Elementar, caro Watson

Há tempos não se viam tantos psicólogos e criminalistas de botequim, desenvolvendo teorias, analisando os fatos conhecidos, decidindo se a criminosa merece ou não merece liberdade condicional. Se Elize Matsunaga tivesse se limitado a atirar no marido, o interesse geral no caso não duraria três edições de jornal; ao esquartejá-lo, porém, ela mexeu com alguma peça solta do inconsciente coletivo. Junte-se a isso o que foi sendo descoberto sobre a vida de Marcos Matsunaga e pronto, estavam juntos os ingredientes para uma história digna de romance policial. O homem poderoso que só se relaciona com prostitutas, a garota de programa que virou esposa ciumenta, a coleção de armas, as fotos das caçadas: tirando a pobre criancinha que perdeu os pais, ninguém é digno de muita simpatia, o que permite a todos discutirem o caso à vontade, mesmo nesses tempos politicamente corretos.

— Não tenho nenhuma pena de caçador! – disse uma amiga com quem fui almoçar, ecoando um sentimento não incomum entre os amantes de animais.

— Calma, também não é assim! – retruquei. — Se a gente é contra a morte dos bichos, não pode ser a favor da morte de um ser humano, que afinal é um bicho como outro qualquer.

— Ah, me desculpe, mas um bicho que usa armas de fogo e que tem quarenta quilos de munição em casa não é um bicho como outro qualquer! É uma ameaça ao meio-ambiente, um ser nocivo ao planeta. Estou com a Elize.

— Mas ela também caçava…

— Disse bem, caçava, no passado. Não vai caçar na cadeia. A natureza agradece. Existe até um ditado para isso: um dia é da caça, outro do caçador.

Para o motorista de taxi que me levou até o Centro, o fato de Marcos ter um arsenal em casa e ser caçador era irrelevante. A chave de tudo estava na profissão da mulher: um homem que se casa com prostituta não pode esperar outro fim. Tentei argumentar e mostrar o quanto ele estava sendo preconceituoso, mas não consegui mudar o seu ponto de vista. Foi a opinião mais antipática que encontrei.

— Muita gente pensa como esse motorista – observou o amigo com quem comentei o diálogo. – Não caia no erro de achar que o mundo está mais liberal, que aceita as diferenças ou a promiscuidade. Você vive num mundinho de escritores, artistas e gente de cabeça feita. Dê dois passos para fora dele, e vai ver que os velhos preconceitos continuam firmes e fortes.

Meu principal preconceito é contra arrogância e grosseria; por isso, nesse caso, simpatizo ainda menos com a vítima do que com a criminosa. Um homem que usa sua posição financeira para fazer ameaças, e que maltrata a mulher por ter sido prostituta, não merece respeito. Ele se casou sabendo que ela era garota de programa; ela talvez tenha se casado sem saber como ele era cruel. Podiam ter se separado feito gente normal, mas não me parece que havia muita normalidade nesse casamento.

A quantidade e o tipo de armas encontradas me deixam perplexa. Para mim, colecionador de armas era, até outro dia, o sujeito que juntava armas antigas e especiais; mas submetralhadoras? E dez mil projéteis?! Só eu – que gosto de armas de defesa pessoal e já fiz muito tiro ao alvo — estou achando isso esquisito?! Num ambiente desses, anormal era não ter sido disparado ainda nenhum tiro.

Perdi o sono quando vi a sequencia de filmes da câmera do elevador: o homem subindo com a pizza, a mulher descendo com as três malas. Vi poucas coisas tão macabras na vida. Como se corta um ser humano em pedaços?  Como se arrumam pedaços de marido em malas? Como se vive com a lembrança disso?

Socorro!

o O o

Fui convidada pelo COB a visitar o Parque Aquático Maria Lenk, agora sob sua administração. Mamãe ficou interessada e veio comigo, para conferir o trabalho e tirar a péssima impressão que teve durante o campeonato que disputou lá. O parque foi todo reformado; recebeu, em caráter definitivo, os equipamentos que a prefeitura havia alugado e que haviam sido retirados. Está tão caprichado que a equipe olímpica brasileira treina lá.

