Daniel de Plá: morros, o novo foco na era digital

A história de Daniel de Plá começa, a bem dizer, no dia em que Pedro Plá precisou tirar retrato para um documento no Centro do Rio. O garboso catalão entrou no primeiro estúdio que encontrou, onde foi fotografado pela galega Lola, filha do dono do estabelecimento. Revelação vai, cópia vem, os dois descobriram que tinham vários pontos em comum além da origem espanhola. Apaixonaram-se, casaram-se e foram morar na Urca, onde nasceu Daniel. Um ano depois, a pequena família mudou-se para Niterói, impulsionada pelo sonho do estúdio próprio. Daniel cresceu entre câmeras, rolos de filme, cópias. Ainda pequeno, tinha a missão de entreter os filhos dos clientes, para que saíssem sorridentes nas fotos. De lá para cá estudou economia e direito, fez mestrado nos Estados Unidos e prepara-se para um doutorado em educação, mas nunca abandonou a primeira profissão. A fotografia, que seu bisavô já exercia na Galícia há cem anos, é o fio condutor da sua vida, o métier que lhe deu, aos 19 anos, a cobertura em que mora até hoje em Ipanema.

— Com as câmeras digitais e com os celulares todos viraram fotógrafos. Mas, naquele tempo, não havia tantos fotógrafos assim. Um bom álbum de casamento custava caro, e eu fiz muitos e muitos álbuns.

Daniel gostava de remar contra a corrente, e fazia disso uma ferramenta de marketing. Quando todo mundo ainda fotografava com 6 x 6, ele adotou uma câmera de 35mm, e não hesitava em usar o autofoco, para horror da geração mais velha. Destacava, então, a modernidade do equipamento. Quando todo mundo adotou as câmeras de 35mm, ele passou a usar uma Hasselblad 6 x 6, louvando a qualidade dos negativos maiores. As noivas e suas famílias ficavam muito contentes com o serviço diferenciado.

— O estúdio dos meus pais era o mais requisitado de Niterói, — lembra Daniel. – Além de produzir boas fotos, os dois faziam coisas muito avançadas em termos de marketing – coisa que mal e mal existia na época e da qual, naturalmente, nunca tinham ouvido falar. Agiam intuitivamente. Por exemplo, depois de fotografados, os clientes deviam voltar à loja para escolher as fotos que queriam ampliadas. Pois mamãe marcava todos no mesmo dia, mais ou menos no mesmo horário, para dar impressão de grande movimento. Essa técnica, que hoje em dia se chama crowding, é considerada muito sofisticada pelos livros de marketing, que garantem que só as grandes empresas sabem usa-la com eficicácia…

O estúdio de Niterói consolidou-se e prosperou. Através de franquias, chegou a se tornar, na década de 1990, a maior rede mundial de lojas de fotografia numa mesma cidade, com 150 lojas, e chamava a atenção de colegas em outros países. Daniel apresentou o “case” em incontáveis feiras de fotografia. Elas lhe permitiram juntar o útil à vontade de viajar que quase o levou à diplomacia, da qual desistiu quando descobriu quanto era o salário de um diplomata.

Tudo ia muito bem até que, do dia para a noite, a fotografia digital se popularizou. Como tantas e tantas outras empresas que estavam no ramo da fotografia tradicional, a De Plá também foi varrida pela nova onda.

— Onda não, — corrige. – Tsunami!

A rede encolheu e se adaptou à demanda: as três lojas que sobraram atendem atualmente a 20% do mercado carioca. A essa altura, contudo, ele já estava tendo novas idéias. Quando terminou o ciclo de graduação e pós graduação em economia, teve vontade de fazer direito. Os amigos que estavam na área não recomendaram: “Deixe para fazer isso quando tiver 50 anos!”.

Daniel seguiu o conselho. Há cinco anos, quando alcançou a fatídica marca dos 50, matriculou-se na Candido Mendes. No primeiro dia de aula, já tinha lido a constituição e o código civil. Foi no decorrer dessa leitura que descobriu uma causa, personificada no terceiro parágrafo do artigo 183, que reza: “Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião”. Ali estava um dos maiores problemas dos seus vizinhos do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho.

