A AOL do novo milênio

Como todo mundo sabe, na década de 1990 Bill Gates quase perdeu o bonde da internet. Enquanto a rede se espalhava pelo mundo, ele apostava as suas fichas nos sistemas fechados, em que a vida online crescia dentro de ambientes controlados. Ao contrário da internet, que Gates achava que não passava de onda de estudantes universitários, as redes fechadas de provedores como Compuserve e Genie eram ambientes seguros e sem mistérios, fáceis de usar e seguros para criancinhas e mães de família.

O grande exemplo dessa vida virtual de aquário era a AOL, America Online, que dava as cartas nos Estados Unidos e que, quando se associou à Time Warner, valia mais ainda do que a tradicional gigante de mídia.

A Microsoft nunca conseguiu se recuperar dessa falta de visão. Continua sendo uma das maiores empresas de tecnologia, continua com um sólido faturamento, continua a dominar o mercado de sistemas operacionais para PC, mas tornou-se emocionalmente irrelevante. Nos velhos tempos, era impossível falar de tecnologia sem mencioná-la; hoje, ela simplesmente não entra na discussão. Desde que o mundo se mudou para a internet e para a nuvem, os sistemas operacionais deixaram de despertar as paixões que despertavam quando os computadores não eram máquinas conectadas.

Hoje Bill Gates só não é um retrato na parede porque, sabiamente, resolveu dedicar-se à filantropia. Sua nova imagem de benfeitor de comunidades carentes se sobrepõe, aos poucos, à imagem do capitalista selvagem que não respeitava regras nem leis, e que tantos de nós se acostumaram a detestar. As paixões que nos moviam naqueles tempos são incompreensíveis para a garotada que chegou à internet pós-Netscape.

Pensei nisso tudo lendo o noticiário sobre o IPO do Facebook, que sempre me pareceu uma espécie de AOL do novo milênio. Como a essa altura sabem até as pedras da rua, nunca houve fenômeno igual; mas isso era de se esperar, já que nunca houve tanta gente online no mundo, e que praticamente todo o mundo ocidental usa o Facebook.

Na verdade, há muitas pessoas para quem a internet é o Facebook. É lá que elas recebem emails dos amigos e é lá que se informam e se distraem, alheias ao universo maior que as cerca.

Na época de ouro da AOL, em 2001, suas ações valiam U$ 226 bilhões; em 2006, tinham despencado para US$ 20 bilhões. Não querendo jogar água na fervura de ninguém, penso que vai ser interessante ver o Facebook daqui a seis anos.

o O o

Usuários do ótimo Samsung Galaxy II não precisam ficar desconsolados com o lançamento do Samsung Galaxy III, imaginando que seus preciosos aparelhinhos tornaram-se subitamente obsoletos. Pelo contrário: o Galaxy II, que usa a versão 2.3 Gingerbread do Android, acaba de ser contemplado com um upgrade para a versão 4.0, Ice Cream Sandwich, já disponível através do Kies, o aplicativo para desktops do fabricante (download em bit.ly/JpFFZu). O upgrade é muito fácil de fazer e respeita os dados e aplicativos do usuário, mas convém observar sempre a regra de ouro para alterações de peso em dispositivos móveis: carga total da bateria. Fazer upgrade num aparelho com pouca carga é um jeito seguro de inutilizá-lo.

(O Globo, Economia, 19.5.2012)

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8 respostas em “A AOL do novo milênio

  1. Uma coisa que sempre admirei no Bill Gates foi sua incrivel visão para fazer dinheiro. Produtos bons ou ruins, sucessos ou fracassos, tudo dá lucro.
    E concordo com o colega acima sobre a história de monopólios naturais.

  2. Coincidências:

    No dia 27/abr, escrevi para mim mesmo um ensaio comparando o tutelado ambiente do Universo Apple e os aplicativos para SmartPhones com a AOL.

    No dia 18/mai, no site How to Geek, Asian Angel compara a interface da AOL com o Win8

    No dia 20/mai, a Cora compara o Facebook ao AOL

    Pelo visto, a mentalidade paternalista da AOL (“Internet for Dummies”) está de volta, criando ‘cercadinhos’ protetores para os usuários, cada vez mais infantilizados. Uma Internet “ad usum Delphini“. Na mesma mentalidade conformista de “Madagascar”, onde louvavam a idéia que é muito melhor viver protegido dentro das grades de um zoológico que em liberdade, na selva.

    😦

  3. Concordo com você, Cora Rónai! Agora será que eu podia dar uma sugestão? Você poderia tentar avaliar o Nokia 808 Pureview? Nunca pensei em dar mais de 1000 pratas em um aparelho de celular, mas com lançamento do Nokia 808 PureView… (uso um Nokia X6 que eu paguei R$ 330,00 em uma promoção e ele me atende bem, até agora…)

  4. Depois da morte já anunciada pela Internet do meu nexus one, fiquei confuso no mar de smartphones. Tenho amigos com todos os tipos de hardwares e softwares e fucei um pouco em cada: lumia, iphone, galaxy S, galaxy S II, etc…

    O que mais me agradou foram os galaxys. Mas não vi motivos pra ter um S II, o S faz tudo que eu preciso. E fiquei 3 meses tentando comprá-lo, nunca tinha no estoque da fastshop.com. enfim, comprei. Qdo chegou, um amigo me mostrou o SGS dele rodando ICS. Fiquei muito feliz com aquilo. Era CyanogenMod com ROM do ICS. Claro que fiz no meu. Depois de fazer o celular parar de funcionar várias vezes por minha culpa durante o processo de instalaçao disso, hj está tudo ok, e o ICS é AWESOME, melhor ainda com CyanogenMod que tem umas funçõeszinhas a mais.

    😉

  5. Eu diria que Facebook é mais comparável à própria Microsoft. Ambas têm até certo ponto um monopólio natural. Todo o mundo usa Word, porque? Porque precisa de um programa compatível com o dos colegas. Bom ou ruim, caro ou barato, pouco interessa: tem que ser compatível.

    Facebook tem o mesmo efeito de aglomeração. Myspace e Orkut chegaram antes, Google+ é melhor tecnicamente, Diaspora é open software, nada disso interessa: você precisa usar a plataforma que todos usam. É um fenômeno conhecido dos economistas.

    Esses monopólios naturais são muito lucrativos, mesmo que não conduzam à inovação. Então são 2 perguntas diferentes. Será que Facebook vai dar lucro para os investidores? É possível, mas não garantido. Será que vai ser um grande inovador? Menos provável, mas pode acontecer. No caso da Microsoft, as respostas foram sim, e mais ou menos. A AOL sempre foi um lixo completo.

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