A impressora de café

Quando comecei a trabalhar em jornal, há tantas luas que nem convém lembrar, uma das pessoas mais importantes da redação era o homem do cafezinho. Ele circulava a intervalos regulares, servindo café pelas mesas em xícaras de porcelana. Na época, ainda não existiam os horrendos copinhos plásticos — ou, se existiam, ninguém lhes fazia caso. Tenho a impressão de que o cargo do homem do cafezinho foi um dos tantos extintos com a implantação dos computadores: café derramado não era ameaça às máquinas de escrever, mas os delicados teclados d’antanho não estavam preparados para tanto. Nem os administradores das redações, aliás, para quem os computadores eram animais cheios de não-me-toques. De modo que o cafezinho foi banido das mesas para uma área separada, onde não representava perigo para a nova tecnologia.

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Vocês se lembram daquela piada clássica dos dois jacarés conversando no zoológico? Os dois estão lamentando a sua sorte. Um saiu do brejo, foi longe demais, quando viu estava numa estrada e zás!, foi capturado. E outro?

— Ah, eu morava numa repartição pública. Era um lugar maravilhoso, eu saía do almoxarifado onde me escondia e comia um funcionário sempre que sentia fome… Ninguém nunca reparou. Mas um dia dei bobeira e comi o cara do cafezinho…

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Uma das coisas boas de viajar é descobrir palavras novas. Uma das boas palavras que aprendi na Índia foi wallah. Wallah é um sufixo que se acrescenta a um substantivo para designar alguém que faz ou lida com alguma coisa. Dhobi-wallah, por exemplo, é o cara que lava roupa, o equivalente às nossas lavadeiras, com a diferença que, na Índia, o ofício é em geral exercido por homens; chai-wallah, o cara do chá, tanto pode ser aquele que serve em escritórios quanto o que prepara e vende o chá na rua; e assim por diante. Wallah é uma palavra tão útil que todo mundo que a conhece a adota. Em 1965 James Ivory fez um lindo filme chamado “Shakespeare wallah”, sobre uma companhia teatral inglesa que percorria a Índia. O título traz um sorriso automático ao rosto de quem já incorporou o “wallah”. Desde que estive na Índia, o cara do cafezinho, essa espécie em extinção, passou a ser, na minha cabeça, o “café-wallah”.

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Deixei de trabalhar na redação há alguns anos. Hoje sou uma jornal-wallah solitária, que tecla de casa, cercada de gatos e de silêncio. Quase sem perceber, fui deixando de tomar café. Na redação, quando queria esticar as pernas e dar um tempo, ia até o cafezinho; aqui em casa, vou até a janela, para conferir o mundo lá fora.

Há tempos, porém, namorava máquinas de expresso. Ora um modelo, ora outro – mas a lógica sempre empacava esses namoros. Para que é que uma pessoa que quase não toma café precisa de máquina de café?

Até que, numa ida a São Paulo, tive uma alegria inesperada. Estava com a volta marcada para as oito da noite, mas consegui resolver tudo tão rápido que, antes das cinco, já estava de volta ao Rio. Quatro horas de presente! Dia lindo, sol sem muito calor… não me perguntem como, cheguei à conclusão de que aquela era a perfeita ocasião para a compra de uma cafeteira. Lá fui, lépida e fagueira – realmente lépida e fagueira – até a Nespresso, que fica logo ali na esquina, e comprei uma máquina pequena e muito bonitinha. Comprei também uma caixa enorme com 250 cápsulas de diferentes tipos de café, que veio com uma outra caixa, menor, para expor aquelas gracinhas coloridas, como se fossem jóias ou bombons. O conjunto todo foi uma fábula.

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Liguei para a Bia:

— Tenho uma novidade! Fiz uma compra maluca: passei pela Victor Hugo, vi uma bolsa na vitrine e não resisti…

— Na Victor Hugo?! Você?!

— É, mas é bonita, por incrível que pareça. É verde esmeralda. Não chegou a três mil reais.

