Lições da internet

Quando comprei meu primeiro iPad, comprei também um teclado pequenino e bonitinho da Apple. Eu ainda não tinha nenhuma experiência com tablets, e achava que fazia sentido acoplar àquela bela tela um bom teclado. Continuo achando – mas hoje sei que andar com dois pedaços de computador na bolsa não é nada prático. Usei o tal tecladinho duas ou três vezes, se tanto. Depois, guardei-o numa gaveta de onde ele nunca mais saiu. Quando preciso digitar de verdade, uso o desktop ou o notebook, que foram feitos para isso.

Muita gente cometeu o mesmo erro – e continua cometendo, haja vista a próspera indústria de teclados que floresceu à sombra da tabletmania dos últimos anos. Nenhuma das soluções existentes no mercado, porém, é realmente prática, o que faz com que boa parte dos usuários acabe sendo forçada a ter tablets e notebooks, o que não deixa de ser uma foma de redundância. Por isso o lançamento do Surface, tablet da Microsoft, causou tanto alvoroço entre o povo que cobre tecnologia: aquela capa que faz as vezes de teclado é uma idéia simples e perfeita. Se funcionar bem, vai conquistar uma legião de fãs, usuários tanto de tablets quanto de notebooks, e poderá se tornar o novo padrão da indústria, aquele atrás do qual todos os fabricantes correm.

De qualquer maneira, antes mesmo de chegar ao mercado, o Surface já foi capaz de um feito inédito: apontou numa direção ligeiramente diferente do iPad, e fez todo mundo virar a cabeça para lá.

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Enquanto isso, na Escócia, o conselho escolar da cidade de Argyll acabou aprendendo uma boa lição na internet. Martha Payne, uma menina de nove anos, foi proibida de postar fotos da merenda escolar depois que seu blog (neverseconds.blogspot.co.uk) chamou a atenção da imprensa e sua escola foi criticada pelo pequeno tamanho das porções e pelo escasso valor nutricional das refeições.

A emenda foi pior do que o soneto. O ato de censura caiu na rede, e Martha recebeu apoio de todas as partes do mundo. Até o poderoso chef Jamie Oliver saiu em sua defesa. Resultado: o conselho acabou voltando atrás, e Martha continua postando fotos da comida da escola.

Never seconds (em tradução livre, “sem repeteco”) é um típico blog de comida. As fotos são acompanhadas da descrição dos pratos, com alguns detalhes especiais: Martha diz quantas bocadas a refeição rendeu, quantos fios de cabelo foram encontrados nela e atribui notas ao sabor dos pratos. Desde que virou notícia mundial, passou a postar também fotos que crianças de outros países lhe mandam mostrando as suas respectivas merendas.

O ato impensado do conselho escolar teve um efeito colateral muito positivo. Martha e suas colegas fazem campanha para uma ONG chamada Mary’s Meals, que constrói cozinhas escolares em países em desenvolvimento e alimenta estudantes. Pois depois que Never Seconds ficou famoso, a ONG recebeu mais de cem mil libras, o que vai dar para construir várias cozinhas e alimentar um bocado de crianças durante um bom tempo. Se todos os atos de censura tivessem desfechos semelhantes, o mundo não teria problemas…

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Um dos vídeos mais repugnantes dos últimos tempos mostra Karen Klein, uma senhora de 68 anos, monitora de ônibus escolar em Nova York, suportando estoicamente dez minutos de xingamentos ininterruptos de um grupo de adolescentes. A resposta ao vídeo foi indignação geral – e a criação de um fundo para que ela possa tirar férias do lixo com que é obrigada a conviver. No momento em que escrevo isso, este fundo já havia arrecado US$ 434.966,00 642.191, 00 em doações feitas por mais de 20 mil pessoas. Para os que gostam de culpar a internet por todos os males da humanidade, não custa lembrar: o bullying aconteceu na vida real. Na internet, aconteceu a maravilhosa demonstração de solidariedade.

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A exposição ://humanidade2012, que terminou ontem, foi um show de tecnologias simples mas eficientes, que em nenhum momento se sobrepuseram à informação que ajudavam a transmitir. Leds, lasers, telas, plotters, painéis luminosos – todos foram usados à perfeição para compor um instantâneo da humanidade neste ano de 2012.

