Desastres de cozinha

Não há perrengue que se passe ou besteira que se faça que já não tenha acontecido antes, e em escala mais espetacular, com alguma outra pessoa. Antes da internet, não tínhamos como saber disso. Hoje não temos como não deixar de saber. Quando queimei um ovo cozido na semana passada e tuitei o desastre, recebi várias respostas solidárias de quem sabia exatamente do que eu estava falando; mais tarde, no blog, a turma contou uma quantidade de casos bizarros, numa espécie de aula de culinária às avessas. Como pimenta queimada no fogão dos outros é refresco, me diverti muito com as histórias.

A Márcia Amaral, por exemplo, explodiu uma lata de leite moça:

“Um dia resolvi fazer doce de leite esquentando uma lata de leite condensado num panelão de água. Enquanto a água fervia, eu trabalhava no computador compilando programas e vendo TV ao mesmo tempo. De vez em quando eu ia à cozinha para por mais água no panelão. Só que, em dado momento, adormeci em cima do teclado. Acordei bebada de sono e me lembrei da lata na panela. Sai correndo. A lata fazia um barulho monstruoso, como se estivesse sapateando. Meti a cara para ver como estava a panela. De repente, a tampa da lata saltou. Uma coisa com cor de doce de leite explodiu e foi para o teto, paredes, armários, chão… Uma parte caiu no meu rosto. Pior foi depois, quando tive de limpar toda a cozinha apesar da dor lancinante na cara.”

A história da Márcia abriu um compartimento convenientemente fechado na minha memória: o dia em que provoquei não uma, mas duas explosões consecutivas de doce de leite. Cheguei estressada do jornal e achei que merecia uma coisinha gostosa para comer. Pus uma lata de leite condensado no fogão e fui cuidar de outras coisas. Botei as crianças para dormir, dei um jeito na casa e mergulhei na pilha de jornais e revistas que, naqueles tempos pré-internet, trazia toda noite comigo. Esqueci completamente da panela, até que ouvi a explosão.

Fui para a cozinha no susto. Havia doce de leite por toda a parte, inclusive no teto. Levei uma hora limpando aquela porcaria, morta de raiva de mim mesma por ter feito tamanha burrice. Quando a cozinha ficou limpa, pus nova lata para ferver. Mas aí estava tão cansada que, sem querer, acabei adormecendo no sofá. Acordei com o barulho da segunda explosão – e nunca mais fiz doce de leite em casa.

Outra Márcia, a Márcia Valente, também foi vítima da distração:

“Acho que ovo fica numa escala bem abaixo de sopa de mamadeira. No tempo em que se colocavam bicos, roscas e mamadeiras plásticas para esterilizar, fervendo numa panela… nem preciso contar o resto, né? Bebê chora, você corre, começa a balançar e cantar praquela coisinha linda e, de repente, tudo enfumaçado na casa… Vizinho interfonando por causa do cheiro horrível de plástico e borracha queimada. Mas que cheiro??? Eu sou anósmica!!!”

Tive que recorrer à Wikipedia, que informa: “Anosmia é a perda total do olfato”.  Eu não sabia que isso existia.

Minha comadre Matilda também tem uma história de desastre de cozinha, mas no caso dela o que saiu da panela não foi uma gororoba queimada, mas uma nova receita. A grande culinária, como é sabido, pode nascer de grandes erros:

“Ô cumadi, um dia, lá num passado distaaante, coloquei carne e abóbora para fazer um ensopadinho para as minhas crianças, com muito tempero, muito coentro, muita cebolinha e salsa picadinha, um cheiro bom pela cozinha, a energúmena aqui foi dar banho nos pimpolhos, três pimpolhos, um atrás do outro, e aí, aí veio banho, enxugar, desembaraçar cabelos, vestir roupa, brincar, arrumar banheiro, secar chão, separar brigas de irmãos, colocar pimpolhos para brincar com algo que realmente distraísse e os deixasse absortos, enfim, as coisas básicas do dia-a-dia de mãe, depois desse pouquinho de coisas eu corri para a panela, uma caçarola grande, onde boiava carne num mar abóbora, a abóbora tinha derretido, sorte que eu sempre ponho muita água nos ensopados, minha avó materna me ensinou assim, nunca se sabe o que pode acontecer quando não se espia panela, panela tem que espiar, só se cozinha ao pé, dizia ela, enfim, havia um caldo de abóbora iluminando a caçarola, três crianças famintas, uma mãe também com fome, enfim, antes de bater o desespero, chegou o pai dos adoráveis pimpolhos para almoçar, que bela surpresa, enfim, eu logo fui falando que para o almoço ia ter um prato novo, receita local, “papita de jerimum”, uma delícia “prá cumê cum farinha” e uma pimentinha no capricho, enfim, como estava bem temperada, gostosa, foi um sucesso, só que depois os matildinhos e a matildinha e até o pai dos pimpolhos matildos queriam que fizesse de novo, ô Pai, inventei um prato que nem sabia reproduzir direito, a “papita de jerimum” virou prato da casa, até hoje lembram dela, pode isso?”

