Suketu Mehta: “Eu queria louvar Bombaim”

É impossível falar de “Bombaim: cidade máxima” (Companhia das Letras, tradução de Berilo Vargas) sem recorrer a mais adjetivos e superlativos do que recomendam os manuais da boa escrita. O livro, não-ficção que se lê como romance extraordinário, foi sucesso em todos os países onde foi lançado, emplacando uma lista de “melhores do ano” atrás da outra. No processo, acabou por transformar o autor, Suketu Mehta, no escritor de quem todos se lembram quando o assunto é a gigantesca metrópole indiana. Mehta, que nasceu em Calcutá, cresceu em Bombaim e mora em Nova York, onde ensina jornalismo, é regularmente convocado a escrever sobre a cidade nas principais revistas de língua inglesa. Aos 49 anos, ele anda às voltas com uma nova missão: traduzir em livro a sua cidade de adoção, assim como fez com a sua cidade natal. Conversamos por email, pouco antes da sua viagem para o Brasil. Ele veio para a Flip e participa, hoje, da mesa “Cidade e democracia”, com Roberto DaMatta.

 — O que o levou a escrever “Cidade máxima”, e quanto tempo levou na empreitada?

Eu queria contar a história da grande cidade através de pequenas histórias. E a história que conecta todas as outras é a minha – a da minha busca à resposta da eterna pergunta, “É possível voltar para casa?” Eu não tinha modelo para esse livro, que é em partes iguais memória, jornalismo, história oral, ensaio, descrição de viagem. Queria apresentar meus personagens por inteiro, em toda a sua complexidade, como acontece com os personagens de ficção. Joseph Mitchell e A. J. Liebling, do “New Yorker”, foram os escritores que mais se aproximaram do que eu tinha em mente. Eu queria louvar Bombaim como eles louvaram Nova York.

Voltei para Bombaim por dois anos e meio, para recolher material. Aí precisei tomar distancia da cidade, e voltei para Nova York, aquela cidade tão Bombaim, e passei quatro anos escrevendo o livro – no todo, sete anos de trabalho.

— Seus filhos sentem saudades da vida em Bombaim?

Nesse exato momento, meu filho mais velho está estagiando numa revista em Nova Delhi. Eu os levo de volta à Índia regularmente. Do jeito que a economia vai nos Estados Unidos, encaro a possibilidade de que, ao começar a procurar por emprego, eles tenham que voltar ao país que o seu avô deixou, em busca de oportunidade econômica.

— Você está trabalhando num livro sobre Nova York. Entre Bombaim e Nova York, qual é a melhor personagem literária?

Escrever sobre Nova York está sendo formidável. O livro tem uma estrutura parecida com a de “Cidade máxima”: começa com a minha chegada à cidade, aos 14 anos, e continua com a minha vida até os dias de hoje. É a história de pessoas recém-chegadas à Nova York contemporanea. Dois em cada três nova-iorquinos são imigrantes ou filhos de imigrantes. Meu livro conta suas histórias, entrelaçadas com a minha própria experiência. Em “Cidade máxima”, eu estava de olho nas gigantescas megacidades do mundo em desenvolvimento, que se caracterizam pela migração em massa do campo, pela paisagem urbana caótica e por uma sensação de liberdade que não existe no resto dos seus países. No livro sobre Nova York, olho para o que está acontecendo com as cidades dos países ricos, que alcançaram um grau de maturidade e estabilidade, mas enfrentam grandes desafios para assimilar imigrantes do mundo inteiro.

— Você encontrou personagens fantásticos quando escreveu “Cidade máxima”. Continua em contato com eles? Algum se queixou do tratamento recebido no livro?

Continuo em contato com muitos deles, e os vejo sempre que vou a Bombaim. Apenas um reclamou do livro: um cineasta de Bollywood que achou que não foi suficientemente elogiado. Ele ameaçou me pegar quando eu for à Índia, e pediu para o livro ser proibido – muito embora tenha confessado que nunca o leu.