— Bom, mãe, se você está feliz, está valendo…

— Poxa. Não era nada disso que você tinha que dizer! Você tinha que ficar escandalizada e me dar uma bronca. Aí eu ia te contar que o que eu comprei de verdade foi uma cafeteira, e você ia ficar tão aliviada que não ia nem reparar no preço.

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Através dos meus amigos do Twitter e do Facebook descobri que não comprei bem uma máquina; entrei para um culto. Recebi incontáveis receitas, e sugestões de sabores que não vieram na caixa enorme. Dei uma pesquisada e fiquei sabendo que esses sabores, como o de chocolate, que eu adoraria experimentar, são temporários. Fui para o mercadolivre.com, e fiz outra descoberta: há tráfico de café! Caixinhas com dez cápsulas de chocolate saiam, na época, a R$ 69, mais frete (agora, acabo de checar, já foram para R$ 99). No ebay encontrei um vendedor israelense que me fez cinco pacotes a US$ 90, frete incluído. As cápsulas chegaram direitinho, mas na minha opinião não abalizada, há mais onda do que sabor na história.

— Já calculou quanto custa o quilo do café nessa brincadeira? – perguntou, pelo Twitter, o meu amigo @cardoso.

Ainda não estou preparada para a resposta, mas imagino que o custo seja parecido com o do litro de tinta para impressora, o produto mais caro do mundo. De qualquer forma, já me precavi contra o momento do choque: comprei, também pela internet, um jogo de cápsulas recarregáveis.

(O Globo, Segundo Caderno, 22.3.2012) 

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36 respostas em “A impressora de café

  1. Oi Cora (e leitores). Nunca escrevi em blog (nem revista, jornal, etc) mas te acompanho desde
    os tempos da revista Microsistemas quando meu conhecimento em informática
    se resumia a digitar listagem de programas BASIC publicados na revista. 😉

    Sobre café fiquei curioso sobre essa cápsula de reaproveitamento já que a
    máquina perfura a cápsula em 3 pontos. Se alguém puder postar um link para
    o produto agradeço.

    E para quem gosta de café e está no RJ, sugiro experimentar o espresso do
    restaurante El Gebal (R.Buenos Aires), para mim um dos melhores. É um café
    forte, tem quem ame e quem odeie.

    Tenho visto um interesse cada vez maior pela fotografia de sua parte
    (viagem à Índia com o Fábio Elias) e gostaria de aproveitar para divulgar
    que estou com uma foto selecionada no concurso mundial da Canon
    (CPN – Canon Editor’s Choice 3), o qual apresenta as selecionadas do ano.
    A minha é de número 32 (um casal dançando) e foi selecionada na edição de
    Novembro/2011 como uma das preferidas da editora. O tema era “proximidade”.
    A votação vai até 30/Março (próxima Sexta). Segue o link abaixo:
    http://cpn.canon-europe.com/content/yourspace/editors_choice/vote.do

    Hesitei 1 semana em postar aqui já que não vejo mérito nesse tipo de votação,
    além de ser uma auto-promoção.
    Mas já que as regras são essas, vamos jogar de acordo com as regras !
    Acho que é uma boa oportunidade em noticiar o Brasil lá fora (e a minha fotografia!, não sou cretino)
    ao invés das comumente notícias de violência, corrupção, roubalheira e afins.

    Ia me esquecendo do Powerline. Ando pesquisando sobre essa tecnologia e pelo que vi
    é necessário que os adaptadores sejam ligados em tomadas e não através de filtros de
    linha. Como a solução para onde quero levar a rede se faz mandatório o uso de filtro de
    linha, gostaria de saber se alguém usa com resultado 100% através de filtros.
    Em caso afirmativo favor informar marca/modelo.

    Obrigado e abs a todos.

  2. Posso estar falando uma grande besteira, mas existe a possibilidade do sinal do seu invejado Powerline chegar na rede elétrica do apartamento de um vizinho do prédio?

