God save the queen

Visitei a Inglaterra pela primeira vez em 1977, aos 24 anos. Eu era uma pessoa séria e politizada, que detestava a monarquia – qualquer monarquia – com todo o coração. Reis funcionavam bem em livros de História, princesas eram material de trabalho da Disney, e só. Meu ódio não era retroativo; eu reconhecia as qualidades de Dom Pedro II, e lamentava muito que um brasileiro tão patriota houvesse morrido no exílio. Mas o que era bom para o século 19 me parecia anacrônico no século 20. Sobretudo, escapava à minha compreensão que houvesse público para as horrendas lembrancinhas do Jubileu da Rainha, presentes aonde quer que fossemos: canecas, cinzeiros, pratinhos decorados, chaveiros… tudo com o retrato de Sua Majestade, e tudo horripilante! Sim, havia um Jubileu em cartaz. Elizabeth II comemorava 25 anos no trono, e seus súditos não se continham de empolgação – uma estranha empolgação britânica, que não ousava dizer seu nome, mas empolgação não obstante.

No Victoria and Albert Museum tive o primeiro contato com a peculiar relação dos ingleses com a sua família real. Depois de percorrer uma excelente exposição de fotos, assistia-se a um documentário sobre a rainha, o príncipe Philip e os filhos que, jovens adultos, ainda não tinham tido tempo de desapontar ninguém. Havia cenas de Anne andando a cavalo (oh!), de Charles tocando violoncelo (ah!) e de Edward e Andrew sendo crianças (ih!). O filme não cheirava nem fedia. Mas, assim que os últimos créditos rolaram na tela, a platéia em peso se levantou e cantou, em uníssono, o “God save the Queen”. Que começou sem que ninguém mandasse e terminou entre discretas lágrimas. Eu mal podia acreditar no que via: ali estavam pessoas aparentemente normais, comovidas com um super oito melhorado feito em torno da família sem graça de uma senhora cujo senso de moda havia estacionado nos anos 50! Ils sont fous ces bretons, pensei com os meus botões, dando total razão aos filósofos franceses Uderzo e Goscinny.

Hoje não tenho mais tantas certezas. Continuo achando a monarquia ridícula, mas vejo a rainha com outros olhos. No domingo, acompanhei pela internet o desfile de barcos no Tâmisa, e fiquei até comovida com a galhardia da velhinha, que encarou vento, frio e chuva sem esmorecer. Também fiquei impressionada com a resistência do príncipe Philip que, afinal de contas, está com 91 anos. Não chego a simpatizar com ele – certas coisas são mesmo só para os ingleses – mas não conheço muita gente dessa idade que conserve aquele porte. Pensando bem, não conheço muita gente dessa idade, ponto.

A rainha, como sempre, de chapéu. Mas o que me parecia estapafurdio há 35 anos hoje me parece curiosamente apropriado. Nunca pensei que fosse dizer isso um dia, mas acho a rainha chique – não só nos seus oitenta e tantos anos, mas em qualquer ponto do tempo. Ela inventou um estilo próprio, sempre se veste de acordo com a ocasião e suas roupas se destacam no meio da multidão pelos motivos certos. É a mulher mais fotografada do mundo e, ainda assim, em seus milhares de fotos, ninguém jamais viu uma alça de sutiã descontrolada ou uma saia batida pelo vento. Aliás, encontrei a explicação para isso recentemente: é que as suas saias têm pequenos pesos costurados na bainha.

A elegância da rainha vai além das roupas. Ela jamais foi flagrada dormindo durante alguma cerimônia chata — e algo me diz que deve ser recordista mundial em recepções chatas; também nunca se viu foto em que esteja sentada de forma menos do que perfeita. Sua fisionomia protocolar nunca vai a extremos: há poucas fotos em que aparece rindo, e menos ainda em que aparece chorando. Suponho que seja reconfortante para os ingleses ver a sua figura hierática sempre imutável no essencial, ainda que mudando o suficiente no supérfluo para manter o interesse dos súditos. O desfile de chapéus esquisitos, aparentemente incongruente, é uma poderosa ferramenta de mídia.

o O o

Quase tive uma overdose de Elizabeth II durante o fim-de-semana. O “Times”, empolgadíssimo com o Jubileu, abriu o site para não-assinantes no sábado e no domingo. Tive acesso, assim, à portentosa edição especial do “Sunday Times”, que não contente em dar manchete de capa ao Jubileu, fez uma revista interativa especial para iPad e ainda ocupou com a rainha e com a família real a sua revista tradicional de domingo. Teve de tudo, de (mais uma) coleção de fotos a uma singela bonequinha de vestir para que cada um pudesse criar o seu look personalizado para a rainha.

