Felicidade sim

Todos escreveram como ele era grande, imenso mesmo – e é verdade.  Ninguém pensava tão rápido, ninguém conseguia ver tão claramente o avesso das coisas, os absurdos do cotidiano, as incongruências que a nós, mais lentos de idéias, pareciam verdades esculpidas em pedra. Era o melhor em tudo o que fazia. Tinha talento, originalidade e uma capacidade de trabalho espantosa; tinha ferocidade também, e uma coragem intelectual quase suicida. Ao mesmo tempo, sabia ser o amigo mais terno e generoso, mas penso que seria um semideus insuportável se todas essas qualidades não fossem temperadas por pequenos defeitos que o tornavam humano e, portanto, mais próximo de nós. Ainda assim, me pergunto o quanto desses defeitos era real, e o quanto era cenográfico. Tinha um medo cômico de baratas, por exemplo, do qual fui vítima algumas vezes: na rua, sua reação instintiva diante das repulsivas era chutá-las o mais longe possível, sem olhar a direção – que, volta e meia, calhava de ser o meu pé. Sei lidar com uma quantidade de bichos e de insetos, mas baratas não estão entre eles. Com o tempo, aprendi a me posicionar fora da linha do gol, mas nunca deixei de achar engraçado aquele gigante moral apavorado por tão pouco. Passado o susto acabávamos rindo; tenho certeza de que ele também percebia a ironia da situação.

Uma tarde estávamos no estúdio quando a mãe de todas as baratas entrou pela janela. Teresa, a valente administradora do espaço, já tinha ido embora. Aquele era um problema que teríamos de resolver sozinhos. Depois de uma cena digna do pior pastelão, conseguimos levar a cascuda a nocaute. Ela agonizou de costas no chão da cozinha durante um bom tempo. Nenhum de nós dois teve coragem de abreviar seu sofrimento. Quando finalmente ficou imóvel, fui buscar vassoura e pá, mas ele me impediu: era preciso que a Teresa visse do que éramos capazes. No dia seguinte a Teresa chegou, viu a barata morta na cozinha, varreu para o lixo e foi cuidar da vida. Ela nunca soube do nosso ato de bravura porque ele era orgulhoso demais para abrir certos flancos; mas poucas vezes o vi tão desapontado.

Ratos, biológicos e metafóricos, também não contavam com a sua estima. Houve um tempo, lá pelos anos 80, em que Walmor Chagas ficou muito entusiasmado com a possibilidade de fazer teatro de massa. Não tinhamos idéia do que seria aquilo, mas o Walmor tinha, e dizia que  o melhor exemplo estava em Pernambuco, num teatro ao ar livre chamado Nova Jerusalém, a 200 quilômetros de Recife, onde gente vinda de toda a região encenava uma Paixão de Cristo monumental. Era coisa extraordinária, que precisava ser vista. De modo que, capitaneados por ele e por Wolf Maya, fomos ver o espetáculo.

Naquela época, as instalações para quem vinha de fora ainda eram muito precárias. Conseguimos dois quartos numa fazenda, construções modestas um pouco afastadas da casa central, revestidas de chapisco, com pouco mais do que uma cama e um chuveiro. Tomamos posse dos nossos domínios e saímos, já atrasados para a encenação. Deixamos a janela aberta mas, como ainda era dia claro, não percebemos que a luz havia ficado acesa.

Quando voltamos, horas depois, nosso quarto, um dos poucos pontos brilhantes na noite escura, era o paraíso dos entomologistas. Centenas de  insetos faziam a festa em torno da lâmpada nua que pendia do teto; a cama fervilhava com besouros caídos de costas, vespas torradas pela dita lâmpada, mariposas tontas. Fiquei extasiada com a variedade, mas Millôr não compartilhava do meu entusiasmo pela vida silvestre.

— Olha aquele coleóptero brilhante, que coisa linda! E aquele serra-pau enorme, olha, olha! E aquela mariposa com o desenho na asa! Que bonitinho, duas lagartixinhas na parede…

— E da ratazana, você não diz nada?

Pois: logo ali, tranquilamente subindo pelo chapisco, havia um rato. Grande, cinza, de rabo pelado.

Mais rápido do que o raio, mais veloz do que o trovão, Millôr zuniu para o banheiro, e lá se trancou. Eu voei porta afora e dei um berro. Adoro insetos e tenho o maior carinho por lagartixas, mas, como as baratas, ratazanas também não gozam da minha simpatia. Walmor e Wolf acudiram, constataram a presença asquerosa e prudentemente ficaram do lado de fora, me dando apoio espiritual. Logo depois chegou a dona da fazenda, que não entendeu o motivo do fuzuê. Claro que havia um rato. O mundo está cheio de ratos. E, antes de cuidar dele, deu umas vassouradas nas lagartixas.

— Não mata as lagartixas não! – gritei angustiada. — Elas não fazem mal a ninguém!

