Matilda e os cigarros

Não conheço a minha comadre Matilda Penna em pessoa. Faz tempo que não vou a Salvador, onde ela mora, e faz tempo que ela não vem ao Rio, onde moro eu. Nós nos conhecemos de blog, como acontece tanto hoje em dia, passamos a nos querer bem e viramos comadres porque a minha gata Matilda ganhou o nome dela. Minha comadre tem uma alma bonita, brasileira e delicada, que se revela quando ela escreve – e, embora não tenha escrito muito ultimamente, a alma continua lá, linda como sempre. Na semana passada, por causa da crônica em que lembrei o fumacê do século vinte, ela postou um longo comentário no internetc.:

“Ah! Cigarros…!

Comecei a fumar com treze anos (por que eu quis, ninguém influenciou, ao que me lembre), em mil novecentos e sessenta e sete, ano em que filmaram “Bonnie and Clyde”, “Belle de jour”, “Casino Royale”, “The graduate”, “You only live twice”, “Lo straniero”,”Todas as mulheres do mundo” e, principalmente, “Terra em transe”.

Ano tão lindo, Matilda tão linda, loura, jovem e baiana, fumava cigarros Elle, longos, dourados, tinha cigarreiras lindas, isqueiro Zippo dourado, que quase não usava, acendiam nossos cigarros, é, acendiam sim, naqueles anos enfumaçados, ao som de “Penny Lane”, “All you need is Love”, “To Sir, with love”, “There’s a kind of hush”, “Can’t take my eyes off you”, “I say a little prayer”, “San Francisco (be sure to wear flowers in your hair)”, “Somethin’ stupid”, but I love cigarros, o cheiro, a fumaça, o pegar entre os dedos e pensar, o segurar com os cotovelos juntos ao corpo e deixar queimar, era bom, fumar é bom, foi bom, se não fumasse nem tinha chance comigo, o cheiro era estranho, não seduzia, mas cigarro misturado com whisky (era assim que se escrevia, uísque ainda não existia) era altamente afrodisíaco, e eu gostava de cigarro, de fumar, afinal, num ano em que fizeram o primeiro transplante de coração, qualquer coisa que tivesse, mas ninguém falava ainda em ter, era só trocar, o mundo evoluia, e fumar era bom e Matilda era jovem e tudo era belo, eram anos lindos, altamente coloridos, pernas de fora, barrigas de fora, minhas lembranças são boas, coloridas, enfumaçadas, distaaantes….

Deixei de fumar em dois mil e dez, com cinqüenta e cinco anos (também porque eu quis, de repente, na virada do ano resolvi que não fumaria mais, e não fumei), foi o ano de “Comer, rezar, amar”, “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1”, “Toy Story 3”, enfim, não lembro bem de outros, estava mal, enfartei por falta de cigarro, perdi o que rolava pelo mundo, enfim, lembro de Justin Bieber (só do nome, acho que nunca ouvi nada e se ouvi, não guardei), restart das calças coloridas e acho que só, esse ano foi tumultuado para mim, descobri DPOC, descobri diabetes, menopausa, parei de comer açucares, gorduras, agora só como verduras, frutas, grelhados, cozidos, vinho sem álcool, parei de escrever, foi feito o primeiro transplante de cara do mundo, foi o ano do apagão no Nordeste, teve eclipse total do sol, eclipse lunar, Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel, teve “Dalva e Herivelto: uma canção de amor” na televisão, eu enfumaçava os olhos às vezes de dor, às vezes de saudades, às vezes por nada mesmo, chorei muito, nunca mais fumei, foi difícil, foi duro, devia ter tomada algum remédio, foi na tora que comecei, foi na tora que deixei, começar foi fácil e prazeroso, deixar foi difícil, doido, conquistado.

Ainda gosto de cigarro, do cheiro, do cheiro de charutos, da fumaça, do ritual, do gestual, só não fumo mais, mas podem fumar perto de mim, não me incomoda, só não posso acender, sou viciada, não posso fazer isso, assim como podem comer feijoadas e broinhas e pães e bolos e brigadeiros junto de mim, só não posso comer nada disso, também sou viciada e comida, assim como cigarro, virou veneno para mim, o corvo gritou nunca mais e eu ouvi.

