Quinta-feira de cinzas

Um homem e uma mulher estão diante de um juiz. Ela quer a separação e a guarda da filha para poder ir embora do país, ao passo que ele acha que tudo – casamento, criança e país – está bem como está, e não vê razão para desfazer a família. O juiz concorda. Os dois voltam para casa, ela faz as malas e muda-se para a casa da mãe; ele contrata uma empregada para cuidar da casa e do pai que sofre de Alzheimer.

“A separação”, de Asghar Farhadi, é o melhor filme que vejo em muito tempo; na verdade, eu e, não digo a torcida do Flamengo, mas com certeza a sala bastante cheia do Estação Ipanema. O filme não é particularmente silencioso, mas o público estava tão atento que mal tinha coragem de desembrulhar as suas balinhas, num comportamento digno de Theatro Municipal, com “h” e tudo.

Tirando a roupa das mulheres e a questão religiosa, este iraniano bem que podia ser argentino. O ritmo é o mesmo dos maravilhosos portenhos que têm chegado às telas, o universo classe média também e, sobretudo, a qualidade das interpretações e da direção. Ali estão pessoas com as quais podemos nos identificar, da empregada que precisa desesperadamente do emprego ao casal em separação, gente com mais instrução do que dinheiro, levando uma vida sem luxos mas com certo grau de conforto. Até os azulejos do banheiro são familiares.

Para quem está acostumado aos “iranianos clássicos”, com seu anti-cinema ou suas vastas paisagens rurais, sua pobreza e violência extremas, é uma grata surpresa descobrir um cenário urbano com personagens que, como nós, têm seus problemas e dias ruins, e suas qualidades e defeitos, humanas que são.

Tenho a impressão que “A separação” vai ficar um bom tempo em cartaz, como aconteceu com “Um conto chinês” e acontece ainda agora com “Medianeras”, sobrevivendo valentemente no boca a boca. Ainda assim, pelo sim pelo não, não deixem para a última hora. A safra de cinema anda muito ruim para que a gente possa se dar ao luxo de perder uma obra-prima.

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Da última vez que escrevi sobre isso, disse que não tinha muita certeza se queria ou não assistir à versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”. Mas, com o carnaval aí e um tempinho sobrando, assisti. E não é que gostei muito?

Não gostei do livro. Também não gostei da versão sueca que, partindo do princípio de que todos haviam lido o romance, funcionava, única e exclusivamente, como um conjunto de figurinhas para um clube de iniciados. Detesto isso. Um filme, mesmo quando é baseado num livro, deve se sustentar sozinho, ou seja, deve ser compreendido mesmo por quem jamais tenha lido aquela história – porque, mais cedo ou mais tarde, haverá, na platéia, quem nunca tenha ouvido falar naquilo, por Harry Potter que seja.

(Na semana passada, alguém me perguntou, pelo Twitter, se eu conhecia alguma adaptação cinematográfica melhor do que o livro. Uma pergunta difícil – mas logo me lembrei de “Barry Lyndon”, do Kubrick, que consegue o milagre de incluir todos os parágrafos do livro de Thackeray no roteiro e de superá-lo como obra de arte, e de “Blade Runner”, de Ridley Scott, infinitamente melhor do que o conto de Philip K. Dick que lhe deu origem.)

Mas voltando a “Os homens que não amavam as mulheres”, versão 2.0: talvez pela necessidade compulsiva que os cineastas americanos têm de explicar tudo bem explicadinho, o filme de David Fincher é melhor cinema do que o de Niels Arden Oplev. Fincher não cede de todo à ânsia dos seus compatriotas, mas explica o suficiente para que quem não leu o livro de Stieg Larsson consiga acompanhar a trama; ao mesmo tempo, a edição traz tal suspense à tela que mesmo quem conhece a trilogia de cor e salteado corre o risco de roer as unhas.

