Filmes de papel

É possível que eu só não tenha reparado antes, mas há tempos não via tantos filmes em cartaz nos cinemas fazendo sucesso, simultaneamente, nas livrarias: “Precisamos falar sobre Kevin” e “A resposta” (Histórias cruzadas) ganharam novas edições com capas que remetem aos cartazes dos respectivos filmes, ao passo que “Compramos um zoológico” e “Os descendentes” já chegaram ao Brasil à luz da sua boa estrela hollywoodiana. Ainda não assisti a nenhum dos filmes, mas gostei dos livros, mesmo quando deixam a desejar – caso nítido de “Kevin”. Os quatro, juntos ou separados, fazem um kit perfeito para quem quer sumir do mundo durante o carnaval.

(Não, não me esqueci da nova versão de “Os homens que não amavam as mulheres”, da trilogia Millennium – mas este, para mim, é um caso complicado, porque acho que sou a única pessoa no mundo que não gostou dos livros e, menos ainda, da sua versão cinematográfica sueca. Ainda não tenho certeza se quero ver a versão americana.)

A relação entre filmes que nascem de livros e os livros que lhes dão origem são sempre delicadas. Os leitores que se tornam espectadores vão ao cinema para conferir como foi contada a história que já conhecem; os espectadores que se transformam em leitores se apegam aos livros para passar mais tempo na companhia de um filme que os encantou, e costumam reagir mal às diferenças entre o que está nas telas e o que está nas páginas. Leitores habituais tendem a gostar mais dos livros do que dos filmes, o que talvez se explique pelo ritmo e pelas características que a nossa imaginação confere à história escrita: ao ler um livro somos co-autores da trama, dando forma a ambientes e personagens. Se o escritor menciona uma garrafa azul, por exemplo, existirão tantas garrafas azuis diferentes quanto leitores, ao passo que no cinema veremos, todos, a mesmíssima garrafa.

Meu livro favorito da atual leva cinematográfica é “A resposta”, título brasileiro para “The help”, que chegou às telas como “Histórias cruzadas” (Bertrand Brasil, tradução de Caroline Chang). Por atrapalhada que seja essa quantidade de títulos, ninguém precisa se preocupar: a editora percebeu a confusão potencial que tinha em mãos e deu um jeitinho de por todos eles na capa. Comecei a lê-lo em inglês, no Kindle; depois me lembrei que tinha a edição brasileira e fui atrás do livro “de verdade”. No livro-livro, tenho a exata noção de quanto falta para acabar a leitura, posso dar rasantes nos capítulos à frente e até uma lida em diagonal nas últimas páginas. Esse vaivém é muito chato, quando não impossível, num ebook. Mas “A resposta” é uma armadilha perigosa para um tradutor. Kathryn Stockett reproduz o dialeto dos negros do Sul dos Estados Unidos quando a história é contada pelas empregadas Aibileen e Minny. Caroline Chang, a tradutora, teve o bom senso de evitar linguagens diferenciadas, que soariam ridiculamente artificiais em português; o resultado é que, tendo pulado para a versão brasileira, não senti mais nenhuma saudade do original, e deixei o Kindle de lado.

A história, vocês sabem, gira em torno de uma moça branca recém-saída da faculdade que, em pleno Mississipi dos anos 60, resolve escrever um livro dando voz às empregadas negras da sua cidade, tratadas como seres inferiores pelas patroas brancas. Apesar de certo maniqueísmo – as negras são invariavelmente sábias e batalhadoras, as brancas inúteis e sem noção, quase caricaturais — o livro é ágil, bem escrito, ótimo de ler. Agora estou louca para ver o filme.

“Precisamos falar sobre o Kevin”, de Lionel Shriver (Intrínseca, tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro), é, dos nossos quatro livros de cinema, o mais pretensioso – o que faz dele, igualmente, o mais irritante. Eva, mãe de Kevin, um adolescente sociopata que promoveu uma carnificina na escola, relembra a sua relação com o filho numa série de cartas para o ex-marido. O truque é fraudulento porque alguém que acompanhou aquela relação não precisa da maior parte das informações recebidas, que se destinam, de fato, ao respeitável público. Ao mesmo tempo, o que poderia ser um interessante questionamento sobre a falta de amor entre pais e filhos se perde por causa da mão pesada de Shriver, que pinta Kevin como um monstro desde bebezinho. Ainda assim, o livro é altamente legível, sobretudo para quem gosta de uma boa dose de horror: devorei suas 463 páginas em dois dias, mas confesso que não tenho nenhuma vontade de ver o filme.

