O exílio revisitado

Numa encarnação tão remota que nem parece ter sido comigo, morei em Brasília. Detestei cada minuto dos oito anos que passei na cidade — ou, vá lá, quase cada um de todos aqueles intermináveis 4.207.590 minutos (se é que o Google fez o cálculo direitinho). Na época, apesar da quantidade de construções, Brasília ainda estava mais para projeto urbano do que para cidade propriamente dita. Eu morria de saudade da vida cultural do Rio, dos horizontes cortados por montanhas, da brisa que vinha da praia. Viver sem isso talvez fosse até possível em outras circunstâncias, mas para onde quer que a gente se virasse na capital havia uma autoridade, geralmente de farda. Não bom. As autoridades que não usavam farda faziam questão de se mostrar autoridades, e imbecis, logo nos primeiros minutos de conversa: “Sabe com quem está falando?” não era material de comédia, mas frase corriqueira. Um dia me cansei daquilo tudo. Botei meu possante Fiat 147 na estrada e voltei para o Rio.

Curioso: durante os anos que vivi em Brasília, sempre que pegava um avião para o Rio tinha a sensação de estar voltando para casa; avião para Brasília, porém, era condução para o desterro.

Tive acirradas discussões com amigos que, ao contrário de mim, adoravam — e ainda adoram — Brasília. Olhando para trás com tantas luas de distância, percebo que, afinal, todos estavamos certos. Ubi bene ibi patria, diz o ditado: Pátria é onde nos sentimos bem, e nunca consegui me sentir bem naquela cidade hostil, de terra vermelha. Os amigos mais empolgados ainda tentavam me mostrar as belezas do cerrado, mas desde que vi os bisonhos e típicos arranjos de flores secas vendidos na torre de televisão, tomei-me de antipatia por aquelas plantas mumificadas.

Hoje percebo que o problema não era Brasília, o problema era como eu me sentia em Brasília. Poderia ter aproveitado os meus anos na cidade para documentar o seu crescimento, para explorar o cerrado (que, ao contrário do que eu achava, pode ser bem bonito), para estudar astronomia ou para me divertir com o insólito faroeste caboclo à minha volta. Poderia até, quem sabe, ter aproveitado a chance de ganhar um bom dinheiro comprando os terrenos que ninguém queria, e que hoje valem fortunas. Enfim: poderia ter feito uma limonada ou uma caipirinha, mas estava tão ocupada mastigando o limão que nunca me dei conta das suas possibilidades.

Saí de Brasília para nunca mais voltar, mas a vida gira, a Lusitana roda, a gente amadurece, as circunstâncias mudam. Hoje, madrugada de quarta-feira, digito essas mal tecladas num quarto de hotel com vista para o Eixão — algo que há bem poucos anos ainda me deprimiria além de qualquer medida, mas que atualmente me surpreende agradavelmente. Cheguei à cidade ontem à tarde, debaixo de um temporal — já havia esquecido que chove em Brasília — e fiquei impressionada com a quantidade de verde, com o tamanho das árvores, com o movimento de carros e de pessoas. O céu continua, como sempre, sendo um show à parte — o único, aliás, que eu era capaz de apreciar nos meus anos de exílio.

Vim participar da Primeira Bienal Brasil do Livro e da Leitura, um evento grandioso que, ocupando uma área de 14 mil metros quadrados na Esplanada dos Ministérios, reunirá, ao longo de dez dias, cerca de 150 escritores brasileiros e estrangeiros. A lista de convidados e de atividades é de tirar o folego. O carro que me trouxe para o hotel passou pela esplanada para que eu visse o tamanho da coisa, mas ainda não estive lá: passei a tarde às voltas com o mais prosaico dos problemas.

O hotel em que estou hospedada passou por uma reforma geral e está tinindo. Tudo é novo e agradável. Só tem um porém: as tomadas. Suponho que, durante os trabalhos de reforma, os reformadores, movidos, certamente, pelo espírito da lei, equiparam o Mercure inteiro, de alto a baixo, com aquelas abomináveis tomadas de três pinos que, não sei exatamente como, foram impingidas à Nação enquanto dormia.

