Notícias do ecossistema

Houve um tempo em que olhar vitrine de operadora era um ótimo passatempo. A variedade de aparelhos era grande, e todos faziam questão de ter “personalidade”. O que este conceito significava para os diversos fabricantes e seus designers nem sempre era compreensível para os mortais comuns, mas o fato é que a biodiversidade, ou mais propriamente, tecnodiversidade, era uma alegria. Havia modelos que obviamente não podiam dar certo, mas que ainda assim eram tão diferentes do que se entendia por telefone celular que tornavam-se irresistíveis: tenho dois modelos desses na coleção que fazia nos tempos em que a originalidade contava pontos. Um, da Nokia, mais puxado para o quadrado, alinhava os botões dos números nas margens do aparelho, como se fossem uma moldura para a tela. Nunca consegui acertar uma ligação de primeira, mas até hoje tenho enorme carinho por esta tentativa não muito bem sucedida de reinventar a roda. Ao que eu saiba, o 7600 só esteve à venda na Inglaterra e na Finlândia.

Aí apareceu o iPhone – e, do dia para a noite, a originalidade deixou de ser qualidade nos celulares. O que todos queriam ser, e em boa medida acabaram sendo, era clones do iPhone. De lá para cá, olhar vitrine de operadora deixou de ser divertido. Todos os smartphones são iguais, ou quase iguais: pretos, monobloco, touchscreen, blá blá blá. Os pobres designers da área, que antes davam as asas mais enlouquecidas à imaginação, passaram a ter uma única função: fazer aparelhos absolutamente iguais.

Já escrevi sobre isso algumas vezes, mas, essa semana, uma imagem emblemática apareceu no Twitter, postada por Josh Helfferich, do @Digeratii, e circulou entre as pessoas que gostavam da variedade do antigo ecossistema. Essa imagem divide-se em dois lados: num, cerca de 30 aparelhos pré-iPhone, em todos os formatos, cores e tamanhos imagináveis. No outro, vinte celulares pós-iPhone, todos retangulares, pretos, iguais.

John Biggs, do TechCrunch, escreveu uma coluna sobre o assunto – e eu percebi que não estava sozinha na minha implicância com essa repetição aparentemente eterna do mesmo padrão: “Exceto por algumas poucas exceções baratas, entrar numa loja de celulares é, hoje, um exercício de futilidade. Não há qualquer diferenciação, nem qualquer aparelho é melhor do que o outro. Assim como todo tablet é exatamente igual a qualquer outro tablet, qualquer telefone parece, e funciona, como qualquer outro telefone”.

É nessa tecla que eu venho batendo – ou, por outra, nesta tela que eu venho tocando. #prontofalei

o O o

Dentro de tal quadro de absoluta mesmice, causou impacto um anúncio feito pela Nokia na abertura do Mobile World Congress, em Barcelona: o esperado sucessor do N8, o 808, vem com um sensor de 41 megapixels, estreando uma tecnologia batizada de Nokia Pureview. O aparelho é bojudinho, por causa das lentes, mas parece bom de pegar.

O que é que alguém vai fazer com uma foto de celular de 41 megapixels?! A pergunta é pertinente, mas a resposta é tranqüilizadora: a idéia é capturar esses megapixels todos para condensá-los em unidades menores, aumentando a nitidez da imagem. O tamanho padrão das imagens do 808 Pureview é de 5 megapixels, embora, é claro, a resolução máxima – de 38 megapixels — também possa ser usada em caso de necessidade.

A maior vantagem imediata dessa quantidade de megapixels traduz-se em quatro letras: zoom. Com eles, é de se imaginar que será possível, enfim, ter um zoom digno do nome numa câmera de celular. As lentes do poderoso aparelhinho são Carl Zeiss, uma garantia a mais de boa imagem. Infelizmente, ele ainda não tem previsão de data de chegada ao Brasil.

(O Globo, Economia, 3.3.2012) 

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5 respostas em “Notícias do ecossistema

  1. Cora, tenho a mesma opinião, está uma grande mesmice. E por isso achei uma grata surpresa o Nokia Lumia 800 com o Windows Phone 7.5. Apesar do design do aparelho não ser lá tão diferente, ele tem um algo a mais com sua tela em curva. Contudo o grande mérito vai para a interface do WP, uma proposta totalmente nova colocando um fim na era dos ícones. Pelo menos neste quesito a originalidade voltou e justo nas mãos de quem, Microsoft.

  2. Cora, depois de ler a sua coluna, resolvi prestar atenção nas vitrines das lojas de telefonia, e você tem toda a razão: só vê aqueles tijolinhos pretos de telas brilhantes. Não há mais aparelhos coloridos, nem com design diferente; na pior das hipóteses, alguns assemelhados ao Blackberry com aquele tecladinho para dedos de criança.
    Eu sinto falta dos aparelhos de slide, de flip e dos “candybar”. Já tive dos três tipos, e, sinceramente, acho a ergonomia deles muito melhor que a do iPhone e seus similares. Os celulares de hoje são ótimos para navegar na internet, brincar com joguinhos, consultar mapas e ver fotos, mas são péssimos no quesito mais básico, qual seja, o de falar.
    O Razr V3 da Motorola foi um sucesso na época justamente por isso, eu acho: além de um design lindo, era muito confortável para conversar. Hoje eu tenho um Motorola Milestone e sinto muita falta de um botão físico para realizar e encerrar chamadas.
    Li a coluna do John Biggs e concordo com o apelo dele: que os fabricantes busquem sua própria identidade e parem de tentar copiar a Apple, o mercado perde muito com essa falta de criatividade.

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