Algumas viagens

Malgudi é uma pequena cidade no Sul da Índia. Fica às margens do rio Sarayu, e perto de Madras (hoje Chennai), capital do estado de Tamil Nadu. Para lá do rio ficam as montanhas e a floresta de Mempi, onde ainda se podem encontrar animais selvagens. Na rua Ellamam, colada ao rio, vivem trabalhadores; a elite se divide entre a rua Kabir e a novíssima Lawley (nome de um herói inglês da época do Raj distinguido com com uma estátua eqüestre no centro da cidade); mas é em Market Street, a rua do mercado, que todos se encontram e se põem a par dos últimos acontecimentos. Como em tantas cidades do interior indiano, a estação de trem de Malgudi é a sua principal forma de comunicação com o mundo.

Dar uma busca por Malgudi no Google traz cerca de 1.170.000 resultados, entre eles alguns mapas, um verbete da Wikipedia e várias dicas e avaliações do Trip Advisor para hotéis e restaurantes homônimos. A questão é que, exceto para os leitores de R. K. Narayan, Malgudi não existe; é uma cidade imaginária, mas tão real para quem a leu que chega a ser um pouco frustrante ir à Índia e não poder percorrer a geografia que conhecemos tão bem.

Rasipuram Krishnaswami Narayan (graças aos céus pela sábia instituição das abreviaturas!) nasceu em 1906 e morreu em 2001.  Passou a vida entre Madras e Mysore, e é universalmente considerado um dos maiores ficcionistas indianos de língua inglesa. Diante de autores contemporâneos ferozes e engajados como Aravind Adiga ou Arundhati Roy, suas histórias de Malgudi parecem simples e inocentes, mas essa é uma singeleza apenas aparente. Seu mundo é, como o de Tchekov (com quem é frequentemente comparado) um mundo de pessoas pequenas, de não-acontecimentos, de poucas e precisas palavras. As tônicas da narrativa são gentileza e economia retórica. Não há grandiloqüência no discurso, e nada vai mudar por causa do que acontece com suas personagens, que passam pelo mundo sem deixar marcas. É justamente essa pisada leve, porém, que as torna tão humanas e próximas a nós. Ao mesmo tempo, por trás dos enredos cotidianos e da linguagem despretensiosa, há sempre várias leituras possíveis.

Até outro dia, quem quisesse ler Narayan em português ficava querendo: incompreensivelmente, não havia edições dos seus livros nem em Portugal, nem no Brasil. Nunca entendi os misteriosos desígnios que o levaram a ser ignorado, durante tanto tempo, em dois países onde se traduz de tudo, o tempo todo. Agora, enfim, chega às livrarias um dos seus romances, “O pintor de letreiros”, de 1977 (Editora Guarda-chuva, tradução de Léa Nachbin).

Como quase todo o resto da sua obra, ele também se passa em Malgudi, onde Raman, pintor de letreiros orgulhoso do seu ofício, passa os dias procurando por novos clientes, entregando encomendas, trabalhando à beira do rio e vivendo sem grandes complicações em companhia da tia devota. Até que aparece na cidade uma funcionária pública dedicada de corpo e alma à campanha de planejamento familiar do governo, que logo torna-se a maior cliente de Raman. Grande reviravolta na vida do nosso pintor de letreiros, subitamente apaixonado pela moça, e dividido entre o seu pragmatismo e o apego às tradições da tia.

Para quem gosta de subtextos, Raman pode ser visto como a Índia dos anos 70, uma nação moderna buscando o seu caminho entre duas visões conflitantes de mundo. Para quem gosta de ler sem se preocupar com nada além de uma boa história, boa viagem a Malgudi!

o O o

Por falar em cidades fictícias, acabo de reler, com pelo menos vinte anos de intervalo, o incomparável “Cem anos de solidão”, que botou Macondo no mapa: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”… O romance é ainda melhor do que a memória que tinha dele, e que já era das mais encantadas dentre as minhas leituras. Como o Gabriel Garcia Márquez original da casa sumiu, comprei a edição que está nas livrarias, um capricho só, da Record, com adendos e a árvore genealógica indispensável para que ninguém se perca entre tantos Aurelianos e José Arcadios.