— Esse parágrafo significa que os moradores de favelas erguidas em terrenos públicos jamais terão qualquer segurança jurídica. Precisamos de uma emenda constitucional que resolva isso. Se o morro fosse da tua avó, a situação estaria resolvida. Você iria a um juiz, dizendo que o morro era da família; o juiz estudaria o caso e diria sinto muito, vocês ficaram sem mexer na terra, essas pessoas foram lá e construíram as suas casas, não há nada a fazer. Isso é correto. O uso social é mais importante do que a economia de uma família displicente. Mas quando as terras são públicas, o usucapião não vale. Isso perpetua os currais eleitorais, a vulnerabilidade dos habitantes dessas terras e, em última instância, um círculo vicioso de estagnação econômica.

Ele logo encontrou outras pessoas que pensavam da mesma forma, como Marcílio Marques Moreira, Joaquim Falcão, da Fundação Getúlio Vargas, ou Luiz Roberto Cunha, decano de ciências sociais da PUC. Mas encontrou também gente que discordava, e que afirmava que os moradores das comunidades não pagariam os impostos e venderiam as casas.

— Bom, em princípios de 2007 eu cansei da teoria e fui ver o que o pessoal do morro tinha a dizer em relação ao assunto. Fui levado por uma amiga que tinha fortes vínculos com a comunidade e conversei com muita gente. E fiquei sabendo que eles queriam os títulos de propriedade, e que estavam dispostos a arcar com as obrigações decorrentes disso. É lógico que você não vai cobrar de uma casa no Cantagalo o mesmo imposto que se cobra na Vieira Souto. Num primeiro momento, o imposto deve ser simbólico. Mas, a partir do momento em que uma pessoa de mais posses compra uma propriedade dessas, o valor pode ser aumentado de acordo com a transação imobiliária. Com a existência de títulos de propriedade, por sinal, o governo passa a ter conhecimento desse mercado. Há um aquecimento natural a partir dos títulos. Casas que hoje valem 50 mil reais passariam a valer três ou quatro vezes isso, por causa da segurança jurídica. Hoje, pelo que conheço do morro, tenho certeza de que mais de um terço dos moradores não sairia, nem venderia suas casas. Eles têm uma história lá, têm um profundo amor pelo que construíram.

Daniel descobriu um novo guru, o economista peruano Hernando de Soto, cujo Instituto de Liberdade e Democracia elaborou as reformas administrativas que deram títulos de propriedade a mais de um milhão de famílias no Peru. De Soto, que a revista Time apontou como um dos cinco principais inovadores da America Latina, defende a idéia de que o título de propriedade é o primeiro passo para o progresso econômico. Com ele, o morador de comunidade transforma-se em proprietário, e passa a ter algo para dar como garantia de empréstimos.

— Ele passa a poder levantar dinheiro para montar o seu negócio: pode chegar no banco, provar que tem uma casa, e pedir dinheiro para abrir um restaurante, — empolga-se Daniel. — Assim, aos poucos, a favela deixa de ser favela, porque passa a ter uma integração real com a cidade.

Àquela primeira visita seguiram-se outra e mais outra e outra, e logo Daniel virou habitué. Mais do que respostas à sua pergunta, descobriu todo um universo de novidades – e de fotos maravilhosas.

— Subi pela primeira vez para conversar sobre a questão dos títulos de propriedade, mas, quando cheguei lá, me senti como um autêntico gringo no morro, com vontade de fotografar tudo. Senti o encanto que os gringos devem sentir diante de toda aquela criatividade. Digo “gringos” porque a maioria dos brasileiros não vê isso. Sem falar na educação das pessoas, que passam por você e dão bom dia e boa tarde. Você é muito bem recebido, o tempo todo.

Antes que 2007 terminasse, Daniel de Plá já tinha feito mais de cinco mil fotos das comunidades do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, e foi convidado a fazer uma exposição na Casa de Cultura Laura Alvim.

— A fotografia me abriu as portas do morro. Comecei a fotografar regularmente, e a levar cópias das fotos para as pessoas que fotografava. As crianças ficavam fascinadas e colavam as fotos nas portas, nas paredes.

