Gilberto Gil 7.0

Gilberto Gil é, há anos, um ícone da cultura hi-tech. Entendeu a internet no seu significado mais profundo antes de qualquer outro personagem da MPB, abraçou o Creative Commons, distribuiu músicas em fitas do Senhor do Bonfim e, como ministro da cultura, fez o que pode para ampliar os horizontes do mundo digital no país; foi também o primeiro artista brasileiro a transmitir um show pelo YouTube, e o primeiro a ter um canal só seu no YouTube Brasil. Muito normal, portanto, que, como parte das comemorações dos seus setenta anos, ele desse mais um passo na banda larga do universo virtual: no domingo passado, no Festival Natura Musical, em Belo Horizonte, ele fez um dueto consigo mesmo. De um lado, o Gil real, de carne e osso; do outro, um Gil holográfico, tocando o acordeão que o pai lhe deu há 50 anos.

O efeito foi obtido graças a uma superposição de imagens. Primeiro, Gil gravou, em estúdio, o seu personagem virtual. Cantou, tocou e interagiu com os elementos cênicos do ambiente virtual. Na hora do show, o material gravado foi reproduzido com projetores de alta potência sobre uma tela translúcida instalada no palco. No fundo da tela, num outro plano, um cenário devidamente iluminado. A superimposição do Gil virtual com o cenário real criou a ilusão de tridimensionalidade vista pelo público, que delirou com a viagem.

Há no YouTube um vídeo dessa apresentação. Ele não transmite a dimensão exata do que foi o dueto dos dois Gilbertos, mas dá uma boa idéia do que foi o momento — e é, como não podia deixar de ser, ótima música. Está em youtu.be/ipp-o2JiZaA, mas pode ser alcançado também com a busca “Gil + holografia”.

Parabéns, Gil, querido mestre! Que venham outros setenta anos, ainda mais ricos e antenados.

o O o

O que acontece quando se juntam 16 mil processadores, fazendo um bilhão de conexões, numa das maiores redes neurais já desenvolvidas, e se dá a esse “cérebro eletrônico” a possibilidade de fazer o que quiser? Ele sonha com a conquista do mundo? Com a idéia de Deus? Com Gisele Bundchen? Que nada: como eu, você e todo mundo, ele começa a procurar vídeos de gatos na internet.

Essa curiosa experiência foi divulgada na semana passada pelo Google, que criou a rede no seu secretíssimo laboratório X. O “cérebro” foi alimentado por dez milhões de imagens randômicas, totalizando algo em torno de 20 mil objetos, sem qualquer espécie de instrução ou catalogação. O objetivo é que possa vir a identificar padrões que não tenham necessariamente tags, para agilizar sistemas de busca. Por exemplo, ele poderá identificar rostos sem que eles tenham sido rotulados.

“Durante o treinamento, nós nunca dissemos: ‘isso é um gato’” — disse Jeff Dean, da equipe do Google, ao “New York Times” – “A rede inventou sozinha o conceito de gato”.

Como seria de se imaginar, a notícia causou alvoroço na rede, onde a presença dos gatos é lendária. Seu efeito colateral foi aumentar ainda mais a presença dos bichanos online, já que a maioria dos blogueiros e jornalistas de tecnologia que repercutiu a notícia aproveitou para ilustra-la com fotos de seus próprios bichinhos de estimação.

o O o

Há uma piada recorrente entre os veterantos da internet que diz que a web 2.0 foi inventada só para que as pessoas pudessem mostrar ao mundo as fotos dos seus gatos. Como toda piada, essa também é só isso, uma brincadeira – mas não faria sucesso se não estivesse baseada num fenômeno real, que é a extraordinária popularidade dos felinos na rede. Eu sou um pouco suspeita para falar disso, já que a minha Famiglia Gatto teve website antes mesmo que eu fizesse um para mim; mas posso atestar, por experiência própria, o sucesso dos bichanos.

Durante muito tempo, tive conta no antigo Fotolog. No começo, não éramos os milhões de usuários que a comunidade logo conquistou, e várias vezes as fotos dos meus gatos foram as mais vistas do mundo. Algumas delas continuam a rolar por aí até hoje, em montagens, vídeos e gracinhas diversas. Depois fui para o Instagram, onde, até hoje, acontece o seguinte: posto uma paisagem estonteante do Rio ou alguma foto de viagem feita num lugar remoto do planeta, e recebo 150 “likes”; posto a foto de um gato e recebo 400 “likes”. Ora, como aprendo rápido, adivinhem qual é a temática básica da minha conta do IG…

(O Globo, Economia, 30.6.2012)

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9 respostas em “Gilberto Gil 7.0

  1. Eu, pessoalmente, adoro este fenômeno que desmistifica um pouco da figura felina…. isso é bom para a gataria.
    Quanto ao Gil, estou lendo agora Verdade Tropical, do Caetano. Apesar do autor ser um tanto quanto prolixo, estou adorando a descrição daquilo que eles passaram. Estou bem no capítulo a respeito do encontro dos dois: Caetano e Gil…. vale a leitura.
    Abraços Cora.

  2. Ótimo o vídeo do Gil e….
    … eu jamais falaria nisso se você não tocasse no assunto, mas como usuária do Instagram sinto a maior falta da sua “paisagem estonteante do Rio” e da foto feita em um “lugar remoto do planeta”.
    Mas, claro, quem sou eu buscando uma otimização criativa, num mar de sucesso e 400 likes?
    E, principalmente, quem sou eu, pra discutir com 7 gatos? 😉

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