João Quental, um dos maiores fotógrafos de aves do país

Houve uma época em que fotografia, na internet, era sinônimo de Fotolog. A comunidade, que nasceu pequena e cheia de boas intenções, oferecia aos fotógrafos da rede um espaço para a troca de imagens, idéias e informações – e, com o tempo, revelou incontáveis talentos. Um deles foi João Quental, cujas fotos de aves eram aguardadas com  grande curiosidade, todos os dias, pelos seus seguidores. Depois o pobre Fotolog entrou por desvios indesejados, orkutizou-se, e a comunidade pioneira se dispersou pelo ciberespaço.

Quando o Instagram foi lançado, em 2010, a turma voltou a se encontrar, dessa vez no maior fenômeno da fotografia online. Para alegria de quem os seguia antes e surpresa dos mais novos, João e seus pássaros voltaram ao ar. Agora, porém, o nosso fotógrafo já não era segredo de uma galera esperta; entre um ponto e outro do tempo, ele passou a ser reconhecido como um dos mais importantes fotógrafos de aves do país.

João Quental nasceu em Botafogo há 46 anos. Estudou no São Bento, no Santo Inácio e na PUC, quase virou matemático mas, numa guinada radical, acabou se formando em letras. Foi um dos fundadores da Editora 34 Letras, e é professor de literatura do Eliezer Steinberg e da Escola Parque. Sempre gostou de fotografia e sempre fotografou muito, mas descobriu o gosto pelos pássaros quase por acaso, numa viagem à África com a mulher Raffaella. Como todo fotógrafo que viaja para a África, ele também registrou os animais que se encontram habitualmente nos safáris. As aves, porém, tiveram um destaque todo especial. O próximo passo foi identificá-las. Quem eram aqueles bichos?

— Esse é o momento em que a atividade vira vício, — diz João, brincando ma non troppo. — Você começa a ver os livros, e começa a ver o que não viu. Começa a pensar em voltar para fotografar o que não fotografou. Aos poucos, se dá conta de que existem aves também na sua cidade, e que não é preciso ir à África para fotografá-las. Eu descobri que havia passeios para observação de aves no Jardim Botânico. Fui. E encontrei um monte de malucos iguais a mim. Depois passei a freqüentar também os passeios do COA, o Clube de Observadores de Aves. E descobri o livro “Ornitologia Brasileira”, do Helmut Sick , que é todo um universo que se abre.

De descoberta em descoberta, acabou irremediavelmente fisgado pelos pássaros. Na época em que começou a freqüentar os encontros de observadores de aves, máquinas fotográficas digitais ainda eram muito raras, mas ele já tinha um equipamento importante, que passou a levar consigo. Ali teve início a sua coleção de fotos de aves brasileiras. A atividade era, naturalmente, um hobby. Viver de fotografia de natureza era impossível.

— Felizmente isso está mudando. Hoje temos fotógrafos de natureza muito bons que já estão conseguindo sobreviver disso, mas há dez, quinze anos, tirando o Luiz Cláudio Marigo, não havia ninguém. Ainda mais fotografando ave! Esse é o nicho do nicho. Para ter um bom choque de realidade, basta folhear uma coleção da National Geographic: em dez anos de revista você vai encontrar duas matérias sobre aves. E serão, provavelmente, matérias sobre beija-flores.

Quem freqüenta o Instagram sabe exatamente o que isso significa: fotos de beija-flor são tão populares quanto fotos de pôr-do-sol. O que, João apressa-se em acrescentar, não tira o mérito do beija-flor… Enfim, o fato é que o que era hobby passou a ser atividade profissional. Ao ganharem a internet, as suas fotos de pássaro começaram a circular e a ser mais e mais requisitadas, sobretudo pelo meio acadêmico, que ainda é o principal consumidor desse material.

— Apesar dessa ampla circulação, eu me sentia amador, — diz ele. – Foi com um certo susto que recebi os primeiros convites para dar aulas e para participar de eventos ao lado de pessoas que eu considerava distantes, parte de um mundo idealizado.