Embora ninguém tenha idéia do que ela pensa, de como se sente ou do que gosta ou não gosta, algumas historinhas curiosas sempre chegam ao público. A minha favorita foi contada por um cortesão indiscreto (claro, quem mais?): uma noite, ela e a rainha mãe chegaram ao teatro, continuando o que devia ser uma discussão que já vinha do carro. Ambas discutiam aos sussurros mas, como estavam exaltadas, os cochichos eram bem audíveis. A certa altura, a rainha mãe chamou a filha às falas: “Quem você pensa que é?” E ela: “A rainha, mamãe, a rainha!”

o O o

O melhor da internet em comemoração ao Jubileu foi um site desenvolvido pelo Palácio de Buckingham que não tem nada a ver com Elizabeth II. É a íntegra dos diários da Rainha Vitória, acompanhada de farto material iconográfico, ensaios sobre esses mesmos diários, sobre a rainha, seu mundo e seus contemporâneos.  Esse tesouro fica em www.queenvictoriasjournals.org.

(O Globo, Segundo Caderno, 7.6.2012)

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38 respostas em “God save the queen

  1. Pingback: O jubileu de diamante, a monarquia britânica e o papado « Blog do IDII

  2. Lindo texto sobre uma figura que eu admiro muito, uma instituição inglesa que traz enormes dividendos pro país. God Save the Queen!!

  3. God save the queen, Elizabeth II
    Pelo que se sabe, ela conseguiu manter o seu longo reinado sem deslizes e com a máxima elegância.
    Quero eu chegar aos 87 com toda essa disposição mesmo não sendo rainha de nada.. nem do lar. Sou é súdita da minha gata Isolda.

  4. Adorei tudo o que Vosmiceis escreveram e daí…… POFT! lembrei que vi a rainha inaugurando o Masp aqui em S.P. junto de um primo cujo escritório construíra aquele vão livre……… como pude esquecer?! 196…..9, acho.
    E me contaram – será fofoca?! – que o ex-presidente desse&País ao vê-la ao vivo e a cores, tocou-lhe no braço. Alguém que entra aqui pode explicar se pode, rs?
    ABS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. Uma regra de etiqueta e protocolo que poucos sabem:

    Considerando q vc é uma pessoa educada, respeitosa e polida, se vc fosse apresentado à Rainha, deveria curvar-se, na mesura protocolar?

    A resposta é: Não. Apenas os súditos de um rei, ou rainha (de qualquer monarquia), curvam-se diante do seu soberano.

    Não sendo o caso, tratamos com a mesma deferência que teríamos com um Presidente, ou Primeira-Dama de outro país. Mas sem nos curvarmos.

    • Suponho que a regra que o Tom menciona se aplica aos homens. Mulheres fazem aquela difícil presepada de quase se ajoelhar, ou se acocorar, mantendo os olhos cravados na magestade e sem perder o equilíbrio. Tom, será que se tira brevê pra isso?

    • Eu sabia, meus filhos e o pai deles e meu neto são espanhóis e se curvam para o caçador de elefantes e eu não, nunca, jamais, em tempo algum precisarei fazer isso, sou de uma terra republicana, mas não devo dar as costas a rei nenhum, nem usar passadeiras, sou plebéia estrangeira, mas sou educadinha, ora bolas!

      • lnteressante Tom! Vivendo e aprendendo… Sempre achei que em atos oficiais, todos deveriam fazer as reverências.

      • Perfeito (como sempre), Matilda!

