Esquadrilha da fumaça

Era assim: não havia lugar onde não se pudesse fumar. Médicos e pacientes fumavam nos consultórios, funcionários fumavam nas repartições públicas, professores e alunos fumavam nas salas de aula das universidades e, nas mesas dos restaurantes, cinzeiros faziam conjunto com a pimenta e o sal – que ainda tinha dignidade e não vinha nos pacotinhos absurdos aos quais foi hoje confinado. Apesar disso, havia fumantes que cultivavam o hábito repulsivo de apagar o cigarro na xícara de cafezinho. Em alguns bares e boates fumava-se tanto que o ar podia ser cortado com faca.

Nas redações todo mundo fumava, e praticamente não existia mesa que não tivesse as beiradinhas queimadas. Fumava-se nos ônibus e nos ônibus interestaduais, na barca de Niterói e nos aviões. Os bancos dos táxis ostentavam furinhos causados por brasas. Os cigarros permanentemente acessos dos personagens de “Mad Men” não são licença poética ou caricatura do passado, mas perfeita reconstituição de época. Nesse mundo coberto de fumaça, o estranho no ninho era o não-fumante, que estava em minoria e que, se tivesse a falta de juízo de reclamar do cigarro alheio, perigava ser visto como bicho do mato.

Afinal, fumar era uma atividade social. As pessoas fumavam juntas enquanto bebiam, enquanto conversavam e depois do jantar. O cigarro servia para começar uma conversa, passar uma cantada, fazer as pazes. Cada fumante tinha um isqueiro mais bonito do que o outro, e mesmo os que não usavam isqueiro, mas saiam com uma caixinha de fósforos boa para a batucada, mandavam um recado para os circunstantes. Por falar nisso, todos os hotéis, bares e restaurantes distribuíam caixas de fósforos, que muitas crianças (inclusive a vossa cronista) colecionavam.

Além disso, o que seria de Hollywood sem o cigarro? Mulheres fatais fumavam para realçar o charme; jovens fumavam para mostrar rebeldia; cowboys, gangsters e heróis fumavam, e a maneira como o faziam sublinhava o seu comportamento e as suas aspirações (com ou sem trocadilho). Desde o começo do século, o cigarro era — literalmente — cantado em prosa e verso. Um dos exemplos máximos das letras fumegantes é “Fumando espero”, tango dos anos 20 de Viladomat Masanas e Félix Garzó, que fez tanto sucesso na voz de Carlos Gardel que acabou ganhando versões pelo mundo todo, inclusive Brasil, na voz de Dalva de Oliveira.

A letra, hoje, é quase surrealista. “Fumar es un placer, genial, sensual…” Difícil imaginar que tenha sido escrita sem patrocínio da indústria! “Fumando espero a la que tanto quiero, tras los cristales de alegres ventanales, y mientras fumo mi vida no consumo, porque flotando el humo me suelo adormecer.” E o final, apoteótico: “Dame el humo de tu boca, dame que en mí, pasión provoca, corre que quiero enloquecer de placer, sintiendo ese calor del humo embriagador, que acaba por prender la llama ardiente del amor”.  A quem não conhece a música, recomendo uma busca no You Tube. Além de ser o retrato de uma época, o tango é uma beleza. Procurem também a interpretação preciosa de Sarita Montiel.

Suponho que o olfato de todos, fumantes e não-fumantes, era um sentido prejudicado. Só isso explica como suportávamos o fedor universal que nos cercava. Às vezes, tínhamos uns breves momentos de revelação catinguenta. Os meus aconteciam quando voltava do jornal, e entrava na minha casa cheirosinha. Em contraste, o cabelo e as roupas pareciam cinzeiros: até o interior das bolsas fedia, e eu precisava deixá-las ao sol para que não ficassem excessivamente ofensivas.

O jornalista italiano Giacomo Papi, autor de “Viver sem cigarro é possível, se você souber como” (Editora Objetiva, tradução de Joana Angélica d`Avila Melo) sustenta que, num futuro não muito distante, historiadores tentarão definir o século XX à luz dos cigarros acesos: “Não há dúvida de que, na longa lista das invenções e descobertas que modelaram o século, os cigarros ocupam um lugar fundamental, ao lado da eletricidade, do telefone, da televisão, do cinema, da energia atômica e da penicilina. E de que, mais ainda, a influência deles foi até mais profunda, impregnados como estavam nos mínimos hábitos, nos gestos cotidianos, nas ações e reações aos fatos comuns da vida. Os dedos do século XX são todos amarelados”.

Papi também prevê que, dentro de 50 anos, a memória do tabaco se perderá. Parecerá incrível, às pessoas de então, que tantas vidas tenham se perdido por causa do fumo, assim como hoje nos parece incrível que, antigamente, se usassem rapé e escarradeiras (eca!). A humanidade sempre teve um grande talento para o ridículo, e os bastõezinhos brancos através do qual encheu os pulmões de fumaça durante tanto tempo são apenas um capítulo a mais numa longa história.

