José Maurício Machline, um guerreiro incansável na defesa da MPB

Corria o ano de 2009 e a agenda do Prêmio da Música Brasileira estava praticamente fechada quando a empresa patrocinadora passou por uma reviravolta interna. Cabeças rolaram, outras atravessaram continentes e, na tsunami, o prêmio certamente teria dançado se, de repente, toda a classe artística não se unisse em torno do organizador para garantir a realização da festa. Não foi uma simples ação entre amigos. Verdadeiras entidades como Fernanda Montenegro e Maria Bethânia ofereceram as suas participações. Músicos, técnicos, fornecedores — todos contribuíram, graciosamente, para que o prêmio, que naquele ano completava duas décadas de existência, não virasse uma página do passado.

Isso só foi possível porque, à frente dele, estava — e ainda está — o aguerrido José Maurício Machline, o Zé Maurício, produtor, apresentador de TV e cantor, tido por todos como um dos mais incansáveis batalhadores da MPB.

— Ele não precisava estar envolvido de tal maneira com tudo isso, — observa o amigo Ney Matogrosso. — O Zé Maurício é uma pessoa de posses, bem sucedida. Podia estar de papo pro ar. Em vez disso, luta com unhas e dentes pela música brasileira. Eu admiro muito essa paixão, esse amor enorme que ele tem. Ele ouve música constantemente, pensa música, respira música.

Tudo começou com a amizade entre o jovem Zé Maurício e o economista Mário Henrique Simonsen, importante personagem da vida cultural e política do país. Simonsen, fascinado por música, sobretudo ópera, incentivava o interesse do rapaz.

— Quando ele vinha lá em casa sempre me mostrava alguma coisa nova, uma diferença entre as vozes, um sotaque, uma ária, um novo solista — relembra Zé Maurício. — Eu, que sempre gostei muito de música, ficava encantado. Como tantas outras pessoas, eu também posso dizer que aprendi muita coisa sobre a vida com o Simonsen, mas por um lado inusitado, quase às avessas daquele que ele habitualmente ensinava. Uma vez fomos juntos para Nova York. Era a época do Grammy, e estranhei como o Brasil, que naquela época era o quarto ou quinto mercado mundial de música, não tivesse nada parecido. “Está se queixando do quê?” perguntou o Simonsen. “Se não tem, vamos fazer!”.

E assim foi. Quando voltaram ao Brasil, puseram mãos à obra. Chamaram nomes importantes da cena artística e formadores de opinião para o conselho, definiram os contornos do projeto e o encaminharam à Sharp do Brasil, fundada pelo pai de Zé Maurício, onde ele mesmo trabalhava como diretor de marketing. O projeto — ora, que surpresa! — foi aceito. Zé Maurício garante que, na Sharp, pensou na idéia estritamente em termos de marketing; a gente finge que acredita. De qualquer maneira, o fato é que o tempo lhe dá razão. Durante 12 anos, o prêmio foi patrocinado pela Sharp; foi Tim durante cinco anos e, desde 2010, é patrocinado pela Vale. No ano que vem, em sua 24 edição, mais robusto do que nunca, com o show sendo levado a várias cidades brasileiras, homenagerá Tom Jobim.

— Hoje, este é o prêmio mais importante da música brasileira, — atesta o produtor João Mário. — Com patrocínio, sem patrocínio, é sempre um marco da MPB.

João Bosco, o homenageado do ano passado, concorda.  E destaca a sua pluralidade como um grande trunfo:

— Graças ao Zé Maurício, que é um produtor cultural militante, o prêmio  apresenta toda a diversidade da nossa música. Todos os estilos fazem parte da premiação, todos são prestigiados. Para não falar no estímulo que ele representa para os jovens artistas, que acabam de gravar pela primeira vez e que se sentem ouvidos e apreciados. Este é um prêmio que ilumina a todos nós.

o O o

Casado há oito anos com Christiana, pai de Giulia, Giovana e Luiza, gaúcho mais carioca do que muitos cariocas, Zé Maurício, 55 anos, trabalha de bermuda e sandália num escritório construído atrás de casa, numa rua tranquila do Jardim Botânico. Pelas estantes, além de CDs, há simpáticas estatuazinhas de músicos. A verdadeira coleção, porém, fica na casa, lá embaixo, onde estão mais de 15 mil CDs e DVDs, todos etiquetados e catalogados. Pudera não: seu proprietário é absolutamente metódico. Todas as suas roupas e objetos andam na linha.

Os relógios, por exemplo. Zé Maurício tem mais relógios do que se permite confessar. São muitos, de todos os tipos, de grandes complicações a modelitos de plástico, comprados nas viagens ao exterior. Só não são incontáveis porque cada um tem seu número — e é usado de acordo com ele. Como diria Shakespeare, há um método nessa loucura. É que, como todos precisam funcionar direito, a forma mais simples de garantir que estejam em ordem é o rodízio. Assim como os CDs, os relógios também estão catalogados. Nesse banco de dados, contudo, há um detalhe curioso: ao lado de cada um deles, está registrado um nome.

— Quando eu morrer, cada um dos meus amigos, e das pessoas que eu admiro, vai ganhar um relógio, — explica Zé Maurício, revelando, sem querer, um outro aspecto marcante da sua personalidade.

