Ainda os celulares a bordo

A coluna da semana passada, sobre o uso de celulares a bordo de aviões, foi muito discutida no blog. Também recebi vários emails, alguns muito interessantes, enviados por pilotos e engenheiros aeronáuticos. O resumo da história é mais ou menos o seguinte: não há nenhuma prova decisiva que aponte os celulares como responsáveis por qualquer problema a bordo, mas a simples suposição de que talvez, todavia, quem sabe, eles possam causar interferências indevidas nos instrumentos, deixa todo mundo de pé atrás. Eu continuo firme na minha convicção: ou os celulares são perfeitamente inofensivos, e nesse caso seu uso deveria ser liberado, pelo menos em modo avião, ou podem ser perigosos — e, nesse caso, as autoridades aeroportuárias e as companhias aéreas estão sendo absurdamente irresponsáveis em sequer permitir que embarquemos com eles. Simples assim.

Alguns leitores também me escreveram com quatro pedras na mão, desesperados com a possibilidade de enfrentar vôos em que todos falam aos celulares, como se eu estivesse defendendo essa algaravia. Não estou. Na verdade, fico apavorada com a possibilidade de fazer sequer uma mísera Ponte Aérea entre gente que não sai do telefone. A minha bronca é outra. Acho que os passageiros estão sendo tratados como imbecis.

Algumas opiniões:

“O problema é de compatibilidade eletromagnética, que vem logo antes da bruxaria entre os aspectos importantes da engenharia” escreveu Marcio Cavalcanti. “Como engenheiro aeronáutico e tendo vivido certos problemas no mínimo curiosos de interferência eletromagnética, compartilho a sua convicção de que é muito improvável que os celulares venham a interferir negativamente com os equipamentos de comunicação, navegação ou controle doas aviões de hoje. Contudo, creio que a posição das autoridades é: por que arriscar? Se por um lado a probabilidade de que haja problemas é muitíssimo pequena, por outro, os riscos são muito altos.”

“Todo mundo quer permitir, mas os exaustivos estudos resultam menos conclusivos que os padrões de segurança da aviação exigem” comentou Mauricio Pontes, no blog. “Você apostaria a vida de 200 pessoas por uma ligação? Não havia indícios de que lançar a Challenger abaixo da temperatura padrão era arriscado. A história todo mundo conhece. Antes fumava-se em aviões: Varig em Orly, quase todos mortos, vítimas de um único cigarro. Agora, não se fuma mais. Faz-se gerenciamento do risco em termos de severidade e probabilidade: a severidade do risco do celular é catastrófica, a probabilidade ocasional. Logo, proíbe-se, pois não se paga para ver. Conselho: respeitem as regras de segurança a bordo, aproveitem a viagem e busquem informar-se em fontes confiáveis, não nas wikipedias da vida. Sou piloto, especialista em prevenção e investigação de acidentes aeronáuticos, membro da International Society of Air Safety Investigators e professor de Segurança de Voo em São Paulo. Ah, e adoro meus smartphones, mas ainda mais a segurança.”

“Só de pensar que, no meio do meu inevitável soninho dos voos, vou ter de aturar os empresários estressados, as mães mala sem alça, os teenagers tipo assim, todos se refestelando com seus celulares, já vi que vou fazer um Van Gogh a cada viagem” comentou Jace Theodoro.  Um leitor que se assinou The Coach foi pela mesma linha, dando um exemplo concreto: “Semana passada fui para Belém em um vôo onde era permitido utilizar o celular. Sim, isso já existe, e precisa pagar um X a mais e conseguir falar. Pois havia UMA pessoa utilizando o celular e foi um inferno, porque quando você fala com a pessoa cara a cara, fala baixo e quando fala no celular GRITA, mesmo porque – pelo que entendi – a ligação não estava grande coisa. Mas o melhor é que esta senhora, do avião, estava aniversariando. Quando terminou a ligação, eu e dois colegas gaiatos demos os parabéns. E a senhora ficou constrangidíssima porque acreditou (será?) que era uma ligação privativa, secreta e silenciosa… Bom senso foi longe!”

Vocês acham que falar sem parar é coisa de brasileiro? Pois pensem duas vezes. Ines de Carvalho tem experiência no assunto: “Eu moro na Suécia, e não pensem que a coisa aqui é diferente, porque não é. Quando se toma um trem por exemplo, acontece o mesmo. Gente batendo papo furado a viagem toda com o raio do telefone grudado no ouvido! É uma tortura. Para quem não aguenta mesmo, tem os vagões silenciosos, onde é proibido falar a ponto de incomodar o outro.” Idéia sábia, a das ferrovias suecas. Infelizmente, não será possível implentá-la em aviões, que não têm o benefício dos vagões separados.

(O Globo, Economia, 4.6.2012)

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11 respostas em “Ainda os celulares a bordo

  1. Em abril agora viajei de ônibus de Palermo a Catânia e foi um inferno! Nas duas horas de viagem, pelo menos 3 passageiros falavam ao mesmo tempo no celular. Quase chegando em Catânia não acreditei nos meu ouvidos… um celular sendo chamado com aquela música do Michel Teló!
    Nos trens, metrôs e ferries da Itália (até mesmo nos Vaporetti de Veneza) foi a mesma coisa. Fiquei abismada e me perguntava se no Brasil estava acontecendo o mesmo, já que raramente utilizo transporte público. Pelo menos no avião a gente tem um pouco de sossego. Pelo repouso dos ouvidos de todos, só deveriam ser autorizadas as mensagens de texto e a internet. E parabéns ao Aeroporto de Barcelona onde os avisos de partidas de vôos não são dados pelos alto-falantes mas por telões posicionados ao longo dos corredores e em frente aos portões de embarque.

  2. Opiniões e comentários técnicos esclarecedores à parte,eu que viajo bastante por este Brasil e com certa frequencia pra fora, NUNCA vi, ninguém na cabine (classe turística)
    usando celular. E não fico sentadinha o tempo todo, ando bastante até.Conclusão:
    pelo menos nos meus vôos a turma obedece às regras.

    • Oi,
      Não é burlar a regra, simplesmente já e permitido em alguns vôos da TAM, neste que eu estava era… Mas ainda é caro, graças a Deus !
      Veja o video no YouTube:

      • Oi the coach, isso eu sei, mas o que eu queria dizer é que mesmo portando celulares, (em vôos que não oferecem esse serviço),o povo obedece as regras, pois quando se chega nos aeroportos vê-se todo o mundo falando nos dito cujos.

  3. Aqui no Brasil, a TAM já está anunciando wifi em seus vôos para um futuro próximo! Então, sabe que os Celulares em nada interferem (?)…..Apesar de o mundo todo falar no celular berrando, aqui entre nós, em um aviāo cheio de brasileiros sem “algum” senso de propriedade, vai ser um cáos total.

  4. Adorei a idéia do The Coach! Se a pessoa fala tão alto ao celular ao ponto de ser impossível deixar de ouví-la, acho que temos o direito de interferir no assunto! Adorei! E se celular põe realmente em perigo a vida das pessoas em um voo, que se recolham os aparelhos, pois sempre há aquele esquecido que dixa o cel. ligado!

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