Tempo de Rio+20

Tive a sorte de não precisar aprender ecologia na escola; se precisasse, estaria em maus lençóis, apesar de ter estudado no progressivo Brasileiro de Almeida. É que sou do tempo em que ecologia era só uma palavra no dicionário. Lá em casa, porém, o substantivo era verbo do dia a dia. Laura e eu crescemos com plena consciência de que nem o planeta nem nossos pais tinham recursos infinitos; assim, desde crianças, éramos orientadas a apagar a luz nos cômodos onde não estivéssemos (“Não somos sócios da Light!”) e a não ficar horas no chuveiro. A primeira lição foi muito bem aprendida. A segunda, nem tanto – mas, até hoje, quando extrapolo no banho, sinto dor na consciência pelo desperdício de água.

A preocupação dos meus pais com o ambiente ia além dessas medidas simples. Quando construíram o sítio, nos anos 60, instalaram uma composteira, onde o nosso lixo doméstico era transformado em adubo, e correram atrás de aquecimento solar para a água que usávamos. O conceito era tão novo que Mamãe só teve sucesso na busca dessa tecnologia muitos anos depois.

Embalagens plásticas eram evitadas sempre que possível. Desde que me tenho por gente, vejo Mamãe levando uma sacola de pano na bolsa. Durante muito tempo, aliás, bolsas assim não atendiam por “ecobag”, mas sim por “esquisitice”; Mamãe, porém, não estava nem aí. Outra coisa muito útil que aprendemos com ela foi  não nos preocuparmos com a opinião alheia.

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Quando moramos nos Estados Unidos, estranhamos o uso alucinado de pratos, copos e talheres de plástico: será que poupar o trabalho de lavá-los compensava a poluição perpétua do planeta? Também não entendíamos os micro-copinhos plásticos que continham uma colher de sopa de leite para o cafezinho. Custava deixar o leite numa jarrinha, junto ao café? Quatro décadas se passaram, e nada mudou por aquelas bandas. Continuo perplexa com o descarte de um copinho não-biodegradável a cada pingado que se tome, com o uso indiscriminado de produtos plásticos descartáveis e com a quantidade de embalagens ecologicamente irresponsáveis.

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Reciclavamos tudo quando eu era criança, de pedaços de barbante a vidros de géleia. Até hoje não consigo jogar fora potes vazios, caixas bonitas, laços de fita. Mas o que menos se jogava fora lá em casa era comida. Isso ia além de princípio ecológico, e entrava na categoria pecado. Crescemos ouvindo falar das criancinhas da África e da Índia, e aprendemos a não por no prato nada além do tamanho da nossa fome. Hoje o mundo produz mais alimentos do que se imaginava possível naqueles tempos, mas a noção de que comida é algo sagrado não se apaga só assim do DNA. Fico impressionada com a quantidade de frutas e legumes que ficam pelas calçadas nas feiras livres, e me faz muito mal saber que a comida que sobra nos restaurantes que servem por bufê ou por quilo vai para o lixo no fim do dia.

Confirmando essa impressão de desperdício, o Ancelmo informou, domingo passado, que somos um dos países que mais jogam comida fora: segundo pesquisa recente do Banco Mundial, 61% do nosso lixo são restos de alimentos. A título de comparação, no lixo alemão encontram-se apenas 14% de material orgânico.

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Li uma reportagem, há alguns anos, sobre um grupo de resistência cultural californiano que só consumia o que encontrava nas lixeiras dos supermercados. Seus membros, que não faziam isso por razões econômicas, argumentavam que era um absurdo deixar de consumir um produto no dia 15 porque algum burocrata estabelecera que seu prazo de validade ia só até o dia 14. Para evitar ações do grupo, muitos supermercados passaram a destruir os alimentos antes de jogá-los fora. A polícia prendeu algumas pessoas que tiraram comida do lixo, mas não prendeu nenhum comerciante que destruiu comida. Isso me deu muito o que pensar.

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Durante o fim de semana, meus amigos subiram lindas fotos da exposição que está no Forte para o Instagram. Todos ecoavam o encanto de mestre Zu que, no sábado, a recomendou como mostra imperdível. Matei a curiosidade na terça à noite, e junto minha voz às dos que a viram antes de mim: ://Humanidade2012 é um acontecimento, uma experiência única, um tremendo acerto – mais um! – da super Bia Lessa. Suas nove salas e vários espaços abertos trazem mais informação do que é possível assimilar, mas suponho que os números que “falam” conosco durante toda a visita cumprem um duplo papel paradoxal. Eles são ao mesmo tempo protagonistas e coadjuvantes de um espetáculo essencialmente sensorial, em que imagens, sons e sensações se sobrepõem ao que ilustram, formando um instantâneo do vasto formigueiro humano que domina a Terra.