A escalação de Rooney Mara, que rouba todas as cenas, foi outro grande acerto. Noomi Rapace, que faz Lisbeth Salander na versão sueca, também é ótima atriz e – até que se veja Rooney – a escolha ideal para o papel. Mas Rooney consegue dar à problemática Lisbeth um quê de fragilidade que não só lhe cai muito bem, como conquista o público a partir do primeiro take. A moça é candidata ao Oscar por puro mérito.

o O o

Também vi um pouco de carnaval durante a semana, que não sou de ferro. Entreguei-me aos carinhos da Devassa e fui feliz, mas tive lá meus momentos de desilusão. O primeiro foi com as famosas coelhinhas da Playboy, cuja van chegou ao camarote junto com a nossa: umas mocinhas bonitinhas, sim, mas em quem ninguém prestaria atenção, no sambódromo, se não usassem aquelas orelhas e rabos de pompom. Olá, Mr. Hefner Filho, estamos falando da maior concentração de mulheres bonitas por metro quadrado do planeta! Para não ir mais longe, ali mesmo, na Devassa, estavam a Juliana Paes e a Sheron Menezes… Coitadas das coelhas, devem ter voltado meio inseguras para casa.

Segunda desilusão: as fantasias da Imperatriz. Sim, eu sei que Rosa Magalhães já não está lá desde o outro carnaval, mas para quem se acostumou a ver o show de qualidade que a escola dava ano sim e outro também, ver as fantasias desse ano foi triste, muito triste. Não eram apenas feias. Eram mal acabadas, e desmanchavam no corpo das pessoas; fiquei aflita vendo componentes que mal conseguiam sambar porque precisavam segurar o esplendor, amarrar as capas, levantar as saias ou arrastar chinelas vários números menores do que o tamanho dos pés. Está no verbo: carnaval é para brincar, não para sofrer.

(O Globo, Segundo Caderno, 23.2.2012) 

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19 respostas em “Quinta-feira de cinzas

  1. Querida Cora: fiquei feliz de você ter visto o filme “Millenium- Os homens que não amavam as mulheres”. E mais feliz, por você ter gostado muito do filme.
    Em que pese às críticas desfavoráveis, o livro é interessante por apresentar um tema difícil de ser abordado, mas muito caro para as mulheres e para a sociedade em geral. Trata-se desse ódio velado que os homens têm das mulheres, o qual se revela na violência doméstica, dentro de casa, até na coisificação da mulher como mero instrumento do prazer.
    Mas esse ódio, embora tão antigo quanto o Velho Testamento – com suas inúmeras comparações da mulher com a traiçoeira, insidiosa serpente – é também presente hoje na sociedade moderna, quando se aliena a mulher da sua função como mãe em favor da sua inserção no mercado de trabalho.
    Dessa forma, esse ódio velado à mulher a atinge em dois pontos básicos: enquanto nova e com desejos sexuais acentuados, vira objeto da satisfação masculina; enquanto, madura, como mãe, ela se vê oprimida entre suas obrigações profissionais e os seus deveres como educadora por excelência dos filhos, cabendo-lhe precipuamente transmitir a eles desde o berço a sua herança cultural.
    A dupla desvalorização da mulher no plano pessoal tem conseqüências no plano social, à medida que na educação dos filhos se deixa de lado a vertente mais delicada, ligada à sensibilidade dos sentimentos e à gentileza dos gestos e se ressalta mais a vertente profissional, ligada às exigências do mercado de trabalho, em quem a fria racionalidade prevalece sobre as considerações dos sentimentos e das emoções. Torna-se a “Dama de Ferro”, que, com o tempo, se oxida e se esquece. Fica só a lembrança de uma mulher que se perdeu como mãe e esposa, embora pontificada como baronesa (numa alusão ao filme do mesmo nome).
    O que fica disso? O plano dos preconceitos, das idéias preconcebidas, que classificam os homens em pretos e brancos, em cristãos e judeus, em hetero e homossexuais, se sobreleva ao plano da dignidade da pessoa humana, independentemente da raça, do credo e do gênero. E disso sobrevém o que é denunciado no livro “Millenium”, a denúncia dessa posição da extrema direita que aguça ao extremo as classificações entre os seres humanos, fazendo crer que a raça ariana é superior a todas, que, como dito na Bíblia, os homens são intrinsecamente puros e que foram as mulheres que os induziram a comer a maçã proibida e por causa disso terem sido punidos com a expulsão do Paraíso.
    Neste enfoque, da extrema direita à extrema esquerda, do nazismo ao stalinismo – e essa é a denúncia do livro “Millenium” – vê-se nisso uma forma de ódio às mulheres, de acabar de vez com qualquer tipo de sentimento que inspire o amor e a compaixão, para fazer prevalecer ao máximo a racionalidade, a frieza que inspiram a luta pelo poder e pelo dinheiro.
    Nessa sociedade, o ódio às mulheres provoca a sua banalização e sua “morte” e foi isso que de algum jeito o escritor Stieg Larsson quis denunciar no seu livro, escrevendo sobre uma mulher, como tantas que existem, que resistem a serem meros objetos de prazer ou de violência nas mãos dos homens que absolutamente não as amam. Uma mulher, como Lisbeth Salander, brilhantemente representada no filme pela atriz Rooney Mara.

