Em carne viva

Já estamos tão acostumados a efeitos especiais que, à primeira vista, a foto de Jampa Yeshi ardendo, publicada na primeira página do jornal anteontem, parece só mais uma cena de filme de aventura. Aí cai a ficha: não é cinema, é vida real. Ali há um ser humano em chamas, carne como a nossa carne queimando numa bola de fogo. Mais um tibetano, mais um protesto contra a China. Foram uns trinta registrados só no último ano, mas podem ser mais, porque quando as autoridades chegam antes da imprensa ou dos ativistas, o que não é incomum no Tibete dominado, as notícias acabam confusas. No caso de Jampa Yeshi, temos nome, idade, motivação e, sobretudo, a foto chocante, porque, ao contrário da maioria dos seus conterrâneos, ele se imolou em Nova Delhi, durante uma bem documentada manifestação contra a visita do presidente Hu Jintao, e não no mosteiro de Kirti, em Aba, na província de Sechuan, onde a maioria dos outros sacrifícios aconteceu.

Jampa Yeshi, de 26 anos, não morreu na hora. Foi levado para um hospital, onde veio a falecer na manhã de ontem. Apenas oito dos outros trinta recentes mártires tibetanos sobreviveram, mas eu me pergunto se isso chega a ser considerado sorte pelos que ateiam fogo ao próprio corpo. A idéia é morrer pela causa, chamar a atenção para a causa ou as duas coisas juntas? E que causa é essa que leva a tal desespero?

A causa, ao contrário da auto-imolação, é fácil de entender: os tibetanos querem o seu país e a sua cultura de volta. Estive no Tibete no final do ano passado, e a minha sensação, ao longo da viagem, foi a de que chegara ao país errado. Onde havia música, era chinesa. Todos os cartazes e impressos estavam em chinês. Mesmo nas placas de trânsito, as orientações em tibetano eram invariavelmente menores, quase “notas de pé de estrada”.

Seria de se supor que, numa viagem de uma semana, esses detalhes não fariam diferença; mas fazem, toda. Não entendo uma só palavra de tibetano ou de chinês, mas o som das duas línguas é muito diferente. Da mesma forma, não capto um único ideograma chinês nem sei distinguir as letras tibetanas, mas a diferença visual na escrita dos dois idiomas é imensa, incomparável com a diferença que existe entre as línguas ocidentais, que compartilham o mesmo alfabeto. O barato da viagem não é só fotografar a paisagem. É, principalmente, mergulhar na cultura local.

Mas mais sério até do que perceber os sinais trocados da língua e da escrita, é sentir o clima da dominação. Lhasa é uma cidade tensa e sorumbática, extremamente policiada. Os tibetanos que ainda se encontram por lá ressentem-se da presença dos chineses que, por sua vez, ressentem-se da péssima acolhida. É uma receita certa para a infelicidade geral, e me lembrou muito a minha primeira visita à Hungria, em 1977, quando os russos ainda estavam no país. A vida dos húngaros era um inferno, mas eles se esforçavam para garantir que a vida dos russos não fosse um mar de rosas. Não vi um único russo ser bem atendido em lugar algum; nos restaurantes, então, a sabotagem do cotidiano tinha sido elevada a forma de arte. Sopa fria, comida salgada, páprica ardida, valia tudo – e os pratos dos russos iam e vinham, iam e vinham. Eu me admirava que eles ainda tivessem coragem de comer em lugares tão abertamente hostis, sabe-se lá o que os cozinheiros aprontavam a mais.

Os húngaros odiavam os russos, é lógico, porque ninguém ama o opressor; mas, naquela viagem, aprendi que o opressor também odeia o oprimido. Os russos que eu via policiando Budapeste eram em geral jovens, e tinham o ar ainda mais infeliz do que o dos húngaros, se é que isso era possível. Estava na cara que prefeririam mil vezes estar em Moscou, junto da família, do que no meio daqueles estrangeiros mal-agradecidos, que não davam valor aos nobres ideais comunistas que a Rússia lhes transmitia.

A situação é um pouco diferente no Tibete, onde os chineses já são vasta maioria, e onde a sua língua e os seus hábitos estão praticamente consolidados; mas tenho certeza de que a dinâmica social é igual. É bem provável que boa parte dos três mil chineses que chegam todos os dias a Lhasa em busca de trabalho preferisse continuar onde estava, em vez de ir para uma cidade com um clima tão frio (em todos os sentidos).

Ora, se alguém que está de passagem nota tudo isso, imaginem o que é viver essa realidade dia após dia, na própria pele! Trago a situação para casa e penso no que seria sair à rua e ver todos os letreiros das lojas em alemão, por exemplo, ou ver as crianças estudando em dinamarquês, proibidas de aprender português na escola… Igualmente grave é a questão da liberdade de culto, que os chineses dizem que existe — ao mesmo tempo em que proíbem a entrada de material religioso no país. Ainda na fronteira, vários CDs de mantras comprados no Nepal por membros da nossa expedição foram confiscados. A posse de imagens do Dalai Lama, dizem, pode dar prisão.

É muito triste pensar que a horripilante série de auto-imolações não deve acabar tão cedo. A tragédia é que, de todos os meios que os tibetanos têm para protestar, este é o que tem se mostrado mais eficaz.

(O Globo, Segundo Caderno, 29.3.2012)

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7 respostas em “Em carne viva

  1. No caso do Tibet, a anexação parece irreversível. É muito superficial, no entanto, o meu conhecimento das questões históricas dessa área, para me sentir com o direito de comentar. O chinês dirá que a razão da sua força é a força da sua razão histórica, Quanto aos tibetanos: desprovidos da força, desprovidos de razão, desprovidos de independência.

  2. Eu conheci a Hungria em 67 e tenho por lá, ainda hoje, uns doze primos. Sei bem do que você escreve aqui. Parabéns pelo excelente texto em hora tão difícil de sua vida pessoal. Meus sentimentos.

  3. Os livros de Lobsang Rampa (em grande parte esotéricos), datados da década de 60, narram um Tibete encantador pré-invasão. Esses livros mudaram minha vida por completo nos idos tempos turbulentos de minha adolescência

  4. Não precia nem ir tão longe. O meu pai nasceu numa época em que não se podia falar galego em público. Ele cantava pra mim muitas musiquinhas em galego, ridicularizando o Franco e o resto da Espanha. Na semana passada, li sobre um senhor catalão que está fazendo greve de fome para protestar contra o desaparecimento da língua catalã. Eu sempre tenho a impressão de que a Espanha vive prestes a estourar. Se nada for feito, assim como ninguém acha nada demais a Espanha ser do jeito que é hoje, ninguém vai achar nada demais o Tibet ser mais uma região da China.

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