Aventura na Amazônia

— Senhoras e senhores boa noite, aqui fala o comandante — informou a voz pelo alto-falante. Era uma da manhã e em tese deveríamos estar aterrissando em Manaus. Estavamos voando há mais de quatro horas, mas o avião, estranhamente, permanecia em altitude de cruzeiro. — O aeroporto Eduardo Gomes está fechado. Vamos para o aeroporto de Val-de-Cans, em Belém, onde o tempo encontra-se bom.

Ouviu-se um “Oh!” coletivo de frustração. Talvez fosse efeito do adiantado da hora, mas nenhum dos passageiros pareceu muito surpreso. O casal ao meu lado, que dormira o sono dos justos desde que decolaramos do Rio, acordou de vez, arrumou as roupas e ajeitou-se nas poltronas. O rapaz virou-se para mim, conformado:

— Podia ser pior. Já fomos parar em Porto Velho e de lá é bem mais difícil conseguir avião.

— Vocês são de Manaus?

— Na verdade não. Ainda vamos para São Gabriel da Cachoeira, a uns 800 quilômetros de Manaus. Dá um dia de viagem pelo rio Negro. Fica bem em cima, na fronteira com a Colômbia. É a cidade com a maior população indígena da Amazônia, mais de 80% dos habitantes são índios.

— De uma tribo só?

— Não, de várias tribos.

— E falam português?

— Nem todos. Eles falam diversos idiomas, mas se entendem mesmo em nheengatu, que é a língua geral.

— Vocês nasceram lá?

— Não, somos de Santa Catarina. Viemos há dois anos, com os nossos dois filhos. Eu sou missionário.

— E é bem recebido?

— Muito! Todos estão abertos para receber a palavra de Deus. Eles nos tratam bem, e reclamam quando ficamos sem aparecer, mas nem sempre é fácil chegar às comunidades mais afastadas. Algumas ficam a dois dias de igarité rio acima.

— Você gosta do que faz?

Fiz a pergunta por fazer, porque adivinhava a resposta pelo entusiasmo com que ele falava.

— Gosto demais. Não consigo me imaginar levando outra vida, Deus me criou para este trabalho.

— Qual é a sua igreja?

— Assembléia de Deus.

Não tive tempo de perguntar quanto os índios pagam de dízimo, porque nesse ponto o desembarque foi autorizado. Encontrei outra interlocutora no ônibus entre avião e aeroporto: uma moça sorridente demais, dadas as circunstâncias. Mal começamos a andar e ela não se conteve:

— Estou tão feliz com esse desvio do avião! Não pelos passageiros, mas é que eu estava vindo para Belém, de Manaus ainda ia para Santarém e só chegaria aqui às cinco da manhã.

Pelo menos uma pessoa no vôo se deu bem. Já as outras cento e tantas… O ônibus parou e saí disparada rumo ao check-in da companhia. Três homens haviam chegado antes de mim, e discutiam com os atendentes que, num dado momento, sumiram todos. Um quarto homem furou a fila que se formava e ficou dando socos no balcão até a sua volta.

— Onde é que vocês estavam?

— Lá dentro.

— Mas check-in se faz aqui fora.

— Check-in sim, mas acomodação não.

— Vocês estão achando que eu sou otário?

O homem subiu a voz e resolvi intervir.

— Deixa o moço trabalhar, olha o tamanho da fila que ele ainda vai ter que atender.

— A senhora não me diga o que eu tenho de fazer! Eu não sou babaca.

Pronto, pensei, carimbou-se com B maiúsculo.

— Ninguém disso isso, mas criar caso não vai adiantar nada.

— Brasileiro tem mania de aceitar tudo, de abaixar a cabeça. Comigo não tem dessa não! A senhora pode saber tudo dentro da sala de aula, mas eu entendo de aeroporto.

Os homens que haviam chegado antes ao balcão desviaram os olhos, fazendo cara de paisagem. Os atendentes ficaram tensos.