  2. Olá Cora!
    Se puder veja “A invençâo de Hugo Cabret”,que entrou
    na minha lista de melhores filmes vistos em 54 anos…
    “Marty” acertou em cheio meu coração!

  3. Medianeras é espetacular.
    O artista é divertidíssimo.
    A Separação é insuportavelmente chato.
    Se tivesse visto no cinema tinha ido embora. MInha mulher dormiu….
    E vemos TV numa sala de TV e não na cama, se fosse na cama não daria para 15 minutos.
    Fui até o IMDB e a média de avaliação é 8,6. Eu pensei: Não é possivel, isso é insuportável.
    Sendo assim, procurei para ver se tinha unzinho que não tenha gostado. Muitos não gostaram, mas um fez uma critica ótima:
    … Now that I have seen it, its really really boring. I can see why Iranians would like it as there probably is not a lot of quality films made there but man it was boring. By the end I didn’t even care what happened. I would have shut it off, but I kept thinking with a 8.6 it HAS to get better. It may be good in Iran, but in the US its really bad. I love a lot of foreign movies from City of god, to I saw the devil. But I wish I had my 2 hours back now. Th characters didn’t give me any feeling or emotion AND I have an 11 year old daughter like the main characters. I was glad when it ended and surprised and the 8.6. Very disappointing.
    O autor é este: brogers-924-757312 ( ???? )
    Nem sendo em HD deu para salvar…. Mas há gosto para tudo !

  4. “Separação” é uma pequena obra-prima, na categoria ‘Cinema Argentino’ de qualidade. Algumas observações que ajudam na apreciação:
    – a menina de 11 anos, é Sarina Fahadi, filha do diretor
    – a esposa é Leila Hatami, filha do prestigiado diretor Ali Hatami e da atriz Zari Khoshkam Hatami
    – primeiro filme a levar três ‘ursos’ em Berlin

    Quanto ao Millenium, continuo preferindo a versão sueca 🙂

        • Obrigada, Tomzinho, você é sempre muito carinhoso comigo. Aqui em casa usamos muito essa expressão “faltou inteligência” porque eu tive uma cliente japonesa, inteligentíssima, e sempre que era conveniente não entender alguma coisa ela dizia” Faltou inteligência, né, Dona Malise” e assim Chyokosan se safava de qualquer coisa 😉

  5. é, justamente essa a diferença de um bom carnavalesco para outro, mesmo criativo, mas sem técnica: o segundo cria fantasias que pesam, soltam, desamarram, apertam e desequilibram o pobre infeliz que resolveu sambar com elas; eu adorava sair na Avenida… bons tempos! 😉

  6. Acho que só eu não gostei da Separação. Achei, chaaato, sem graça.
    Do Artista gostei mais que tudo do cachorrinho, uma delícia!
    Do carnaval, confesso que esse ano não vi nada, vi mesmo foi muitos filmes e séries ;=)
    O fim de semana vai ser bom, com desfile das campeãs e Oscar!

    • O que eu mais gostei no Artista foi o cachorrinho! Devia ganhar o Oscar de melhor ator. O filme em si vai em cima de uma idéia que já foi explorada antes, e é uma coleção só de clichês. Achei assistível, mas longe de ser essa maravilha toda…

      • “O Artista” é um filme que tem tanto clichê, mas tanto, que se torna um filme ‘Pavloviano’: toca a sineta e a platéia saliva automaticamente…

    • Se não foi a única, certamente foi uma das poucas a não gostar.
      Não assisti O Artista. Pensei em aproveitar o carnaval para ver, mas optei por colocar a leitura em dia.

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