— Como os mumbaikars, os habitants de Bombaim, reagiram ao livro?

O maior elogio ao meu livro é que ele tem sido amplamente pirateado nas ruas da cidade. Crianças o vendem nos sinais. Uma vez um menino desses veio até o meu taxi com uma pilha de livros, e o meu era o que estava por cima. “Toda Bombaim está nesse livro!” me explicou. “Quanto é?” perguntei. “Quatrocentas rúpias”, ele respondeu. “Você sabe que eu sou o autor desse livro?” “Ah, é? Então pode levar por duzentas!”

— Oito anos se passaram desde a publicação de “Cidade máxima”. A Índia mudou, de lá para cá?

A Índia é um país muito mais confiante hoje em dia, confiante no seu lugar no mundo e na sua posição de superpotência do século XXI. As cidades vivem uma explosão de consumo, com shoppings, carros, roupas de grife; este não é mais o país de Gandhi. Os últimos 65 anos, desde a independência da Inglaterra, viram a maior transferência de poder da história mundial, de uma pequena classe dominante para a efetiva maioria do bilhão de pessoas que vive lá – uma maioria que havia sido alijada do poder político ao longo dos cinco milhões de anos da história indiana. O grande desafio que o país enfrenta é fazer com que a essa transferência política siga-se também uma transferência econômica. Caso contrário, haverá uma explosão, porque as massas indianas não acreditam mais, como costumavam acreditar, que são pobres por causa de pecados cometidos em encarnações anteriores. Elas querem ser ricas, ou pelo menos pertencer à classe média, no seu tempo de vida.

— Os direitos de filmagem do seu livro foram adquiridos em 2009. Quando assistiremos ao filme?

Danny Boyle usou meu livro para filmar “Quem quer ser um milionário?” e acabou comprando os direitos depois do filme estar pronto. Mas eu adoraria receber propostas de cineastas brasileiros. Dois dos filmes de que mais gostei ultimamente foram “Cidade de Deus” e “Tropa de elite”. Com ligeiras modificações, eles poderiam se passar em Bombaim em vez do Rio.

— Você foi co-autor de “Missão Kashmir”, filme de sucesso na Índia. Tem planos de escrever outros roteiros para Bollywood?

Este roteiro, de “Missão Kashmir”, foi parte da pesquisa para o livro. Cresci com os filmes de Bollywood; cantarolo as suas músicas para me reconfortar em países frios. Eu queria saber como eles eram feitos, conhecer os seus bastidores. De modo que me encontrei com todo mundo, das estrelas aos dublês, e acompanhei o filme do conceito à distribuição. Acho que há uma enorme vitalidade nesse meio: a cada ano, Bollywood vende um bilhão a mais de ingressos do que Hollywood, o que faz dos filmes indianos a forma de diversão mais popular do planeta. Bollywood enfrenta o monólito da cultura de massa norte-americana de cima para baixo. Eu adoraria escrever um novo roteiro. É tão divertido!

— A India e o Brasil fazem parte dos BRICs. Você acha que essa parceria faz sentido?

Andei viajando um bocado para o Brasil nos últimos tempos. Passei uma semana nas favelas cariocas em dezembro passado, observando o programa das UPPs. Vejo muitos, muitos pontos em comum entre as nossas cidades, e acho que temos muito a aprender uns com os outros – apesar das enormes diferenças. Somos dois países que sentem que este será o seu século, quando emergirmos das sombras das nossas desafortunadas histórias, e tomarmos, enfim, os nossos lugares no palco mundial. O maior perigo que enfrentamos é um excesso de autoconfiança. Eu adoraria ver encontros, não só de intelectuais, mas de gente comum – uma delegação da Rocinha, por exemplo, visitando Dharavi, em Bombaim, e comendo e bebendo e rindo junto. Eu adoraria ver casamentos entre brasileiros e indianos: produziríamos as crianças mais afetuosas do planeta.

