Luiz Carlos Barreto: uma vida de longuíssima metragem

Escrevendo em 2001 no livro “Passagem: a memória visual de Luiz Carlos Barreto”, Arnaldo Jabor concluiu que a vida de Barretão, como é conhecido, é um filme de longuíssima metragem, que começa no sertão e entra pelo milênio afora. A definição é perfeita. Nascido em 1928 na cidade de Sobral, no Ceará, ele continua cheio de projetos. Trabalha num livro de relatos autobiográficos e num de fotografias, está em cartaz no Instituto Moreira Salles como um dos fotógrafos da época áurea da revista “O Cruzeiro” e supervisiona a intensa produção da L.C. Barreto, que neste momento vai do longa “Flores raras”, história da relação de Elizabeth Bishop e Lota Macedo Soares dirigida por seu filho Bruno, a um documentário sobre os cem anos da Seleção Brasileira, passando por todo um conjunto de séries para a TV. Como concessão aos 84 anos, diz que começa a preparar sua aposentadoria – mas basta vê-lo no cotidiano da produtora para perceber que isso não é para já.

Ele chega para a entrevista um pouco atrasado, vindo de um almoço de trabalho. Na porta, encontra a filha Paula, que arruma a sua gravata.

— A Lucy e a Paula vivem me patrulhando – queixa-se, em tom de brincadeira.

— Claro! – responde Paula, produtora como o pai e a mãe. – É um gato, a gente tem que cuidar.

Para fazer as fotos, sobe e desce escadas com joelhos de menino. Quando observo como está bem, conta que, certa vez, Nelson Pereira dos Santos lhe disse que o homem não tem três idades, como reza a tradição, mas quatro: infância, maturidade, velhice e “você está muito bem”. Caímos todos na gargalhada, mas é fato: Barretão está ótimo.

Carioca desde 1947, foi jogador de futebol do Flamengo e do Canto do Rio e, em 1950, passou a trabalhar como repórter nos Diários Associados, primeiro na revista “A Cigarra” e, logo em seguida, na revista “O Cruzeiro”. Em pouco tempo trocou a reportagem pela fotografia, e foi correspondente em Paris, onde estudou cinema e literatura e onde se casou com Lucy, que lá estudava piano.

Em 1961, numa viagem à Bahia, conheceu Glauber Rocha, que então fazia seu primeiro filme, “Barravento”. Os dois ficaram amigos e Glauber o convenceu a trabalhar no roteiro de “O assalto ao trem pagador”, de Roberto Farias. No ano seguinte, fez a direção de fotografia de “Vidas secas”, de Nelson Pereira dos Santos – e não parou mais. Hoje tem mais de 80 filmes no currículo e uma estante de prêmios na sede da produtora. Emplacou dois candidatos a Oscar de melhor filme estrangeiro, “O quatrilho”, dirigido por Fábio Barreto, e “O que é isso, companheiro?”, dirigido por Bruno Barreto. Isso para não falar de “Dona Flor e seus dois maridos”, que até “Tropa de elite” foi a maior bilheteria do cinema brasileiro. Falar em bilheteria, aliás, é tocar num ponto crítico para todos os cineastas.

— Quando nós lançamos “Dona Flor”, o Brasil tinha 3.500 salas de exibição, — diz Barreto. – Hoje tem 2.200. “Dona Flor” entrou em cartaz junto com “O exorcista” e com “Tubarão”, e bateu a bilheteria dos dois. Hoje há blockbusters que chegam ao Brasil com 800 cópias. Faça as contas: 800 cópias e 2.200 salas… O pior é que a Ancine não exerce qualquer regulamentação em relação aos cinemas. No outro dia mesmo a Anatel foi em cima das operadoras de celular porque não estavam prestando um bom serviço aos consumidores. Mas quando 80% das salas são tomadas por dois ou três filmes, isso também é um desrespeito com o espectador!

Durante algum tempo, o jovem Luiz Carlos Barreto viveu dividido entre o cinema e o jornalismo. Em 1964, porém, depois de ser agredido por policiais enquanto tentava fotografar o presidente francês Charles De Gaulle, que visitava o país, resolveu deixar o jornalismo.