A tradução de Eric Nepomuceno é impecável. Não há momento em que a gente esbarre numa palavra mal escolhida ou numa construção mal ajambrada. O livro se lê como se tivesse nascido em português, pelo que todos nós, leitores, só temos a lhe agradecer.

o O o

Mudar de supermercado de vez em quando é muito bom. Lá estava eu entre gôndolas desconhecidas, tentando descobrir onde ficavam o milho de pipoca e os pepininhos em conserva, quando descobri, na seção de bebidas, duas garrafas de cajuína geladinhas. Cajuína! No supermercado! Peguei as duas antes que alguém visse o tesouro que havia encontrado, trouxe para casa e bebi aos pouquinhos, saboreando.

E como uma coisa puxa outra, passei a noite toda, e o dia seguinte também, e já um pedaço da noite novamente, ouvindo “Cajuína”, de Caetano Veloso, que com certeza é uma das músicas mais bonitas jamais escritas. Tudo nela é perfeito, música, letra, sentimento e, de quebra, o violoncelo do Jacques Morelembaum, na versão apresentada em “Noites do Norte”. Está no blog, em bit.ly/x8V4sT.

(O Globo, Segundo Caderno, 8.3.2012)

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13 respostas em “Algumas viagens

  1. Cora, onde voce consegui cajuina? Eu compro na Feia de São Cristovão. Ainda não consegui encontrá-la em Ipanema/Leblon.

  2. Cora, onde voce encontrou cajuína? Só encontro na Feira de São Cristovão. Sou cearense e a cajuína fazia parte do dia-a-dia da minha infância.

  3. Excetuando os livros e a cajuína, pois detesto caju, fico com a música. Deduzo que faço como você: sou capaz de ouvir a tarde inteirinha a mesma música. Ouço no PC, pois meus alto-falantes são excelentes. Pena que apenas durante uma parte do dia posso colocar o volume alto. Se exorbitar, meu vizinho de baixo, um japonês muito chato, é capaz de reclamar…

  4. que bom! vou comprar o RKN, suas dicas de autores indianos são ótimas.
    parabéns pelo dia de hoje, Dia Internacional da Mulher, se desse eu colocaria uma florzinha, aqui, para todas… fica a intenção 

  5. Eu quis ouvir a musica perfeita de Caetano Veloso e nao achei aqui. Mas vou procurar no youtube. Gosto de ler a sua coluna do jornal Cora. Voce escreve com sentimento e parece que ate te conheço. Obrigada. Mariana

  6. Oi Cora, tem um filme extraordinário -, cujo titulo em português é Despachado para a India, outsourced no original – sobre um “executivo” americano que é despachado para a India treinar o time que será responsável por atender os consumidores de derminado site cuja base é nos EUA.
    E com sotaque americano.
    É ótimo porque o pessoal sabe falar inglês de cursinho e o americano fala inglês errado.
    E tem que ser treinados para falar errado que nem os americanos de verdade.
    E é mesmo. Tem um amigo meu que é americano e ele nunca diz algo assim: “Is there a problem ? ” sempre vai direto: “There is a problem ?” Eu tenho que corrigi-lo !
    What a shame !
    É genial ! A cultura, os problemas na India.
    O que fica do filme é que a coisa por lá, Bombain, é muito suja mas as pessoas são absurdamente amáveis.
    Este filme gerou uma série, ousourced, que é legal, mas o filme é ótimo !

  7. Como eu AMO reler grandes romances… Reli tanto Cem anos de solidão que hoje tenho enjôo, mas é um livro totalmente inesquecível…

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