O velho debate…

Já perdi a conta do número de vezes em que me vi no meio de debates sobre o fim dos jornais e dos livros tais como (ainda) os conhecemos hoje. Ultimamente, essas discussões vão além da existência física dos livros e questionam o próprio futuro das editoras. O argumento é muito parecido com o que envolve as grandes empresas de comunicação: sua existência estaria em xeque a partir do momento em que todo mundo que tem um celular na mão pode transmitir notícias. Da mesma forma, a existência de sites de auto-publicação dispensaria as editoras, intermediárias entre leitores e autores.

São duas situações diferentes e dois argumentos igualmente falhos. O cidadão-jornalista, que tuita sobre um engarrafamento da Linha Vermelha ou sobre um assalto que acabou de presenciar é imbatível nessa função. Nenhuma empresa de comunicação conseguiria, jamais, ter tantos repórteres pelas ruas. Mas, por importante que seja, essa informação pontual não é tudo. Como leitores, queremos mais: queremos análises dos fatos, queremos reportagens de peso, queremos saber o que têm a dizer as autoridades a quem pagamos regiamente para cuidar de nossos interesses, queremos saber como vão o futebol, a música, o cinema, queremos entrevistas, queremos a opinião de colunistas a quem nos acostumamos a ler, queremos, enfim, vastas janelas para o que acontece à nossa volta, perto ou longe.

É até possível que, num futuro relativamente próximo, as notícias que consumimos deixem de ser impressas em papel; mas como se diz por aí, empresas jornalísticas não vendem papel, vendem notícia. Como conseguirão tornar a venda da notícia sem papel um negócio lucrativo são outros quinhentos, e outra discussão.

O caso das editoras é parecido. Elas também não vendem papel, vendem livros. E funcionam como potentes filtros para as centenas de milhares de livros que circulam pelo mundo como candidatos a publicação. Nem sempre acertam. A quantidade de livros ruins é uma grandeza, e são famosos os casos de clássicos ou de best-sellers que foram recusados por editora após editora até, finalmente, chamarem a atenção de alguém mais antenado. Ainda assim, um mundo sem editoras seria um caos para nós, leitores, que passaríamos mais tempo peneirando erros do que encontrando acertos. Isso para não falar na questão dos livros traduzidos. Alguém precisa descobrir que foram publicados no exterior, comprar seus direitos, encontrar bons tradutores e pagá-los – tudo isso antes do trabalho de edição. Não é tarefa barata, nem tarefa para amadores.

(Eu acredito que a geração dos meus netos pode vir a dispensar uma boa quantidade de livros em papel, mas não acredito no seu fim puro e simples, até porque, como objeto, o livro é um produto singularmente bem resolvido. Livros de fotografia, livros de arte, edições caprichadas – nada disso vai desaparecer em sua forma clássica. Ao mesmo tempo, há transformações já em curso que serão cada vez mais interessantes de acompanhar: os livros infantis para tablets têm um longo e lindo caminho a percorrer.)

Há mais um detalhe. Assim como os jornais e revistas, as editoras têm linhas editoriais com as quais os leitores aprendem a se identificar – e com as quais muitos autores sonham. Isso se transfere facilmente para o universo dos tablets. Os grandes problemas das editoras, nesse momento, são evitar a sangria causada pela pirataria e o excesso de poder da Amazon, que para garantir o seu Kindle tem forçado políticas de preço que as editoras consideram inviáveis. Mas isso, como a “monetização” da informação online, já é outra discussão. Aliás: que palavra ridícula é “monetização”, não?

(O Globo, Economia, 25.2.2012)

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6 respostas em “O velho debate…

  1. As conchas fazem parte da história humana de muitas maneiras. Uma delas era como dinheiro, usadas desde a China, ao Sudão,e até mesmo pelos os índios do oeste americano A espécie mais usada era a “Cypraea moneta”, abundante, e fácil de coletar. De seu nome científico veio moeda, e monetização, que convenhamos, não é das palavras mais bonitas da língua. Não faz jus à maravilha que os mais fantásticos arquitetos do planeta, os moluscos, conseguem fabricar.

  2. Um exemplo para o debate: …O que vemos hoje nos telejornais e nas mídias de uma forma geral são pessoas profissionalizadas marcadas por visuais ou modelos lendo e interpretando um texto notificado em algum momento por alguém, que se repetem em diferentes vozes e com as mesmas imagens. Será que algumas dessas pessoas não se sentem inócuas, imcompententes e improfícuas, ou estão apenas ali por vaidades e preocupadas em pagar suas contas.
    Portanto, concluo, que é nós que devemos editar as imagens e os áudios para nossa melhor degustação! E como se fosse um prato de comida.

  3. Os livros de papel são “imorríveis”. Já pensou ter todos os seus preferidos armazenados, seja no site ou na memória da “maquininha” e “bichar” tudo? Impensável! Nem adianta ter um HD externo, pois você deverá ter dois HDs, ou mais, porém todos sujeitos a perdas. As máquinas são inodoras, insensíveis, não têm alma. Já o papel, tem tudo e mais um pouco. Haja vista os documentos ou fotos que, quando bem tratados, duram séculos e são as testemunhas do nosso passado e dos nossos antepassados. Penso que a chamada modernidade poderá ser o trunfo dos imbecis, pois, como disse Einstein, “não sei quais serão as armas da Terceira Guerra Mundial, mas a Quarta Guerra Mundial será combatida com paus e pedras.” Falou e disse!

  4. “Monet”izaçao, se forem imagens apresentadas como pintadas pelo proprio…., poderai ser uma boa ideia;

  5. perfeito:
    empresas jornalísticas não vendem papel, vendem notícia” e “editoras … não vendem papel, vendem livros

    Assim como os primeiros Tele-Jornais eram ‘Locutor de Rádio Televisionado’, até encontrarem sua linguagem própria, tudo irá encontrando seu nicho, nas novas mídias digitais

    São sempre equivocados os obituários do tipo:
    TechCrunch: Print is Dead
    Guardian: Photojournalism is Dead

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