“Viver sem cigarro é possível…” é um livro fininho e despretensioso, que peguei por acaso e sem muita fé. Não fumo, nunca fumei e, consequentemente, nunca tive qualquer dificuldade de viver sem cigarro – muito antes pelo contrário. Mas ao descrever as agruras dos fumantes, os párias do novo século, e contar como tentou abandonar o vício, Giacomo Papi acabou criando uma leitura leve, simpática e cheia de informações curiosas sobre o tabaco.

(O Globo, Segundo Caderno, 20.7.2012)

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61 respostas em “Esquadrilha da fumaça

  1. Gostei muito deste post, excelente!

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  2. Passei os melhores anos da minha vida com um cigarro entre os dedos. Depois, troquei os maços de Minister, Carlton e Hollywood por caixas de Rivotril, Citalopram e Lexotan. Até hoje me pergunto se fiz um bom negócio.

  3. Pingback: Fumando (já não) espero « Adri nas Cidades – Notas de uma jornalista em andanças por aí

  4. Tive a sorte de nascer em uma família onde não tem fumantes. Tinha um cinzeiro marrom aqui na minha casa para que alguma visita pudesse utilizar. Não sei o que aconteceu com esse cinzeiro. Acho que foi pro lixo.

    • Hoje perguntei pra minha mãe o que aconteceu com o cinzeiro e ela disse que um dia ela estava arrumando a estante quando o cinzeiro caiu e rachou. O material era de madeira. Ela teve que jogar no lixo. Acertei.

    • Meu pai Waldir, que faleceu em 1993 não fumava e minha mãe Terezinha não é fumante. Tive tios que fumavam. O tio Felício, irmão do meu pai fumava muito. Lembro de uma viagem que fiz quando eu era criança para João Monlevade, (onde até hoje moram parentes por parte de pai) e teve uma cena que eu presenciei. Eu e o Felício estávamos na sala de estar da casa da minha avó Dolares, que havia sofrido um AVC e que por causa disso tinha difuculdade de falar, e na sala estava aquela fumaçeira. O meu tio conseguia fazer “rosquinhas” com a boca. Só faltava ele desenhar o meu nome e o dele no ar. Argh! Felício morreu em 2011.

  5. Ótima crônica. Me fez lembrar com saudade do século XX, tão enfumaçado! Fumei durante uns trinta e poucos anos. Parei na hora certa, antes que surgissem complicações de saúde. Mas gostava demais de cigarro.

  6. Meu pai fumou a vida toda. Só cigarro sem filtro. Continental sem filtro. Na era Collor, o Continental sem filtro deixou de ser fabricado e ele passou para o Continental com filtro. Mas não era a mesma coisa ! Morreu aos 93 anos, sem nunca sequer tossir. Já minha mãezinha, morreu cedo, 72 anos. De que ? Oficialmente cancer de pulmão. Quando foi ao médico, ele perguntou: A senhora fumou muito, hein ? Nunca colocou um só cigarro na boca, tadinha… Será que foi fumante passiva ou será que morreu de tristeza pelo falecimento do companheiro de uma vida toda ? Nunca saberei ! ( Eu parei de fumar meus 3 maços por dia nesta ocasião, já se vão 20 anos ! Fumar ? Desde então, nunca mais ! )

  7. eu odiei o meu primeiro cigarro. dei uma tragada e caí sentada no chão. estava no banheiro da escola e tinha 16 anos. insisti, venci o nojo e a tonteira pq queria fumar. anos mais tarde cortava o filtro dos cigarros com tesoura, pro cigarro ficar mais forte; e meu filho, com 5 anos , partia meus cigarros em mil pedacinhos e me pedia pra não fumar. enfim. parei de fumar numa cama de hospital, depois de cirurgia de emergencia, tive peritonite. quase morri. fiquei 15 dias com um monte de drenos saindo de mim. um dia o medico me perguntou se eu fumava, eu disse q sim e perguntei pq; ele respondeu que minha recuperação seria mto mais lenta por fumar;foi a coisa certa na hora certa. nunca mais fumei. fazem 27 anos.

  8. E o nosso querido Manuel Bandeira:

    Amor – chama, e, depois, fumaça…
    Medita no que vais fazer:
    O fumo vem, a chama passa…

    Gozo cruel, ventura escassa,
    Dono do meu e do teu ser,
    Amor – chama, e, depois, fumaça…

    Tanto ele queima! e, por desgraça,
    Queimado o que melhor houver,
    O fumo vem, a chama passa…

    Paixão puríssima ou devassa,
    Triste ou feliz, pena ou prazer,
    Amor – chama, e, depois, fumaça…

    A cada par que a aurora enlaça,
    Como é pungente o entardecer!
    O fumo vem, a chama passa…

    Antes, todo ele é gosto e graça.
    Amor, fogueira linda a arder
    Amor – chama, e, depois, fumaça…

    Porquanto, mal se satisfaça,
    (Como te poderei dizer?…)
    O fumo vem, a chama passa…

    A chama queima… O fumo embaça.
    Tão triste que é! Mas… tem de ser…
    Amor?… – chama, e, depois, fumaça:
    O fumo vem, a chama passa…
    A chama queima… O fumo embaça.