Meu quarto tem cinco tomadas, o que estaria de ótimo tamanho — se apenas eu pudesse usá-las. Mas quem diz que posso? Meu notebook, comprado há dois anos nos Estados Unidos, tem o tradicional plugue de dois pinos achatados; o carregador da câmera idem, assim como o do iPhone — este por besteira minha, já que o equipamento padrão que carrego na nécessaire de cabos e adaptadores têm plugues e benjamins de pinos achatados. Os adaptadores universais, tão úteis em outras plagas, não servem de nada aqui, porque não cabem nos malditos hexágonos em baixo relevo com que nos brindou a nata da burocracia.

Liguei para a recepção pedindo socorro, mas fui informada de que todos os adaptadores estavam emprestados. De modo que, em vez de passear ao léu pela cidade ou de dar um bordejo pela Bienal, tive que ir para um shopping, à cata de adaptadores. Comprei logo três, porque eles são o contrário dos que uso em casa, onde as tomadas são antigas e os aparelhos modernos. Comprei também uma nécessaire para cabos e adaptadores tamanho família, porque, de hoje em diante, prometo que não vou mais nem à esquina sem levar adaptadores assim, assado e muito antes pelo contrário. Neste exato momento, meu notebook e meu celular estão ligados a uma patética gambiarra de dois adaptadores que acaba com todas as boas intenções da Apple em fazer, mesmo dos plugues elétricos, objetos elegantes.

Não vou questionar a pureza de intenções dos burocratas que inventaram esses polígonos com alma de jaboticaba, o PAL-M dos adaptadores elétricos; a certeza que tenho sobre as suas faculdades intelectuais já me dá desgosto suficiente.

Só sei que, se eu tivesse um hotel cheio de tomadas inúteis, poria um ou dois adaptadores entre os itens do minibar em cada quarto. Com a quantidade de gringos chegando ao país para Rio+20, Copa do Mundo e Olimpíadas, eu ia faturar que ia ser uma beleza…

(O Globo, Segundo Caderno, 19.4.2012)

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18 respostas em “O exílio revisitado

  1. [Brasília]
    A primeira vez em que fui a Brasília a ditacuja estava em seu esplendor.
    Para mim, uma cena de boas vindas (fora os descampados, a falta de gente nas enormes avenidas) perdura.
    O táxi ia pelo Eixão — nada à frente, nada atrás, nada pelos lados, o céu enorme e limpo — até que se aproximou de uma Veraneio (o meio de transporte obrigatório da barra pesada) quando despertei da distração: de cada lado da Veraneio, umas coisas escuras para fora das janelas: armas, bem grandes.
    Acho que o táxi ia ultrapassar (a Veraneio ia bastante, bastante devagar, acompanhando um carro preto à frente) quando um braço de paletó claro acenou bem lentamente, com um gesto prenhe de autoridade que significava, sem deixar dúvida: “espere! nem pense em passar!”.
    Foi só – e basta.

    Brasília é a realização de um equivalente da arte conceitual: no caso, urbanística conceitual.
    Entretanto, assim como ninguém compra, nem usa, roupas abstrusas que são mostradas nos desfiles (a ideia é provocar, inspirar — não usar) a ideia de Le Corbusier, que devia ser estudada como um limite, mas não implantada, permanecia no ar quando um faraó tcheco teve a ideia de construir a Karnak do cerrado.

    E pronto: um sonho totalitário foi criado: uma cidade esquizóide, com regiões especializadas, separadas e distantes, fora de escalas humanas, em que pedestre não está previsto.
    Por falar em totalitário, parece que Le Corbusier tentou seduzir com seu conceito gente como o Duce e os inquilinos de Vichy.
    Mas pode ser que não por gostar deles: arquitetos de grandes formas costumam esquecer o que seus únicos clientes possíveis — os governos — fazem na vida real, tudo em nome da Arte.
    Entretanto, para quem tem alergia a Brasília, parece bem coerente que, quatro anos depois de surgir, a cidade-Bunker tenha alcançado sua vocação: sede de uma ditadura.
    A localização era ideal: distante de tudo, sem gente nas ruas, os do poder podiam, ali, circular seguros de não receber o maus-olhados e o desdém dos que oprimiam: ficavam invisíveis, longe do olhar crítico do povo na rua, que poderia ironizar sua grandiloquência vazia.

