Conversa vai, conversa vem

Li no jornal, aliviada, que R$ 508 milhões, em moedas, estão fora de circulação no Brasil. A primeira notícia que apareceu na internet falava apenas na percentagem, “27% das moedas emitidas desde o lançamento do Plano Real”, e achei que fosse comigo. É que, há três anos, ganhei um porquinho de barro tamanho família e, desde então, passei a alimentá-lo com moedas de um real. No aniversário da Bia, em março, dei-lhe o bicho cevado de presente, mas embora ninguém na família tenha idéia de quanto há lá dentro, R$ 508 milhões com certeza não são. Folgo em saber que há mais culpados no cartório. O mistério doméstico, contudo, continua: a Bia não teve coragem de quebrar o cofre, que ainda tem um espaço vazio, e está juntando mais prata com as crianças. Aqui em casa sobraram dois porquinhos miúdos, recheados com moedas de menor valor, que prometo levar ao banco essa semana.

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Tirando a extravagante impressora de café que me dei recentemente, tenho tido muito poucas alegrias ao fazer compras no Brasil. Tudo neste país está ridiculamente caro, a tal ponto que, da última vez que parei em Londres, achei as roupas baratíssimas. Ora, quando alguém acha qualquer coisa em Londres baratíssima, é sinal de que algo não vai bem na equação geral.

Felizmente, há exceções. As Havaianas são uma delas. Sou apaixonada pelas Havaianas, sobretudo pelas tradicionais. Acho uma das coisas mais inteligentes a virada que a marca conseguiu dar, passando de calçado proletário a acessório chique – e mantendo o mesmo preço. Fico radiante quando passo no jornaleiro e encontro as minhas sandálias queridas a menos de dez reais; tenho pares e mais pares delas. E acho um contrasenso comprar Havaianas com strass ou grife de joalheria a preço de sapato caro; a graça está justamente no despojamento e na falta de pretensão.

Outra exceção são os sabonetes Phebo e Granado, sobretudo quando comprados na loja da Primeiro de Março, uma das mais lindas do Rio, que alegra o coração só com a visita. As duas marcas passaram por um processo de renovação parecido com o das Havaianas, que ressaltou o seu lado chique de boas tradições brasileiras. Os sabonetinhos que compramos no supermercado ganharam embalagens novas, iguais às de antigamente; ganharam também edições especiais, talcos, velas e difusores. A gente entra na loja, compra uma montanha de coisas cheirosas e gasta menos do que gastaria numa camiseta da esquina. Sempre lembrando que as esquinas por onde ando, em Ipanema, são as mais caras do mundo.

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Minha caixa postal não é tão interessante quanto a do Xexéo mas, de vez em quando, recebe a sua cota de notícias imperdíveis. Por exemplo: o que é que eu faria sem saber que o Hotel Four Seasons de Baku já está aceitando reservas? Se vocês perguntarem “de onde?!” não será vergonha nenhuma; até outro dia, eu também não tinha a menor idéia. Baku é a capital do Azerbaijão, e só descobri isso porque, por acaso, li um livro extraordinário chamado “O Orientalista”, de Tom Reiss, que recomendei aqui mesmo nos idos de 2007. Na época, fiquei tão encantada com a história que cheguei a pensar seriamente em ir ao Azerbaijão. Fui demovida pelo Millôr, que sabia que certos lugares são sempre mais ricos na imaginação; mas Zeca Camargo, que se empolgou com “O Orientalista” tanto quanto eu, e que não tinha nenhum guru ao lado para dar bons conselhos, acabou indo até lá, e me trouxe um simpático tapetinho de lembrança.

Bom. Voltando ao nosso (deles) Four Seasons: o prédio é espetacular e fica de frente para o Mar Cáspio, onde a praia às vezes pega fogo sozinha de tanto petróleo. A diária custa a quantia de 300 novos manats azerbaijanis, ou o equivalente a R$ 719 – com vista para a cidade. Vista para o mar, a partir de R$ 958.

Eu amo viajar, acho ótimos os hotéis Fours Seasons e tenho, mesmo passada a empolgação com “O Orientalista”, uma razoável curiosidade em conhecer o Azerbaijão; mas, diante dessas diárias, não vou sair correndo de casa.