    Tão triste que é! Mas… tem de ser…
    Amor?… – chama, e, depois, fumaça:
    O fumo vem, a chama passa…
    ***
    Agora, só falta o tango do Bandeira (final):
    — O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
    — Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
    — Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

    Então, vamos dançar. Ou “dançar”, quem sabe…

  9. Tem tantos versos que fumam, nossa!

    Tem Mario Quintana:
    “Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar…”

    Tem Olegário Mariano:
    “Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
    Tendo muito de orgulho e de altivez.
    Trago a pender dos lábios um cigarro,
    Misto de fumo turco e fumo inglês.

    Tenho a cara raspada e cor de barro.
    Sou talvez meio excêntrico, talvez.
    De quando em quando da memória varro
    A saudade de alguém que assim me fez.

    Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
    Cultivo a tradição da minha raça
    Golpeada de aventuras e de amores.

    E assim vivo, desatinado e a esmo.
    As poucas sensações da vida escassa
    São sensações que nascem de mim mesmo.”

    Tem Oswald de Andrade:
    “Dê-me um cigarro
    Diz a gramática
    Do professor e do aluno
    E do mulato sabido
    Mas o bom negro e o bom branco
    Da Nação Brasileira
    Dizem todos os dias
    Deixa disso camarada
    Me dá um cigarro”

    Tem Vinicius de Moraes:
    “Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente
    Olhando as coisas através de uma filosofia sensata
    E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite.
    Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito
    Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
    Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmuIo
    E todas as idéias autobiográficas da mocidade terão desaparecido:
    Ficará talvez somente a idéia do testamento bem escrito.
    Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida
    Só terei uma experiência extraordinária.
    Fecharei minha alma a todos e a tudo
    Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo
    Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.
    Nem o cigarro da mocidade restará.
    Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados
    E que dará a tudo um ar saturado de velhice.
    Não escreverei mais a lápis
    E só usarei pergaminhos compridos.
    Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.
    Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
    Cheio de irritação para com a vida
    Cheio de irritação para comigo mesmo.

    O eterno velho que nada é, nada vale, nada teve
    O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.”

    Tem Chico Buarque:
    “Meu caro amigo me perdoe, por favor
    Se eu não lhe faço uma visita
    Mas como agora apareceu um portador
    Mando notícias nessa fita
    Aqui na terra ‘tão jogando futebol
    Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
    Uns dias chove, noutros dias bate sol
    Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
    Muita mutreta pra levar a situação
    Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
    E a gente vai tomando que, também, sem a cachaça
    Ninguém segura esse rojão
    Meu caro amigo eu não pretendo provocar
    Nem atiçar suas saudades
    Mas acontece que não posso me furtar
    A lhe contar as novidades
    Aqui na terra ‘tão jogando futebol
    Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
    Uns dias chove, noutros dias bate sol
    Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
    É pirueta pra cavar o ganha-pão
    Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
    E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
    Ninguém segura esse rojão
    Meu caro amigo eu quis até telefonar
    Mas a tarifa não tem graça
    Eu ando aflito pra fazer você ficar
    A par de tudo que se passa
    Aqui na terra ‘tão jogando futebol
    Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
    Uns dias chove, noutros dias bate sol
    Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
    Muita careta pra engolir a transação
    E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
    E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
    Ninguém segura esse rojão
    Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
    Mas o correio andou arisco
    Se permitem, vou tentar lhe remeter
    Notícias frescas nesse disco
    Aqui na terra ‘tão jogando futebol
    Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
    Uns dias chove, noutros dias bate sol
    Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
    A Marieta manda um beijo para os seus
    Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
    O Francis aproveita pra também mandar lembranças
    A todo o pessoal
    Adeus ”

    Tem Caetano Veloso:
    “Você é meu caminho
    Meu vinho, meu vício
    Desde o início estava você

    Meu bálsamo benígno
    Meu signo, meu guru
    Porto seguro onde eu voltei

    Meu mar e minha mãe
    Meu medo e meu champagne
    Visão do espaço sideral

    Onde o que eu sou se afoga
    Meu fumo e minha ioga
    Você é minha droga
    Paixão e carnaval

    Meu zen, meu bem, meu mal”;
    …….
    “Tropeçavas nos astros desastrada
    Quase não tínhamos livros em casa
    E a cidade não tinha livraria
    Mas os livros que em nossa vida entraram
    São como a radiação de um corpo negro
    Apontando pra a expansão do Universo
    Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
    (E, sem dúvida, sobretudo o verso)
    É o que pode lançar mundos no mundo.

