Música enlatada e passarinhos zangados

Sobre o que pode uma cronista de tecnologia escrever em pleno sábado de carnaval? Todo mundo está na rua brincando e se divertindo, curtindo a dolce vita dos blocos… Música, quem sabe? Pode ser uma, até porque, na época da batalha contra Sopa e Pipa, eu queria fazer uma observação sobre o assunto que acabou sem espaço dada a velocidade com que o congresso americano desistiu das suas malfadadas iniciativas.

Houve um tempo em que todos nós gravávamos música que tocava na rádio ou nas nossas vitrolas (assim se chamavam os players da época) para fazer fitas com as nossas favoritas. A circulação dessas fitas entre o meu grupo de amigos era grande, e nunca causou problemas a ninguém, nem à indústria fonográfica, nem aos gravadores das fitas. As produtoras de discos achavam, muito acertadamente, que quanto mais os seus produtos circulassem, mais conhecidos ficariam, e mais chances teriam de ser vendidos. Naquela época, aliás, a palavra pirata designava ou os bucaneiros que infestavam os mares nos tempos d’antanho, ou as fantasias neles inspiradas.

A coisa toda mudou quando o Napster nasceu, e permitiu aos seus usuários baixarem e trocarem música pela internet. Hoje os piratas são caçados como perigosíssimos malfeitores, embora sejam, em sua maioria, descendentes diretos dos meninos e meninas que gravavam fitas K-7. Em vez de fazer pesquisas que lhe permitam adaptar-se aos tempos e às novas tecnologias, a indústria prefere gastar montanhas de dinheiro fazendo lobby e patrocinando estudos suspeitos, que põem os seus prejuízos na casa dos milhões de dólares.

Esses estudos têm, embutida, uma grave falha que os desacredita: eles partem do princípio de que todo mundo que baixa uma música estaria disposto a comprá-la. Nada mais falso. Isso equivale a dizer que todo mundo que ouve uma música na rádio a compraria, ou que todo mundo que a ouve numa loja de CDs pagaria por isso.

Outro erro grave é por no mesmo saco quem baixa música por pura curiosidade, para consumo próprio, e quem baixa para revender o produto pirateado. Quem vende artigos roubados não é pirata; é ladrão, e como tal deve ser perseguido, julgado e condenado.

o O o

Nesses tempos de retorno ao cinema mudo, com “O artista” arrebanhando prêmios onde quer que passe, não deixa de ser curioso constatar como a primeira atitude das corporações é se porem contra toda e qualquer inovação tecnológica. Quando o cinema falado chegou às telas, a American Federation of Musicians pegou em armas figurativas contra a nova novidade. Criou uma Liga de Defesa da Música, e inundou jornais e revistas com uma agressiva campanha publicitária contra a música gravada. Segundo o site da revista do Smithsonian, a Liga gastou mais de U$ 500 mil em publicidade, pedindo ao público que exigisse música ao vivo nos teatros e nos cinemas. O vilão da campanha era um robô mal-encarado que, com o tempo, substituiria todos os músicos humanos.

Assim como a batalha da MPAA contra o vídeo-cassete, esta também fracassou. Os pianeiros e as pequenas orquestras que tocavam nos cinemas acabaram, de fato, mas a indústria da “música enlatada” abriu um mercado gigantesco para os músicos, que tanto haviam reclamado…

o O o

Na edição passada do “Sunday Times”, Matt Rudd escreveu uma ótima matéria sobre o Angry Birds. Alguns números chamam a atenção:

— O game já foi baixado 600 milhões de vezes pelo mundo afora;

— A Inglaterra é recordista européia: seus 63 milhões de habitantes baixaram o jogo 30 milhões de vezes;

— Só no dia de Natal, foram 6.5 milhões de downloads;

— Um estudo americano feito com mil jogadores revelou que 55% se sentem mais relaxados depois de jogar;

— No total, 266 bilhões de fases foram completadas, e 400 bilhões de passarinhos zangados atirados contra porcos;

— Angry Birds é o jogo número um no iTunes em 79 países;

— 12% das pessoas que o jogaram 25 vezes ou mais apagaram o Angry Birds das suas máquinas para não perder mais tempo jogando.

 (O Globo, Economia, 18.2.2012)

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2 respostas em “Música enlatada e passarinhos zangados

  1. Mas o pior de tudo é que, no final das contas, tinham razão nas charges e no prognóstico:
    o que se escuta de ‘música robótica’ hoje em dia… 🙂

  2. Não me importa se baixar música é ou não pirataria. Existem uns sites que ainda funcionam para esse fim. Imagine comprar um CD ou DVD por causa de uma só música. Seria um desperdício absurdo. Baixo todas que posso, verifico com o antivírus e equalizo todas. Quando quero, ouço. Se quiser ouvir o tempo inteiro a mesma música (fato que ocorre muito comigo), ouço sem trabalho e sem problema algum.
    Quando a internet era com linha discada, levei aproximadamente 8 horas(!) pra baixar uma música do Luciano Pavarotti. Nunca vou me esquecer disso. Mas valeu a pena.

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