Revendo o Instagram

Todas as redes sociais de fotografia começam do mesmo jeito, atraindo aficionados da arte que trocam imagens e mensagens entre si até que, aos poucos, acabam amigos. Foi assim com o Fotolog, com o Flickr, com o Instagram e com centenas de serviços menores. Os usuários costumam descobrir-se uns aos outros nas “áreas comuns” das redes, como a clássica seção das mais vistas do Fotolog ou das mais populares do Instagram. À medida em que essas comunidades crescem, porém, elas passam a atrair mais e mais pessoas que fogem do perfil desses primeiros usuários – tipicamente, adolescentes menos preocupados com fotografia do que com figurinhas, e de preferência de si mesmos. O resultado é que as áreas comuns, antes bom lugar para descobrir novos fotógrafos, acabam tomadas por imagens irrelevantes: garotas mostrando o look do dia, garotos posando com latas de cerveja, mãos com esmaltes de cores bizarras, fotos roubadas de revistas de celebridades. Os usuários antigos, desgostosos, choram a saudade dos velhos tempos nas caixas de comentários e, eventualmente, mudam-se com armas e bagagens para um serviço menos poluído.

O Instagram atravessa esse momento delicado. Na página de fotos  populares praticamente não há o que se aproveite, e as saudades do “velho Instagram” são tema recorrente nos comentários dos antigos usuários. Mas, em vez de se deixar vencer, eles estão partindo para a luta, desenvolvendo soluções que lhes permitam encontrar novas visões do mundo. O primeiro resultado concreto desse inconformismo é o aplicativo Instafocus, que chegou à Appstore no último dia 14 e que, numa interface clean ao extremo, apresenta fotografias cuidadosamente selecionadas. Seus criadores @glamagurl, @r3mus e @jeremyslens explicam porque o desenvolveram:

“Porque amamos o Instagram. Sério. Passamos várias horas por dia olhando fotos incríveis, comentando, dando likes e postando. Fazer parte dessa comunidade mudou a nossa vida para melhor. Mas ultimamente, com o crescimento do Instagram, passou a ficar cada vez mais difícil encontrar gente voltada para fotografia; gente que toma cuidado com a foto, com a edição e com o que posta.

Primeiro achamos que o Instagram estava estragado, e precisava ser consertado. Mas depois, percebemos que o Instagram é, e sempre foi, uma rede social, não necessariamente a respeito de “fotografia”, mas a respeito de pessoas compartilhando momentos das suas vidas.

Sim, mas — e os fotógrafos? Vamos deixar que eles desapareçam? Ou vamos tomar uma providência? Decidimos tomar uma providência. E assim nasceu o Instafocus, que não é a respeito de uma rede social, mas de pessoas comuns que, por acaso, fazem fotos realmente incríveis.”

O Instafocus é, essencialmente, uma galeria para instagramers. Ainda está passando por dores de crescimento, mas fica mais estável a cada dia. Josh Johnson, antigo usuário que criou o JJ’s Forum, um canto muito freqüentado da comunidade, percebeu o potencial da idéia, entrou em contato com os desenvolvedores e já anuncia uma versão do sistema para o grupo de usuários que comanda. No momento, faz pesquisas sobre o que eles gostariam de encontrar no aplicativo. Um dos itens mais discutidos entre os muitos que levantou é a questão dos celulares versus câmeras; há uma corrente ideológica bastante forte dentro do Instagram que é contra a postagem de fotos feitas com câmeras de verdade. Josh quer saber qual é a linha que o novo aplicativo deve seguir. Os resultados, por enquanto, apontam uma franca maioria favorável a câmeras e celulares – mas em galerias distintas. Logo em seguida vem a turma que acha que tudo é válido, e que o que importa é o olho do fotógrafo. Os radicais do “iPhone ou nada!” são, felizmente, minoria.

o O o

Começam a aparecer no Instagram as primeiras fotos feitas com o Pureview, da Nokia – o famoso celular com sensor de 41 Megapixels. Elas ainda são muito poucas para que se possa fazer uma avaliação real das qualidades do aparelho, mas o que vi até agora me impressionou muito bem. E não, ainda não existe Instagram para Symbian. As fotos postadas foram, primeiro, transferidas para celulares iOS e Android, e depois enviadas para lá.

(O Globo, Economia, 4.8.2012)

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3 respostas em “Revendo o Instagram

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  2. Para mim, a graça do Instagram é justamente a simplicidade de se fotografar com o celular, um modo diferente de ser “fazer” fotografia e de difícil domínio. Acho que é um desafio captar boas fotos com um mísero aparelhinho, e aí está o bacana disso. Ora, tirar fotos caprichadíssimas, com os mais variados recursos de lentes, iluminação, etc, para depois postar no instagram, desequilibra a questão. Como qualquer um tem o direito de mostrar suas habilidades com uma câmara, defendo duas “galerias” diferentes.

  3. Eu sou das poucas fiéis à máquina fotográfica. Talvez porque não goste de celulares – pouco uso e nunca pra fotografar, gosto muito do Flickr. Fiz algumas boas amizades ali e acompanho lindos e queridos peludos. Algumas pessoas são pouco cuidadosas com o que postam. Se a foto não está bem enquadrada, a luz está ruim ou, pior, fora de foco, não se deveria postar.

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