    Tropeçavas nos astros desastrada
    Sem saber que a ventura e a desventura
    Dessa estrada que vai do nada ao nada
    São livros e o luar contra a cultura.

    Os livros são objetos transcendentes
    Mas podemos amá-los do amor táctil
    Que votamos aos maços de cigarro
    Domá-los, cultivá-los em aquários,
    Em estantes, gaiolas, em fogueiras
    Ou lançá-los pra fora das janelas
    (Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
    Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
    Podemos simplesmente escrever um:

    Encher de vãs palavras muitas páginas
    E de mais confusão as prateleiras.
    Tropeçavas nos astros desastrada
    Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas”
    …….
    “Nem a loucura do amor
    Da maconha, do pó
    Do tabaco e do álcool
    Vale a loucura do ator
    Quando abre-se em flôr
    Sobre as luzes no palco…

    Bastidores, camarins
    Coxias e cortinas
    São outras tantas pupilas
    Pálpebras e retinas…

    Nem uma dôce oração
    Nem sermão, nem comício
    A direita ou à esquerda
    Fala mais ao coração
    Do que a voz de um colega
    Que sussurra “merda”…

    Noite de estréia, tensão
    Medo, deslumbramento
    Feitiço e magia
    Tudo é uma grande explosão
    Mas parece que não
    Quando é o segundo dia…

    Já se disse não
    Foi uma vez
    Nem três, nem quatro
    Não há gente, como a gente
    Gente de teatro
    Gente que sabe fazer
    A beleza vencer
    Prá além de toda perda…

    Gente que pôde inverter
    Para sempre o sentido
    Da palavra “merda”
    Merda! Merda prá você!
    Desejo
    Merda!
    Merda prá você também
    Diga merda e tudo bem
    Merda toda noite
    E sempre a merda….”

    O cigarro é hoje um costume antigo, como lutar com espadas, usar manteiga em queimaduras, beber água de riachos na beirada dos caminhos: passou a moda, era uma vez um cigarro, como num conto de fadas, hoje acho que nem os Sacis pitam, será?

    • Não,eu ao menos não, nunca, só cigarros, um ou outro charuto, cigarrilhas, nada de erva ou pós ou ácidos, sempre fui uma boa moça, para casar, nunca fiquei bêbeda ou de porre, assim que a cabeça parecia flutuar, eu parava, as palavras eram meu delírio, ler poesias, mergulhar nelas era minha droga, sempre fui uma boa moça católica, ainda sou uma velhinha católica.

    • Por incrível que pareça, eu também nadinha. Aliás, quando adolescente, no tempo em que existia lança-perfume (por volta de 1720 – hahaha) tentei cheirar uma vez, por insistência da “bendita” prima do meu pai – a mesma do cigarro. Me senti tão mal, mas tão mal, quase desmaiei, e nunca mais passei nem perto de nada que pudesse causar dependência. Fiquei “apenas” no maldito tabaco. E bastou. Demais até…

      • Eu tb nao.um dia ,ao acompanhar meu namorado na compra dos verdinhos,o vendedor perguntou se eu queria um tb.Meu namorado enfiou a mao e disse q eu ja´era doidinha sem nada….nunca tive vontade de fumar ,nem verde ou branco.Qd jovem lambia cinzeiro(beijava fumante) ,hoje nao suporto!

  10. Recuando um pouco p o séc XVIII temo Velut Umbra de Antero de Quental:

    Fumo e cismo. Os castelos do horizonte
    Erguem-se à tarde e crescem de mil cores
    E ora espalham no céu vivos ardores
    E incendeiam, vulcões de estranho monte…

    Depois, que formas vagas vêm defronte,
    Que parecem sonhar loucos amores?
    Almas que vão, por entre luz e horrores,
    Passando a barca desse aéreo Aqueronte…

    Apago o meu cigarro enquanto apagas
    Teu facho oh sol, seguimos ambos sós
    É nessa solidão que me consumo.

    Oh vós nuvens da tarde, oh formas vagas
    Bem vos entendo a cor pois como a vós
    Beleza e altura se me vão em fumo!

  11. Cora, crônica 10! Viajei junto com as palavras.
    Mas confesso aos colegas aqui que cigarro nunca foi minha praia. O cheiro me incomoda, a fumaça, o bafo de quem fuma, dente amarelão… Namorei cara que fumava, mas, sinceramente é ultra desagradável chegar em casa com cabelo cheirando a algo que não gosta.

    A pessoa não cheira gostoso, cheira a fumaça fedorenta e impregnante. Aonde pega, deixa um rastro químico desagradabilíssimo.

    E meu pai fumou por 40 anos… Aquele eterno cheiro que minha casa tinha, cheiro de cinzeiro, nunca me agradou. Prefiro casa, cabelo cheirando a lavanda e hálito de hortelã, além de dentes limpos e branquinhos.
    Ainda bem que maridão não fuma hahahaha. Lilly e Matilda, gostei das histórias =0)

    Entendo quem gosta, curte, mas longe de mim. Adoro Mad Men.

