Livro do começo ao fim

No feriado que passou, fiz uma coisa absolutamente inédita para mim: fui falar sobre livros no CCBB, tendo como companheiros de mesa os poetas Antonio Carlos Secchin e Eucanãa Ferraz. “Como assim, inédita?” perguntará aquele leitor ali do canto, o da memória excepcional. “Você já falou em não sei quantas bienais, e já escreveu incontáveis vezes sobre a experiência!” É verdade. Mas nem todo mundo que participa de debates em bienais do livro fala, necessariamente, de livros. Eu sou prova disso. Sempre que sou convidada, me pedem para falar sobre a emergência de kindles, ipads e toda a sorte de tablets, e sobre os dias contados do objeto em papel. Em suma, sobre o fim do livro. Eu entendo: chamam a colunista de tecnologia, que em tese só fala de coisas com circuito integrado ou no mínimo tomada.

Dessa vez, porém, a professora Clarisse Fukelman, curadora do festival literário que comemorou a reabertura da biblioteca do CCBB, lembrou-se de chamar a colunista do Segundo Caderno. Minha participação não estava ligada a nenhum dos gadgets que me circundam; eu só precisaria falar dos livros com que cresci. Fiquei radiante! Vou fazer outra confissão: adoro quando alguém diz que viu um gato ou uma capivara e se lembrou de mim. Vocês não imaginam a alegria que sinto ao ser associada aos bichos de que mais gosto. Pois acabo de descobrir uma alegria igual: ser associada aos livros. Não é que a Clarisse pensou em livros e se lembrou de mim? Baita elogio… 🙂

Gosto de saber das pessoas quais foram os livros que as influenciaram e que as fizeram ser como são, mas não consigo retribuir o favor. Nasci praticamente dentro de uma biblioteca, e aprendi a gostar de livros antes mesmo de aprender a ler. Os livros sempre fizeram parte da minha vida. Considero missão impossível destacar um ou outro.

Quase todas as paredes da sala do nosso apartamento no Bairro Peixoto eram cobertas pelas estantes com os livros do meu Pai. Minha Mãe, que também gosta de livro mas é arquiteta, e sempre sonhou com uma casa bem arrumada, ficava desesperada, e vivia inventando novas estantes para acomodar os livros que não paravam de chegar. A minha idéia de aconchego é um ambiente repleto de livros que não respeitam os espaços físicos que lhes foram destinados, espalhando-se por sofás, mesas e quaisquer outras superfícies horizontais, chão inclusive.

Quando eu ia às festas das minhas colegas de escola, estranhava as casas que não tinham livros. Algumas eram enormes, muito mais imponentes que a nossa, mas às vezes faltava-lhes o elemento essencial à denominação de lar. Coleções como o “Tesouro da juventude” não contavam. Eu precisava (e ainda preciso) de livros pessoais, individualmente adquiridos, para saber com quem estou falando. Preciso de estantes descabeladas.

o O o

As pessoas que gostam de livros têm um superpoder especial. Elas sabem descobrir espaços para estantes onde o resto da humanidade não vê nada. É que os livros se multiplicam muito mais do que as estantes, e sempre sobram pela casa.

Eles são como gatos. A diferença é que podemos (e devemos) castrar os gatos, ao passo que, num regime democrático, ainda não inventaram uma forma eficaz de castração de livros.

O leitor de livros digitais é a primeira tentativa que funciona. Pode-se aumentar à vontade o número de narrativas que ele contém, que ele ocupa sempre o mesmo espaço.

Para quem só está interessado em ler, esta é uma grande vantagem. A questão é que boa parte dos amantes de livros não quer apenas ler;  quer também possuir e colecionar os objetos que contém as histórias. O livro não é só o que o autor escreveu. É o papel em que vem impresso, a tipologia, a mancha gráfica, a capa, o volume em si, a pegada, o cheiro.

Faço parte do time que, além de ler, aprecia o objeto. Não raro tenho dois exemplares do mesmo livro, o que li e o que, depois, me ganhou pela edição caprichada. Nem sempre posso me desfazer do primeiro exemplar porque, às vezes, ele tem valor sentimental ou histórico.

Agora mesmo, durante a mesa redonda do CCBB, descobri com meus colegas de papo que a “Apresentação da poesia brasileira”, de Manuel Bandeira, foi reeditada pela Cosacnaify em 2009. Não sei como não fiquei sabendo disso, mas vou correr atrás. Não conheço nenhuma antologia de poesia, brasileira ou não, que seja tão bem feita. O meu surradíssimo exemplar, uma edição da Ediouro que tenho desde menina e que está literalmente se desmanchando, tem dedicatória do autor. Parece lixo, mas é um rico tesouro.

o O o

Este domingo vou falar no “FIM do livro”, ao meio-dia.  Não é tão grave quanto parece: é o “fim de semana do livro”, no Morro da Conceição. O FIM promete ser uma ótima festa celebrando a cultura carioca, com boa prosa e toda uma programação paralela. Confiram em fimdolivro.com.br — e, se puderem, apareçam!