João já percorreu o Brasil de alto a baixo atrás de pássaros. Nem toda viagem é bem sucedida. Às vezes, quatro ou cinco dias de Amazônia rendem apenas uma foto boa – e nem sempre de quem ele está buscando. O uirapuru, por exemplo, é uma figurinha difícil, que justifica todas as lendas a seu respeito.

— Dizem que os outros pássaros se calam quando o uirapuru canta, mas não é bem assim. Eles se calam porque não estão presentes, só isso. Ainda assim, ouvir um uirapuru no meio da mata é uma coisa mágica, inesquecível. E o bichinho é muito difícil de fotografar! Ele é da família das cambaxirras, é agitadinho, quando você vira a máquina para ele ele já não está lá… Estive cinco vezes no seu habitat, e só consegui fazer foto boa uma vez.

A Amazônia, muito rarefeita, é o bioma mais difícil para o fotógrafo de aves. O desmatamento, nesse caso, nem tem muita culpa. A região sempre foi complicada para os estudiosos. Tem grande variedade de pássaros, mas pouca quantidade – e numa floresta escura e fechada.

Fotografar passarinho não é para qualquer um. Além do equipamento, que no Brasil é indecentemente caro, é preciso ter paciência. Muita paciência! Digamos que os bichinhos não estão parados num canto, à espera da luz dos holofotes. Eles também não estão necessariamente nas áreas mais bem servidas por infraestrura turística. As viagens são longas, as estradas são ruins, os hotéis nem sempre são bons e, para completar, há sempre mais mosquitos do que pássaros.

Como se não bastasse tudo isso, o fotógrafo de natureza brasileiro enfrenta ainda a incompreensão dos administradores dos parques nacionais, que até hoje vêem câmeras e tripés com desconfiança. Foi para lutar contra isso que um grupo se uniu e fundou a Afnatura, a Associação dos Fotógrafos de Natureza, da qual João Quental é diretor de relações públicas:

— A Associação existe para a gente fazer exposição, para batalhar patrocínio, para pôr em contato fotógrafos que trabalham com temas parecidos, — observa. — Mas ela nasceu para convencer a administração das unidades de conservação a deixarem os fotógrafos em paz. Todos nós, que trabalhamos na área, já sofremos coisas muito desagradáveis em parques nacionais, estaduais, municipais. No mínimo somos interpelados e nos perguntam se temos autorização para fotografar, isso quando não nos cobram taxas ou exigem que a gente ceda as fotos gratuitamente para os parques, o que é um confisco absurdo.

No resto do mundo, as unidades de conservação já perceberam a importância dos fotógrafos de natureza. Grandes aliados na luta pela preservação do meio-ambiente, eles são recebidos de braços abertos nos parques, até porque, entre outras coisas, ajudam a monitorar a área. Avisam a fiscalização quando vêem algo de errado, desmontam arapucas e, com a sua própria presença, desestimulam os caçadores, que não atuam em locais movimentados.

João é um fiscal da natureza particularmente atento. Mora ao lado do Parque da Catacumba, cujos pássaros fotografa com regularidade, e faz longos passeios pela Lagoa, registrando as espécies que encontra. Vêm observando como as lavadeiras, antes raras no Rio, estão tomando o lugar dos pardais, e está preocupado com os curutiés e bicos-de-lacre que sumiram da área do Cantagalo por causa das obras que terminaram há pouco. De resto, está no melhor dos mundos. O Brasil tem um quarto da biodiversidade de aves do mundo inteiro; só o Rio tem praticamente mais pássaros do que a Europa inteira.

— Eu saio de casa para dar uma voltinha e, em meia hora, encontro vinte espécies diferentes. É uma felicidade!

(O Globo, Rio, 2.9.2012)

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18 respostas em “João Quental, um dos maiores fotógrafos de aves do país

  1. João Quental: um perfeito Amador!

    Amador: aquele que, por definição, AMA determinada área de conhecimento. É um motivado auto-didata com profunda cultura e denodada dedicação cotidiana.

    E tem que pugnar continuamente com:

    ‘Profissionais’: é imensa a quantidade de profissionais que desconhecem os mais básicos rudimentos da profissão que exercem (p.ex.: nunca encontrei um eletricista que se importasse com a polaridade de uma tomada, ou a orientação de um interruptor; uma enfermeira que soubesse aplicar a dosagem certa de Unidades de Insulina; guardas-de-trânsito desconhecem que existe um código de apitos padronizado; biólogos da ‘Parques & Jardins’ que inconsequentemente condenam, podam e mutilam árvores urbanas; etc. etc. etc. a lista é interminável)

    ‘Administradores’: sujeitos sem o menor preparo colocados em posição de decisão e gerenciamento.