  12. Ótima crônica! Tenho uma história de fumantes na família meio parecida com a do Claudio Rubio. Meus pais foram fumantes por muuuuuuito tempo também, mas a nossa casa era bem cheirosinha, não sei se porque era “casa” mesmo , com quintal e tudo o mais e o espaço nunca chegou a ficar enfumaçado. Nunca fumei ; aliás não tenho , nem algum dia tive o vício de fumar, beber ou usar qualquer tipo de droga…mas se tivesse um vício desses, com certeza seria o de fumar. Ah, acho que deve ser bom demais e não à toa o povo pena pra largar….Todos os meus amigos e amigas fumavam ,eu ia às discotecas e voltava com o maior cheiro nas roupas e cabelos , uma tristeza, mas quando se é muito nova nada disso importa. E sei que vão achar um absurdo, mas gosto do cheiro de cigarro, não me incomoda nem um pouco, nunca tive chiliques por alguém fumar perto de mim (só me incomoda um pouco o cheiro no cabelo) e tenho uma teoria (péssima , eu sei) que as pessoas (em especial as do sexo masculino) ficam mais interessantes quando fumam…
    P.S. Mathilda, AMEI o que vc escreveu!!!!!!!!!!!!!!!!!

  13. Ainda outro dia comentei com a minha irmã como os tempos mudam. Eu me lembro que, lá pela década de 70, meu pai dentista mantinha no consultório três cinzeiros em três lugares diferentes e em cada um, um cigarro aceso e era considerado normalíssimo. Hoje em dia nenhum médico ou dentista faz mais isso, graças a Deus. Na minha casa todos fumavam e um belo dia – a gente só faz besteira quando adolescente – eu resolvi começar a fumar. Comprei um maço de um cigarro todo cheio de bossa com filtro de carvão ativado e outras “cositas más” e levei para o colégio. Na hora do recreio lá fui eu, toda empolgada, para o meu primeiro cigarro. Acendi, traguei e tive o pior acesso de tosse que se pode imaginar. Cheguei em casa com um gosto horroroso na boca e o uniforme todo fedendo a fumaça. Nunca mais botei um cigarro na boca, mas em compensação, fui fumante passiva enquanto estive casada e olha que o ex é médico. Vai entender…

  14. Ah! Cigarros…!
    Comecei a fumar com treze anos (por que eu quis, ninguém influenciou, ao que me lembre), em mil novecentos e sessenta e sete, ano em que filmaram Bonnie and Clyde, Belle de jour, Casino Royale, The Graduate, You Only Live Twice, Lo straniero, Todas as Mulheres do Mundo e, principalmente, Terra em Transe.
    Ano tão lindo, Matilda tão linda, loura, jovem e baiana, fumava cigarros Elle, longos, dourados, tinha cigarreiras lindas, isqueiro Zippo dourado, que quase não usava, acendiam nossos cigarros, é, acendiam sim, naqueles anos enfumaçados, ao som de Penny Lane, All You Need Is Love, To Sir, with Love, There’s a Kind of Hush, Can’t Take My Eyes off You, I Say a Little Prayer, San Francisco (Be Sure To Wear Flowers in Your Hair), Somethin’ Stupid, but I love cigarros, o cheiro, a fumaça, o pegar entre os dedos e pensar, o segurar com os cotovelos juntos ao corpo e deixar queimar, era bom, fumar é bom, foi bom, ao contrario de DJ LEO se não fumasse nem tinha chance comigo, o cheiro era estranho, não seduzia, mas cigarro misturado com whiskie (era assim que se escrevia, uísque ainda não existia) era altamente afrodisíaco, e eu gostava de cigarro, de fumar, afinal, num ano em que fizeram o primeiro transplante de coração, qualquer coisa que tivesse, mas ninguém falava ainda em ter, era só trocar, o mundo evoluia, e fumar era bom e Matilda era jovem e tudo era belo, eram anos lindos, altamente coloridos, pernas de fora, barrigas de fora, minhas lembranças são boas, coloridas, enfumaçadas, distaaantes….
    Deixei de fumar em dois mil e dez, com cinqüenta e cinco anos (também porque eu quis, de repente, na virada do ano resolvi que não fumaria mais, e não fumei), foi o ano de Comer, Rezar, Amar, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, Toy Story 3, enfim, não lembro bem de outros, estava mal, enfartei por falta de cigarro, perdi o que rolava pelo mundo, enfim, lembro de Justin Bieber (só do nome, acho que nunca ouvi nada e se ouvi, não guardei, Restart das calças coloridas e acho que só, esse ano foi tumultuado para mim, descobri DPOC, descobri diabetes, menopausa, parei de comer açucares, gorduras, agora só como verduras, frutas, grelhados, cozidos, vinho sem álcool, parei de escrever, foi feito o primeiro transplante de cara do mundo, foi o ano do apagão no nordeste, teve eclipse total do sol, eclipse lunar, Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel, teve Dalva e Herivelto: uma Canção de Amor na televisão, eu enfumaçava os olhos as vezes de dor, as vezes de saudades, as vezes por nada mesmo, chorei muito, nunca mais fumei, foi difícil, foi duro, devia ter tomada algum remédio, foi na tora que comecei, foi na tora que deixei, começar foi fácil e prazeroso, deixar foi difícil, doido, conquistado.
    Ainda gosto de cigarro, do cheiro, do cheiro de charutos, da fumaça, do ritual, do gestual, só não fumo mais, mas podem fumar perto de mim, não me incomoda, só não posso acender, sou viciada, não posso fazer isso, assim como podem comer feijoadas e broinhas e pães e bolos e brigadeiros junto de mim,só não posso comer nada disso, também sou viciada e comida, assim como cigarro,virou veneno para mim, o corvo gritou nunca mais e eu ouvi.
    Agora sou avó de um e meio (outro ou outra para fim de fevereiro), agora uso pernas escondidas, nem sei onde fica a barriga (nem tento saber), cabelos grisalhos (não uso tinturas), mais magra, aprendendo a andar de novo, fazendo pilates, só sinto falta do escrever, que perdi, mas perdi a juventude também e não sinto falta dela. agora está bom, mas está bom pelo passado, quer dizer, o que passei fez de mim isso, não me arrependo do cigarro, era outra época, outros costumes, outra Matilda…
    Gosto de Mad Men, recordar é viver…