(O Globo, Segundo Caderno, 18.10.2012)

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21 respostas em “Livro do começo ao fim

  1. no universo dos ebooks tenho achado coisas muito legais, que não sei se conseguiria no mundo do papel. um exemplo é este aqui, que encontrei na amazon gratuitamente, e depois vi que era do projeto gutenberg. não sei se você conhece, se não, acho que vai adorar:
    http://www.gutenberg.org/ebooks/20508
    []’s

  2. tenho todos os meus livros velhos, lidos e (alguns) relidos, em estantes desarrumadas; estes livros não vendo e não dou, empresto sob algumas condições. mas confesso que me rendi ao kindle, que me fez voltar a ler como antigamente. inclusive suas crônicas só leio (e armazeno) nele, e depois venho aqui comentar.

    []’s

  3. Cora,
    Quando ainda morava com meus pais, minha maior frustração era ver meus livros empilhados e desorganizados nas poucas prateleiras que eu tinha para guardá-los. Leitora voraz que sou, a coleção aumentava ano após ano, e eles ficavam cada vez mais maltratados.

    Por ocasião da compra do meu apartamento, a prioridade no projeto dos móveis eram as novas prateleiras – finalmente eles teriam o tratamento que mereciam!

    Foi maravilhoso ir tirando um a um das caixas de mudança, recordando das histórias e ensinamentos que eles continham. E depois de todos arrumados, me rendi à pieguice de ficar emocionada ao vê-los ali, exibindo as lombadas coloridas, organizadas por assunto e tamanho, como eu sempre sonhara.

    Compartilho com você essa paixão pelo livro, e amante que sou do cheiro e da textura do papel, acho que nunca vou me render ao livro eletrônico. Um amor de anos não se trai assim tão facilmente…

  4. Lindíssima Crônica, Corinha! Com uma frase antológica: “Eles são como gatos. A diferença é que podemos (e devemos) castrar os gatos, ao passo que, num regime democrático, ainda não inventaram uma forma eficaz de castração de livros.”

    Para mim tb: ‘casa de Gente’ tem Estante de Livros.

    • Concordo com tudo o que vc escreveu, Tom. E com a crônica da Cora tb.Tudo a ver comigo, com a minha vida.

  5. Adorei o texto, Cora. Também sou fã incurável dos livros tradicionais, muito embora o iPad me quebre bons galhos em situações variadas. Lembro de Umberto Ecco, que, defendendo os livros tradicionais frente aos digitais, disse que o livro é um objeto perfeito, acabado, assim como a colher: não há como fazer uma colher melhor do que uma colher, não há como aperfeiçoar; o mesmo acontecendo com os livros. São objetos definitivos. Assino embaixo!… A propósito, meus livros favoritos creio serem os de Lygia Fagundes Telles. Adoro Ciranda de Pedra, e também gosto muito dos contos dela.

  6. Livros, livros a mão cheias! (quem foi mesmo que disse essa frase?) Não sei, mas tenho tantos livros que a estante comprada há 2 anos já não tem mais espaço. Pior: ela fica no meu quarto.
    De vez em quando distribuo alguns, mas sou um tanto egoísta com livros, gosto de tê-los a mão pra reler quando quiser, ou pra consultar se for preciso.

    Esta semana pela primeira vez consegui ler um livro de 160 páginas pela tela do computador. Foi interessante, mas ainda prefiro o livro físico. Levo pra qualquer lugar, a bateria (do livro) não acaba nunca, pode molhar que não perco o conteúdo (basta secar em seguida), se for perdido ou roubado o prejuízo material é, via de regra, pequeno. Sem falar no prazer tátil e olfativo de um livro. Traduzindo: vou continuar lendo livros de papel, mas, agora também lerei os livros em tela. Provavelmente minha estante profissional crescerá em velocidade menor que a de lazer, já que vou reservar os e-books pra parte de estudos (pois isso me proporcionará ter a biblioteca a mão em qualquer lugar onde esteja trabalhando).