        Tanto que no delicioso filminho, “O Diário da Princesa“, a Rainha de Genóvia (Julie Andrews) observa, divertida, a subserviente diretora da escola desfazer-se em equivocadas mesuras.

        Da mesma forma, um budista prostra-se diante do Dalai Lama e um católico ajoelha-se e beija o anel do Papa. Mas, quem não é budista ou católico não precisa fazê-lo, mantendo respeitosa deferência.

  6. Eu vi a rainha quando era petiz sentando no muro de uma casa na Avenida Atlantica quase esquna com a Santa Clara junto com meu pai e minha mãe. ( ufa ! sem virgula )

  7. Querida, queridíssima CORA! ao te ler, senti todo o prazer vivido vendo a TV, acrescido ao que V. contou a mais, isto é, os jornais, tudo, tudo. Um texto maravilhoso, sensível, grave e profundo, e sabendo tão bem tocar nossos corações com o ocorrido lá. Obrigada!!!!!!!!!!!!!!

  8. Já nasci azeda. Jamais gostei de rainhas, reis, príncipes e quetais. Nem quando era criança. Se pudesse, diria: People, forget the queen!

  9. Sempre gostei de uma monarquia, uma realeza e todos os procolos que a acompanham por séculos. Sem sombra de dúvida essas louvações, esses ritos, estão na memória coletiva dos súditos britânicos, que se amarram num festejo real.
    GOD SAVE THE QUEEN!!!

  10. Sempre achei os salamaleques à rainha simplesmente ridículos. Sempre achei que os ingleses detestassem sustentá-la, mas parece que não…. Só me resta , então desejar “God save the Queen ” a ela e que a sua familiazinha trabalhosa nāo a deixee passar por outro annus horribilis….

  11. Pra onde vai tanta roupa nova (que nem lavada parece) e esses chapéus capazes de espantar urubu do Galeão? Será que repetem pelo menos a roupa de baixo? Será que não podem se dar ao confortável luxo de um sapato velho amigo? Os caras talvez bisam as fardas, mas são muitas, de general da banda, de porteiro de hotel do Central Park e aquela de boina azul que faz do bobo Harry o próprio mico de realejo. Não vou conseguir dormir sem saber em que baú os Windsor enfiam esse pano todo. Haja naftalina.

  12. Quando eu era crianca eu fazia aulas particulares de ingles com uma senhoa inglesa, neta de holandeses por um lado, que tinha trabalhado como partisan em Amsterdam , durante a II Guera. Ela ajudava aos pilotos da RAF a se esconderem e tentarem volarr para a Ilha Britanica….. Eu achava isso um barato e tinha muito orgulho dela….

  13. Hoje de tarde a BBC-HD estava passando o concerto em comemoração ao jubileu, que terminou com Sir Paul McCartney – que deve ser meu irmão, tá a cara da mamma – cantando Obladi, Obladá. A rainha aguentou bem, inclusive o discurso do Charles que a chamou de mommy – que ela respondeu com um olhar que dizia “se oriente rapá, mommy nada, sou a Rainha”.
    Mas, nada me impressionou mais que a brilhante casaca rosa choque de Sir Elton John! 😀

  14. No hino, “God Save the Queen“, destaco estes versos:

    2. O Lord our God arise
    Scatter her enemies
    And make them fall
    Confound their politics
    Frustrate their knavish tricks
    On Thee our hopes we fix
    God save us all

  15. Eu era uma pessoa séria, altamente politizada, mas adorava rainha, não todas as rainhas, mas a inglesa, fazer o que, não sou perfeita, a classe da rainha sempre me encantou, mesmo porque não era minha rainha, eu não a sustentavas e sim seus súditos, para quem gosta ela é um prato chei; vi desfie dos barcos, revi o quadro de Canaletto, vi desfile de carruagem, senti pelo príncipe (bem que pensei que era muito tempo sem fazer um xixi, para quem tem noventa e um é muito, minha tia tem noventa, é toda espigadinha mas na estratégia de saída dela tem que ter banheiros perto, pensei certo, infecção urinaria, só podia), descobri que ela é rainha porque tem fibra, eu, plebéia, teria sentado, por isso não sou rainha, cada qual com seu cada qual, mas vi tudinho também, me emocionei com a rainha na sacada e eles ovacionando, gostando de saudar sua rainha, pensei que Charles nunca que vai conseguir ser rei, ela não vai embora nunca, ia lá soltinha, subindo e descendo escadas solta e fagueira, de saltinho baixo, aos oitenta e sete anos, ela vai durar mais que dona Canô, vai aos cento e lá vai fumaça, bom Charles desisti, ela fica, se fica!