— Luiz Carlos Barreto foi uma das maiores estrelas jornalísticas do “Cruzeiro” — lembra o cineasta Cacá Diegues. – Ele chegou ao cinema justamente pelo texto (o roteiro de “Assalto ao trem pagador”) e pela luz (a fotografia de “Vidas secas”). Cearense acariocado, filho de Assis Chateaubriand com o Partido Comunista, de Macunaíma com o Padim Ciço, vagou pelos estádios do mundo atrás de Garrincha e Nilton Santos, cobriu cruzeiros chiques e tumultos proletários, flagrou Marilyn e os Kennedy, pescadores e pecadoras, até encontrar, numa longínqua praia baiana, o cineasta Glauber Rocha com uma câmera na mão e muitas ideias na cabeça. Uma delas era a de trazer o sertanejo cosmopolita para o seio de uma revolução chamada Cinema Novo. Não contente em apenas aderir, Luiz Carlos se tornou um de seus líderes mais importantes. E o resto é História.

Como disse Jabor, “Barreto é um daqueles homens que carregam um espelho nas costas, refletindo tudo por onde passam.”

o O o

A grande preocupação de Luiz Carlos Barreto, no momento, é a lei que estabelece a obrigatoriedade de exibição de conteúdo nacional pelas emissoras de TV por assinatura. Faz sentido. Ao longo de toda a sua carreira, ele sempre deu particular atenção à política do cinema, o que lhe rendeu afetos e desafetos em igual medida.

De acordo com a nova lei, as emissoras terão que exibir semanalmente, a partir de 2013, 3h30 de produção independente brasileira. A sua implementação, porém, começa já em setembro, com 1h30 por semana. Seria de se imaginar que, como produtor, Barretão estivesse muito contente. Mas, no mundo da cultura nacional, nada é simples. Ele se prepara para ir a Brasília, na companhia de outros produtores, para pedir um adiamento dos prazos. O problema é que não há como satisfazer a demanda que será criada com tantos entraves burocráticos à produção.

— Estamos vindo de três dias de discussões em São Paulo, — diz ele. – A lei é boa, mas precisa ser mais bem estruturada. Enquanto falamos de longas para canais como HBO e Telecine tudo bem, há suficientes filmes nacionais para suprir à demanda. Mas quando falamos de séries e, sobretudo, de programas infantis de animação, não temos sistemas de produção que consigam atender às exigências da lei com a qualidade a que o público de TV por assinatura está acostumado. Entre outras coisas, o ritmo da televisão requer um fluxo de financiamento menos burocrático. Não dá para desenvolver uma indústria através de editais.

Ele e seus colegas temem um novo “efeito curta”, ou seja, uma repetição das conseqüências desastrosas da famigerada Lei do Curta que, nos anos 80, obrigava as salas de exibição a passarem um curta nacional antes dos longas estrangeiros. Acontece que a maioria dos curtas era tão ruim que a lei acabou criando uma onda de má vontade contra o cinema nacional. A culpa, diga-se, nem sempre era dos cineastas: de olho na receita gerada pelos pequenos filmes, os exibidores passaram a produzi-los eles mesmos, criando autênticos monstros. O fato é que, às vezes, o que parece ser medida saudável à primeira vista acaba se revelando um desastre a longo prazo.

E como vai o cinema em geral? O velho produtor não anda muito entusiasmado com o que tem visto:

— O cinema virou um videogame, — queixa-se. — Quando não é efeito especial, é câmera especial. A narrativa cinematográfica deixou de ser importante. Antigamente a câmera na mão era exceção, tinha função narrativa. Hoje virou um truque para esconder a insuficiência do roteiro. E vai ficar cada vez pior, porque as novas gerações estão crescendo com essa estética e se viciando com essa linguagem fragmentada. Às vezes eu acompanho uma montagem e não consigo deixar de me perguntar o que exatamente está acontecendo, o que o espectador está vendo. Não é que eu seja partidário do naturalismo visual, mas é preciso manter um mínimo de coerência visual. A fragmentação está sendo levada a um extremo que prejudica a percepção.

Não há nada que se salve? Claro que há!

— Eu assisti recentemente ao filme “Violeta foi para o céu”, do chileno Andrés Wood, um exemplo de filme narrativo moderno, com grande dinamismo na montagem, sem perda de um segundo de percepção do que está sendo dito. O filme é uma cinebiografia, gênero em que é difícil fugir das fórmulas consagradas.  Mas o diretor conseguiu escapar com muito acerto de uma ordem cronológica. Ele mistura passado e futuro, mas faz isso tão bem que você não tem qualquer sensação de tempos trocados. É um filme lindo, deslumbrante.