Outro hotel que resolveu me comunicar a sua existência essa semana foi o Sofitel Mumbai, uma verdadeira pechincha se comparado ao Four Seasons de Baku: as diárias começam em modestos R$ 290. Segundo o release, os quartos têm algo chamado “conceito my bed”, uma cama “com 100% de plumas e penas de ganso combinada com um edredom ultra leve que promete uma noite perfeita de sono”. Plumas de ganso? Perfeita noite de sono? Taí, gostei. Agora só preciso de um release me informando quando sai o próximo avião para Mumbai.

o O o

Perguntei a Mamãe (88 anos) que tal a estadia em São Luiz, onde  disputou o Campeonato Brasileiro de Natação Masters, e de onde trouxe nada menos do que dez medalhas.  E ela, com um tom de triunfo na voz:

— Sobrevivi ao hotel!

O mundo da natação masters, ao contrário do mundo dos releases glamurosos que lotam a minha caixa postal, é um universo de provações físicas, de hotéis capengas, de vôos que partem e chegam em horários inimagináveis, de vestiários precários e piscinas geladas. O hotel ao qual Mamãe sobreviveu não tem armário, frigobar ou telefone no quarto. Em compensação, diz ela, o chuveiro seria ótimo se o box não fosse tão pequeno que impedisse o banho.

Quem manda não ir para Baku?

(O Globo, 26.4.2012) 

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29 respostas em “Conversa vai, conversa vem

  1. Cara Cora,

    Você é a minha cronista favorita, desde muito tempo…
    Compartilhamos o mesmo amor pelos felinos (tenho 10, todos adotados!), e pelos demais seres vivos; também pelos livros, filmes e honestidade e seriedade na política, entre muitas outras coisas.
    Nessa sua última coluna, você citou o Sofitel Mumbai, que se caracteriza pelo “conceito my bed”, uma cama “com 100% de plumas e penas de ganso combinada com um edredom ultra leve que promete uma noite perfeita de sono”.
    Pois é, fiquei incomodada com essa parte. E, “coincidentemente”, recebi hoje uma mensagem a respeito de uma petição exigindo que os gansos não tenham mais as suas plumas e penas arrancadas sem dó nem piedade, para os tais edredons e travesseiros de Mumbai e do resto do mundo…
    Aproveito para enviar o link: http: //www.thepetitionsite.com/582/632/753/
    Com todo o carinho, um grande abraço e muito obrigada por todos os seus maravilhosos compartilhamentos.

  2. Deve ter bastante dindin no porquinho da Bia. Um motorista de taxi me contou que ele junta moedas de 1 real em uma garrafa de um litro de água mineral. diz que a garrafa cheia dá 700 reais.

  3. Eu li “Dubai” ao invés de “Mumbai” e me lembrei de um vídeo que anda circulando por aí com uma fila de caminhões levando o esgoto de Dubai para tratamento. Tem uma versão mais longa que mostra uns caminhoneiros que desviam e jogam o esgoto clandestinamente em qq. lugar. Sei lá… tanto hotel de luxo, colchão de pena de dodô extinto, e ninguém pensou em rede de esgoto? Eu fiquei com a impressão de que quem vai está contribuindo pra esta porcaria toda.

  4. A cama toda de plumas do hotel em Mumbai me lembrou o Conto de Andersen, “A Princesa e o Grão de Ervilha”; pena- quase literalmente – o preço
    Quanto à Granado, nem falo: eu queria o caminhão 🙂

  5. Esta crônica nos remete aos tempos passados e nos dá, também, certa nostalgia…
    Há muitos anos, por indicação médica, uso somente sabonete de glicerina Granado. Acho ótimo, pois os muitos outros se desmancham. Uma dica dos dermatologistas: não esfregue muito o corpo, pois isso fará com que se perca a proteção natural da pele. Não exagere no calor da água e no tempo (mas, mesmo sabendo, faço tudo errado!).
    Quanto à dona Nora, tenho muita inveja – saudável, se é que isso existe – pois em água sou como moeda: afundo rapidamente…

  6. Pelo que estou vendo, Matilda e Marcela também são adeptas das slims e também perceberam que partem à tôa. Acho que vou voltar a comprá-las, e vou novamente guardar os exemplares quebrados novinhos pra poder reclamar! Não é possível que eles não consigam acertar esse defeito.
    Eu já estava achando que tinha algum problema no caminhar!

  7. Olha, lendo os comentários abaixo, acho que já sei onde estão as moedas sumidas!! hahaha 😉

    Cora, já comentei que adoro ler suas crônicas? Não?!? Pois, então, fica registrado.

    Dê meus parabéns para a super Dª Nora pelas merecidas medalhas!!