  16. Ô família!
    Dos ingleses até o folclore é elegante. Eu fico pensando que um par de Havainas nunca deve ter pisado um cômodo do Buckingham Palace…
    🙂

  17. Eu frequento a Inglaterra há muuuitos anos, principalmente depois que minha irmã se casou com um adorável inglês, meu querido cunhado que infelizmente já se foi.
    Ingleses são especiais, diferentes e ao conviver com eles, aprendi a apreciá-los mais ainda. Estou falando de ingleses do interior, pouco afetados pelo melting pot das grandes cidades, aqueles que ainda cultivam o elevenses – parada para o chá às 11 da manhã – isso inclui todas as classes sociais, desde os ricos fazendeiros até os jardineiros e pintores de parede – a discrição, a simplicidade. A grande maioria tem um enorme respeito pela realeza. Me lembro da sogra de minha irmã que, ao passar dos 90, aguardava a carta que receberia, assinada pela rainha, quando completasse 100. Morreu com 99!

  18. Compartilho seus questionamentos de 25 anos atrás. Só que 25 anos depois…
    Também me perguntei como cabia aquele “endeusamento” todo…
    Depois do seu artigo, vou repensar minha visão negativa…
    Como sempre. Impecável..

  19. Eu adorei tudo, do desfile do Tamisa, ondte me emocionei ao ver os barquinhos que fizeram a Retirada de Dunquerque, fiquei besta como a Rainha aguentou ficar em pe o tempo todo, naquele frio londrino. Amei o concerto que teve final apoteotico com Lord Elgar e sua Pompa e Circunstancia. Adorei os fogos e ouvi o hino emocionada…. Sou fa dos ingleses. Acho eles um povo muito lutador, vide na II Guerra onde eles aguentaram bombardeios pavorosos estoicamente . Um livrinho genial, principalmente se lido em frances, eh o Asterix chez les Bretons……. Eh brilhante e mostra todas as manias inglesas, desde os jardins ate le thr avec une nuage du lait……..

  20. Ah, Cora, eu me sinto exatamente como você….
    Bom, pelo menos, é o que eu penso. Não me sinto confortável sabendo que existe monarquia, não posso admitir tantos privilégios à pessoas, apenas pelo fato de terem nascido em determinada família.
    Mas, gosto de assistir às cerimônias e saber que são frutos da história milenar de um país.
    Não quero nem lembrar que algo parecido em nosso país só acontece nos quatro dias de momo.

  21. Talvez seja pela overdose de princesas Disney na infância ou pela paixonite nutrida pelo príncipe William na adolescência, honestamente não sei dizer o por quê. Mas, embora de alguma forma eu, as vezes, questione a utilidade da monarquia, devo admitir que fiquei encantada com os eventos reais que pude ver de perto (casamento William & Kate e Jubilee). Sim, o último fim de semana foi uma overdose de Elizabeth II, concordo. Mas, foi tudo feito com tanto carinho e vivido com tanta intensidade por todos (a maioria, pelo menos), que por um segundo eu desejei ser britânica, para poder entender o que era aquela emoção que eu vi naquela gente cantando ‘God save the Queen’! Se eles realmente (ainda) desejam que a rainha reine por longos anos, tal qual eles cantavam, eu não sei, mas me pareceu real o carinho para com a majestade! Pelo visto Elizabeth II tem esse poder de conquistar as pessoas! 🙂

  22. Que coincidência, também fui à Inglaterra no Jubileu mas meu senso histórico me fez comprar uma lembrancinha, horrenda. Deve estar em algum lugar…
    Gostei do texto. God Save the Queen.

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