— Mumbai ou Bombaim? Ainda faz diferença?

Não havia nenhuma razão para mudar o nome. É besteira dizer que Mumbai era o nome original – Bombaim foi criada pelos portugueses e ingleses a partir de um grupo de ilhotas cheias de malária, e eles deveriam conservar o privilégio do batismo. Nós do Gujarat e de Maharashtra sempre a chamamos “Mumbai” quando falamos em gujarati ou marathi, e Bombaim (Bombay) falando inglês. Não havia necessidade alguma de escolher um nome só. Em 1995, o partido nativista Shiv Sena exigiu que usássemos “Mumbai” em todas as nossas línguas. Eu me oponho ao privilégio de um nome sobre todos os outros nomes.

(O Globo, Prosa e Verso, 7.7.2012)

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16 respostas em “Suketu Mehta: “Eu queria louvar Bombaim”

  1. “adoraria ver casamentos entre brasileiros e indianos: produziríamos as crianças mais afetuosas do planeta”

    Taí uma frase muito bonita e que faz pensar.

  2. Pôxa, Cora! Eu não posso mais dizer-me assíduo leitor, porque dou por mim desastrosamente ultrapassado…:(! Globo Prosa e Verso é novo para mim.
    Ler sua entrevista arrasta para a aquisição do livro.

  3. Eu sempre fui distraída, mas agora acho que estou caducando!
    Eu tinha lido a matéria no sábado e na hora pensei: nossa legal! A Cora vai gostar disso.

    :-/
    Oh, God…

      • Ó Cora! Eu sei. Mas quando passo sobrevoando pelo jornal, vejo muito mas näo tudo. Imagina quantos detalhes eu perco! Os Globos vão se empilhando aqui porque eu sempre quero voltar neles por alguma coisa que faltou ver ou que preciso muito ler outra vez. O de sábado está lá também. 🙂 Eu queria acabar com ele mas hoje já é 4a feira e eu estou atropelada pelas acontecências dos dias sem conseguir acompanhá-las. Meu mundo tem sido assim.
        Legal é o De Plá, que no primeiro dia da faculdade já havia lido a constituição e o código civil! E provavelmente tem tudo, ou muito, armazenado na cabeça.

        Outro assunto é eu não conseguir ficar sem o jornal de papel. As vantagens do digital são poupar celulose, poder ler na rua, no engarrafamento, no elevador (que coisa, não?!) e a principal, compartilhar na mesma hora um artigo, por N motivos sensacional.
        Da curiosidade pela autoria, ao final da leitura voraz de uma matéria boa de ler, eu esqueço de voltar os olhos pra cima. Eu não perco esse detalhe importantíssimo quando a autoria em letras miúdas está no final! Porque passo pelo nome antes de um artigo vizinho roubar a atenção.

        Meu déficit de atenção está dando a mão pro Mal de Alzheimer. Meu futuro é sombrio. Que medo!

  4. Pingback: Substantivo Plural » Blog Archive » Suketu Mehta: “Eu queria louvar Bombaim”

  5. “Eu adoraria ver casamentos entre brasileiros e indianos: produziríamos as crianças mais afetuosas do planeta.” Fiquei pasma com as palavras de Metha. Não sabia que indianos eram tão afetuosos quanto brsileiros. É de se pensar nisso, nesse “casamento”, não pelo fato em si, mas pela essencia do comentário do escritor indiano.

  6. “O maior elogio ao meu livro é que ele tem sido amplamente pirateado nas ruas da cidade. Crianças o vendem nos sinais. Uma vez um menino desses veio até o meu taxi com uma pilha de livros, e o meu era o que estava por cima. “Toda Bombaim está nesse livro!” me explicou. “Quanto é?” perguntei. “Quatrocentas rúpias”, ele respondeu. “Você sabe que eu sou o autor desse livro?” “Ah, é? Então pode levar por duzentas!””
    Maravilhoso! Fiquei com vontade de ler o livro.

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