A vassoura espadanava para cá e para lá, levantando nuvens de insetos das paredes. Finalmente acertou o rato, que caiu no chão meio tonto e logo tomou uma bordoada.

— Não faz isso, não mata ele aqui dentro não! – exclamei, apavorada diante da perspectiva de dormir ao lado de uma poça de suco de rato.

O Millôr, que durante toda a ação havia permanecido valentemente mudo e trancado no banheiro, não se conteve, e gritou lá de dentro:

— Mata! Mata! Mata! Isso não é hora de fazer ecologia!

o O o

Gosto dessas lembranças miúdas, dessas histórias pequenas, desse Millôr que, por cortesia para com os demais, às vezes fazia de conta que não era o superhomem que nós sabíamos. A foto desta crônica foi a última que fiz dele. Fernanda veio comer conosco, e o almoço se estendeu pela tarde. Ele estava sereno e feliz, contente com o ato singelo de conversar em torno da mesa. Poucos dias depois, teve o AVC que o levaria de nós.

(O Globo, Segundo Caderno, 12.4.2012)

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59 respostas em “Felicidade sim

  1. Boa noite, Cora. Há pouco tempo li seu texto maravilhoso. Hilário e uma bela homenagem a uma pessoa. # … ser o amigo mais terno e generoso..# , permita-me escrever uma outra coisa: – saber homenagear a quem merece. Não me lembro a data, creio que tenha sido na década de 90, talvez você a saiba. Na igreja da Gustavo Sampaio, não sei o nome dela, houve a missa de sétimo dia de falecimento do Capitão Sergio. Millor sentado nas últimas filas, creio . Destribuiu-se uma fôlha onde estava escrita a letra da música da Joyce em homenagem ao Capitão Sérgio. Milor ao recebê-la fês uma leitura e com todo o respeito guardou-a. Terminada a missa, Milor caminhou em direção à Avenida Copacabana. Ali eu vi um Homem prestando uma homenagem a um outro Homem que merece homenagens até hoje. Milor, para mim, naquele momento surgiu-me de uma forma diferente, “o homem comum”. Como são as coisas, follheando papéis que minha mãe, já falecida, guardara havia um recorte onde Milor , humildemente, não se reconhecia na foto – do grupo escolar. Mais, descobri em papéis meus, um texto uma carta de Milor para Paulo Francis. Talvez tenha sido no ano da morte do Paulo. Agradeço a sua atenção. Nesses atos pode-se ver, com certeza, a presença de um dos iniciadores do frescobol. Boa noite… Luiz Carlos

  2. Pingback: Fernanda Montenegro: Homenagem a Millôr. « senzalamoderna

  3. Li esse texto como sendo uma mini biografia. Gosto de ler biografias. Estou aguardando mais do mesmo. Escrever, falar sobre a nossa perda, a nossa dor moral, partilhar isso com amigos pode ser algo difícil para muitos. Que bom que você consegue, Cora! Bjs.

  4. Li no jornal e acabei me esquecendo de vir comentar: adorei o texto e morri de rir porque sou igual a ele. Na verdade quase igual, porque quando só tem eu e minha filha (que é mais “medrosa” do que eu), tenho que tomar uma atitude….rs. Mas detesto insetos e outros bichinhos. A única vez que estive face a face com um rato (foi em Fortaleza na casa de uma amiga), ele vindo do jardim, me olhou, eu, dentro de casa olhei e berrei. Corremos os dois em direções opostas, graças a Deus….rs Noutra ocasião, na fazenda de um conhecido no Ceará, levantei pela manhã para usar o banheiro e o sanitário estava apinhado de perereca…vixi, que nojo! Bichinhos assim só em documentário, ao vivo e a cores acho um pavor….rs

  5. Grande Cora Rónai !! Afffff… vai escrever bem e de modo tão gostoso lá nos quintos! 🙂
    Recordar é viver .. Relembrar momentos tão bons amenizam a dor. Ri muito com as passagens ! Bjs Cora!!!

  6. Que texto maravilhoso. Que bom ter tão boas lembranças. Ajudam a superar a dor da saudade. Estas boas lembranças é que nos dão força de seguir adiante com alegria de ter vivido tão bons momentos. Assim a vida fica mais colorida e mais fácil de seguir em frente.
    Parabéns, Cora, pela linda crônica que você nos deu de presente.

  7. Texto lindo, Corinha! Essas memórias são as mais bonitas.

    Hoje tive uma foto fora do Rio, aí o senhor do meu lado no ônibus estava lendo a crônica e ficou super emocionado. 🙂

  8. Isso, Minha Flor, cate as lembranças, empilhe e suba nelas para espantar um tico o que se faz triste, lindo sua coragem de escrever, de contar, de relembrar, recordar é viver…
    Um abraço bem grande, quem tem talento como você sempre se supera…

  9. “Mata! Isso não é hora de fazer ecologia!” kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Adoro pessoas com esse tipo de senso de humor, que, mesmo nas horas mais difíceis, não perde a piada. Ele deve ter sido um cara incrível!
    Como já dizia o filósofo: “Quem é do Méier, não bobéia (e nem pega mocréia)”!!!! Ele era demais mesmo!!!!