— Ele é um grande amigo dos amigos, — diz a roteirista Maria Adelaide Amaral. — É um homem de grande fidelidade, uma pessoa de absoluta confiança.

Enquanto conversamos, duas cadelinhas entram sem cerimônia escritório adentro. São Vodka e Mentira, uma corgi que recebeu esse nome porque, como é característico da raça, tem as perninhas curtas. Elas fazem festa para a gente, ganham carinho e voltam para o jardim. Outros quinze cães fazem parte da vida da família, divididos entre a casa do Rio e a de Angra. Eles vão e vêm indistintamente entre as duas residências, para que todos possam ter bastante convívio com seus humanos. Eles são, também, outra pista para a amável personalidade do dono da casa: Zé Maurício ama animais e, durante muitos e muitos anos, participou ativamente do Kennel Club. Foi juiz em exposições, profissão que começou a exercer ainda adolescente, e viajou pelo mundo inteiro julgando cães.

— Assim é que, em vez de aprender a latir, fui apreendendo línguas…

Caimos na risada, mas — a duras penas — desvio a conversa do tema animal, que também adoro, para outro assunto. É que Zé Maurício, umbandista praticante, é médium, e quero saber o que significa isso. Ele explica que os seres humanos são como aparelhos de rádio, embora uns sintonizem melhor do que outros. Ele, por acaso, se define como um ótimo rádio.

— Sou uma pessoa pronfundamente religiosa, mas não gosto muito de falar sobre religião, sobretudo sobre o aspecto da espiritualidade, por causa dos rótulos. Para mim a religião é como acordar, tomar banho, escovar os dentes — uma atividade diária. O fato de eu ser médium não é importante. O que eu acho importante é o trabalho que faço em São Paulo, com mais de uma centena de pessoas de todas as profissões, idades e classes sociais, porque sai do campo dos rótulos, do fantasioso, do milagreiro. O ritual faz parte porque abre o caminho para a alma. Daí a vela, o incenso, os passes, o próprio histrionismo…

O centro recebe, por noite, mais de 500 pessoas, com todo o tipo de problemas. As que estão em pior situação recebem atenção especial:

— Nós concentramos as nossas energias para essas pessoas, que depois são acompanhadas, gratuitamente, ao longo da semana seguinte, por um de nós. Isso significa que, ao longo dos próximos dias, alguém do centro estará inteiramente à disposição da pessoa que nos procurou — irá encontrá-la quando ela quiser, para ouvir, segurar a mão, acarinhar, conversar sobre o problema. No fim da semana essa pessoa volta ao centro, para ser reenergizada e para continuar o acompanhamento com outro de nós. Religião, afinal, é uma ligação de amor, e o que nós fazemos é dar àqueles que nos procuram uma ligação de amor. O santo que recebemos é esse. E alguma coisa de diferente acontece, invariavelmente, porque mais de 90% dos que nos procuram apresentam resultados muito positivos.

Zé Maurício escolheu a umbanda porque, de todos os rituais, é o mais brasileiro, o mais acessível, o mais ligado à natureza. Sem falar que está mergulhado em música. Ou seja, é a veste perfeita para a sua espiritualidade — que ele celebrou, em 1999, gravando um disco de pontos. Ney Matogrosso está certo. Zé Maurício podia estar à toa na vida, mas resolveu, em vez disso, ser útil em várias frentes. Gente fina é outra coisa.

(O Globo, Rio, 7.10.2012)

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9 respostas em “José Maurício Machline, um guerreiro incansável na defesa da MPB

  1. Estava preocupado, pois li no jornal e não aparecia aqui no seu site !
    Bem… conheço o Zé há bastante tempo, pois estudei com a sua ex-esposa, Mucky Skovronsky, no famoso colégio São Marcelo, em 1976. Há muito tempo, hein ? Nunca dei a minima por este rapaz, coisa que mudou completamente após ler a sua espetacular entrevista. Você escreve bem mesmo, hein ? E o Zé é um espetáculo. Adorei ! Parabéns !

  2. Que perfil simpático de uma pessoa bacana! Fiquei com vontade de conhecer teu novo amigo. E de convidá-lo para os ensaios da nossa Orquestra. Alguém como ele só poderá achar interessante o nosso trabalho. Mande um abraço nosso, e diga para ele aparecer lá na Urca quando estiver por aqui nas segundas feiras.,.

  3. Querida Cora,

    Que linda e maravilhosa surpresa!

    Eu que o conheci nos velhos tempos,

    fiquei muito surpresa e agradecida com as boas novidades…..

    É muito bom a gente poder “deleter” aquelas velhas imagens

    e substituí-las com novas e muito impressionantes!

    Mais uma vez,

    Thanks!

    Cora Bakker

  4. E o trabalho dele de umbanda é maravilhoso. Durante uns 5 anos frequentei o centro que ele tem ao lado da casa do Morumbi, e vi muita gente sendo ajudada. O trabalho de ajuda a crianças com câncer é /era incrível. Faz muito tempo que deixei de frequentar por lá, depois que conheci o espiritismo há 15 anos, mas passei a respeitar com todas as minhas forças a Umbanda depois que conheci a casa de “seu Zé do Bem” (nome da entidade que o Zé Mauricio dá passagem).

    Em relação à MPB, tem como conhecer a nossa boa música e não ama-la? A boa, não essas porcarias que tentam nos impingir com o nome de música.

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