Planeta bizarro

Zapeando canais uma noite dessas fui parar no Discovery, num programa de que já não lembro. Na sequência, anunciava-se um documentário sobre uma mulher de pernas gigantes. Achei que ia ver uma supermodel com um metro e meio de pernas, ou aquela russa do Guinness que tem as pernas que não acabam nunca. Besteira minha. Sendo o Discovery, é lógico que não ia ser nada tão simples. Mas levei um susto quando o programa começou. Lá estava uma mulher que parecia vítima de uma pegadinha sinistra: da cintura para cima, magra, frágil, bem arrumada. Da cintura para baixo, noventa quilos de deformidade, terminados em pés monstruosos. Socorro!

A mulher das pernas gigantes é uma inglesa simpática e bem articulada de 37 anos chamada Mandy Sellars. Já era tão esquisita ao nascer que ninguém teve coragem de mostrá-la à própria mãe nos primeiros dias. Os médicos não tinham certeza se sobreviveria. Ao longo dos anos, as pernas continuaram crescendo desproporcionalmente e ninguém jamais soube dizer qual era o problema. Foi só em 2006 que os médicos decidiram, sem muita convicção, que Mandy sofre de Síndrome de Proteus, a mesma doença do famoso Homem Elefante. O problema é que há pouco mais de cem casos conhecidos dessa síndrome, e cada um é diferente do outro. Suponho que os médicos saibam do que estão falando, mas olhando assim de fora a impressão que se tem é que “Síndrome de Proteus” é o rótulo que sobrou para todas as deformidades extraordinárias que não têm nenhuma explicação.

(Proteu, na mitologia grega, era um deus marinho que assumia formas monstruosas. Na língua portuguesa, pelo menos na internet, ele virou Proteus, com s no fim — seu nome em inglês — para definir a síndrome, que assim sofre, ela mesma, do mal que pretende caracterizar: metade é uma coisa, metade outra.)

Mandy se locomove com extrema dificuldade, em geral em cadeira de rodas, e, a certa altura, viaja para os Estados Unidos para tentar a única “cura” possível para o seu caso: amputar as duas pernas. Essa solução já havia sido sugerida à sua mãe quando ela tinha sete anos, mas a mãe, compreensivelmente, a achou muito radical. Vendo a moça magrinha arrastar cinqüenta quilos em cada perna, porém, o que é radical passa a parecer até razoável, e o espectador se vê na inusitada posição de torcer para que ela consiga a dupla amputação.

Infelizmente, os médicos americanos acham que a cirurgia seria muito arriscada, e Mandy continua condenada às suas pernas. Pouco depois, porém, o destino e os cirurgiões intervém, e ela perde a perna esquerda por causa de uma ferida que poderia levá-la à morte. Não é o fim do problema: o coto continua crescendo e, à última medida, já estava com um metro de circunferência.

Assisti a tudo isso entre horrorizada e fascinada. Horrorizada, por um lado, por ver uma deformidade tão grotesca sendo tratada como espetáculo, ainda que travestido de documentário; fascinada, por outro, com a esquisitice que me estava sendo mostrada. Como acontece sempre que vejo uma coisa dessas, pensei em como evoluímos pouco desde os tempos em que os circos exibiam monstruosidades; a televisão, afinal, é o circo do nosso tempo. As condições mais estranhas e miseráveis são apresentadas “cientificamente”, com depoimentos muito sérios de especialistas, mas a matéria prima é o bizarro, o que sai da curva, o mundo cão. Já não apedrejamos pessoas defeituosas — na verdade nem as chamamos mais de defeituosas — mas o estranhamento é o mesmo desde que o mundo é mundo.

Mais tarde, buscando informações sobre Mandy Sellars na internet, notei que a maior parte das reações nos fóruns era a mesma: “Nossa, e eu aqui me queixando da vida!” Isso também me passou pela cabeça enquanto assistia ao documentário, na forma do clássico “E eu aqui reclamando que não consigo emagrecer!” Nem precisamos ir tão longe; em geral, sempre há alguém em piores condições logo ali, muito embora, por algum desvio malsão, tenhamos a tendência de olhar sobretudo para os que estão melhor: “Ela é tão magra!”, “Ele é tão rico!”, “Ah eu, com aquele emprego…”, “Ah eu, com aquela casa…”

O mais surpreendente foi ler uma entrevista com Mandy em que ela declara que não pode se queixar porque, afinal, há gente em situação pior: oi, como assim?! Mas é fato. Basta procurar um pouco pela internet – ou ligar a televisão. As irmãs siamesas Abby e Brittany Hensel, aquelas que têm apenas um corpo mas duas cabeças, e que já são celebridades bem conhecidas, acabam de estrear seu próprio reality show. Ao respeitável público cabe agora imaginar o que é menos pior, se dividir o corpo com alguém, ou ter uma parte de baixo monstruosa. Eu, honestamente, ainda não consegui chegar a uma conclusão.

(O Globo, Segundo Caderno, 30.8.2012) 

 

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5 respostas em “Planeta bizarro

  1. Mas qual é a opção pessoal? Virar os olhos quando a pessoa passar na “rua”(na TV, na revista, etc…)? Em resumo, fazer de conta que ela não existe é melhor do que saber alguma coisa sobre esta pessoa?

    Com todo respeito Cora, discordo que a maioria destes programas da Discovery sejam um Circo de Horrores disfarçados. A diferença? Você mesmo apontou: Eles sempre dão a palavra à pessoa atingida pela doença. Ela pode falar o que pensa e o que sente sobre si mesma e sobre sua relação com a sociedade.

    Ps: Não vi o tal programa

    Abraços!

  2. Abby e Brittany são MUITO sortudas. Eu vi estas outras duas na tv e elas são incríveis… vai ter paciência assim com uma irmã lá na… em Marte!

  3. quando você comentou de um circo de horrores,logo me veio à lembrança,um filme que vi quando adolescente e que me marcou por muito tempo,extremamente bizarro e no entanto virou “cult “movie é “Freaks ” (Monstros ) do Tod Browning,de 1932;no qual pessoas com deformidades são mostradas como atração.

  4. Pois é, pensei o mesmo: e eu reclamando do meu regime!
    Mas, eu não teria assistido à esta bizarrice televisiva, até o final, Cora.
    Se fosse alguém conhecido, se eu pudesse atuar compassivamente, seria uma coisa. Ajudar de alguma forma, sacumé?
    Como platéia? Néris di pitibiriba. Esse tipo de circo me irrita, sobremaneira, em casos médicos.

    Mas, tem coisas outras, dramáticas, que também tem circo montado e dão IBOPE, que me fascinam. Como o furacão Issac, por exemplo. Estou acompanhando todas as fotos com esta tag no IG. Deslumbrada. Com arrepios de pavor.
    Então, posso entender perfeitamente que você tenha assistido este video, numa mistura de atração e repulsa, até o final.

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