Spam do bem

Houve um tempo em que as caixas postais não tinham filtros anti-spam razoáveis e o planeta email era muito poluído. Recebia-se de tudo e mais alguma coisa, sobretudo anúncios de curas miraculosas para a calvície, Viagra falsificado e soluções mágicas para emagrecer. Imagino que se um ET abduzisse a mailbox de um terráqueo, chegaria à conclusão de que os três principais problemas da humanidade eram falta de cabelo, excesso de adiposidade e disfunção erétil crônica. Como meu email sempre foi público, tive que mudar de endereço algumas vezes para fugir desse lixo que, em 99% dos casos, não passava disso: lixo. Às vezes, porém, a maré trazia uma estrela do mar, e um anúncio bizarro, uma idéia engraçada ou algum outro acontecimento pouco usual garantia pelo menos um momento de descontração, quando não assunto para uma coluna.

Entre os spams mais irritantes estavam listas que, sem quê nem porquê, fugiam ao controle e saiam infestando mailboxes ao redor do mundo. O problema desta espécie particular de peste é que todo mundo que recebia uma mensagem da famigerada lista batia um “Reply” e pedia para ser removido – sendo que parte considerável dos afligidos batia “Reply to all”. Ato contínuo, além da mensagem inicial, todos recebiam centenas de mensagens dos colegas de infortúnio – que, por sua vez, geravam outras tantas mensagens de revoltados mandando os demais deixarem de ser burros e pararem de dar “Reply to all” (dando, naturalmente, “Reply to all”, para que os outros vissem como entendiam do assunto). Uma praga dessas podia se transformar numa escalada de ignorância e violência e, às vezes, levava mais de uma semana para morrer. Imaginem só o que era abrir uma caixa postal com 237 novas mensagens, das quais 230 eram desaforos trocados entre completos estranhos! Eu tinha instintos assassinos cada vez que me deparava com tal demonstração de estupidez, e tinha que me segurar muito para não dar um “Reply to all” manifestando minha opinião sincera sobre o caso e seus participantes.

Como há exceção para tudo, porém, me lembrei, essa semana, de uma lista que circulou em meados dos anos 90. Chamava-se Alevizos, ninguém tinha a menor idéia do assunto em pauta mas, entre os desaforos de praxe, começaram a aparecer umas mensagens diferentes, de pessoas que haviam decidido transformar aquele limão em limonada. Assim, em vez de gastar energia em xingamentos, as vítimas começaram a perguntar umas às outras de onde eram, o que faziam e assim por diante.

Mergulhei na brincadeira com gosto, e passei uns dez dias trocando idéias com gente simpática e de bom humor. Foi um acontecimento tão especial que guardei boa parte das mensagens. Um exemplo:

“Meu nome é Michael. Sou programador e moro em São Francisco. Como muito sushi e viajo bem menos do que gostaria. Minha namorada, nosso gato Copérnico e eu acabamos de encontrar um novo apartamento com um jardim enorme. É perto de onde moramos, mas a vizinhança é completamente diferente. Estamos saindo de Haight-Ashbury (onde vivem os fãs do Grateful Dead) para o Castro (mais conhecido pela sua comunidade homossexual). Nesse último fim-de-semana aconteceu um mega black-out e, em questão de minutos, uma drag queen estava coordenando o tráfego na esquina de 18 com Castro, aplaudidíssima por todos. (….) Vamos aproveitar antes que isso evapore e a gente perca a conexão.”

O episódio Alevizos me voltou à lembrança porque, pela primeira vez em muito tempo, uma lista desgarrada caiu na minha caixa postal. E, mais uma vez, entre os pedidos de “Tirem-me daqui!” e “Parem de responder a essa droga!”, surgiram, como flores no lodo, algumas mensagens bem-humoradas. Como a internet mudou um bocado de lá para cá, logo um espírito empreendedor abriu um grupo no Linkedin, para onde foi transferida a brincadeira. O grupo chama-se “Unified by spam”, tem 76 membros e estamos descobrindo o que temos em comum. Até agora, duas vertentes principais foram identificadas. Muitos trabalham ou têm ligações com o Qatar, e a grande maioria é de jornalistas — e é claro que estamos todos querendo escrever sobre o caso! Dois deles, que moram em Londres, já até se encontraram para umas cervejas. Pelo andar do tuc-tuc, porém, acho que as pessoas têm menos tempo hoje do que tinham em 1996: as discussões estão fraquinhas lá pelo Linkedin.

(O Globo, Economia, 10.3.2012)

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3 respostas em “Spam do bem

  1. Cora, me deu até vontade de entrar no linkedin, Não uso nunca!
    As suas matérias no Globo de domingo estão me dando um pouco de alegria e prazer na leitura do jornal. Já não leio, bastam as péssimas notícias que invadem minha casa pela Globo News o dia inteiro. Você inseriu romance e fez de uma mera resenha de um novo negócio uma deliciosa matéria. Muito bom! beijos, querida 😉

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