  8. Bernardo tem um porquinho azul, com detalhes em azul mais escuro, quase cheio já; ele quando chega da escola corre para fazer “investimento” com o avô, todo dia umas duas ou três moedinhas; hoje o porquinho quase todo cheio já nem pode mais ir no colo dele, então ele entra no armário, senta do lado do porquinho e coloca as moedas, quase como se alimentasse o porquinho azul; ele já coloriu o porquinho com aqueles riscos de lápis de crianças; é um porquinho grande e goooordo; se eu soubesse punha a foto aqui, o porquinho é mesmo lindinho, comprei no alto comércio da porta do super-mercado daqui do Imbuí, onde se vende “de um tudo’, é só parar o carro, caminhonete, caminhão, carroça, sentar na sombra e mercar, uma glória!
    Quanto as Havaianas, amo, mais já não posso usar, sendo diabética tenho que proteger os dedões, dedinhos e unhas, enfim, chinelas never moore, mas, MAS, claro que tenho uma, uma só, rosa clarinha, slim (minhas preferidas), a minha verdinho-cheguei com flores partiu a tira, slim parte as tiras no dedão com pouco uso, pouco mesmo, já que só as uso em casa, com a solene desculpa de que acabei de acordar ou já vou dormir já já, :).
    Tudo por aqui está mesmo muito caro, parece daquelas bolhas economicas que um dia estouram, por isso sou freguesa do mercado da porta do mercado para porquinhos e afins.
    Gosto das nossas marcas, Phebo, Granado, Nadir Figuiredo, Santa Marina e etcs, me deixam em casa, como chitas e caminhos de mesas com bandejas de cachos de bananas, gosto imenso.
    Adoro viajar, mas agora ‘garrei’ um medo devido a saúde, muitos remedios, horarios fixos para tudo, minha filha diz que morrer em Paris é chic, mas, falta coragem por hora…
    Isso mais parece uma cartinha daquelas Querida Cora, :).
    Beijos, Minha Flor.

  9. Cora, que crônica deliciosa!

    Olha, se faltam moedas no mercado a culpa certamente não é minha. Se tem moeda esquecida em casa é porque não vi, que uso moedas cotidianamente. O meu porta moedas de tecido, bem molinho, presente de uma amiga que perdeu a batalha pro câncer 10 dias atrás 😦 , está sempre cheio, e elas pagam o pão na padaria, o ônibus quando esqueço o bilhete único, estacionamentos varidados, e muitas coisas. Meu pai, português que os traços do rosto revelavam sangue mourisco, ensinava que “moeda é dinheiro” e nunca recusei moedas, nem nunca deixo de carregar comigo.

    Adoro havaianas. No momento estou com um par do modelo slim, na cor turquesa no pé. Adoro.

    Quando eu crescer quero ser como a Dona Nora, um exemplo pra todo mundo.

    • Sou do seu time, Valéria, Nem quando era criança juntava moedas. Hoje, carrego as que tenho para facilitar o troco. Aqui em Sampa (não sei no restante do país), vivem solicitando para facilitar o troco. Facilito, pois demoro muito pouco nos caixas.

  10. Pois eu adoro gastar moedas. Me sinto fazendo uma boa ação quando pago a conta exata e não preciso de troco.
    Eu tenho pena dos porquinhos, que já nascem gordos e barrigudos e ainda são feitos de guardiães da fortuna de umas certas criaaanças que não crescem nunca!
    Se levasse o seu mega porcão no jornaleiro pra trocar por Havaianas, Corinha, poupava as notas. Notas que poderiam ser guardadas no colchão, salvando os gansos de serem depenados, coitados!
    🙂

  11. Pelo jeito sou a única pessoa no Brasil que detesta havaianas ….
    Mas a crônica tá supimpa ( como sempre).

  12. Ola! Cora!

    Se gostou mesmo do “my bed” do Sofitel, saiba que eles vendem e mandam instalar em casa. Só que tem que ter um porquinho bem grande: R$ 10.000!

    Realmente as coisas estão caras…

  13. Eu tenho uma porquinha rosa linda.. ela anda devagar esse anos..
    Marise as havaianas slim tb são a minha preferida e tem arrebentado mais rápido sim..