  15. Já fumei muito. Marlboros, que meu chefe na Globo dizia, eram cigarros de homem. O pessoal fumava light e eu achava aquilo insuportável: ou fuma-se cigarro bom ou nada feito. Até meu marido ter um enfarte e ter que parar por ordens médicas. Paramos os dois e nunca mais tive vontade de fumar. Hoje em dia o cigarro me incomoda muito, como a quase todos os ex-fumantes. Eu adoro Mad Men e não canso de me inpressionar com as mães carregando crianças ao colo com um cigarro na mão, dentro do consultório médico, nos elevadores. Na minha casa não tenho cinzeiros e sempre que alguma visita pede um eu ofereço o lado de fora da casa 😉

  16. Ah! Já estava esquecendo: das melhores coisas que existem é a proibição de fumar em restaurantes e outros ambientes fechados. Quando eu saía pra balada, há mais de 10 anos atrás, o que mais me deixava brava era que o cheiro de cigarro com que chegava em casa. Nas casas noturnas, especialmente onde há música, com tudo fechado, o fumacê é insuportável.
    Pior que a fumaça é o cheiro de cigarro, fedor insuportável pra maioria dos não fumantes. Ao contrário da fumaça que se dispersa, o cheiro fica no ambiente, nos móveis, e nas roupas de quem está por perto.

  17. Nunca fumei, uma única vez eu tentei, e o resultado foi idêntico ao do DJ Leo. Depois de muito vomitar pensei: se um só faz isso imagine se eu fumar todo dia. Nunca mais botei um cigarro na boca.
    Em compensação meu pai fumou até seu último dia, 20 dias antes de completar 80 anos. Morte consequência de um enfisema pulmonar, causado por mais de 60 anos consecutivos de aspiração de fumaça de cigarro.
    Certa vez o pneumologista virou pro meu pai e falou: Seu Fernando se o senhor não parar de fumar vai morrer. Ele se vira pro médico e pergunta: Doutor o senhor fuma? O médico responde que não e ele se sai com essa: Então lhe aviso que mesmo assim o senhor vai morrer.
    O fato é que cigarro vicia mesmo, talvez seja a droga mais viciante que existe.

  18. uma das lembranças mais remotas que tenho é a vontade que eu tinha de crescer e começar a fumar. adorava ver meus tios fumando (meu pai e minha mãe nunca fumaram). quando fiz 15 anos comecei, e só parei, por pressão da família (mulher e filhos), há quase 7 anos. parei de uma tacada só, fumei o último cigarro às 23h59min do dia em que havia prometido parar. tenho guardado até hoje o maço com o restante dos cigarros; o zippo dei para um sobrinho. e tenho, até hoje, a mesma vontade do dia em que larguei, não o desespero dos primeiros dias de abstinência, mas a mesma vontade da infância. combinei com meus “algozes” que vou voltar quando fizer 80 anos.
    []’s

  19. minha mãe fumou toda sua vida. começou ainda criança. ela achava bonito. meu pai, já adulto, aprendeu a fumar com ela. mesmo assim, aos filhos, sempre ensinou que não devíamos nem experimentar, que fazia mal. naturalmente, perguntávamos a ela: então por que a senhora fuma? e a resposta de mãe vinha sem um segundo de descrença: fumo porque para mim é remédio.

