus para ver duas ou três alas, e só. Olho para os grupos que passam zunindo de uma sala a outra com a mesma cara de “não façam isso!” com que os gatos me olham quando saio de casa.)

Os quadros da exposição do CCBB falam bem mais de uma cidade do que de um movimento artístico. Afinal, essa é uma exposição sobre Paris, que por acaso se conta através do impressionismo. Mais um motivo para vê-la, já que, de volta ao lar, os quadros voltarão aos seus lugares habituais e perderão este enredo.

Só saí quando me puseram para fora. Se fosse invisível, teria ficado lá a noite toda, namorando  a mostra — que é, além de tudo, uma massagem no ego carioca. A nossa cidade merece essas obras e o cuidado com que estão sendo apresentadas.

Meu conselho: esqueçam o horário de verão, a novela, o jantar. Façam o que for necessário, enfrentem fila ou chuva, mas não deixem de ir ao CCBB.

o O o

E, por falar em Paris, não resisti e comprei um daqueles livros não-livros que, normalmente, só compramos para dar aos outros. Chama-se “Paris, a história de uma grande cidade”, é de autoria de Danielle Chadych e Dominique Leborgne e foi editado pela Ediouro, embora, estranhamente, essa informação não conste da capa. É um livrão, daqueles que os angloparlantes chamam de coffee table book; é muito bem impresso, tem uma capa macia que dá vontade de morder, belas ilustrações, envelopes com facsímiles de gravuras e de documentos desnecessários mas divertidos de manusear, e um texto correto e informativo, sem maiores pretensões — mas num objeto desses, o texto é quase sempre o de menos. Faz mesmo um grande presente.

o O o

O FIM do Livro (Fim de semana do livro no porto), realizado pela primeira vez no Morro da Conceição, foi uma simpatia. O passado, o presente e o futuro dos livros foram discutidos em bate-papos descontraídos com jornalistas, professores e escritores no novíssimo centro cultural, que tem ares de botequim. Teve feirinha cultural, teve música e arte; teve um vaivém de gente que subia e descia ladeira, ia até o Imaculada comer uma coisinha entre uma sessão e outra, tirava foto da vista e visitava os ateliês abertos ao público. O que mais se comentava era como o pequeno festival lembrava os primórdios da Flip. Que o FIM tenha vida longa — mas não cresça muito.

(O Globo, Segundo Caderno, 25.10.2012) 

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9 respostas em “A festa de Paris

  1. Pingback: Impressionismo: Paris e a Modernidade « Blog da Serra

  2. veja só Cora, vc fala da exposição e não é que eu fui aqui em São Paulo? vc fala em Paris e vc acredita que eu fui o mês passado para a Europa? Visitei Budapeste, ( e lembrei do seu pai e os meninos da rua Paulo) Viena, Praga e Paris…. e fico tão, mais tão contente, tão feliz quando eu leio as suas crônicas e sei enfim do que vc está falando… quero compartilhar essa alegria com vc, que foi a responsável indireta pelas minhas viagens…. bjs.

  3. Cara “Tia Cora” a muito não venho aqui.
    Fiquei tentando quando um comentário sobre sua coluna de semana passada em outro blog, sobre livros. Sobre o desapego, do blog versus sua necessidade e a de muitos leitores de possuir livros. Mas o que me trás aqui, é além de dizer da minha grande admiração e revelar que não perco uma coluna sua. É perguntar se não há um livro como o sitado na coluna de hoje sobre Berlin. Pois apesar de Paris ser a cidade dos meus sonhos, Pois, quem nunca foi é quem mais sonha com a amada cidade. Tanto que quando saí da sessão do filme de Wood Allen sobre Paris, saí do Largo do Machado e fui andando até a Lapa de tanto deslumbramento. Como existe uma pessoa importante para mim, que sonha com Berlin, pensei em presente-a com um livro semelhante caso existisse.
    Desde já agradeço sua atenção.
    Abrç…

  4. Somos gêmeas, acho o mesminho desse horário maledetto, fico péssima também. Quanto à exposição, está marcada, claro e nunca consegui ver em Paris por conta das filas, que eu tampouco frequento. beijos, vera

  5. “If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life it stays with you, for Paris is a moveable feast” -Ernest Hemingway . Quando lá estive pela primeira vez, fiz questão de tomar um café, no mesmo da preferência do autor. Todos os livros que li e os professores exigentes que tive, além da atmosfera que a literatura sempre reproduziu, estavam bem ali, ao meu redor. Foi sensacional!
    Bom, pra quem não foi à Paris, a chance é essa! Pra quem já foi, vale “retornar”, e reviver, ainda que em pequenos flashes, direto dos salões do CCBB, a grande arte dos impressionistas! Já me programei! Lindo post, Cora!

  6. ei Cora!
    vi em seu twitter ou no face as fotos dos cachorros debaixo d’ água e adorei! Então fui atrás e achei o vídeo…olha que legal!

    adorei a crônica de hoje e todas as outras….estou com saudades de vc e de toda a turma…tomara que em breve a gente possa se encontrar!
    Ah! Agora estou morando em BH…affe! esta vida de caixeiro viajante não é mole!
    beijos
    Luciana Pordeus

    • Adorei seu vídeo, Luciana!
      Você está seguindo os passos do meu filho??? Do Rio ele se mudou para Brasília, depois voltou para cá, mas ficou pouco e agora (há uns dez anos) mudou de vez para BH. Já “virou” mineiro e até casou com uma mineira muito bacana.

  7. Infelizmente meus joelhos nao mais me permitem circular por uma mostra dessas……. Ficam minhas lembrancas de Paris e das vezes em que fui o Orsay passear por la, e comer super bem nos resturantes la dentro, tambem…. Adorei saber deste livro….. Vou dar uma olhada……..

    Ah odeio o horario de verao!!!!!!! me arrebenta o dia… Parece ridiculo . mas essa hora me estraga o dia…..

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