Celulares a bordo

Nunca acreditei na história de que telefones celulares e aparelhos eletrônicos podem interferir com a segurança de um vôo. Se houvesse a menor possibilidade de isso ser verdade, as autoridades aeroportuárias do mundo inteiro não deixariam passageiros embarcarem com seus eletrônicos: eles seriam recolhidos antes do vôo e devolvidos na chegada, ou deveriam ser postos nas malas despachadas. Um povo que recolhe mamadeiras e tesourinhas de unha não hesitaria em impingir mais esse transtorno aos milhões de pessoas que voam diariamente. Ou alguém realmente acredita que todos os passageiros, sem exceção, desligam os seus celulares assim que os comissários ordenam?

Os passageiros dos aviões que foram lançados contra as Torres Gemeas telefonaram em peso para suas famílias e nenhum daqueles aviões condenados foi afetado por isso. Tem mais: assim como tanta gente, cansei de usar câmeras digitais para registrar pousos e decolagens antes que seu uso também fosse proibido, usei celulares em modo avião algumas vezes e até esqueci telefone ligado sem querer durante o vôo todo – sem que meus aparelhos afetassem qualquer vôo em que eu estivesse.

Agora acaba de sair a prova definitiva de que essa proibição é apenas um ato autoritário e mais uma das mentiras a que estamos expostos: a Virgin Air vai instalar antenas nos seus Airbus 330 e Boing 747 para que os passageiros possam fazer ligações à vontade nos vôos entre Londres e Nova York. Não estamos falando de uma companhia suspeita, sem preocupações com a segurança dos usuários; ao contrário, o histórico da Virgin é dos melhores.

Procurando um pouco na internet, encontramos diversas matérias e fóruns sobre o assunto. Os especialistas são unânimes em reconhecer que não há nenhuma evidência factual por trás da proibição, que ainda vigora na maior parte das companhias aéreas por dois motivos: o poder da inércia (é melhor deixar como está do que ver como fica) e a percepção de que a maioria dos passageiros prefere voar em silêncio, e não gostaria de enfrentar a barulheira causada por 200 ligações simultâneas. Há ainda quem atribua a proibição ao desejo das companhias aéreas de manter a atenção dos passageiros durante as instruções de decolagem dos comissários, coisa que seria difícil, se não impossível, se todos estivessem usando os seus aparelhos.

Na edição de 9 de fevereiro de 2009, o Wall Street Journal trazia uma reportagem sobre o assunto. Nela, Rick Seaney, CEO da FareCompare.com e colunista de aviação da ABCNews.com , dava uma declaração interessante, confirmando que a idéia de que os celulares interferem com os instrumentos de vôo é “um mito”, e atribuindo a proibição do seu uso ao “medo do desconhecido”. Ele também acha que os passageiros não querem conversas de celular a bordo, mas observa que, no final, a questão se resumirá ao lucro das companhias aéreas. Ou seja: podemos nos preparar para, dentro de cinco anos, usar celulares em aviões.

Como essa declaração foi dada em princípios de 2009, falta pouco para que a previsão se confirme.

Há um novo aplicativo deixando os usuários do Instagram malucos. É o Marblecam, que tem esse nome porque transforma qualquer imagem no que elas seriam se fossem fotografadas através de uma bolinha de gude transparente. De profissionais a amadores bem intencionados, praticamente não há quem não tenha cedido à tentação de usar o brinquedinho – que, ainda por cima, é gratuito. Tem apenas dois defeitos: não permitir que a gente escolha onde quer por a bolinha na foto, e sempre virar a imagem da bolinha. Realismo é bom, mas cansa.

o O o

Não gostei do Facebook Camera, aplicativo para iPhones lançado anteontem pelo Facebook. A interface é truculenta e pouco amigável. Além disso, ele tem um defeito terrível: permite ao usuário subir quantas fotos quiser. Isso é perfeito para álbuns de fotos, como os do Picasa, mas péssimo para um programa que pretende ser extensão de uma rede social. Se no Instagram, onde se sobe foto por foto, há usuários que tiram outros do sério porque fazem upload de fotos demais, imaginem como vai ser no FC… Só não desinstalei o app porque escrevo sobre tecnologia e tenho de ficar de olho no que aparece; se fosse uma usuária sem esta obrigação, já teria desinstalado.