Não há luxos desnecessários, mas tudo está limpo, prático e bonito. As piscinas estão nos trinques e há até salas de descanso para os atletas que treinam de manhã e de tarde. O subsolo, que tem uma grande área construída, foi aproveitado para a instalação de uma academia e para um amplo espaço para a equipe de taekwondo.

Já que estávamos por lá, fomos ver também o velódromo e o ginásio de ginástica olímpica, igualmente bem cuidados. Demos sorte e encontramos o Diego Hypolito, que estava chegando para o treino. Conversamos, e fiquei sabendo que ele está contentíssimo com as instalações, assinadas pela Spieth, a Mercedes Benz dos equipamentos de ginástica. Foi uma tarde ótima. Mamãe ficou radiante:

— É tão bom ver o esporte sendo levado a sério! A gente volta a ter esperanças no país.

(O Globo, Segundo Caderno, 14.6.2012)

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35 respostas em “Elementar, caro Watson

  1. Cora, apenas hoje li seu artigo, estava viajando e com dificuldade de acesso à internet. Compartilho das suas opiniões e queria dizer que não, não é só você quem está estranhando todo aquele arsenal estocado no apartamento. Isso foi o que mais me chamou a atenção, quando vi na TV parte das caixas de munição e as informações apresentadas como se fossem a coisa mais natural do mundo. Escrevi sobre isso: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed698_o_caso_do_empresario_esquartejado

    • Desculpe, mas não acho que vai sofrer não. As novas gerações só querem saber de dinheiro, em sua maioria. E essa criança vai crescer com tudo de melhor. Só espero que não seja caçador(a) como os pais.

  2. E agora chegou a informação de que o executivo foi decapitado ainda vivo.

    É um daqueles casos que em pouco tempo deixo de ler qualquer notícia, tal o horror que elas me causam. Aff!

    • Essa notícia é requentada, Valéria. As emissoras de TV já noticiaram isso ontem à noite. A gente só não acompanha o desenrolar dos acontecimentos se ficar longe dos meios de comunicação, coisa quase impossível.

  3. Esse é um caso complexo, pois não existem as partes para o esclarecimento. Ele gostava de prostitutas e pagava (muito caro) por isso. Haja vista que ele já arrumara outra da mesma categoria e a estava mantendo com mesadas de 27 mil reais e com presentes, como o carro de 100 mil. Ele só não soube que ela, a segunda, continuava a fazer programas, como foi constatado.
    A assassina era do jeito que ele gostava, porém os anos de relação – desde 2004 – deterioraram a convivência. Quanto ao luminol, aqui citado, a polícia o utilizou somente quando descobriu que havia mais cômodos no apartamento de 500 metros quadrados e três andares. A primeira “vistoria” foi feita às pressas.
    Como a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, a menininha, que não escolheu o pai nem a mãe, é quem vai sofrer. O problema, daqui pra frente, será determinar o tutor da mesma que herdará aproximadamente 218 milhões de reais. E precisamos lembrar que ele tem outra filha, de um relacionamento mais antigo, da qual quase nada se sabe.
    Muita coisa ocorrida está no “achômetro”. Triste!

  4. Parabéns pelo texto que, como sempre, bem escrito e lúcido.
    Mas eu gostaria era de saber se os “10 mandamentos do cão”, belíssimo, que li numa revista (Revista República, maio/2000) foi escrito pelo Millôr Fernandes.
    Sei que vc não gosta de responder. Ou por falta de tempo. Ou por falta de atenção, mesmo. Mas eu não encontrei outro meio de descobrir. E tentei.
    Grata,
    Liliane

  5. Meus deuses, ela recebeu uma Rainha de Copas de frente e decapitou o maridão ainda vivo, “Cortem-lhe a cabeça”!
    Nada do que ela contou agora é verdade, de acordo com a autópsia, agora quem perdeu o sono fui eu, que criatura rúim, benzadeus!

