Cariocas por escrito

Um dia, lá pelos idos de 2009, um grupo de amigos empenhado em encontrar soluções para a sua cidade resolveu promover uma série de encontros com outras pessoas movidas pela mesma preocupação. Nascia assim o OsteRio, que tem esse nome porque os encontros acontecem na Osteria dell’Angolo – repetindo o hábito que têm os italianos de discutir a vida em geral nas mesas dos seus restaurantes. A idéia foi tão bem sucedida que continua firme: já foram ao ar 54 edições, reunindo mais de 1.500 pessoas. Pois, na segunda-feira passada, lá estávamos o Ancelmo Gois e eu, apresentados pelo Lula Vieira, conversando sobre o que é ser um cronista carioca. A bem do OsteRio, é bom que se diga que este foi um encontro light, uma espécie de sobremesa diet do cardápio habitual, que discute temas de grande relevância, como educação, integração social, economia, sustentabilidade.

Conversar com tanta gente simpática e ligada na nossa cidade foi uma oportunidade de pensar, em voz alta, o que é ser uma cronista carioca. Não é uma definição fácil. A gente sabe o que é um cronista carioca à primeira leitura, mas vá explicar o que é!

Ser cronista é, em qualquer canto do mundo, viver em função da crônica, do momento em que se acorda à hora em que se vai dormir. Uma espreguiçada diferente, por exemplo, em que se estique mais um braço do que o outro, não deve ser desprezada como simples ato existencial: vai que seja tendência? Alguns segundos no Google logo desencavam meia dúzia de estudos realizados em universidades prestigiosas sobre o efeito do café no fortalecimento dos músculos do braço direito (ou do braço esquerdo, em caso de canhotos).

Uma nuvem diferente atravessada no céu, uma árvore em flor, um filme, um livro, um espetáculo… tudo pode ser crônica, assim como o seu avesso. Claro: se tudo é possível, nada é possível. É nos dias em que o avesso comparece que o pobre do cronista sofre, e acaba escrevendo sobre o que, em tese, parece impossível: a falta de assunto. Mas ela existe, e não dá para explicar a angústia que causa aos amigos bem intencionados que, imediatamente, oferecem cáfilas de assuntos.

Ser cronista, aliás, é ouvir pacientemente as sugestões de amigos, conhecidos e desconhecidos:

— Nossa, pensei tanto em você! Essa semana soube de uma história que daria uma crônica sensacional!

Infelizmente, o que dá ou não dá crônica não é tanto a história, mas a química que acontece entre cronista e história, algo pessoal e intransferível. Fico deslumbrada quando leio o Dapieve escrevendo crônicas maravilhosas sobre o Botafogo, porque a última coisa que me ocorreria na vida seria escrever sobre futebol – ainda mais com aquela paixão.

Mas essas são questões universais enfrentadas por cronistas onde quer que escrevam. O que faz de um cronista carioca um cronista carioca — se é que, de fato, a espécie existe? Não tenho certeza de ser capaz de responder a essa pergunta. Talvez seja um jeito de escrever sem se levar excessivamente a sério, como se, ao invés de estar diante da tela, estivéssemos diante de um grupo de amigos no boteco da esquina; talvez seja um jeito indefinível de ser que não nos faz necessariamente cronistas, mas sem sombra de dúvida cariocas.

A cidade tem papel preponderante no ofício, claro, porque aqui o exercemos, e a vida diária é matéria prima da crônica. Além disso, é difícil ficar imune ao entorno – especialmente quando o entorno é, as demais cidades que me desculpem, o Rio de Janeiro. Com tudo o que tem de bom, e o mais ainda que tem de ruim, a nossa cidade é única. Beleza e maus-tratos convivem lado a lado em quantidades exageradas, mas às vezes é como se o descaso, de alguma forma perversa, ressaltasse a beleza.