 “Compramos um zoológico”, de Benjamin Mee (Objetiva, tradução de Angela Pessôa) e “Os descendentes”, de Kaui Hart Hemmings (Alfaguara, tradução de Cássio de Arantes Leite) têm, curiosamente, um ponto em comum: os dois são narrados por homens que perdem as esposas no decorrer da ação. Tirando isso, não podiam ser mais diferentes, até porque “Compramos um zoológico” é autobiográfico, ao passo que “Os descendentes” é ficção – o que, de quebra, serve para provar que a vida real tem, por vezes, enredos mais interessantes do que o mundo da fantasia. Se você gosta de histórias de bichos e de humor britânico, não pense duas vezes, e compre este zoológico para aproveitar o feriado. Já “Os descendentes” é um romance competente que tem, pelo que fiquei sabendo, uma grande vantagem sobre o filme: não tem trilha sonora.

(O Globo, Segundo Caderno, 16.2.2012)

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29 respostas em “Filmes de papel

  1. Cora,
    A chave para saber-se se é possível transpor bem um livro para um filme, duas artes narrativas distintas mas com mais afinidades, acho eu que repousa no tamanho do livro e na qualidade deste. Se o livro é grande e bom (uma catedral), é impossível, a menos que se faça como Fassbinder em Berlin Alexanderplatz com 14 horas de duração e orçamento (além de talento, é claro) ao seu dispor. Tem-se que cortar muito do livro grande bom para caber em duas horas, duas horas e meia de filme; e a catedral desaba. Se o livro é curto e bom (conto=short story = novella = nouvelles), uma capelinha, pode ser expandido, recheado, engrossado no caldo e nos personagens e ficar ótimo em uma hora e meia, igual ou melhor que o livro. Isto também é válido para livros ruins ou pelo menos medíocres (como todos que Hitchcock usou; ou como o Mephisto, de Klaus Mann, por exemplo), em que há muito o que cortar, resumir e condensar, tornando a narrativa originária bem melhor. E, com todas as dificuldades de técnicas e de linguagem (por exemplo, discurso interior dos personagens só como narração “em off” que é um recurso geralmente péssimo), e sempre lembrando que é preciso ter talento e meios para filmar, em apertada síntese, como vejo o problema e, despretensiosamente, explico essa questão de livros bons/filmes ruins/livros ruins/filmes bons/livros bons/filmes bons.

  2. Gostei muito do 1° livro da triologia Millennium. Pouco do segundo e nada do terceiro. Muito Indiana Jones pro meu gosto.

    • Ô… Fernando Henrique,

      Você me “obrigou” a assistir a todos os comerciais e matar a saudade dos bons tempos. Gosto muito da Faber-Castell, com a música do Toquinho, a Aquarela. O comercial da Valisère, do Washington Olivetto, é maravilhoso e ganhou muitos prêmios. E merecidos. Revivi uma parte da minha vida, claro. Vou fuçar para ver se encontro um comercial dos Biscoitos São Luiz (sim, com Z). Quando ele apareceu, meu irmão deveria ter uns 4 ou 5 anos, era o início da TV, e o biscoito patrocinava uma sessão infantil na ainda TV-Paulista (que logo seria TV Globo). Essa sessão chamava-se Zás-Trás. Pois meu irmão assistia à sessão inteirinha e era obrigatório que ele tivesse ao lado uma lata ENORME (se não me engano, uns 4 ou 5 quilos) do biscoitos. Até hoje, ele com mais de 50 anos, devora biscoitos. Veja só o que um comercial faz…
      Muito obrigada por reviver um pedaço de minha vida que ficou algures…

  3. Oie,
    Também comento:
    1 – O filme original é igual a este novo. A diferença é no final, que neste novo dá uma certa melancolia, mas tudo o mais está lá: A garota tatuada, o tarado, os malucos, etc… Mas o final é um pouco diferente. Há coisas interessantes: O filme é americano, os atores também ( o espetacular Christopher Plummer, brilhante como sempre ) mas os jornais são suecos, os nomes das personagens em sueco. ( personagem, sendo homem ou mulher é sempre A personagem ). A atriz é ultra feminina. No filme original ela é quase um garoto, com costas largas e cara de homem.
    2 – O titulo do filme, e do livro, já vale o ingresso: Precisamos falar ( ou conversar ) sobre o Kevin é brilhante. E o garotinho é insuportável desde nascença. Minha mulher achou que se ele fosse amado desde o primeiro minuto, tudo seria diferente, etc… Papo de mãe. O garoto é um monstrinho e pronto.
    3 – A trilha sonora dos descendentes é ótima. É um tour pela musica havaina. Adorei !