  6. Só acrescentaria alguns fatos, essa mulher premeditou o crime, é fria e calculista, como bem atestou o laudo.

    Ora, se agora sabemos que a acusada mentiu em seus depoimentos, o que fez a polícia no local do crime.

    Onde estava o famosos “luminol” que descobrimos existir no caso Isabella?

    Não havia gota alguma de sangue naquele local?

    Estranha essa incompetência

  7. Concordo com tudo e com todos, mas… acho difícil julgar!! Sabe-se lá o que ele já teria dito e feito prá ela, sabe-se lá o que ela já passou na vida. Ali atraíram-se duas patologias bastante complexas… A descrição do que o cara tinha em casa é estarrecedora ! E não me espanta ela ter matado o marido e entrado num surto diante do que fazer com ele… (nenhuma tentativa de desculpar quaquer das partes, oôps, dos envolvidos)
    pobre da pequena menina!

  8. Esta história é tão sinistra que até os detalhes sem importância são ainda mais sinistros: como se distribui o conteúdo de 3 malas em 5 lugares? Que horror!

    Ai, Cora, é fim de semana… eu escolhendo um filme pra ver e pensando se vou ter coragem de assistir ao fime que abocanhou todos os prêmios do Festival Internacional de filmes de Seattle de 2012. É uma ótima opção pro motorista de taxi perceber as consequencias do preconceito dele. Tomara que passe no Brasil. Aqui tem sobre o filme: http://www.siff.net/cinema/detail.aspx?FID=261&id=45205 . Pensando se eu seria capaz de ir ou não, achei um vídeo da própria pessoa na qual o filme foi baseado: http://www.youtube.com/watch?v=gFTY1SJyMbA . Depois de ouvi-la, eu sei que não conseguiria ver este filme. O mais incrível é quanta gente poderia tê-la ajudado, mas todas tinha a mentalidade do seu taxista…

  9. Tudo um horror; mas frieza por frieza, ainda continuo achando o horror dos horrores o caso da menina Isabela Nardoni. Um pai jogar a própria filhinha pela janela, até hj me deixa chocada. A que ponto uma pessoa pode chegar…Quanto a esse caso medonho também, só penso na bebezinha, com esse carma tenebroso pra carregar até o fim da vida… Não pude deixar de .lembrar do filme Janela Indiscreta; hj em dia , um fotógrafo charmoso e engessado, foi substituído por um elevador, equipado com câmeras indiscretas, que não deixam escapar nada, nada…

  10. Essa história toda do executivo da Yoki me dá arrepios. Pela violência, pela frieza com que foi cometido o crime. Por mais que se diga que ela estava alterada na discussão, fora de si, etc, o fato de esquartejar o marido revela, pelo menos pra mim, uma frieza e crueldade muito grande.

    O seu amigo, que comentou a atitude do taxista, tem razão. Ainda existe muito preconceito, especialmente contra nós mulheres. Se além de mulher ainda for prostituta piorou. Essa moça vai precisar de um ótimo advogado, pois no tribunal do juri encontrará vários “taxistas” como jurados, e seu passado será usado contra ela pelo MP, e possivelmente pelo assistente de acusação (se é que a família dele irá contratar um).

    O que mais tem me incomodado nessa história são algumas piadinhas. Sei lá, mas aquela foto dos dois num campo de girassóis com a legenda da Amor aos Pedaços não me faz sorrir, nem amarelo. Nem outras tantas fotos humorísticas feitas a partir desse crime.

    Fico feliz em saber que a estrutura do Maria Lenck e de outros locais construídos para o Pan estão em uso. Aqui no Brasil existe tanto desperdício de dinheiro público e de espaços públicos que saber que algo construído com alguma finalidade é usado da forma planejada me enche de alegria. E não devia, devia ser tão corriqueiro que o mau uso causasse indignação e protestos, não a indiferença geral de quem se acostumou a ver tantas coisas erradas.