    meu pai parou de fumar, forçado, depois do segundo AVC, que o paralisou e colocou definitivamente dependente de nós. coube a mim forçá-lo a parar de fumar dentro de casa. quando saía, aos sábados, para tomar sol e ficava na casa de algum irmão ou amigo, fumava o tanto que pudesse, pois ninguém lhe negava um cigarro, uma maço, dois… e assim o fez, até o terceiro AVC, quando comprometeu ainda mais sua situação física e tomou juízo.

    minha mãe, ainda assim, sempre fumou, porque, para ela, isso era remédio. mesmo depois que descobriu o quadro grave de comprometimento das artérias, por conta das altas taxas de colesterol, triglicérides e consumo de cigarros. controlava o que pudesse à base de medicamentos e o cigarro… ela dizia que fumava menos.

    passou por cirurgias para colocação de stents, cinco stents, cuja função era melhorar sua condição de vida. o médico advertiu: continuasse fumando, eles também entupiriam, muito rapidamente. não teve jeito. “diminuí, menino… fumo só um pouquinho. e para mim é remédio.”

    mamãe só ficou mesmo uma semana sem fumar. apareceu um aneurisma na aorta. teria de colocar um stent ali, para reconstrução da artéria. um procedimento de urgência, necessário, mas de risco controlado. mamãe entraria num dia no hospital e sairia no outro. mas, por conta da obstrução dos stents anteriores, em função do fumo, foi impossível fazer o procedimento simples que o médico havia proposto. tudo teve de ser interrompido no meio. o novo stent não passava por dentro dos anteriores. a saída seria fazer uma cirurgia cardíaca, mas as condições de mamãe não permitiam. a alternativa seria algo heróico: cortar a aorta, um pouco abaixo da primeira costela, por uns segundos, e passar o stent por lá, colocando-o na posição do aneurisma.

    passou-se uma semana e o procedimento foi feito. ao final, comemorou-se como um sucesso. mamãe foi para a UTI acordada, um leve sorriso. mas, pela manhã, teve paradas cardíacas. resistiu ainda mais um dia, faleceu na manhã seguinte.

    foi só essa semana que mamãe passou sem o cigarro… que era seu remédio.

    fato é que o cigarro é sim um remédio, para os deprimidos. ele tem o poder de aliviar a depressão, reduzir a tensão, o estresse, conceder bem-estar imediato ao fumante. mas, como o pior dos medicamentos, tem efeitos colaterais devastadores, que terminam por aumentar e acelerar o processo da dependência e comprometer órgãos vitais.

    se, quando mamãe era criança, ou ainda adolescente, houvesse medicina para diagnosticar e tratar a depressão, e lhe fossem oferecidos os tratamentos adequados para esse problema, creio que ela tivesse podido encontrar remédio melhor para sua vida, e ainda estivesse conosco.

    se, quando eu era mais jovem e atrapalhadamente tentava, como todo mundo, atacar o cigarro, irresponsavelmente, como vício, como escolha, eu tivesse mais informação a respeito e compreensão desse processo todo e uma alternativa a oferecer para minha mãe, talvez ela houvesse deixado de fumar e encontrado a saúde.

    mas a ciência corre atrás da doença. e ela se foi.

    espero apenas que logo consigam tratar os fumantes dependentes do cigarro como remédio. aqueles a quem tem faltado na vida algo que lhes alivie e alegre tanto quanto o cigarro… um remédio, sim, que mata.

    • Claudio, como eu entendo você!!Muito.
      Felizmente para a minha mãe, houve tempo. Foi possível encontrar um bom psiquiatra que a ajudou a trocar o ‘remédio’ cigarro por antidepressivo.
      A depressão lhe roubou muitos anos de alegria e, como diz ela, brilho nos olhos. Mas, hoje, ela está muito bem com os seus 89 anos recem completados.
      É pura ilusão achar que cigarros nos acalmam.
      Consegui parar com eles antes da mamãe deixá-los. Só assim pude ajudá-la nesse processo.

      • minha mãe fumou dos 6 aos 74 anos. não errei não: dos 6 aos 74 anos. enquanto pode encontrá-los no mercado, só fumou cigarros sem filtro, “que os outros não têm gosto”. fumava bastante, mas nunca chegou a fazer como meu pai que, no pior período do vício, acendia um cigarro na bituca do anterior, e fumava dia e noite – e isso não é figura de linguagem: ele deitava fumando e continuava fumando toda a noite, até levantar-se novamente, para… continuar fumando. e era assim que ele entrava no banho, saía do banho, tomava café, saia para o trabalho e voltava dele. nesse período, meu pai fumava 2 pacotes de cigarros por dia. isso mesmo: 2 pacotes e não 2 maços. cada pacote tem 10 maços. meu pai teve o primeiro AVC com pouco mais de 35 anos. recuperou-se perfeitamente. continuou fumando e bebendo. teve então mais 2 AVCs. hoje tem 73 anos. mais da metade da vida, paralisado por conta dos derrames.

        pensar em cigarros, pra mim, é pensar nessas coisas.