    [Tomadas]
    As novas tomadas não são uma maluquice local: elas estão de acordo com uma recomendação já do século passado, a norma IEC 60906-1 (a IEC, International Electrotechnical Comission é o órgão da ISO – International Standards Organization) que cuida de coisas elétricas.
    Se formos comparar o projeto com o de outras tomadas, ele parece ser o melhor que há e o de uso mais universal: a tomada de dois pinos pode ser usada, além do Brasil, garantidamente na Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Itália, Suíça e possivelmente em outros países da Europa.
    Como a tomada tem uma cavidade, os contatos dos plugues não precisam ter isolamento parcial (com os alemães) para evitar choque acidental ao retirar.
    Além disso, eles ficam mais firmes e não se deformam em caso de impacto lateral.

    A tomada de três pinos acho que só serve na Suíça; mas tomada de três pinos só é (ou deveria ser) usada em equipamentos não-portáteis, de corrente alta, que precisam de terra para segurança: microondas, ferro de passar, geladeira, computador de mesa.

    Aí a pergunta: então por que os trecos americanos portáteis usam tomadas de três pinos (NEMA 5-15), com terra?
    Na verdade, eles estão ali para que o fabricante não tenha de ter dois tipos de cabo em estoque (quod abundat non nocet); para produtos americanos bastaria a tomada de dois pinos chatos (NEMA 1-15).
    A maioria dos que vêm com três pinos não precisariam: os portáteis costumam ter fontes com dupla-isolação e dispensam o fio terra, que nem é ligado a nada.

    Quanto aos gringos, os europeus não-ilhéus não vão estranhar, só os americanos (e os britânicos, com aquelas tomadas de trator).
    Entretanto, uma gente que a essa altura ainda insiste nas retrógradas distâncias em inches, feet, miles; nos pesos em ounces, pounds, tons; na temperatura em Fahrenheit, deve estar pronto para ser diferente e até gostar.
    O uso da tomada tipo americana no Brasil foi um improviso: apareceu nas lojas, muita gente tinha aparelhos importados, e por aí foi; nada justificava, tecnicamente, seu uso, até que o órgão normalizador finalmente se pronunciou, e naõ fez má figura.

    Se for para pichar: lembra das tomadas de telefone “padrão Telebrás”? Aquela coisa horrível acabou e ninguém saudade…

  2. Acho que muita gente vai se identificar com a crônica…
    Muito bem dito, Cora! Assino embaixo, quase que literalmente!
    Mas ainda bem que entre os limões existem tulipas! Hoje foi dia delas!

  3. A equipe que criou o PAL-M não tinha muita opção: se adotasse um novo padrão, ficaria incompatível com as TVs P&B. Se adotasse o padrão americano, teria problema com as cores instáveis (é por isto que eles tinham o botão “matiz”: para corrigir imagens esverdeadas ou avermelhadas).

    Adotaram o PAL, que corrigia os problemas do NTSC americano, mas mantiveram as 525 linhas e os 30 quadros do sistema em P&B, uma combinação que só existia no Nepal, na época.

  4. Eu não gostaria de ter de morar em Brasília, mas até hoje sinto saudades do Cerrado, de Goiânia e mais ainda da Vila Boa de Goiás.
    Sim, é a gente que faz o lugar e não o lugar que, 100%, determina nossa alegria de vive,r por múltiplas razões.
    Nessa época do ano, em todo Cerrado parece que “pingaram colírio na paisagem”. Êta lugar de natureza especialmente linda em sua aparente secura e dureza!
    Sempre que volto ao Cerrado gosto muito, mas reconheço que ser sede do poder federal deixa as relações sociais muito complicadas nessa cidade que só têm poucos anos de vida e que acolheu e acolhe pessoas vindas de todos os lugares no mundo> Sim, uma das inúmeras coisas boas de Brasília é justamente o seu cosmopolitismo em construção!