Agora sou avó de um e meio (outro ou outra para fim de fevereiro), agora uso pernas escondidas, nem sei onde fica a barriga (nem tento saber), cabelos grisalhos (não uso tinturas), mais magra, aprendendo a andar de novo, fazendo pilates, só sinto falta do escrever, que perdi, mas perdi a juventude também e não sinto falta dela. Agora está bom, mas está bom pelo passado, quer dizer, o que passei fez de mim isso, não me arrependo do cigarro, era outra época, outros costumes, outra Matilda.”

o O o

Várias pessoas falaram da sua relação com o cigarro lá no blog. Lilly, que fumou durante 45 anos, largou o fumo pela causa mais inusitada e engraçadinha:

“No dia 1° de junho de 2008 a gatinha de minha vizinha, de uns cinco meses, sumiu. Primeiro, procuramos na casa dela. Nada. Fomos para a rua debaixo de chuva, perguntando a todos que encontrávamos se tinham visto uma gatinha branca e preta… mas nada da Pitty. Fiz uma promessa a mim mesma que, se encontrássemos a gatinha, largaria de fumar no mesmo instante. Quando a minha amiga voltou para casa, revirou tudo e… achou a gatinha, dormindo numa gaveta que revistáramos milhões de vezes! Eram 17h30. Contente e já calma, fumei o último cigarro da minha vida. Presenteei a dona da gatinha com os maços intactos e uma porção de isqueiros.”

(O Globo, Segundo Caderno, 26.7.2012)

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17 respostas em “Matilda e os cigarros

  1. Essa crônica está simplesmente fantástica!
    É tão bom saber que existem pessoas
    encantadoramente inspiradas e cabeça feita…
    Matilda & Cora = 1.000!
    ganhei o dia…

  2. MATILDA ,nossa musa baiana.Até hoje qdo escrevo o seu nome sinto um mistério no ar…e´matilda mesmo essa musa da Bahia? Saudade de vc!

  3. Quem já foi ou é fumante pode falar com propriedade sobre o fascínio e poder (domínio) exercidos pelo cigarro . Bom ler Matilda e saber notícias !…

  4. Essa citação só fortalece em mim a vontade de continuar perseverando em outras coisas, não tão desagradáveis quanto o cheiro de cigarro, que, hoje, abomino! E pensar que já gostei disso! Obrigada, Cora.

    O.T. – Amanhã, dia 28, fará um mês que acompanho a vida e o desenvolvimento dos 7 gatinhos de Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA), filhos da “jovem Noodles”, com filmagem ao vivo, durante 24 horas. Ela foi acolhida numa casa em que já existiam 4 gatos. Entro no site várias vezes por dia e fico aflita quando não vejo um deles. Lá é uma hora mais cedo que aqui, portanto, a diferença não é grande. Todos estão muito bem tratados (agora eles têm um dormitório à tarde para fazer uma bagunça danada – morro de rir!) e já fico muito triste em pensar que logo, logo, não poderei mais vê-los. E me surpreende o fato de que, até 1991, achava que não tinha afinidade alguma com gatos. Ainda bem. Já imaginaram se tivesse?
    Com coragem e paciência, acessem – sem pressa:

    http://revistaglamour.globo.com/Lifestyle/noticia/2012/06/bbb-felino-gatinhos-fofos-sao-filmados-24-horas-por-dia.html

  5. eu consigo fumar um cigarro por ano ou a cada dois anos, quando bebo, numa festinha, e aí é prazeroso, mas em geral detesto, e conheço gente que fuma apenas um cigarro por dia após o jantar há décadas…mas os gatos detestam o cheiro, e eles sabem das coisas, né?

  6. Eu já havia escrito aqui que tinha AMADO o texto da Matilda e pelo visto, não foi só io…E cigarro faz um mal desgraçado, mas tem lá o seu charme…coisa que droga e bebida não têm de maneira alguma…coisa triste uma pessoa “chapada” ou caindo de bêbada, tenho horror…