(O Globo, Economia, 23.6.2012)

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7 respostas em “Lições da internet

  1. O meu primeiro smartphone foi um Milestone 2, da Motorola, justamente por causa do teclado. Não recomendo. O negócio travava frequentemente, o tal do teclado disparava a repetir a mesma tecla ao mais leve toque. Depois descobri que era um defeito comum do aparelho. Passei quase um ano com ele porque achava um absurdo me desfazer de um produto tão caro em pouco tempo.
    Hoje tenho um iPhone 4S e não sinto dificuldade nenhuma para digitar até mesmo textos um pouco mais longos.

    Adorei conhecer a história do Never Seconds. Realmente, em tempos de internet ultra-rápida, é difícil pensar em censura e qualquer movimento que vise à restrição provavelmente fará com que o objeto a ser censurado ganhe mais visibilidade.

    É sempre um prazer ler histórias de como a internet pode ser utilizada para movimentar pessoas para o bem como o caso dessa senhora de Nova York.

    Adorei o post, Cora!

  2. Vou pular a parte sobre tablets pois não tenho experiências com nenhum deles. Tenho alguma dificuldade com teclados virtuais, quando topo com um, mas com a ajuda do meu celular – ou melhor smartphone – vou me acostumando a usa-los. Apesar de achar que deixam a tela nojenta de tão gordurosa – e pra isso não acontecer fico limpando o tempo todo.

    O episódio da escola escocesa é bem emblemático do que se vive hoje. Embora muitos tentem ainda exercer a censura ela está cada vez mais difícil. Sites, redes sociais, de compartilhamento de vídeos, textos, fotos, etc, tornam praticamente impossível que alguém tente censurar informações. O perigo está exatamente no excesso de informações. O ruído que distrai, e acoberta o que realmente interessa.

    Já no caso da senhora que sofreu bullying achei muito boa não só a divulgação do vídeo, e da situação, como a reação causada pelo fato. Pesquisando na rede acabei sabendo que houve reações dos pais dos alunos que praticaram o bullying, obrigando os mal educados a se desculparem, da comunidade que se revoltou com a atitude dos moleques, a tal ponto que a polícia precisa protege-los de ameaças de agressão. Pelo que li a senhora já recebeu o suficiente para conseguir se aposentar de fato (ela é aposentada e trabalhava como monitora para complementar o valor da aposentadoria que é muito baixo) mantendo o mesmo padrão de vida. Especula-se que até o final da campanha ela estará milionária. O único pedido que ela fez foi para que a escola a mudasse de ônibus.

  3. Eu também fiquei muito impressionada com o vídeo de bullying e a reação consequente.
    Mas, acho que a Internet- e os meios de expressão ao longo dos tempos e de maneira geral- depende, em última instância, de como e por quem é usada.
    Pode se transformar num veículo tanto para promover, como para reparar, uma injustiça.
    E, o mesmo se dá com o comportamento humano, na tal da vida real.
    Sob este aspecto, sem querer minimizar as vantagens da tecnologia, nada de novo sob o sol.
    Sem um comportamento ético, no mundo, estamos ferrados.

  4. Decididamente detesto teclados virtuais. Tá bom, a culpa é minha, meus dedões não servem para isso! 😦

    Mas você tocou em um ponto muito importante, a “censura” na internet. Acho que estamos participando de uma espécie de revolução (ou será evolução), onde a tecnologia permite que a a informação circule com tanta rapidez que qualquer tentativa de bloqueio se revela, em algum momento, inócua. Basta ver o que vem acontecendo na Grécia e em alguns países do Oriente Médio.

    Fico aqui pensando com meus botões o que teria acontecido no Brasil se a internet já existisse em 1964!

  5. Quando mudei do symbian (N95 8GB) para o Iphone fiquei em duvida se não sentiria falta de um teclado físico, já que era craque no T9.

    Quase comprei o Milestone só por causa do teclado, mas acabei mesmo, migrando para o IOS

    Não me arrependo, pois para minhas tarefas não há necessidade de um teclado físico.

    Achei o Surface uma tentativa de ser um mini Ultrabook, mas vamos ver como o mercado reage.

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