  20. Maravilhosa crônica. Eu parei de fumar no dia 01/janeiro/2000 depois de dez anos de Marlboro direto. Fiz uma promessa e caso ela se cumprisse eu pararia! =)

  21. Pela décima milionésiva vez, coloquei o DVD dos melhores duetos de Sinatra e seus amigos extraordinários, tais como Ella Fitzgerald, Bing Crosby, Louis Armstrong, dentre outros. Em quase todos os números, Sinatra intercala uma tragada em cada frase das canções, para não falar do fumacê gerado enquanto o ou a partner canta por seu turno! O meu pai, viciado em cinema, espelhava-se nos Bogards da tela para compor seu melhor mise en scène de fumante. Se aos atores desses tempos retirassem abruptamente as chupetas fumegantes, por certo eles não saberiam onde meter as mãos…
    Fumei dos 13 aos 31, menos pelo exemplo do meu pai e mais porque, como li em “The Moon and Sixpense” de Somerset Maugham, “…a man must smoke”. Eu era vidrado e influenciado por tudo que Maugham escrevia, além de querer por todas as formas me afirmar como “a real man”! Coisas dos anos 50…
    Sua crônica é deliciosa

  22. É interessante observar como cada pessoa tem uma relação diferente com o cigarro. No cinema, víamos as divas com cigarro, acompanhado da respectiva piteira, e faziam caras e bocas. Era “lindo”! Comecei a fumar por insistência de uma prima do meu pai, da minha idade, e lá fomos nós três – eu e duas irmãs (mais novas que eu) para o vício do maldito tabaco. De todos os fumantes da família, fui a última a abandonar o dito cujo. Faz pouco mais de quatro anos. Fumei durante 46 anos – coisa para bater qualquer recorde de burrice. Havia tentado umas três vezes, porém o vício sempre me chamava de volta. Nos últimos anos, por causa da doença de minha Mãe, fumava, desbragadamente, três maços de cigarro por dia! Não sentia o odor do maldito, achava que nada me incomodava. Era preciso que houvesse uma razão muito forte para que o abandonasse. Até que, num domingo frio e chuvoso, 1° de junho de 2008, a razão apareceu. Ou melhor, desapareceu. A gatinha de minha vizinha, de uns cinco meses, havia sumido. Primeiro, procurei na casa dela. Fui pra rua embaixo de chuva, perguntando a todos que encontrava se tinha visto uma gatinha branca e preta por lá… Mas nada. Minha amiga, dona da gatinha, também foi pra rua, mas nada da Pitty. Enquanto ela não chegava, fiz uma promessa a mim mesma que, se achasse a gatinha, largaria de fumar no mesmo instante. Quando a vizinha chegou em sua casa, revirou tudo e… para a máxima surpresa nossa, a gatinha estava dormindo numa gaveta, a qual eu tinha investigado milhões de vezes. Eram 17h30 daquele dia. Contente e já calma, fumei o último cigarro da minha vida. Presenteei a dona da gatinha com os maços intactos e uma porção de isqueiros.
    Bendita gatinha Pitty que apareceu na minha vida!

  23. Eu também fumava muito.
    Aliás, meu café-da-manhã na Faculdade, quando aluna, era composto por um cafézinho, um cigarro e uma Coca-Cola dessas de garrafa de vidro. Só. Não, eu não tinha gastrite e era magra.
    Parei de fumar varias vezes (eram dois maços quase, por dia)mas só consegui quando me dei a “parada” como presente de aniversário, aos 40 e, mesmo assim, porque não tinha o hábito de fumar trabalhando, em casa.
    Parar de fumar exige um esforço insano, muitas vezes imglório e nada romântico: cigarro vicia mesmo. E, apesar de ter parado, detestar e jamais lembrar dele, sua crônica me deu vontade de fumar…

  24. Meus pais fumavam (espero que o verbo esteja certo) e eu odiava aquilo. O Cheiro foi sempre insuportável. Mas uma vez tive votnade de experimentar. Todos fumavam…pq nao eu? Experimentei. Vomitei tanto…passei tão mal que nunca mais quis saber desta besteira de novo.

    Em tempo: Uma vez me apaixonei por uma menina que fumava. Por sorte ela tinha a sensibilidade de ter em sua bolsa aquele halls preto e de ficar algumas horas sem fumar antes de eu chegar.

  25. Muito boa crônica. Tango e cigarros… em Buenos Aires fumam desbragadamente.
    Fumei por 29 anos. Várias tentativas e alguns fracassos depois, eu finalmente consegui largar o cigarro. Lembrei do cabelo e roupas fedendo. No seu caso, fedor pelo cigarro alheio. No meu, eu propria promovia esse desconforto. Adiós fumo compañero de mi vida!! esso no es tango.

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