    ‘Governo’: o conjunto de ‘profissionais’ e ‘administradores’, pagos com o nosso dinheiro, do qual dependem autorizações diversas, oriundas das ‘dificuldades’ burocraticamente inventadas; mas sua função ulterior, no fundo, é recolher impostos, taxas e confiscos variados.

    É preciso amar demais, para ser apenas um amador…

  2. Ele também tem uma belíssima galeria no flickr! Eu adoro pássaros e tenho um comedouro bem em frente à janela da cozinha. O desfile de pássaros é quase ininterrupto. Aqui na minha casa não há uma enorme variedade, mas sou compensada pela enorme quantidade de sairas, sanhaços, cambaxirras, sabiás, bem-te-vis e outros mais!
    Eu tenho um amigo virtual fantástico. Um rapaz novo, comprou uma área em Morretes e transformou em reserva. Ele transmite ao vivo diariamente, com muitos visitantes estrangeiros e com um chat, onde ele informa as espécies que estamos vendo. Sempre que preciso descobrir algum pássaro ou mesmo animais silvestres, é o Luciano Amaral Breves que me salva. Essa semana apareceu um furão na minha loja e foi ele que identificou pra mim! O site é esse aqui http://www.ustream.tv/channel/Birds-from-brazilian-Atlantic-Forest#utm_campaign=unknown&utm_source=595827&utm_medium=social

    • Marise,acabei de dar uma olhada nesse site e achei a idéia genial !
      Tenho uma amiga,que faz parte do observadores de pássaros e na casa que
      ela tem em Visconde de Mauá,o arquiteto projetou uma torre envidraçada com a finalidade de observar de todos os ãngulos,só que,nas vezes em que ia visitá-la,
      sempre encontrava pássaros caídos e mortos,devido ao fato que,com a velocidade do vôo e indo de encontro ao vidro (não percebiam) acabavam morrendo com a fôrça do impacto …

      • Que bom que você gostou! O legal é que tem o chat, e o Lucky ou qualquer um dos observadores presentes, sempre informa que pássaro está presente, para os que não sabem.

    • Sim,minha xará,e além de tudo era uma exímia enxadrista,tinha uma coluna sobre xadrez (não me lembro bem agora em qual jornal,acho que era no JB) nos anos 70/80.

  3. Só para complementar,gostaria de fazer um adendo,sou assinante d’O Globo,e quando li ontem esse artigo,me veio de imediato (porque tenho vários livros de ornitologia) uma lacuna em relação ao Johan Dalgas Frisch,um clássico ! Claro que o Helmut Sick tambem é muito bom.

  4. Ele é um experiente e maravilhoso fotógrafo. Pena que nasceu e está no país errado. “As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá…”. E viva o Brasil dos acomodados, dos inermes e dos inertes.

    • Discordo totalmente de você,ele nasceu e ESTÁ no país certo,especialmente para ornitólogos e observadores de aves,não confunda a decepcionante vida política brasileira com a maravilhosa biodiversidade existente no Brasil para o deleite de quem estuda e fotografa.

      • Você tem todo o direito de discordar daquilo que quer. Mas, para não prolongar mais meu comentário, releia o que está escrito acima:
        “A Associação existe para a gente fazer exposição, para batalhar patrocínio, para pôr em contato fotógrafos que trabalham com temas parecidos, — observa. — Mas ela nasceu para convencer a administração das unidades de conservação a deixarem os fotógrafos em paz. Todos nós, que trabalhamos na área, já sofremos coisas muito desagradáveis em parques nacionais, estaduais, municipais. No mínimo somos interpelados e nos perguntam se temos autorização para fotografar, isso quando não nos cobram taxas ou exigem que a gente ceda as fotos gratuitamente para os parques, o que é um confisco absurdo.”
        Será que em países adiantados e dignos, a “coisa” também funciona dessa maneira?

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