  7. Cora, o texto da Matilda é inspirador. Então não resisto à minha história pessoal. Fumei durante muitos anos até o nascimento da minha primeira neta, em novembro de 2007. Foi quando minha filha em sua lucidez e objetividade capricornianas, foi direta: Mãe, cheiro de cigarro impregnado na pele, na roupa e no cabelo não combina com um bebê recém nascido no colo. Certíssima, não? E aí, para estar junto, comecei a tomar longos banhos desinfectantes, a fazer gargarejos intermináveis e a dar um intervalo de 4 horas sem cigarro para ter a Carolina no colo, aquela suprema felicidade!
    Em fevereiro de 2008 – dia 6 – fumei meu último cigarro e pensei: acabou hoje.
    São 4 anos e 5 meses sem qualquer recaída, de zero arrependimento (embora eu fumasse por prazer) apesar de muitos quilos a mais. Hoje, tenho certeza de que perdi a libido do cigarro, acabou o desejo. São 4 anos e 5 meses podendo deitar ao lado e ler história, dormir de conchinha e dar (e receber) muitos e muitos abraços e beijos, sempre! Sem adesivo, sem chiclete, sem cursinho. Acho que deixei o cigarro por uma arrebatadora paixão, dessas de largar tudo e escolher o amor para sempre! Um beijo, Cora!

  8. Eu adoraria que meu marido depois de ler a sua coluna tomasse coragem para deixar de fumar.
    Sei que nos dias atuais fica meio difícil de acreditar, mas somos um casal bem casado e feliz, porém morro de medo de perdê-lo para os três maços de cigarro diários que ele fuma….
    Talvez, eu seja culpada, pois tenho escrúpulo em forçar a barra. Tenho medo de ser invasiva. Penso que essa é uma escolha muito pessoal. Aliás, todas são, não é?
    O cigarro é o meu rival, por isso tenho horror dele!

  9. A Matilda tem um texto lindo!

    Vou fazer um OT, que foi pra isso que vim aqui. Alguém já usou um ipad assim?

    O áudio está em alemão – acho eu – mas a situação dispensa palavras.

    • oi,papai, ainda nem te perguntei:como e´q vc esta´se dando com o ipad q nós te damos no teu aniversário?
      -bem.
      -e com os aps,vc entende bem?
      -que aps?
      -chega um pouqinho pra la´…
      _ xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

      • demos ao invés de damos,ne´?
        Esqueci de botar o nome da atriz: Martina Hill.
        Ela e´muito engracada e escreve suas próprias cenas.

  10. Que lindo o texto da Matilda, Cora!
    Senti um travo amargo na garganta. Vontade de chorar. Me identifiquei com tantas coisas, embora tenha fumado uns dez cigarros na vida.
    Senti pela Matilda, por você, pelos dois últimos anos que bem sei o quanto foram e ainda devem ser difíceis.
    Também não te conheço, Córa; permita-me misturar os pronomes, fica mais natural, informal, mas eu sei escrever direitinho, acredite. Ou soube, sei lá….
    O travo amargo e a vontade de chorar vieram por mim também, pelo que a minha a vida se transformou depois que meu filho ficou doente, há sete anos; e há dois anos, a ciência nada tem mais a fazer por ele.
    Tenho apenas que esperar a barca de Caronte, renovando as forças, sei lá como consigo, cada dia que acordo.
    Chega de falar de mim. Escrevi para falar nas belezas que a Matilda escreveu e que tanto me emocionaram. Acompanho seu blog – discordo de um monte de coisas, sou sempre franca, sincera e aberta – mas te admiro, assim como muito admiro a obra do seu pai. Acho que tenho todos os livros que ele escreveu, além das excelentes traduções. Um deles: ” Pois é” fica sempre na minha cabeceira e o “Não perca o o seu latim”, na minha mesa de trabalho.
    Obrigada, Cora. Obrigada, Matilda.

  11. Fazia uns dias que eu não me emocionava – e bem que eu andava com uma vontade de chorar ultimamente. Não sei em que frase começou, mas culminou com gatinha na gaveta da vizinha da Lilly.

    Adoro os textos matildais.
    Que bom que subiu o texto da comadre, porque eu não tinha lido no post do fumo.
    Eu tentei fumar algumas vezes na vida mas nunca consegui acabar um cigarro sem ficar tonta! E sem sentir a garganta ardida no outro dia. Mas eu sinto vontade de fumar de vez em quando depois da refeição. Doido, né?
    Antigamente eu achava elegante, charmoso, mas hoje eu sinto vergonha de portar um cigarro aceso. Ou apagado. Faço pose de outras maneiras. 😉

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