  10. Cora, saiba que ainda há muitos e muitos leitores que, assim como eu, sentem a perda do querido Millôr como se fosse a de alguém muito próximo, um sábio amigo de todos os dias. Tenho 40 anos de idade e “conheço”-o desde os 12, pelo menos. Mil perdões pelo clichê que ele odiaria: ele, infelizmente, se foi; a obra fica. E ficam as lembranças. Que você tenha força para suportar essa perda. Por outro lado, que se sinta como o mais privilegiado dos seres humanos por ter convivido com o mais genial de todos os brasileiros. Um abraço de solidariedade.

  11. Fiquei feliz por ler esta cronica, Cora!!! Da para se ver que voce esta lutando e esta ganhando a guerra, O texto esta leve, nos faz rir e so menciona boas lembrancas,,,, Eh isso que a gente temm de guardar de nossos entes quaridos…. Agir assim eh muito mais sabio. Beijos

  12. A sua crônica, além do texto irrepreensivo que é, tem o condão de dividir conosco, seus leitores e admiradores de Millôr, momentos únicos de atração irresistível. Li duas vezes, para ter a certeza de que não perdi nada. Afinal, interessa-me tudo o que diga respeito ao mestre.

    Espero que não se importe que aqui reproduza uma referência que fiz no meu blog, após ver e rever a entrevista concedida por Millôr ao “Roda Viva”:

    “A Cora Rónai postou há alguns dias um video com uma deliciosa entrevista de Millôr Fernandes ao “Roda Viva”, em que ela própria se encontrava entre os entrevistadores. Toda a minha admiração por mestre Millôr redobrou, com suas respostas rápidas e inteligentes, ácidas apreciações sobre personalidades políticas da época, algumas das quais ainda no cenário presente, sua propensão para um tipo de anarquismo que me comoveu, por ter muito a ver comigo!

    Falando em comoção, foi exatamente o que senti ao ver a imagem da Cora, então jovem senhora, com delicioso look de curls e grandes óculos, sorriso imenso da imensa felicidade que vivia e veveria por muitos anos! Pensando bem, ela continua a ter razões para seguir vivendo essa felicidade, porque afinal, seu mais-que-tudo não deixou de sê-lo após seu passamento…”

  13. Nossa, show de bola – texto lindíssims, sem pieguice e com lembranças memoráveis mesmo. Um privilégio da vida você e ele, um privilégio nosso poder compartilhar seu blog, merci! 🙂
    abraço, vera

  14. Cora, você já pensou em nos presentear com um livro sobre os momentos especiais vividos ao lado do Millôr? Fatos como os que você nos narrou hoje, só nos ajudariam a tê-lo mais e mais presente junto a nós. E quem sabe estaria neste ato, nascendo uma escritora que esteve aí latente o tempo todo em que você esteve compartilhando a sua vida, ao lado de um ser tão especial. Por favor, não nos deixe mais órfãos do que nós já estamos. Inicie por aí e depois siga em frente dividindo conosco a sua vasta cultura.

    • Cora, acabei de ler no Globo esta deliciosa Crônica sobre Millor e a foto dele com este monstro sagrado na arte e na postura de vida, a Fernanda…
      Faço coro com Beth Romão e milhares de outras pessoas órfãs de uma tal inteligência e que nos deixou.Este livro, com depoimentos seus e de amigos dele certamente se constituiria em um tremendo e indispensável livro de cabeceira de todos nós.

  15. que maravilha, Cora!
    que boas lembranças, lindamente escritas (como de costume) que me deram mais vontade de ter respirado o mesmo ar que Millôr…
    ah, compartilho totalmente do sentimento em relação aos animais asquerosos, é uma patologia séria, no meu caso hahaha

    Manou, obrigada por me mandar o link, querida!

  16. Muito bom ! Dava tudo para ver a cena, vc pedindo clemência para as lagartixas e o Millôr gritando, mata, mata !!
    Ótimas lembranças, obrigada por divir conosco.

  17. Escrever ajuda. Atravessei minhas perdas pessoais escrevendo sobre elas, sobre a pessoa querida, colocando as lembranças em ordem, desorganizando um pouco a tristeza. E, quando publicadas, essas crônicas também ajudam os leitores. Que, por sua vez, ao ler e comentar ou mesmo apenas passando por aqui, também reforçam esse sentido terapêutico que acho que o ofício de escrever, principalmente nessas horas, tem. Beijo.

  18. Cora querida que delicia de texto.
    As lembranças são nossas melhores amigas. As lembranças vão conosco onde quer que possamos ir e a qualquer tempo.
    Obrigada por partilhar isso conosco!

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