Pena que o espaço é curto. Os casos são ótimos, posto que não aconteceram conosco: há panelas derretidas, cozinhas incendiadas, toda a espécie de produtos queimados, inclusive as sapatilhas de uma bailarina com quem minha irmã dividiu apartamento numa outra encarnação. Diante de tudo isso, o que é um reles ovo esturricado?

 (O Globo, Segundo Caderno, 23.8.2012)

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15 respostas em “Desastres de cozinha

  1. idos de setenta, morávamos numa república, onde, como aconteceu com todos os “republicanos” que conheci, a vida era dura e a fome imensa. quanto pão com raiva (sem ao menos margarina), quantos bifes acebolados, só com a parte da cebola…
    até hoje não sei por que, talvez fosse masoquismo, tínhamos um cartaz da falecida transbrasil enfeitando nossa espartana cozinha. o cartaz mostrava uma refeição servida no vôo: uma feijoada completa. com as carnes no feijão, farofa, couve, laranja, caipirinha… depois de anos admirando aquela miragem, um dia invocamos que iríamos reproduzir exatamente aquele cartaz em nossa mesa. fizemos uma economia daquelas, cortando itens essenciais como cerveja, cinema e cigarro e, num belo domingo, conseguimos.
    convidamos alguns amigos externos (mais para fazer inveja), e montamos a mesa como na foto. era uma mesa antiga, daquelas de fórmica com os pés palitos, conseguida não sei onde. não sei se foi o estranhamento por estar suportando tanta comida, não sei se praga dos vizinhos pelas festas raras, porém barulhentas, não sei se simples azar, o fato foi que a mesa simplesmente desabou logo assim que terminamos de montar o cenário. e foi um desabamento digno de filme, um pé cedeu rapidamente e veio tudo escorrendo e, numa fração de minuto, o chão era uma mistura de feijão, carnes, cacos de vidro, arroz, cachaça, limão…

    []’s

      • pois é, cora, no dia foi triste. mas hoje, depois de tantos anos, tornou-se engraçada e, nas reuniões dos companheiros da época, a história já se tornou um clássico, com inclusões um tanto ou quanto fantasiosas, e rende boas gargalhadas
        []’s

  2. Quando li a sua crônica me lembrei das muitas panelas que já queimei. Mas uma história não posso esquecer: Em meu primeiro apartamento a porta da cozinha era dentro do quarto e eu ficava vendo televisão enquanto fazia qualquer coisa no fogão. Um belo dia resolvi fazer um chá, à noite, pois adoro chás, coloquei uma leiteira com uma caneca de água e fui ver tv na cama. Fechei a porta e me deitei. Pois bem, peguei no sono e dormi maravilhosamente. No dia seguinte, quando levantei para trabalhar e abri a porta da cozinha uma nuvem de fumaça invadiu o quarto. A água secou e a panela fundiu, derretendo o cabo e o fundo da panela. A única coisa que sobrou intacta foi a tampa da leiteira. Aprendi a lição? Que nada, volta e meia esqueço alguma panela com água para fazer chá ou café e fico no computador digitando. Várias vezes pulei da cadeira para encontrar a panela chiando e fumegando porque a água secou.

  3. Pois me lembrei também de uma história protagonizada por meu pai. Nós estávamos numa casa alugada em Megève, bem ao pé da pista. Minha irmã, cunhado, marido e eu íamos esquiar e mamãe e papai ficavam em casa, ou caminhavam pela cidade. Um dia resolvemos que faríamos uma raclette. Meu pai, sempre muito criativo, resolveu cozinhar as batatas numa panela de pressão. Pra resumir, quando chegamos em casa ele estava com a mão queimada e havia batata por todas as paredes e teto da cozinha. Nunca tive e não vou ter panela de pressão, odeio!
    Agora fiquei com muita saudade do meu pai e de meu cunhado, que já se foram.

  4. Foi um tuíte muito engraçado e um post divertido, com histórias ótimas.
    “Queime um ovo, de quando em vez”, será meu lema, doravante.

    Pessoas perfeitas e infalíveis, além de chatas, não merecem nosso afeto. Nem a nossa credibilidade.

      • Caso inédito, minha esposa colocou uma caçarola no fogao colocando 3 litros de óleo de soja para fazer bolinhas de carne moida,quando bem intertida enrolando bolinhas para colocar na panela ouviu só um estouro a caçarola suvoou até o teto esparramou oleo na conzinha toda, e o pior a caçarola aberta sem tampa o oleo estava frio se não ela tinha queimado, no que estourou e a panela subiu o fogão ainda ficou acezo. alguem ja viu um acontecimento igual ?

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