Mídias, DRM, PAL-M

No breve espaço de um mês, estive em duas novas bienais de livros, a de Brasília, realizada entre 14 a 23 de abril, e a do Amazonas, em Manaus, entre 27 de abril e 6 de maio. Em ambas me pediram para falar sobre mídias sociais, e embora elas pouco ou nada tenham a ver com livros, estão tão inseridas na cultura contemporânea que, em nenhuma das platéias, encontrei quem estranhasse o tema dos debates.

As duas, igualmente atentas e bem informadas, participaram com gosto e propriedade da conversa. A pergunta mais comum: até que ponto a nossa atividade nas mídias sociais atrapalha a nossa vida real? Minha resposta a isso parte do princípio de que essa é uma oposição que não se justifica. Nossa vida no Facebook, por exemplo, também é real. O fato de não estarmos com as pessoas ao vivo, no botequim da esquina, não diminui os nossos sentimentos em relação a elas.

A verdade é que, no fundo, não há nada de novo sob o sol. Seres humanos se comunicam à distância desde que a escrita e as cartas foram inventadas. A internet é feita de conversas desde que nasceu, dos BBS e grupos da Usenet ao Second Life que, ainda outro dia, era considerado a última palavra em comunidade virtual. Somos animais que gostam de contar histórias, e fazemos isso de acordo com as ferramentas de que dispomos.

o O o

Ontem, dia 4 de maio, foi o Dia Internacional Contra o DRM. Criado pela Electronic Frontier Foundation (EFF) e apresentado em www.defectivebydesign.org, ele tem o objetivo de alertar os usuários para empresas e produtos que usam sistemas de DRM, ou seja, Digital Rights Management. Esses sistemas, que em tese impedem a cópia de software, filmes, músicas, livros e conteúdo digital de modo geral, pecam por penalizar (como sempre!) o consumidor correto, que comprou uma cópia legal do produto. Quem compra cópias piratas ou baixa o que quer da internet adquire, paradoxalmente, produtos muito melhores, que não têm restrições e podem ser transferidos entre computadores, emprestados a amigos e usados à vontade.

Tenho uma experiência clássica com DRM, que evito ao máximo usar. Há alguns anos, seduzida pela propaganda da Nokia, que me oferecia caminhões de música grátis, baixei muita coisa da Ovi. Eu sabia que aquilo era protegido, mas encontrei coisas que não tinha e não resisti. Foram algumas centenas de músicas que, burramente, deixei misturarem-se às  já existentes na minha máquina. Não uso mais o celular que me deu direito a elas (o N95) e fiz alguns upgrades na máquina. Resultado: parte considerável da minha coleção não pode mais ser tocada, e estou tendo que capinar fora os arquivos inúteis, que ocupam espaço e me dão a falsa impressão de que tenho títulos que, na verdade, não estão ao meu alcance. Nunca mais caio nessa!

o O o

Escrevi há algumas semanas que as novas tomadas de três pinos são uma aberração tipicamente brasileira, uma jabuticaba parecida com o PAL-M, que só existe aqui. O Léo Fernandes me mandou um ótimo email pondo os pingos nos ii:

“O sistema PAL-M só existe no Brasil e no Nepal, mas não foi fruto de uma arbitrariedade e sim de uma combinação de fatores únicos. A TV P&B seguia o padrão americano: 525 linhas e 30 quadros por segundo (30 por causa da rede elétrica, de 60Hz).

Poderíamos ter usado o padrão americano de cores, NTSC, mas ele tinha problemas: as cores variavam o tempo todo. A piada dizia que NTSC significava “never twice the same color”. Para corrigir isto, as TVs de lá tinham o botão “hue” (“matiz”, que no Brasil ficou sem função).

O padrão PAL, alemão, tinha resolvido o problema e foi o escolhido. Acontece que era preciso manter as 525 linhas para não perder a compatibilidade com as TVs P&B existentes, e os 30 quadros por causa da rede elétrica. O resultado foi uma combinação única. Mas o Brasil não é assim tão diferente. Há muitas variações do PAL: PAL-B na Inglaterra, PAL-N na Argentina e outros países com rede de 50Hz, a  França tem um sistema próprio, o SECAM etc. A coisa é bem fragmentada.”

(O Globo, Economia, 5.4.2012)

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15 respostas em “Mídias, DRM, PAL-M

  1. Isso mesmo!

    “…A verdade é que, no fundo, não há nada de novo sob o sol. Seres humanos se comunicam à distância desde que a escrita e as cartas foram inventadas. A internet é feita de conversas desde que nasceu, dos BBS e grupos da Usenet ao Second Life que, ainda outro dia, era considerado a última palavra em comunidade virtual. Somos animais que gostam de contar histórias, e fazemos isso de acordo com as ferramentas de que dispomos.”

  2. Olá Cora,
    Paz e Bem
    Estive presente na sua fala na Primeira Bienal do Livro do Amazonas; parabéns, foi muito simpática e soube com serenidade e sabedoria conduzir seus argumentos.
    Obrigado pela sua presença na nossa calorosa Manaus!
    Abraços
    Francisco José

    • O Brasil teve a oportunidade de implementar um sistema que, na época, era tecnicamente superior. Temos que lembrar que no início dos anos 70 a televisão só servia para captar canais abertos por antena terrestre, e para isso o PAL-M era ideal. Os problemas só surgiram no fim da década com o advento de videocassetes, videogames e outros gadgets “importáveis”. Mesmo assim a transcodificação PAL-M/NTSC é relativamente simples, no caso dos demais PAL (nem falo do SECAM) é bem mais complicada.

      • rafael, pelo visto você é especialista. talvez por isso o seu “relativamente simples”. eu sempre penei bastante com essa jaboticaba.

  3. Obrigado pelo Pal-M. E para a tomada brasileira de três pinos haverá alguma explicação racional?

  4. Em 2005 um executivo da Disney, Peter Lee, falou ao The Economist, “Se os consumidores ao menIf consumers even know there’s a DRM, what it is, and how it works, we’ve already failed,”. A year later, on October 3rd we made that prediction come true. Now with your help, we can work to put an end to DRM.

    • Desculpe, estava traduzindo um trecho encontrado no site pra juntar ao seu e ilustrar o TAMANHO DA ENCRENCA DRM!
      Segue sem tradução mesmo:
      ‘In September 2005 a Disney executive named Peter Lee told The Economist, “If consumers even know there’s a DRM, what it is, and how it works, we’ve already failed,”. A year later, on October 3rd we made that prediction come true. ‘

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