Sem desespero (ou quase)

A casa é rosa e pequenina; fica praticamente escondida no Parque Lage, ao lado de um estacionamento e de uma construção maior, também pintada de rosa, onde funcionavam, nos áureos tempos, as estrebarias da Bezansoni. Há bancos de jardim na entrada, onde esperam umas moças, algumas com os filhos. Um pouco além, numa mesa comprida, mães e crianças fazem um lanche. É nesse cantinho sossegado que funciona o Saúde Criança, um dos trabalhos sociais mais bonitos e eficientes do país – e isso não sou eu quem diz, são entidades mundiais que avaliam e patrocinam ONGs pelo planeta afora.

No começo de fevereiro, entrevistei a Dra. Vera Cordeiro, força motriz por trás dessa organização, e fiquei devendo, a mim mesma, uma visita à casinha rosa. Pois, na terça-feira, lá estava eu, vendo ao vivo mães, filhos, voluntárias, funcionários, praticamente uma linha de montagem do bem, em que o esforço coletivo realiza os pequenos milagres necessários para que famílias inteiras possam cruzar a fronteira entre a miséria e a pobreza.

Numa sala com pouco espaço e muitas mesas e cadeiras, mães faziam relatórios para as voluntárias que acompanham seus casos. Todas têm planos de metas a cumprir. O Saúde Criança as ajuda a se ajudarem.

— Meu filho é falcêmico, esteve internado várias vezes mas, um dia, teve um AVC e foi parar na UTI – contou uma mãe. – Depois disso, esteve mais três vezes entubado. Eu não posso trabalhar fora porque tenho que cuidar dele, meu marido está desempregado, ficamos nos revezando no hospital. Uma assistente social estranhou que estivéssemos os dois lá, conversou conosco e nos encaminhou para cá. Eu ouvia falar no Saúde Criança pelos corredores do hospital, mas achava que era uma clínica, ou coisa assim. Não imaginava que, chegando aqui, ia encontrar uma fada madrinha.

A mãe é firme, centrada e extremamente bem articulada. Não tem muita escolaridade, mas tem inteligência e bom-senso.

— Tentei voltar para a escola há um tempo, mas não deu. Eu ficava telefonando para casa para saber se estava tudo bem com as crianças, ou as crianças me telefonavam de casa. Até que, um dia, uma professora me disse: “Olha, aqui você não é mãe, você é aluna. Os seus telefonemas estão atrapalhando os outros.” Eu olhei em volta, vi aquela garotada nova, só eu de mais velha, e vi que aquele não era mais um lugar para mim. Fiquei com muita vergonha. Num intervalo entre as aulas disse que ia lá fora usar o orelhão, sai pela porta e nunca mais voltei.

No Saúde Criança, que freqüenta há um ano, ela recebe uma cesta básica, os remédios para o filho doente e apoio para a família. Vai também receber um curso de artesanato, para aprimorar o que já sabe fazer e que lhe garante uns trocados todo mes:

— A minha casa mudou completamente, antes estava só no tijolo, agora foi toda reformada. Meu filho ganhou um quarto e um ar refrigerado, porque passava muito mal com o calor. Depois disso, nunca mais precisou voltar ao hospital. O mais velho também melhorou muito de auto-estima. Ele gosta de música clássica e sofria bullying na escola por causa disso, um dia chegou com a cabeça toda machucada.

Pergunto de onde veio esse gosto.

— Não sei, é uma coisa lá dele. Às vezes eu até peço para ele mudar a estação do rádio, “Meu filho, muda essa música que parece um monte de abelha na minha cabeça!”, mas ele gosta. E aqui no Saúde Criança ganhou uma bolsa para uma escola particular onde ninguém mais mexe com ele. Passou a ter prazer em ir à aula. Não posso marcar nada às sextas-feiras que é dia de natação e ele não perde aquela piscina por nada.

A vida ainda não está cem por cento. O marido continua desempregado. Lê os classificados nos jornais e mesmo quando a vaga parece feita sob medida para ele, quem acaba sendo escolhido é um outro qualquer.

— Eu digo para ele que é uma fase. A vida tem dessas coisas, às vezes a gente bate em todas as portas e nenhuma se abre. Mas um dia isso passa. E, com o Saúde Criança, a gente não precisa mais desesperar.

Fiquei muito comovida com essa mulher digna e batalhadora. E ainda mais comovida fiquei ao perceber o quão importante tem sido o Saúde Criança na sua vida: “a gente não precisa mais desesperar”. Olhando para ela hoje e ouvindo o que tem para contar, é possível ver um claro futuro para a sua família.