Professor de marketing de varejo na Fundação Getúlio Vargas, ele sempre levou seus alunos para os shoppings, para estudarem as lojas e as suas características. Quando descobriu o morro, Daniel descobriu simultaneamente as biroscas, que muitas vezes não passam de uma janelinha numa casa. Daí a levar os alunos ao morro foi um pulo. Desde 2008, ele leva também grupos de estudantes estrangeiros para conhecer a realidade das comunidades. Os grupos, que têm entre 15 e 30 jovens, passam seis horas na favela. Conversam com os moradores, soltam pipa com as crianças, comem bolo e tomam cafezinho. Os depoimentos que deixam são cheios de entusiasmo: todos são unânimes em dizer que a visita mudou a idéia que faziam das comunidades, e a maioria diz que a experiência foi a mais bonita vivida no Brasil.

A grande experiência de Daniel aconteceu no final de 2007, quando foi convidado, pela primeira vez, a passar o réveillon no morro (desde então, nunca mais virou o ano em qualquer outro lugar).

— É o réveillon mais bonito do mundo, e não só pela vista completa dos fogos. Você sobe e as pessoas só te dizem uma coisa: “Paz”. É muito emocionante. Naquele primeiro ano, quando os fogos terminaram, pedi à pessoa que tinha me acompanhado até lá em cima para me acompanhar na descida, porque eu tinha outra festa para ir. E ouvi: “O que é isso, Daniel, você não precisa de ninguém, você já é da comunidade”. Foi o maior prêmio da minha vida.

(O Globo, Rio, 8.7.2012)

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12 respostas em “Daniel de Plá: morros, o novo foco na era digital

  1. Pingback: Entenda Favela

    • Não sou a favor de divulgar: aumenta a visibilidade desses caras, e eles vão continuar a vender gatinhos, porque não é proibido. A única coisa a fazer é campanha por adoção responsável.

      • Ué… Há uma loja de animais ali na Santa Clara, perto do L´Arosa que tinha, até 3 semanas, um gato lindo branco, bonito dentro de uma gaiola onde ele nem conseguia se mexer… Isso sim é absurdo. Este site é de venda de animais, só isso… Vocês sabem que isso existe, não ? Tem na Barra, Ipanema, Copacabana… Quem quer adotar, adota.. Quem quer comprar, compra ! ( por sinal, nesta loja de Copacabana há uns papagaios lindos…. por R$ 3.900,00 ! )

        • O papagaios estavam legalizados? Tinham anilha? Em relação ao gatinho em uma gaiola desconfortável não há o que fazer? Onde denunciar?

  2. Boa coluna. Achei o Daniel bem romantico. Sem duvida o pessoal das comunidades sao simpaticos e educados. Nao sao diferentes em nada daqueles que moram aqui embaixo. Porem, convivem com uma carencia de infraestrutura imensa.

  3. Coluna interessantíssima, Cora, pelo menos para mim, um legítimo filho de fotógrafo.
    Como moro no Brasil há quase 40 anos, De Plá sempre atiçou minha admiração de como, com espírito empreendedor, trabalho e qualidade, era possivel viver e muito bem apenas da fotografia! A onda sísmica digital arrastou Kodak’s e outros gigantes…
    Louvo a luta pelos títulos, mas as favelas precisariam obras infraestruturais gigantescas para deixarem de ser o que são no que respeita a meio ambiente e qualidade de vida.

    • Oi Cora, quanto tempo não escrevo nos comentários.
      Me identifiquei muito com o que você escreveu sobre a novela Gabriela. Chamei Silvia para ler porque as coincidências de nossas críticas nos fez rir.

      Outro assunto, minha gatinha tem quinze anos e de repente começou a ter uns espasmos estranhos, começou a emagrecer e vomitar constantemente. Diagnóstico: tiroide. A doutora Márcia, super indicada por quem tem gatos em Belo Horizonte passou a medicação(Tapazol) e em um mês Kika recuperou o peso, cessou os vômitos e para nossa alegria agora está bem. Dar os comprimidos também foi outra história, por um momento puro desespero. Nenhuma dica no you tube resolveu. Mas descobri (gênio!!!) um jeito de triturar o remédio e misturar numa ração apetitosa e úmida e tudo resolvido.

      Estava no show do Gil e foi mesmo emocionante.
      Abraço,
      Antonio

      • Que bom que a gatinha ficou boa! Eles têm as coisas mais inesperadas — aqui em casa o Tiziu está com caspa. É gordinho demais, não consegue lamber o lombo e sobra pra gente a tarefa de escova-lo…

        Seja bem-vindo de volta aos comentários!

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