Cristovão Tezza, sobre Millôr

“Uma influência marcante na minha visão de mundo e no meu humor (ou, dizendo melhor, no meu estado de espírito), ou, para retomar uma imagem que usei há pouco, alguém que mostrou com agudeza desconcertante onde focar a câmera quando se olha em torno, esse princípio fundamental da observação, foi Millôr Fernandes, que, como milhares e milhares de brasileiros letrados, acompanhei desde criança no Pif-Paf, mais tarde no célebre Pasquim, dali durante décadas nas páginas da Veja, e finalmente no seu sítio na Internet. Tudo que ele escreveu e desenhou, das deliciosas “conpozissões imfâtis” às fábulas fabulosas, me interessava, uma pura fruição; aquela gigantesca cosmogonia de frases, cores e traços que eu absorvi durante mais de quarenta anos, a implacável verruma política, seus lirismos inesperados, o prazer da imagem e da cor dando forma a surpreendentes delicadezas verbais, foi com certeza deixando marcas culturais nítidas no meu olhar. Nada muito especificamente “literário” (nenhum gênero será mais avesso à arte de Millôr do que a simples ideia de um romance; já o teatro, em vários momentos foi para ele um veículo importante de sua criação verbal) – é simples (simples?) jeito de ver e pensar o mundo mesmo, dia a dia, no seu duro e indecifrável fragmento cotidiano; uma espécie de defesa da inteligência contra o imprevisível, que é a substância do tempo. E, como domínio da forma, o seu texto, o seu traço e a sua cor instituem uma persona única e representam por si sós uma educação do olhar.”

(Em  “O espírito da prosa – uma autobiografia literária”, Editora Record)

Anúncios

4 respostas em “Cristovão Tezza, sobre Millôr

  1. Minha Historinha de Leitura, inspirada na experiência de não compreender Millôr:
    Compozissõis Infantis
    Recém-alfabetizado, eu lia a Veja na sala de espera do ortodontista.
    Uma página sempre me atraía e irritava; era um texto ilustrado aparentemente engraçado, mas cuja graça e sentido estavam sempre além da minha compreensão.
    Achava os desenhos uma bela porcaria, muito toscos comparados aos meus requintados Asterix; entretanto, insistia em ler.
    Desconfiava muito daquelas Compozissõis Infantis; intuía um texto cifrado, mas ficava fulo por não ser capaz de entender o contexto.
    Como sou um lento leitor, levou anos até conseguir a bendita chave dos significados.

    Conhecer
    Lembro que me apartava das conversas quando visitávamos minha bisavó no sobrado da Praça Santos Dumont só para ler sossegado as foto-novelas da revista Grande Hotel e do Cruzeiro.
    Percebendo a minha voracidade de leitura, e seguindo um hábito comum às famílias daquela época, meus pais compraram a Enciclopédia Conhecer, que eu venerei como se fossem as tábuas sagradas. Os volumes sempre ficaram na estante do meu quarto, ao invés de lustrarem a sala de visitas. Era meu protozoário de internet.

    Delícias organolépticas
    Entretanto, a leitura que mais profundamente marcou minha infância foi a coleção Asterix e Obelix.
    Não era apenas engraçado, era espirituoso, instigante. Mistura bem dosada de diversão e erudição. De tão absorto com o contexto das histórias que lia, minha asa de frango assado virava suculento javali.
    As citações em latim não me itimidavam nem emperravam minha leitura, ao contrário, funcionaram como um aperitivo para aguçar a curiosidade sobre línguas, vivas, mortas ou atordoadas.
    A cada leitura descobria uma referência nova, uma alusão ou até mesmo uma piada que passara despercebida na leitura anterior, como nos clássicos.
    O próprio cheiro da tinta dos volumes era precioso, distinto.

    Infância ilustrada
    Em retrospectiva, vejo que as minhas leituras infantis foram literalmente ilustradas.
    Todas que citei contém ilustrações.
    E isto me faz perguntar porque não li Monteiro Lobato, embora eu tivesse uma indefectível coleção ilustrada dividindo espaço na minha estante com a coleção de Almanaques Abril.
    Talvez um estigma que eu projetei sobre o Sítio do Picapau Amarelo: aquilo era uma estória para crianças, muito primário para quem já estava quase entendendo Millôr. Para quem tinha todos os Asterix e Tintin, o que Narizinho e Pedrinho poderiam me oferecer? Mas esta é minha versão a posteriori. Acho que eu era mesmo um pouco preguiçoso.

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s