  11. Pois é… a maior vítima do fato será a filha do casal que carregará sempre ressentimentos, dúvidas e a pecha de ser filha de uma assassina-esquartejadora.
    Soube, ouvi ou li que a família do pai não quer a guarda da neném nem por imposição judicial.

    Acho que ali os dois são farinha do mesmo saco. O cara casa com uma prostituta e fica jogando o passado da mulher na cara dela diariamente, chantageando-a e ameaçando-a. Ela, já esgotada de tanta traição e humilhação, esquarteja o marido e coloca-o em tirinhas numa mala.
    Juntou a fome com a vontade de comer.
    Dois egoístas que não pensaram 1 minuto na existência de uma criança no meio disso tudo.

    Para piorar o “impiorável”, são caçadores. Ou seja, se mereciam de fato. Belo casal

    Matilda, assino embaixo do seu comentário.

  12. O texto está ótimo, como sempre, mas o meu horror a sangue me impede qualquer resposta mais detalhada.
    Quanto aos “caçadores” conheci dois na minha vida: ambos ótimos médicos. E, pessoas muito compassivas. Um endocrinologista e outro analista (junguiano). Ambos caçavam onças em Goiás, quando jovens. Nenhum matou ninguém, muito pelo contrário.

    Bom saber do parque aquático, lembranças pra Professora.

  13. Quem vê cara não vê coração; ela tem uma carinha de menina, nada que indique um tiro certeiro nas fuças e uma espera para o sangue não vazar quando fosse esquartejado e emalado, tudo isso com a filha ao lado, pobre criança: “meu pai bateu na cara da minha mãe quando ela descobriu que ele tinha outra que era prostituta exclusiva com mesada de quase trinta mil e um carrão enorme e aí minha mãe matou meu pai com o revolver dele e cortou ele todinho para caber nas malas”: isso vai ficar para sempre na vida dela, a única vitima, porque nem a vitima é vitima, no sentido de despertar simpatia, tomara Deus que o DNA não seja de nenhum deles, porque antepassados esquisitos todos possuem, mas essa criança tirou a sorte errada, que carma, tadinha!

  14. Acho incrível que por causa dos detalhes macabros da história aliados ao caráter dos envolvidos as pessoas se sentem tão à vontade para comentar e, o pior de tudo, fazer piadas a respeito.
    É o CSI na vida real.

  15. Só dá pra ter pena mesmo da criança, que ainda vai passar por exame de DNA. A familia do marido nem se interessou pela guarda. Pode ser que sendo confirmada a filiação, passe a ser disputada pela herança que virá. Pobre criança! ;-(

  16. A mulher tem um curriculum impressionante: Prostituta, enfermeira, ou pelo menos com treinamento como tal, bacharel (leia-se bacharela para integral deleite) em direito, exímia atiradora (tiro e queda) e butcher de inegáveis qualidades!…ufa!
    Só lhe faltou ser assídua de todos os CSI’s.

  17. Dei boas risadas aqui. Li alto o jornal para todos.Mais uma vez, Parabéns Cora. Sua “limonada” está deliciosa como sempre

  18. Bom saber que o Maria Lenk e seus vizinhos estão em boas mãos. Sempre que passava por lá ( e são várias vezes) sentia um misto de pena pelo abandono das instalações e raiva pelo gasto na obra que ficava gora fico feliz de saber que as instalações estão sendo usadas para seus devidos fins.

    Fazia tempo que não linha um linha escrita por vc e hoje achei seu blog meio sem querer via Twitter.
    Parece que encontrei uma justificativa pra ter criado meu perfil..

  19. Eu entendo perder a cabeça e matar quando se tem uma arma. Mas eu duvido que essa moça tenha feito o resto do serviço sozinha!
    Uma história muito doida essa.

Diga lá!

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