— Tudo bem, mas o senhor acha mesmo que o rapaz aí pode abrir o tempo lá em Manaus para a gente pousar?

— Eu não sou babaca! Estou cansado de saber como aeroporto funciona.

A senhora que estava atrás de mim me puxou para o canto e cochichou:

— Cuidado, não provoca esse cara! Ele é bandido.

— A senhora conhece?

— Não, mas repara só no jeito dele.

Olhei para o homem que esbravejava e percebi que não era muito difícil imaginá-lo matando  um seringueiro ou uma freira nas horas vagas. Resolvi dar meu assunto com ele por encerrado. Logo era a minha vez de ser atendida.

— A senhora pode pegar o próximo vôo para Guarulhos, que sai às cinco, e de lá pegar o vôo para Manaus. Ou pode pegar o das cinco e meia para Brasília, e de lá pegar o vôo para Manaus.

Fiquei com vontade de chamar o homem que esbravejava para que esbravejasse um pouco por mim. Usando meu nheengatu mais escorreito, deixei claro o que achava daquelas propostas. Logo me conseguiram um hotel e um vôo via Santarém que me depositaria em Manaus às quatro da tarde.

O hotel em Belém, que é do tempo dos móveis em cerejeira e que já viu melhores dias, fica em frente a uma praça cheia de mangueiras. Os quartos da frente devem ter uma bela vista, mas fiquei num de fundos. Dei muita sorte: na manhã seguinte, a praça estava tomada por carros de som que comemoravam com comícios o primeiro de maio. Ninguém dormiu nos quartos com vista. Bem descansada depois de algumas horas de sono, bebi um suco de acerola fresquinho, juntei meus teréns e fui para o aeroporto, pensando no missionário, no bandido e nas coisas da vida.

Como é bom viajar!

(O Globo, Segundo Caderno, 3.5.2012)

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14 respostas em “Aventura na Amazônia

  1. Pará/Belém capital não tem…já morei em Serra dos Carajás, já estive por essas bandas. Viagem cansativa essa sua, pobre Cora.

    Bjs

  2. Minha irman morou 3 anos em Sao Gabriel da Cachoeira,minha sobrinha loura de olhos muito azuis era o destaque diário na rua em que morava.Minha irman amou o lugar e ficava sempre emocionada com a gratidao dos índios qdo eram tratados respeitosamente e valorizados.Vbr,coitados dos nossos índios mesmo,mas nao por esse mesmo motivo.Meus pais moraram muitos anos em Manaus e eu fui la´visitá-los uma vez.Foi um grande choque.Um choque com a cultura índigena dilacerada na cidade e tb a original nas aldeias.Minha sabedoria índigena era totalmente pautada por Jose´de Alencar,foi horrível.Aprendi a amá-los através de amigos missionários .Minha experiência com missoes foi ate´hoje muito positiva,mas conheco histórias muito tristes.
    Cora,sua cônica foi uma delícia!!!Parabéns!

  3. 800 kms de Manaus é longe pra dedéu, bonito o entusiamo e empenho do Pastor, mas… pobres dos indios, que desde os jesuitas não tem sossêgo. Afff..

  4. crônica maravilhosa. e como, graças, as pessoas são diferentes: eu, que *odeio* avião, teria terminado com um “como é chato viajar!”.

    []’s

    em tempo: meus móveis, ainda os do casamento, são de cerejeira :¬)

  5. O meu espírito aventureiro me faz adorar esses imprevistos! Se não interferir com algum compromisso, fico até feliz pela chance de conhecer um novo lugar.
    O problema no voo rendeu uma ótima crônica, Cora!

  6. Como disse uriartt, é um grande País. É impressionante que a alternativa de Manaus seja Belém, é como se com o Galeão fechado os voos fossem para Porto Alegre. Mais surreal ainda é indicarem um voo para Guarulhos como se fosse “logo ali”.

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