A própria quantidade de gente atraída pela exposição (60 mil visitantes diários no fim-de-semana) é uma informação em si mesma. Se alguém ainda tinha alguma dúvida, ali está a prova: somos realmente muitos! Temos todas as cores, feitios e idades, e somos irremediavelmente curiosos, ou ninguém enfrentaria as imensas filas que se têm formado todos os dias no Forte.

(O Globo, Segundo Caderno, 21.6.2012)

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13 respostas em “Tempo de Rio+20

  1. Ôtima crônica, Cora. Também tenho o hábito de não descartar nada que tenha utilidade. Junto montes de potes, fitas e todas as sacolas de plático e papel que recebo durante o ano. No final do ano faço ‘capinhas’ em tecido para as tampas dos potinhos e envio, junto com as sacolas, para a Instituição das cegas Helen Keller que as vende em seu bazar.
    A coisas boas que os meus filhos (na época meninos) aprenderam na Rio 92 fazem parte definitiva do seu dia a dia. Consciencia ecologica é apredizado mesmo, vem junto com a educação.

  2. Tirando a composteira, minha casa era bem semelhante à sua. Minha mãe sempre disse que poderíamos repetir quantas vezes quiséssemos, mas comida colocado no prato não voltava pra cozinha. Agora que moro em casa, fico feliz em ver meu lixo reduzidíssimo. As poucas cascas que não como, de ovos, laranja, mamão, ovos, vão pro composto, junto com borra de café e chá. Meu jardim tem pés de tomate, maracujá e abóbora por todos os lados, por conta das sementes no composto. Comida que sobra nos pratos de visitas são comidas pelas galinhas. Baldes vazios de cloro são excelentes para guardar a ração dos meus peludos, bem lacrados que são. Os pequenos guardam sabão em pó, que nunca mais empelotou. Eu sou do tempo em que latas não tinham data de validade e continuo pensando assim. Não acredito que o leite condensado se suicide no dia apontado na lata. Se não está cheirando mal, se a lata não estufou, eu como. E faço um falso souflée delicioso, batendo no liquidificador sobra de macarrão, de camarão, de legumes, juntando leite, ovos e queijo que fica delicioso. 😉

  3. Fui lá na terça feira às 11 horas.
    Lotado, gente para todos os lados.
    Perguntei: Qual o melhor horário para chegar tranquilamente ?
    O cara disse: 8 e meia, nove horas ! O portão abre às 10 !
    OK. Fomos na quarta feira, chegamos 8:45 h.
    20 pessoas na nossa frente.
    A fila foi crescendo, crescendo e crescendo. Quando abriu às 10, acho que tinha umas 600 pessoas atrás de nós.
    Aliás, curioso isso, atrás de nós tinha um casal com um homem de terno, uma moça bonitinha, um outro casal jovem.
    Pois bem…quando as portas se abriram, surgiu do nosso lado, dois jovens recém-chegados a eventos de classe mundial.
    Daonde vieram ? Lááááé de trás, afinal quem são eles para esperar que a fila ande ? Tenho que chegar antes ! Farinha pouca, meu pirão primeiro… Eu hein… Vou correndo ! E eles foram avançando.. acho que entraram antes do primeiro da fila ! ( risos )
    O evento é extraordinário ! Minha esposa chorou de emoção. Já fomos a n eventos pelo mundo a fora e igual a este é raro…. está dificil de lembrar algo parecido. Todas as salas são especiais, todas lindas, tudo muito criativo… caramba, que troço excelente !

  4. Gostei muito da crônica, Cora!
    Adoro comida requentada, especialmente, espantem-se, se for um strogonoff ou bóbó (lambo os beiços no dia seguinte)! Nunca se jogou no lixo um grão de arroz, muito menos uma sobra qualquer, que é sempre muito bem e engenhosamente aproveitada depois. Lembro de uma passagem das memórias de Danuza Leão, que em Paris ensinava as crianças a passarem um bocadinho de pão no prato para aproveitar os restinhos e molhinho, “porque a comida é muita cara”! Continua muito cara, a alimentação, mas é espantoso como é desperdiçada!…

  5. Fato: tente convencer um brasileiro não miserável que o arroz que sobrou de ontem pode ser transformado em bolinhos, no dia seguinte. Quase tarefa impossível. Ou, à uma cozinheira do trivial, que se ela fizer tudo a olho é tão provável que erre na medida quanto o operário que se recusa a usar trena e metro.