    Com relação a Dona Nora, como dizem os meninos da corrida, Ela é mutante… 🙂

  14. Oi Cora! A crônica esta supimpa. Eu também devo ser culpada pelo sumiço das moedas…..tenho tres latinhas cheias de moedas rsrsrsrs….
    Quanto as Havaianas eu adoro as da linha Brasil! Nesse momentonmesmo estou usando uma delas, preta. Vou comprar mais pelo Site das Havaianas, pois lá tem mais cores para escolha.
    Quanto a Dona Nora e sua experiência Hoteleira, me lembrei dos hotéis pavorosos que peguei qunado dos Congressos de Física de Partículas , aqui no Brasil, e de alguns Hotéis que fui na Argentina a trabalho. Em Mendoza , local em que pernoitávamos antes de seguir viagem pra Malargue, uma vez ficamos num Hotel que desligava as luzes apos a meia noite, só funcionando a dita cuja em estilo minuteria, isto eh a gente ligava a luz e ela se desligava automaticamente apos 2 minutos! O mesmo acontecia com a Televisão do quarto!. Pra piorar o quarto tinha um cheiro de mofo pavoroso! Fiquei tão traumaetizada que na próxima vez fui pro Grand Hyatt Spa and Resort de Mendoza, abandonando meus colegas pesquisadores no moquifo.
    Já em Malargue , peguei hotéis em que ao ganhar a chave do quarto, a gente ganhava junto um rodo, pra tirar a água do banho que invadia o quarto propriamente dito quando tomava banho! Isso sem falar nos hotéis que faziam racionamento de papel higiênico!
    A gente sofre !

  15. Engraçado, não sou muito de falar ou mesmo escrever, mas a sua coluna é sempre muito interessante, soltei a língua…bjs

  16. Cora, como me identifiquei diretamente com tua crônica.
    Estive em Londres em março, nas férias, e achei tudo possível ao bolso. Supus até que os comentários que ouvi, dizendo que tudo era carééézimo, devia estar errado.

    E as tais Havaianas… como são viciantes.

    88 anos e 10 medalhas =oO ? Que invejinha, que invejinha :0)

  17. Eu tenho R$ 30,00 num cofre que conta as moedas, meu marido cismou que o tal do cofre não conta direito, e não é que ele tinha razão? Comprei gato por lebre, aff….

    Estão realmente muito caras, absurdamente caras as roupas, a tal ponto que tenho dado preferências as liquidações, mas mesmo assim tá difícil achar algo baratinho. Desisti de qualquer moda, aliás nunca fui de segui-la mesmo. A solução que a gente tem dado é juntar dinheiro e aproveitar o passeio de férias e comprar em Miami, mas o problema maior são os pontos aéreos que só ficam melhores em baixa estação, então fica difícil de levar nossa filha junto e pensar em comprar somente lá fora.

    Quanto as havaianas consegui comprar em Búzios não foram muito caras, só um pouco além da tradicional, com trabalho em contas, até que fica interessante. Tem também em Cabo Frio com detalhes que você pode aplicar (pequenos pins de metal), são lindinhos e ficam um luxo só. Tenho os dois, também sou adepta das havaianas, aliás não sou daquelas pessoas que andam de salto alto no supermercado, fico com vergonha de usar havaianas sempre por causa de uma mãe de uma amiga da minha filha que disse o seguinte: – Quem vai dar crédito a alguém que anda de chinelo na rua?
    Vai que eu encontro com ela novamente….

    Quer saber da verdade? Tenho “trocentas” havaianas no meu armário *rs

    “… certos lugares são sempre mais ricos na imaginação…” lembrei-me agora da minha sogra que disse que o Egito não é lá essas coisas…*rs

    As coisas andam realmente difíceis, mas por incrível que pareça melhores que na minha infância quando não tinha dinheiro nem para um picolé. Quem vive das pressões do comércio e dos impostos entende o que digo.

    Congrats para sua mãe, lindona por sinal 😉

    No final tive que rolar a página para saber onde era Baku, com certeza vou esquecer novamente o nome do país, da cidade até pode ser que me lembre *rs

    DNA – Data de Nascimento Antiga 😛

    Saudades…
    Beijos

  18. Também tenho alguma culpa nessa “fuga” de moedas de 1 real 😉
    Em relação às Havaianas, em algum post do passado você falava nelas e eu me queixei que as slims, melhor modelo pros meus pés de tripa, estavam arrebentando rapidamente. Você me aconselhou a reclamar, mas acabei não achando um canal com facilidade e deixei pra lá, passando a comprar as Brasil.
    Mês passaado comprei um par do mesmo tamanho de sempre, e ao chegar em casa percebi que embora a marcação fosse correta, o par tinha pelo menos um cm a mais no comprimento. Entrei no site e deixei um recado me queixando. E num é que recebi um mail, pedindo que eu entrasse em contato por telefone! Falei com eles e no dia seguinte o correio veio a minha casa – no alto do meu morro – e recolheu as sandálias. Agora estou aguardando o resultado, mas fiquei profundamente surpresa com o atendimento.
    Quanto a Dª Nora, ela é feita de um material diferente, não dá pra tentar acompanhar 😉

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