E o cinema brasileiro? Vai bem: para Barretão, ele nunca esteve tão rico e diversificado quanto hoje. Depois do Cinema Novo e das gerações que o sucederam, mas sempre tendo-o de certa forma como referência, apareceu, finalmente, uma turma que não está nem aí para a tradição. Já não era sem tempo. Afinal, nenhum cinema deve viver só de referências ao passado. Mas ao bom momento criativo opõem-se uma quantidade nunca vista de entraves burocráticos.

— A relação cinema-estado involuiu dos tempos da Embrafilme para cá. Tornou-se muito burocrática. Estamos vivendo em golfadas. Aparece uma safra de filmes, depois passa-se um tempo sem que se tenham os filmes necessários ao mercado. Há uma gagueira na produção, e isso deve se agravar com a entrada em vigor da nova lei. Está faltando um novo modelo de relação cinema-estado.

Se depender dele, o modelo já está pronto, e segue o que foi adotado, com grande sucesso na agricultura – mas, para falar disso, nós precisaríamos de outra página inteira…

(O Globo, Rio, 5.8.2012)

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13 respostas em “Luiz Carlos Barreto: uma vida de longuíssima metragem

  1. Concordo com a Marise.
    Além de quererem estabelecer obrigatoriedades na tv paga,tem ainda por cima,uma nova tendência nesses canais,com cada vez mais filmes dublados,exemplo : o TCM que passa clássicos (agora é tudo dublado !),uma pena … (ainda bem que existe a TV5) …

  2. Sou contra essas obrigatoriedades. Se o público gosta, paga para ver e as salas de cinema exibem. Simples assim. Chatice obrigatória não deixa de ser chatice. Por que serei obrigado a consumir o que não quero? Gente engraçada essa: procura o governo a fim de conseguir o dinheiro do povo para obrigá-lo a ver o que não quer ver. Dá vontade de desistir do Brasil.

  3. o barretão é igual ao povo do pasquim (com as exceções sabidas): já foi um revolucionário, hoje é um burocrata estatal.
    também acho um absurdo essa lei das tvs por assinatura. toda vez que me deparo com esse tipo de coisa, penso: por que eles não fazem uma lei que proíba as pessoas de ficarem em macas nos corredores dos hospitais?
    []’s

    • Falamos, mas eu acabei optando por não usar na entrevista. Ele continua na mesma, ninguém sabe se tem ou não consciência do que acontece ao seu redor.

      • Oi Cora,
        Muito obrigado pela resposta.
        Tadinho do Fábio, Deus queira que ele se recupere logo e fique bom de vez !
        Abraços,
        CASS

  4. Pra mim, o resumo da ópera é o seguinte: o Brasil não oferece sequer o primário e quer impor leis que nos obrigam a fazer, no mínimo, uma dissertação de mestrado.

    • Aliás, faz mais de ano que ouvi dizer que todos os filmes estrangeiros, que passam na TV, deverão ser dublados, e não legendados. Pelo que sei, será lei. Haverá muito sofrimento para quem entende vários idiomas. Há legendas que são uma “graça”. Pensando bem, essa lei, se é que existirá, será a contribuição do governo para o emburrecimento – maior ainda – do povo. E viva o Brasil, sil, sil…

  5. É extremamente inocente pensar que há igualdade de condições na indústria do cinema; L.C.Barreto está certo. Os filmes americanos dispõem de mais de trinta mil, isto mesmo 30.000, salas de exibição. Como concorrer com isto? Vejam o site de uma, uma delas, associação de exibidores americanos: http://www.natoonline.org/
    E cá entre nós, o cardápio atual das tvs a cabo está uma josta. Seria interessante aumentar o conteúdo nacional de qualidade – proposta do Barretão.

  6. Eu discordo totalmente de obrigatoriedade de filmes ou produtos nacionais nos canais por assinatura. Que o governo interfira nos canais abertos, que são concessionários do estado, já é ruim, mas querer enfiar goela abaixo de quem paga, é absurdo. O que salva é o equipamento que grava a programação e permite que se assista no horário preferido, apenas o que interessa e pulando os intervalos comerciais.

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