    No entanto, meu DNA é bem mais complacente do que o seu @cronai: já prevendo que errar é humano,
    meus pais me ensinaram que sim, jogar fora comida é pecado! mas, “se você der um beijinho nela, antes de fazer isso e pensar, compungidamente, nas criancinhas pobres, e pedir perdão a D’us, Ele perdoa.”
    Ou seja: que com consciência e culpa, existe perdão.

    Felizmente. Porque, hoje em dia, com o efeito estufa, eu dou uma de “sócia da Light” o verão todinho.
    E, quando criança, eu adorava “brincar de cachoeira”, na hora do banho.
    😉

  6. Como sou também “filha da guerra” aprendi com meus pais que nunca se joga fora nenhum alimento. Meus pais passaram fome durante a guerra na Alemanha ou depois dela também. Acabaram passando o trauma deles para nós. Como minha infância foi no Paraná (Curitiba), também aprendi também na escola que nunca se joga nada nas ruas. Consegui educar meus filhos assim aqui no Rio de Janeiro e nas escolas que dei aula os alunos falavam que eu era a professora que n~ao deixava jogar nada no ch~ao… Fico impressionada como existem tantas coisas descartaveis. N~ao cabe tanto lixo no planeta e o mundo precisava se conscientizar disso.
    Cora, sua cronica esta’ maravilhosa!
    PS. quando aperto a tecla errada aqui, os acentos somem…

  7. Não vi o trabalho da Bia Lessa por dentro, mas só pode ser mesmo brilhante. Visto do calçadão da Atlântica, é um gigantesco paralelepípedo cor de burro quando foge encarapitado sobre o pobre e indefeso Forte de Copacabana. A paisagem aguarda ansiosamente seu desmonte.

    Na ponta do lápis, o custo de tanto alimento jogado no lixo é minúsculo se comparado ao esforço descomunal para desenvolver a tecnologia que este blogue e nós, seus seguidores, descartamos sem dó nem piedade tão logo apareça algo novo em no máximo 1 ano. Em matéria de tecnologia, esforços descomunais de desenvolvimento são amplamente recompensados pela nifomania consumista resultante de esforços descomunais de propaganda, os quais, por sua vez, bla bla bla …

  8. Aprendi, assim que comecei a ler, que não devemos sujar as calçadas. Meus pais, pouco mais que operários, começando a vida como “patrões”, compravam a revista Seleções do Reader’s Digest. Li, num daqueles famosos “buracos” de página da revista, sobre um fato ocorrido na Suíça. Um brasileiro, a passeio na cidade, estava no carro quando acabou de fumar e jogou a bituca na calçada. Uma senhora bem idosa abaixou-se, pegou o que restou do cigarro e foi devolver ao brasileiro. Ele respondeu que não queria. “Nós também, não queremos, por favor, guarde.”
    Tenho saudade do litro de leite em garrafa de vidro, pois eu tirava a tampinha de alumínio e lambia, pois era manteiga pura.
    Hoje, tudo é descartável. Já repararam que até as pessoas estão se tornando isso?

  9. E aí a gente fica pensando, como é que pode um país onde ainda tem quem passe fome, ou perto disso, jogar 61% de comida fora? É incompreensível, tanto para um alemão, quanto prá mim mesmo, que sou brasileiro. Consumimos e descartamos muito, de maneira irresponsável e pior, não nos damos conta que estamos agredindo a nós mesmos!

    Enfim, acho que como todo mundo fiquei decepcionado com a falta de resultados concretos da Rio+20 mas, sinceramente, o que podemos esperar de uma Conferência onde a última palavra será dada por líderes políticos dos países que mais poluem o planeta? Torço para que as novas gerações consigam resultados mais palpáveis, se houver tempo, na Rio+40. Pena que essa não vai dar para assistir!

    Grande crônica, Cora!

  10. Somos da mesma época. Penso apenas que lá em casa a preocupação era mais com o bolso no início. O “não somos sócios da Light”, ilustra bem a situação de contas apertadas, feitas na ponta do lápis.
    Com o tempo, porém, a consciência ambiental foi se formando. Casei, tive filhos e pegava o meu mais velho, ainda pequeno, às cinco da manhã, colocando Música para “acordar suas plantas” antes de ir para a escola.
    Hoje ele é analista ambiental.
    Algumas sementes florescem…
    Gostaria de deixar algumas reflexões quanto às embalagens descartáveis. Onde estão as velhas bandejas de papelão em vez das de isopor que, por ignorância sobre sua natureza reciclável, são descartadas no lixo comum, entupindo, sujando e boiando nas águas…

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