Aos usuários de Android que se sentiram desprezados pelo Facebook: fiquem tranqüilos, vocês não estão perdendo absolutamente nada!

(O Globo, Economia, 26.5.2012)

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25 respostas em “Celulares a bordo

  1. Curiosamente, essa história de celular derrubar avião começou a ser ventilada após o acidente da Tam, com o Fokker 100, em Congonhas, quando o reverso da turbina entrou em ação durante da decolagem. Foi uma das causas cogitadas, de acordo com as diversas análises feitas na época, embora muitos especialistas tenham descartado esta teoria. O problema todo com celulares é que sua potência de transmissão é altamente variável, dependendo da distância entre a estação base e o aparelho, variando de menos 01,W até cerca de 2 W. Exatemente por esta razão, quando se viaja de carro com o celular ligado, a bateria descarrega rapidamente, pois sempre que o aparelho celular fica fora do alcance de uma estação base, aumenta para o máximo sua potência de transmissão, na tentativa de “falar” com alguma estação base. No caso das empresas aéreas que estão disponibilizando o serviço de celular, eles estão colocando uma estação base dentro do avião, que captura todas as ligações de celular, então fazendo uma conexão via satélite para uma estação terrestre. Em sendo assim, o celular vai funcionar dentro desses aviões no nível mínimo de potência, o que teoricamente reduziria a possibilidade de interferência com a aviônica embarcada, mas por outro lado, o usuário será brindado com a cobrança de uma ligação internacional, a módicos US$ 15,00 ou mais por minuto…
    De qualquer modo, vale com certeza o comentário de que se celular realmente fosse perigoso, a ponto de poder derrubar um avião, deveriam recolher todos os aparelhos no aparelho de raio-X e colocá-los todos dentro de uma caixa metálica lacrada. O problema é que já estão roubando o conteúdo de malas, devido ao baixíssimo nível de segurança das áreas operacionais dos nossos aeroportos (nem câmera de vigilãncia tem, senão não ocorreriam tantos roubos de malas), imagina se todos os celulares e smartphones fossem recolhidos…

  2. Segurança não parece ser importante no Brasil. A Virgin para colocar esta comodidade em seus voos passa por testes e mais testes e toma medidas protetivas validadas por autoridades reguladoras. Conheço relatos de interferência em aviônicos que deixaram colegas em situações desconfortáveis, mais tarde associadas a celulares. Não parece óbvio que uma conhecida empresa brasileira não teria gastado milhões para prover esta amenidade em alguns de seus aviões? O exemplo foi inadequado: onze de setembro foi um episódio limítrofe, a operação não era conduzida por pilotos profissionais e voavam “visual”. Morrem milhares de pessoas devido ao uso de celulares em carros, mas se você for parado numa blitz e não estiver com ele acindicionado numa bolsa não terá o aoarelho confiscado, certo? Todo mundo quer permitir, mas os exaustivos estudos resultam menos conclusivos que os padrões de segurança da aviação exigem. Vc apostaria a vida de 200 pessoas, incluindo o seu filho, por uma ligação ou esperaria? Não havia indícios de que lançar a Challenger abaixo da temperatura padrão era arriscado. A história todo mundo conhece. Antes fumava-se em aviões: VARIG em Orly, quase todos mortos, vítimas de um único cigarro. Agora, não se fuma mais. Faz-se gerenciamento do risco em termos de severidade e probabilidade: a severidadedo risco do celular é catastrófica, a probabilidade ocasional. Logo, proíbe-se, pois não se paga para ver. Conselho: respeitem as regras de segurança a bordo, aproveitem a viagem e busquem informar-se em fontes confiáveis, não nas wikipedias da vida. Sou piloto, especialista em prevenção e investigação de acidentes aeronáuticos, membro da International Society of Air Safety Investigators e professor de Segurança de Voo em São Paulo. Ah, e adoro meus smart-phones, mas ainda mais a segurança. Um artigo sobre os texting drivers, ou seja, motoristas que digitam no trânsito faria melhor aos leitores da coluna.