  7. Espaço físico é coisa complicada, Não sei o que fazer dos livros, para além de doá-los. Na minha pequena estante não há mais espaço e as portas dos armários sob ela não podem ser abertos sem alguma expectativa de uma súbita avalanche! Talvez retorne à terrinha todos os que lá comprei, como “Conspiração” (Doomsday Conspiracy) de Dan Brown, que estou agora lendo. Descartar é coisa fácil, se for um “Fifty Shades of Grey”, que li durante esta ultima viagem e do qual fiquei com a impressão de se tratar do mais broxante texto erótico a que já tive acesso na vida.
    Parabéns pela crônica, Cora!
    Bj

  8. Eucanãa é gente fina, colega na UFRJ. By the way, tenho um amigo, Silvio, que lê muito e lê em n idiomas – inteligente, formado no IME – e ele simplesmente tem uns 3 livros em casa. Em TODAS as reuniões, ele DOA os livros que já leu. Tem uma regra simples: Não vai ler de novo mesmo, logo passa para a frente !

      • amei a crônica sobre livros… e saber que outros também vivem o dilema ‘desfazer de livros por falta de espaço’. Descobri na PUC-Rio uma economista que criou um projeto muito legal, Sebo Solidário Celpi (http://sebosolidariocelpi.blogspot.com.br/.html) – recebem doações, vendem e arrecadam verba para um projeto no morro Santa Martha.O ‘problema’ é que através do projeto acabo comprando outros livros irresistíveis…e a superlotação continua, mesmo com as doações que faço…

  9. Que crônica maravilhosa! Adorei.
    Ah! e eu me achava “preconceituosa” com relação às casas que não tem livros ou só aquelas enciclopédias boniiiiitas enfeitando a estante…
    As minhas estantes nunca conseguiram ficar arrumadas… os livros vivem mudando de lugar… e muitas vezes preciso praticar o desapego para arrumar mais espaço, mas tem aqueles que não saem de casa de jeito nenhum, São relíquias!
    Cora, falando em capivara… que saudades … e meu filho (o que mora em Belo-Horizonte) foi passar suas férias no Pantanal. Quando ele viu uma capivara esculpida em madeira, ele se lembrou de mim e a trouxe… AMEI… é muito parecida, se não for igual à sua, que você tem na sua sala… Quando ele me deu, eu disse para ele que você tem uma igual… linda…linda…linda!

  10. faço do saudoso Emmanuel Vão Gôgo o mais belo comentário: “Mesmo os sujeitos que não colecionam livros, colecionam livros, eis a glória que Gutemberg retém indiscutível …
    …. Oh, mon beau pernaud! ,in Tempo e Contratempo, O Cruzeiro edições. Está na minha cabeçeira e nunca deixo de gargalhar. Na veia : o bruxo Machado, o encanto de Rosinha e a inteligência do Millôr. Continuam escrevendo no céu e trocando os rascunhos. Deverá ser um paraíso.

  11. Com essa crônica, excelente, voltei á minha infância e juventude. No fim da década de 1970 (já adulta), ia muito à Atibaia. Lá, conheci um senhor italiano, livreiro, que saiu de Sampa para cuidar de sua saúde, pois precisava de ar mais puro. Quase todos os fins de semana eu ia garimpar livros. Qual não foi a minha surpresa quando vi na estante, meio escondido, o Alma Cabocla, de Paulo Setúbal (sim, o pai de Olavo, ex-prefeito de Sampa e dono de banco), lançado em 1920. A edição que comprei, brochura com capa rearranjada – era de 1924, portanto, “novinha”. Fiquei numa alegria imensa pela raridade da obra. Outra distração minha era garimpar LPs – coisa também deliciosa.
    Falando em LP, para quem se interessar, vou dar duas dicas: 1) – Deve-se lavar o disco com água e sabão sem molhar o selo, e enxugá-lo com um pano muito macio, em círculos, acompanhando os sulcos. 2) – Se o LP tem muito chiado, e se quisermos ouvi-lo ou gravar para transformá-lo em CD, mp3 ou quetais, além de lavá-lo, devemos tocá-lo molhado mesmo, pois aí ele funciona direitinho, sem ruídos ou “puladas”. Só que tem um pormenor: esse processo estraga a agulha da vitrola. Mas o som sai muito bom. Já utilizei essa tática e funciona, mesmo.
    Bem “falei” muito, mas ambos – livros e discos – são minhas paixões.

  12. Lindo texto, Cora.
    E ri muito com a sua comparação de livros e gatos. Verdade. Proliferam e não param quietos nas estantes.
    São como as folhas das árvores, esparramadas pelo gramado: o fator que impossibilita a perfeita arrumação do jardim. Felizmente.

  13. ” A minha idéia de aconchego é um ambiente repleto de livros que não respeitam os espaços físicos que lhes foram destinados, espalhando-se por sofás, mesas e quaisquer outras superfícies horizontais, chão inclusive.”
    Meu pai era médico e muito amigo do Sobral Pinto e a casa dele era assim…

  14. Cora:
    Paixão que compartilho contigo. Somos adictos, viciados amantes em livros, abdicando a cura. Perfeito seu texto!
    Mauro Moraes

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