Infelizmente, nem tudo é final feliz. Uma outra mãe, muito magra, conversava com uma das voluntárias. Entre idas e vindas, está no Saúde Criança há seis anos. O tempo de permanência médio é de dois anos. Mas, dessa vez, o problema não é com nenhum dos cinco filhos, e sim com ela mesma:

— Sou catadora de lixo. Tenho uma doença incurável e, por causa disso, não posso trabalhar tanto quanto trabalhava antes. Não tenho força e a minha imunidade está baixa.

Imaginei que a doença incurável fosse Aids; mas é câncer, o eterno inominável.

— Ela está melhor – esclareceu a voluntária que a entrevistava. – Engordou um pouquinho, já está com 44 quilos.

Não tive coragem de perguntar quantos quilos tinha antes. Também não tive coragem de perguntar o que vai acontecer com a sua família a longo prazo. Sou uma bípede covarde, que não está preparada para certas respostas.

(O Globo, Segundo Caderno, 15.3.2012)

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20 respostas em “Sem desespero (ou quase)

  1. Sou voluntária da saude criança e fiquei comovida com seu texto. Realmente o trabalho da ONG é maravilhoso é muito bom poder ajudar aquelas crianças e mães. Quando pessoas se juntam para fazer o bem tudo se transforma, um abraço!!!!

  2. Liebe Cora,que lindo texto.Tudo me comoveu.Do relato das lutas maternas ao seu desabafo em ser covarde.Tem umas coisas q o nosso coracao parece nao suportar.Mas,conhecendo vc,acredito que seu apoio ja´foi além das crônicas.Cada um transforma o mundo como pode.:)

  3. Olá,
    Olá,
    Meu irmão, que morreu há mais de dez anos, era amante da música clássica e deixou muitos CDs que gostaríamos de doar. Ao ler sua coluna sobre a família assistida que tem um filho que gosta de música clássica vi aí uma oportunidade de fazer os CDs do meu irmão fazerem a felicidade de alguém. Voce pode me informar o endereço e nome da família para que eu possa enviá-los? Meu email é claudiabertholdo@hotmail.com. Um abraço. Maria Cláudia.

  4. Cora,
    Obrigada por divulgar o nosso trabalho. O texto está lindo e, quem sabe, irá mobilizar muitas pessoas a doar um pouquinho de tempo de todo o seu tempo.
    Um grande abraço,
    Izolete Raisson

  5. Fico encantada com seu estilo jornalístico e maravilhada com seu texto! É uma fonte de inspiração. Parabéns!!!
    Mais uma vez, adorei ler sobre o Saúde Criança 🙂 O mundo precisa de mais instituições como esta!
    Obrigada e grande beijo,
    Marcia

  6. Mais um texto primoroso. Informação fundamental para o nosso abençoado dia a dia.
    Muito Obrigada Cora.

  7. O texto é lindo. A Dra. Vera Cordeiro é uma pessoa maravilhosa. Li a outra matéria sobre o trabalho dela.

  8. Eu já tinha ficado maravilhada com a matéria do Globo sobre a Dra. Vera. Que trabalho fantástico! Mas me dá muita raiva quando vejo essas mulheres tão pobres, passando tanta dificuldade, com 5 filhos, ou até mesmo 10, como a que deixou os filhos sozinhos em casa pra ir trabalhar num bar, essa semana, no centro de SP. Não é admissível que até mesmo nos grandes centros, não haja controle de natalidade, que mulheres não sejam instruidas quando vão a um hospital pra ter o terceiro, quarto filho!

    • Assino embaixo!Nao compreendo isso.Que eu saiba nenhum governo ate´hoje se encarregou em procurar uma solucao real para isso.Me indigno profundamente qdo tem campanha na semana da AIDS ,onde sao distribuidas camisinhas aos montes e aqui no âmago da miséria existencial nao se faz quase nada.Há 25 anos atras,participei dum projeto com maes em comunidade.Tivemos um caso duma mae que dava seus anticoncepcionais para seu filho mais novo achando q era vitamina….

  9. É impressionante como os limites do desespero humano vão mudando, de acordo com as situações-limite que cada um(a) é obrigado(a) a enfrentar, na vida.
    O texto é lindo de chorar.

    • PS: o WordPress não me permitiu postar através da conta do Google ( ! ) porque tenho blog no site e removeu meu headshot

  10. Kedves Cora, relatos como esse deixam os olhos rasos d’água. Ao mesmo tempo, me mostram que ainda há virtudes dignas de nota nesse mundo à beira de um ataque de nervos. Köszönöm! Csók, Páli.

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