    • Muito boas as suas observações, muito obrigada! Na verdade, meu problema não é usar ou deixar de usar o aparelho durante o vôo, mas sim ser tratada como imbecil pelas companhias aéreas e autoridades aeroportuárias. Se um celular tem a mais remota possibilidade de derrubar um avião, as autoridades que nos roubam tesourinhas de unha, garrafas de água e outros objetos igualmente perigosos estão falhando miseravelmente no cumprimento do dever, pois é óbvio que, entre 200 passageiros, sempre haverá aquele ou aqueles que não desligam o aparelho, por birra ou esquecimento. Agora proibem também cameras fotográficas. A troco do quê?

      • Na verdade a hipótese do celular ter derrubado o Fokker da TAM foi descartada muito rapidamente durante as investigações. Realmente, celulares não derrubam aviões. Usuários de celular, utilizando-os, aumentando as ameaças na operação e não sendo estas interrompidas até a última linha – o piloto – é que neste contexto tornam-se possíveis fatores contribuintes de um acidente com múltiplas perdas. O fato de celulares não serem recolhidos não é um argumento lógico. E também não é verdade que não haja câmeras de segurança nos aeroportos brasileiros. Não há em todos, nem em todos os lugares, mas há em muitas áreas de grandes aeroportos. Com todo respeito às suas opiniões, bem escritas, inclusive, discordo plenamente, pois sua argumentação é o que em lógica se chama “post hoc, ergo propter hoc”, ou seja se x não acontece, é prova de que y também não acontece. É uma falácia.

      • Cora, eu que agradeço a oportunidade de esclarecer alguns pontos sobre esta questão. A prática do gerenciamento do risco é bastante complexa, e é por isso que uma aparentemente inofensiva tesourinha não pode ser comparada a um celular que eventualmente pode levar um aviador a um erro, em função de uma imprevisível e imponderável interferência eletromagnética. Por isso, proíbe-se o uso a bordo, mas não se recolhe. Já um objeto que em mãos treinadas e mal intencionadas pode ser usado como arma, sabemos claramente o que pode provocar. Isto é security, o primeiro caso é safety. Lembremo-nos que em 11/9 eram estiletes comprados em papelaria e mataram mais de 5000 pessoas. O uso livre poderia encorajar um número elevado de pessoas a usarem seus celulares na hora da aproximação, por exemplo, provocando uma interferência de grande intensidade num momento em que os pilotos estão sem visão, apoiados na precisão de instrumentos passíveis de interferência. O uso ativo do aparelho é o maior risco, claro que alguns ficam ligados por esquecimento eventualmente. Por isso, se permite seu porte e uso com as portas abertas, mas proíbe-se a utilização quando elas se fecham. Também não se confiscam cigarros, mas proibe-se o uso. É sempre bom lembrar que expor aeronave a risco é crime previsto no Código Penal e que a bordo, o comandante exerce autoridade sobre todos. Passageiros flagrados descumprindo normas de segurança e trazendo risco aos demais podem ser desembarcados e entregues às autoridades. Abraços!

  3. Eu moro na Suécia, e não pensem que a coisa aqui é diferente, porque não é. Quando se toma um trem por exemplo, acontece o mesmo… gente batendo papo furado a viagem toda com o raio do telefone grudado no ouvido!!! É uma tortura. Pra quem não aguenta mesmo, tem os vagões silenciosos, onde é proibido falar a ponto de incomodar o outro. Mas em avião não vai dar pra separar a turma assim… eu ficaria mais feliz com uma bredband bem rapidinha!!!

  4. Eu uso um fone com um plug de silicone que evita a audição de qualquer ruído que não a música que estou ouvindo. Sem ele, não embarco!

  5. Espero que as companhias aéreas tenham o bom senso de distribuir protetores auriculares descartáveis pra quem não quiser falar no celular, nem ouvir conversa alheia.