  5. Nada a acrescentar: tudo perfeito, bem escritíssimo, prosa leve e excelente. Vivi algo assim há pouquíssimo tempo em Buenos Aires – cheguei cansada e tive que descer pra procurar um adaptador em supermercado, pois o gerente do hotel me disse de modo velado-claro que os hóspedes haviam roubado todos os adaptadores – como se eu tivesse chongas a ver, e como se eles não tivessem nunca pensado em cobrar a peça, como cobram o mais ínfimo pacotinho do mini bar. Enfim, merci, Cora, você disse exatamente o que eu penso. Sobre Brasília também (vivi em Goiânia dois anos, o sentimento não era tão hostil, mas era muito difícil estar ali, e na ocasião fui a Brasilia duas vezes, detestei à primeira e à segunda vistas). Abraço grande, e que sua participação na Bienal seja alegre e produtiva.

    • Nome IATA do aeroporto de lá. Tem lugar em que o que “pega” é o nome do aeroporto do lugar. Como a cidade não tinha nenhuma identidade, foi fácil muita gente referi-se a ela desse modo. Conheço gente que também chama Vitória-ES de VIX.

  6. “Na época, apesar da quantidade de construções, Brasília ainda estava mais para projeto urbano do que para cidade propriamente dita”.

    “As autoridades que não usavam farda faziam questão de se mostrar autoridades, e imbecis, logo nos primeiros minutos de conversa: “Sabe com quem está falando?” não era material de comédia, mas frase corriqueira”.

    Adorei a crônica. Cito essas duas frases pois merecem destaque na minha opinião. Ao ler a crônica, me lembrei da cidade de Palmas, no Tocantins. Será que tem defeitos similares de Brasília que os leitores do blog citaram aqui neste post? Espero que não. Quero conhecer a Brasília. Mas acho que meu sonho maior é conhecer Palmas. Cora, você conhece Palmas?

  7. Muito Boa!!!! Me lembrei de quando fui para Malargue a primeira vez e vi a outra versao da tomada padrao Argentina!!! A mais comum eh igual aa nossa antiga, mas eles tem uma que sao parecidas com as inglesas!!!!!! Quase desmaiei…… Consegui o umltimo adaptador do Hotel!!! Desde entao ando com o meu universal em todas as viagens….. Mas esse de 3 tomadinhas eh dose, !!!

  8. Cora, sou carioca da gema e moro há muitos anos em Brasília. Aqui nasceram meus filhos, criados na maior liberdade e segurança – que não teriam no RJ ou em SP. No princípio, achava a cidade estranha, mas depois me acostumei e hoje sou completamente brasiliense – assim como tanta gente que veio do RJ e de outros lugares. É claro que faltam opções de lazer (basicamente clubes e shoppings). Moro na Asa Norte. Ando pelas quadras à noite, sem problemas. De manhã, acordo com o canto dos pássaros. Acredite, dá pra ser muito feliz por aqui. Ainda bem que você reformulou seu conceito. Pena que ficou tão pouco tempo… Volte mais vezes!

  9. Nunca fui à Brasília, mas uma irmã q lá já morou , diz que é a Barra sem mar…vc faz tudo de carro, não há esquinas, trânsito ruim…mas adorei msm foi o comentário sobre o “ódio” permanente todo o tempo em q vc lá vivia…já tive esse msm sentimento durante um bom tempo da minha vida, em que o pior momento era o de voltar pra casa, q eu não considerava, nem de longe, o meu “home sweet home”… ufa, passou! Pra nós duas, né? Que maravilha!

  10. fui a Brasília 2 vezes, é pouco, eu sei, mas é a cidade menos acolhedora que já visitei. todas as outras têm uma esquina, gente atravessando as ruas, um caminho para o pedestre chegar a pé onde o olhar chegou primeiro. Brasília não tem. ou quase não tem. eu tenho o hábito de caminhar sozinho quando visito qualquer lugar, e lá eu me senti caminhando para lugar nenhum, sempre. não gostei. consegue ser mais dura e fria e sem sentido que São Paulo.

  11. Enfim: poderia ter feito uma limonada ou uma caipirinha, mas estava tão ocupada mastigando o limão que nunca me dei conta das suas possibilidades.
    Adorei !!!
    PS: ai que saudades do F&D .

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