    • Não, mas existe a possibilidade do sinal wi-fi ser captado. Por isso, cria-se uma rede especial para a trapizonga, com senha, como qualquer outra rede wi-fi.

    • oi mtemporal: como a eletricidade de cada apartamento vem do relógio individual lá na portaria, é praticamente impossível o sinal Powerline ‘vazar’ para outro circuito vizinho.

      Como recurso adicional de segurança, cada unidade Powerline tem um identificador próprio (como um MAC Address), numa etiqueta impressa em cada unidade. Assim, caso necessário, com os recursos de SetUp avançado, é tb possível criar filtros e regras de acesso 🙂

      oi Fabio: um Filtro de Linha — como é sua função — irá justamente filtrar fora a modulação do sinal criado pelo Powerline. Por isso, eles devem ser plugados diretamente numa tomada na parede.

      • Obrigado pela resposta Tom, tava encafifadaço com isso.

        Quando me referia ao alcance de sinal, não tinha a segurança em mente, que acredito ser igual a do WIFI nosso de cada dia 128-Bit AES encryption. Realmente filtrar o MAC address deixa qualquer um mais tranquilo mesmo cheio de café nespresso circulando no organismo.

        Li o review de um Powerline na Amazon de um nerd de Taiwan que garantiu que o sinal dele chegava ao térreo do edifício sendo ele morador do ultimo andar (6º andar). Será o alcance dessa geringonça tão grande assim, a ponto de ser recebido em tomadas fora do apartamento?
        ________________________________
        (Cora, perdoe o OT)

  3. Já viu os videos de reaproveitamento das cápsulas no youtube ? Eu tentei , mas com o pó comum não ficou bom nāo.

  4. A propósito de bolsas:
    Durante um longo período em serviço em Houston, aproximou-se o aniversário do nosso casamento. Sempre que ia ao Galleria Shopping Center, eu entrava através de uma loja imensa onde, em nichos envidraçados, se encontravam bolsas as mais diversas, não me perguntem as marcas. Uma delas chamava-me a atenção, brilhantemente iluminada, que eu achava “a cara da Nina”. Acabei me decidindo e perguntei o preço: US$3.500,00. Incrédulo, balbuciei: “Are you sure?!!”. “It’s a Prada, sir!”…Agradeci e saí de fininho, sentindo o olhar gozador da sofisticada vendedora me seguindo. Demorei a refazer-me, porque, confesso,desligado como sou, nem em sonhos imaginava que uma simples bolsa pudesse custar essa quantia.
    Orgulhosamente, acabei gastando na “Tiffany’s” essa mesma quantia num belíssimo anelzinho luxuoso e reluzente, de valor incomparávelmente maior que a maior e mais cara bolsa que a Prada tenha para vender.

  5. Continuo fiel às minhas cafeteiras de pressão italianas e ao café Melita xtra forte. O resultado é satisfatório. No entanto, pesquisando as causas de súbitas tonturas-quase-desmaios, tudo parece apontar para labirintite. Imaginem eu, alma do mar, com labirintite! Se assim for, o Oto que me atendeu já me adiantou que terei de deixar esse hábito de tomar café a toda a hora.:( 😦

  6. é, eu gosto muito de um expresso (no dicionário a grafia é assim), e me assanhei quando você contou que comprou a máquina. mas agora me assustei com o valor das cápsulas. a reação da bia é a de filha amorosa, se você tivesse escrito que comprou uma bolsa dessas, eu jamais te perdoaria ;¬)
    ainda me lembro da sua “campanha” sobre o valor desse tipo de bolsa, e, por isso mesmo, acho que desisti de comprar uma nespresso. concordo com o cardoso e com você (na ocasião daquela crônica): as coisas têm que valer o que custam para quem vende, acrescido de um lucro razoável. pelo menos as que eu compro.
    mas, se estiver gostando, divirta-se. na verdade isso é que é o principal. :¬)