  6. já vi tanta coisa irritante em vôos com passageiros mal educados que o mau uso do celular a bordo seria só mais uma cereja no bolo, mais um palito para enfiar sob as unhas do vizinho. o aparelho não é bom nem mau (tantas vezes é inútil, mas isso é outra coisa), mas o uso que se faz dele, dentro ou fora de um avião, pode derrubar castelos de tranquilidade, nem por isso se coloca para fora todo mal que paga por sua passagem para exercer seu direito à má educação onde bem entender.

  7. Teve uma actualização p/ Android q saiu com esse app de cam. Não gostei. A versão 4 do Android faz uploads de modo muito mais rápido e eficiente que a cam do FB. Felizmente nas demais atualizacoes isso não veio.

    Já leu: ” não me faça pensar”?? Estou lendo só agora, é de 2005.. estou gostando, fala sobre usabiliade na Internet. Como tester vai me ajudar mto 🙂

  8. Acabo de baixar a atualização do Marblecam app. Já se pode rodar o reflexo e agora existe a opção de dois tamanhos da bolinha.
    Só não há como deslocá-la, ainda: permanece central.
    Lindo brinquedinho.
    Bom fim-de-semana a todos.

  9. Quem melhor resumiu a questão (ou tormento) dos pervasivos falantes nos celulares foi o NY Times, nesta manchete:

    Uma boa notícia: em breve você poderá usar seu celular durante o vôo.
    Uma má noticia: todos os demais passageiros também
    .

    Está cada vez mais insuportável os ubíquos celulares nas salas-de-espera, filas, ônibus, cinemas (as telinhas acendendo como vaga-lumes compulsivos na sala escura), restaurantes, calçadas; e o incessante papo-furado em público das conversas dos outros

    E Nextel (ou Viva-Voz) é insuportável em dobro: não apenas temos que ouvir os berros de quem fala, como também a algaravia metálica de quem responde; entremeado com ‘BIPs!’ eletrônicos pontuando o final de cada frase.

    Aaaaaaargh!

  10. E dentro de elevador lotado hein, hein? E ainda por cima você indo pro dentista!

    Por essas e outras, há que se admitir certas vantagens civilizatórias da Coreia do Norte…

  11. Concordo com todos os comentários aqui, mas o que eu sei, Cora;ouvido de conhecidos da aviação, é que os celulares *poderiam* afetar a fonia dos pilotos, ou seja o ” fala e escuta”
    dos mesmos com a torres e outros pontos de apoio. Alguém me corrija se eu estiver errada.

  12. Tomare que continue proibido, exatamente pela razão que the coach e J.Theodoro escreveram…aturar gente gritando no celular dentro do avião é dose!

    • Também acho, Heliana. Peguei umas duas vezes o ônibus de Itaipava pro Rio. ônibus confortável, temperatura agradável, perfeito pra ir lendo a Veja. A quantidade de gente batendo papo furado no celular é irritante. Não estou falando de alguém avisando que está chegando daqui a pouco ou que vai chegar atrasado, é conversa fiada mesmo, de quem não tem o que dizer e compartilha essa falta de assunto com quem está a sua volta! Insuportável! Isso multiplicado pela lotação de um avião, nem pensar! ;-(

    • Heliana, assino embaixo.
      Jesus me livre de passar x horas, sem escapatória!, ao lado de uma pessoa com verborragia. Ninguém merece…

  13. Semana passada fui para Belém em um vôo onde era permitido utilizar o celular.
    Sim, isso já existe, e precisa pagar um X a mais e conseguir falar.
    Pois havia UMA pessoa utilizando o celular e foi um inferno, porque quando você fala com a pessoa cara a cara, fala baixo e quando fala no celular GRITA, mesmo porque – pelo que entendi – a ligação não estava grande coisa.
    Mas o melhor é que esta senhora, do avião, estava aniversariando.
    Quando terminou a ligação, eu e dois colegas gaiatos demos os parabéns.
    E a senhora, ficou constrangidíssima porque acreditou ( será ? ) que era uma ligação privativa, secreta e silenciosa…. Bom senso foi longe !

  14. Só de pensar que, no meio do meu inevitável soninho dos voos, vou ter de aturar os empresários estressados, as mães mala sem alça, os teenagers tipo assim, todos se refestelando com seus celulares, já vi que vou fazer um Van Gogh a cada viagem. Credo!

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