Já a beleza, por sua vez, suaviza um pouco o massacre da metrópole. Por exemplo: odeio trânsito. Acho o carro particular uma aberração da “civilização” que, mais cedo ou mais terá, terá de ser repensada. Por causa disso não tenho carro. Não quero contribuir para acabar com a minha cidade, com o meu planeta. E tenho ataques de fúria quando paro num engarrafamento. O problema é que não há fúria que resista por muito tempo se o engarrafamento é na Lagoa, na orla, no Aterro. O trânsito está parado, é verdade; mas a vista, em compensação…

A mesma coisa acontece com o cronista que acorda de mau humor. Se a vida não parecer menos complicada diante da janela com vista para o Cristo, pode ser que melhore na rua, onde o eterno diálogo com conhecidos e desconhecidos pontua o cotidiano. O carioca não precisa ser apresentado a ninguém para começar uma conversa, e essa informalidade se traduz nas páginas do jornal.

Beleza e cordialidade são os temperos que acabam dando um colorido particular mesmo às crônicas cariocas mais amargas. Nelas encontram-se lamentos, exasperação e indignação, mas raras vezes se encontra rancor. Afinal, o cronista carioca é, antes de tudo, um carioca, e os seus sentimentos refletem, bem ou mal, os dos seus conterrâneos, tenham eles nascido no Rio ou não.

A nossa cidade é, para nós, mais do que um amontoado de construções. É um ser vivo, uma espécie de “pessoa urbanística” que amamos com fervor, e que requer cuidados no trato, carinhos, gentileza. De mau, já basta o que lhe aconteceu.

 (O Globo, Segundo Caderno, 1.3.2012)

Anúncios

11 respostas em “Cariocas por escrito

  1. Ontem, no Jornal da 10, da Globo News, Guto Abranches – paulista, que mora no Rio de Janeiro há dez anos, e que apresenta o programa Conta Corrente – explicou direitinho como se achar na cidade. Foi uma crônica muito bonita feita por alguém que não é fluminense.
    Vale a pena assistir ao Um olhar de…, que faz parte do Jornal das 10. Segue o atalho e aguarde um instantinho que abre no local certo.
    http://g1.globo.com/globo-news/jornal-das-dez/videos/t/todos-os-videos/v/rio-de-janeiro-comemora-447-anos-de-fundacao/1837979/

      • Pois é, Cora. Penso que as produções dos telejornais da Globo News também gostaram. Hoje, domingo (dia 4), a crônica foi reprisada num dos telejornais da tarde. Novamente, valeu a pena.

  2. “…É um ser vivo, uma espécie de “pessoa urbanística” que amamos com fervor, e que requer cuidados no trato, carinhos, gentileza. De mau, já basta o que lhe aconteceu.” !!

    É de fato, uma declaração de amor à sua urbe! 🙂

  3. Vou cultivar esses bons sentimentos em relação a nossa cidade; a z. norte também tem seus encantos- cada morro é uma beleza só, muitas favelas por onde moro n são tão superpovoadas como as rocinhas. Crônica inspiradora

  4. Cora,

    Passei a tarde de ontem discutindo com professores amigos o que é crônica, os tipos de crônica, de onde vem a crônica… Abro o jornal hoje e me deparo com o seu texto maravilhoso discorrendo sobre a imagem-crônica, sobre o Rio, ser vivo, que requer cuidados no trato, carinhos, gentileza, e motivador de muitas crônicas.

    Obrigada pelo seu olhar de carinho, cuidado, gentileza.

  5. Mais uma crônica deliciosa, Corinha.

    Acho crônica um texto tão bom de ler e escrever, que às vezes – quando tenho paciência – sento e escrevo textos sobre assuntos aleatórios (http://eoque.tumblr.com). Seja o café, meus gatos, sobre roer unha ou sobre um jantar com a Bethânia. Eu só queria ter menos preguiça, para escrever mais.

    E ser cronista já é legal, mas imagino que ser cronista no Rio seja melhor ainda! 🙂

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s