    []’s

    • eu acho que a Bia ficou com medo de contrariar a Cora, Nelson 🙂 uma bolsa verde esmeralda da Victor Hugo seria algo tão horripilante que só em pleno surto uma pessoa de bom-gosto compraria, mesmo custando 300reais, que dirá… 😀

      • as pessoas que compram essas bolsas, dw, não têm, propriamente, “gosto”, pelo menos da forma que eu entendo. elas compram porque alguém disse que isso é uma prova de… falta-me a palavra, mas, em suma, para mostrar que são ricas. é como essas lojas que pagam uma miséria às confecções de camisetas, botam uma etiqueta e multiplicam o preço por 10 (ou mais).

        []’s

        • eu já sou mais cautelosa ao julgar as pessoas e os objetos genericamente, Nelson e, como não li o artigo anterior da Cora sobre as bolsas, fica dificil acompanhar bem a discussao
          mas, uma peça de indumentária pode não se limitar ao material com que é feita, multiplicada dor 10, ou à etiqueta aplicada. Como bem me explicou, certa vez, um amigo, existem fatores imateriais como design e corte, valores que certas culturas valorizam- outras, não.
          fico por aqui, me atendo à visão nada gratificante 😀 de uma bolsa desta grife, com a cor proposta pela Cora- coisa que os designers da Victor Hugo podem, justamente, rebater que jamais fariam- principalmente com o couro enrugado, brilhante e as refulgentes ferragens douradas, que estou visualizando 😀

    • Olha só, Nelson, veja no mercadolivre que tem cafeteira nespresso bem mais em conta, a corinha comprou na loja e comprou badulaques carésimos, não precisa nada disso, só da máquina fofíssima (a minha é bem simples, Nespresso Essenza, vi nesse site por 390,00), vale muito a pena, e de vez em quando comprar umas cápsulas. abraço, vera

  7. Bem-vinda ao maravilhoso mundo do café espresso (os puristas e chatos, como eu, preferem a grafia com S – não apenas de Sadia, como o colega brincou aqui embaixo, mas da palavra original em italiano, os inventores dessa maravilhosa forma de preparo de café).
    Depois que se acostuma ao café especial, fica impossível voltar ao café de supermercado. Experimente um dia provar uma xícara de Nespresso logo após uma xícara de café coado comum – a diferença, aproveitando a sua metáfora com impressoras, é tão abissal quanto uma impressora matricial competindo com uma laser colorida. Ainda se toma muito café ruim no Brasil, infelizmente. Pena que o consumidor não saiba disso…
    Eu tenho máquina de espresso de pó e moedor de grãos em casa e posso garantir que, mesmo dando trabalho e fazendo uma sujeirada enorme a cada vez que quero tomar um café, vale muito a pena o esforço.
    A Nespresso cobra um preço alto pela praticidade de suas cápsulas. Mas como diria minha sábia avó, “Mais vale um gosto que o dinheiro no bolso!”. Então seja muito feliz nesse clube, Cora.

  8. Você ainda não me convenceu a complicar a vida- ainda mais- transformando minhas simples e honestas cafeteiras em quase-mpressoras-techno-sofisticadas, mas o sarrafo embutido nas deselegantes e caríssimas bolsas da Victor Hugo foi bom demais de ler 😀

  9. Recebi essa semana a minha Nespresso, comprada durante uma ótima promoção da Amazon, e estou adorando provar cada uma das amostras. Procuro evitar pensar no momento de ter que comprar as cápsulas, quando as amostras acabarem… 🙂

    • Oi Sonia,
      Houve muita taxação em cima do preço original ?
      Estou pensando em comprar uma por lá também, mas tenho medo dos nossos tributos em cima do preço ……

  10. Aqui em casa temos uma máquina de expresso Eletrolux que faz o básico. Nós é que fazemos as variações como café com canela, com gengibre. Detalhe: o café é o Melitta.

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