    • o original NÃO é igual a este novo. Reveja (BluRay e DVD nacionais)

      Salander (que não carece ser ‘ultra-feminina’) está o tempo todo dentro do computador do jornalista; é ela quem decifra as citações bíblicas (apenas compreensíveis dentro da cultura sueca e quando freezei na tela o e-mail que Salander envia ao jornalista); não é preciso levar Starbucks ao apartamento de Salander. E inúmeros outros detalhes fundamentais…

      • É tudo a mesma coisa, menos o final.
        Quem viu o primeiro, muito melhor, nem perca tempo vendo o segundo…..
        A graça ( para os hetero ) é esta nova Salander que é uma grande gracinha !
        By the way, este gordinho havaiano canta muito ! Gostei da dica, já baixei um monte de musicas !

        • seria o equivalente à u’a moça escrever:
          A graça (para as hetero) é este novo Sherlock Holmes, ultra-masculino, com ‘tanquinho’, ‘action-man’ e sedutor!

          E estaria igualmente equivocada, em relação ao personagem… 😉

    • Não é que eu não acredite na maldade humana, Leila; acredito até demais. Mas acho que o debate literário ganharia força se Kevin não fosse totalmente monstruoso, e se a mãe pudesse gostar de ao menos alguma coisa nele.

      • Bom não li. Mas imagino que deve ser terrível e difícil aceitar que você botou no mundo uma criatura sangue ruim. A mãe do jeffrey dahmer o abandonou. ontem protetoras cuidavam de uma pitbull que conseguiram salvar de um louco que estuprava as duas pits que tinha. a que não resistiu, morreu, ele cozinhou e comeu. isso não é gente. se quiser apagar pq é mto horrível…

      • no filme (não sei como isso passa no livro), é quase um ‘detalhe de rodapé’, mas fica implícito que a mãe, consciente ou inconscientemente, culpa o primogênito por ter ‘estragado’ sua vida, de globe-trotter e aventureira, ‘condenando-a’ à domesticidade que lhe é detestável.

        No fundo, ela odeia aquela criança, que incorpora todas suas frustrações.

        Acrescente à esta receita um rebento de bad seed…

        Por isso, escrevi que são TODOS monstros na tela…

  4. Bom, não sei se lerei esses livros, pois a pilha no meu criado-mudo já tem um bom tamanho. Mas, no Carnaval eu aproveito que São Paulo fica vazia e me enfio no cinema.
    Até agora me decidi por 2 filmes: O Artista e As Aventuras de Tim-Tim (este para encerrar o ciclo carnavalesco com algo leve).
    Outro que quero ver é A Música Segundo Tom Jobim, e acho bom aproveitar pois só está em 2 salas 😦
    O que resta (um filme por dia) ficará para ser decidido entre Histórias Cruzadas e Os descendentes – este último por causa do Clooney é claro – mode fan on.

  5. Concordo com as observações de Marise Caetano, embora não tenha lido nenhum dos livros, vi todos os filmes. Imperdíveis são o filme sobre o Kevin, com uma Tilda magistral e uma história arrepiante; o Millenium, desconcertante, soberbas atuações de quase todos, sobretudo da Rooney, amei tudo no filme; Os descendentes, que não achei a melhor atuação do Clooney, sequer digna de Oscar, mas o filme é bom de ver, nem raparei que a trilha sonora era ruim, mas a paisagem é linda e mostra aspectos outros do Havaí de cinema, além, claro, do belo e (apenas) bom Clooney.
    Abraço,
    Clara

  6. Cora tocou rapidamente num assunto que eu acho que deveria ser melhor explorado: o relançamento dos livros com “capa do filme”. Em muitos casos, depois que é feito um filme a partir do livro, ele nunca mais volta a ter a capa original, o que na minha opinião é quase uma deturpação da obra. Isso aconteceu por ex. com “Meu nome não é Johnny” (cuja capa original era ótima) e com “O guia do mochileiro da galáxia” (que faz parte de uma série onde os volumes tinham todos capas parecidas)

  7. Vamos lá. Li The Help no kindle e morri de pena quando o livro acabou, o que também aconteceu com minha irmã. A trilogia Millenium assisti de enfiada no ano passado, por conta de um amigo sueco de minha irmã – sempre ela 😉 e gostei muito. A cópia americana me pareceu desnecessária, não fosse a boa vitrine que foi para a Rooney Mara.
    Não li o livro do Kevin, mas acho que você deveria ver o filme. Os atores que fazem tanto o Kevin pequeno quanto o adolescente são brilhantes e a Tilda Swinton sempre me intriga.
    Os Descendentes já seria um must pela simples presença do Clooney, que como o Sean Connery, está melhorando com o passar dos anos. A jovem atriz que faz a filha também é uma bela revelação e, ao contrário da maioria, adorei a trilha sonora de ukuleles! Devo ter um parafuso a menos 😉

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