A crônica que veio do frio

Nada como o gelo para esquentar a memória. A coluna da semana passada, que passeou por congeladores e tijolos de sorvete, trouxe à tona uma quantidade de lembranças divertidas, junto com a correção de dois erros cometidos pela vossa desmemoriada cronista: o tijolo carioca não era xadrezinho, e também não era de creme e chocolate, mas de nata e chocolate. O pior é que, por mais que tente, não consigo me lembrar deste sorvete de nata, que deixou muitas saudades. Também não consigo me lembrar do bolo de sorvete, que marcou a infância do Salomão Gerecht:

“A Kibon tinha um bolo de sorvete, se não me engano de creme com frutas cristalizadas, que era entregue em casa, sob encomenda, numa caixa de papelão envolta em gelo seco, o que era uma festa à parte para a criançada. A caixa e o gelo eram importantes na conservação do bolo até a hora da festa, pois é lógico que ele não cabia nos congeladores da época.”

Patrícia M.M. faz coro: “Na minha cidade tinha um depósito da Kibon, onde se vendiam bolos de sorvete. Enfeitados com um tipo de glacê azul, lindo e gostoso. Todo aniversário de criança em casa, minha mãe encomendava o tal bolo. Inesquecível!”

Simone Lazzarini é outra que se lembra do gelo seco que todos amavamos: “Meu pai trabalhava na distribuidora da Kibon e vez por outra levava um bloquinho de gelo seco para casa para eu brincar. Eu achava o máximo toda aquela fumaça branca saindo do copo! Havia também os “festivais de sorvete”, eventos onde se pagava uma entrada fixa e tomava-se tanto sorvete quanto a barriga aguentasse.”

“Quem se lembra do sundae Brasília, lançado para comemorar a inauguração da nova capital?” pergunta Vicky Bogossian Bertrand. “Durou pouquíssimo tempo. Tinha calda de laranja. Era maior do que o sundae carioca. E o Já-já de côco? A Kibon ainda tem um picolé de côco, mas nada a ver com o Já-já… E o picolé de doce de leite, o Ki-crocante, os pirulitos de morango, limão e chocolate?”

Pois Christina Schwob se lembra: “Recordar a enorme geladeira verde (pintada por mamãe, naturalmente!) me fez pensar como nossas vidas eram mais simples, mas não menos felizes. Adorei me lembrar dos produtos Kibon. Tinha especial preferência pelo pirulito de chocolate e pelo copinho de creme com laranja, que maravilha! Quanto às barras de gelo, quando passavam na minha rua, era sinal de que haveria festa em alguma casa.”

Minha memória falha novamente em relação ao sorvete de creme com laranja, mas comparece com tudo diante do pirulito de chocolate, do qual havia me esquecido, ingrata que sou. E Claudete Liberalli se lembra bem do gelo: “As barras de gelo eram quebradas com soquetes de cozinha ou martelos, e as pedras eram enormes e irregulares. Sem falar nas formas de metal, que colavam nos dedos, e era um Deus nos acuda, correndo para a torneira para desgarrar os dedinhos!”

Já Luiz Roberto Pereira tem uma lembrança que não tem preço: “Eu visitei uma fábrica da Kibon pela escola, ainda na época em que se embrulhavam os picolés manualmente, as moças sentadas enfileiradas e os picolés chegando numa esteira refrigerada. Vi a máquina que embalava automaticamente, mas o negócio ainda não funcionava muito bem. Lembro especialmente de um chocolate chamado Lingote. A embalagem, e o formato do chocolate, lembravam um lingote de ouro.“

A Leila é outra felizarda que visitou a fábrica: “As crianças podiam comer o quanto aguentassem de sorvete, totalmente grátis. Fui duas vezes na vida. Numa delas, na entrada da fábrica de sorvete, tinha uma montanha de abacaxis muito, muito grande.” E a Hetie foi mais longe: ela trabalhou lá! “Entrei na Kibon quando o marketing ainda era na fábrica. O ar era delicioso. Vocês não podem imaginar o que é tomar sorvete que foi acabado de ser preparado!”

Mas a melhor história da fábrica de sorvetes quem mandou foi a Lilly – que, por acaso, nunca esteve lá: “Há uns dois ou três anos, minha sobrinha me ofereceu um sorvete do qual eu nunca tinha ouvido falar. Achei a embalagem estranha, porém muito bonita. Experimentei e adorei! Parecia mousse de chocolate com alguma coisa que não sei dizer o que era. Nunca provei coisa melhor… Quis saber a razão dessa dádiva e soube: a cunhada dela trabalhava na Kibon, que estava tentando lançar um novo sorvete com tudo diferente, do sabor à embalagem. Aí veio o “drama”: houve alguma encrenca com a embalagem, e o sorvete foi todo distribuído internamente. A tal maravilha não podia ser comercializada! Minha frustração foi imensa, pois sou apaixonada por chocolate e o sabor desse era mesmo especial.”

E, por falar em sabor, houve quem reclamasse comigo por discriminar o sorvete de morango do tijolo Napolitano, mas eu não era a única. Meu amigo @cardoso até hoje não fez as pazes com esse três-em-um: “Nossa, como eu abomino o Napolitano, parece um sorvete criado por um comitê!” Isaura Maria Lago também se lembra do “problema” do Napolitano: “Realmente, era complicada a logística de distribuição dos sabores dos tijolos. O morango sempre sobrava, coitado…” E a Mirtes Guimarães também tem lembranças parecidas, “inclusive a do tijolo Napolitano, todo desconjuntado”.

Sorvete de morango à parte, muitas outras delícias foram rememoradas nas sessões nostalgia que rolaram no blog, no Facebook e na minha mailbox, das raspadinhas ao inigualável sorvete com cobertura de chocolate do Zero, passando pelo Sustincau e pelo Ki-coisa: remexer nesse baú dá panos para as mangas.

(O Globo, Segundo Caderno, 9.2.2012)

 

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21 respostas em “A crônica que veio do frio

  1. Adorei seu texto. Voltei à minha velha infância na década de 50, em Cuiabá, Mato Grosso, com poucos recursos e sem sorvetes de griffe. Mas naquele calorão de fritar ovo em calçada tinha os picolés do “Seu” Magalhães, artesanais, coloridos e motivos de festa para a criançada. Inesquecíveis! Afinal, picolé só em ocasiões especiais, pois ainda tinha que convencer minha mãe de que não faria mal para minha asma. Ah, Monica, ainda pequena também operei amigdalas,mas alegria máxima: ganhei um sorvetão!

  2. Depois de ler essa saborosa cronica, acrescento que por alguns momentos revivi minha infância no Rio de Janeiro. Meu pai trabalhava na Kibon e foi em sua homenagem o nome do picolé de cocô ja ja, pois era assim que ele era chamado pelos meus primos, quando visitávamos a fábrica e tomávamos sorvetes a vontade. O tio JaJa era no imaginário infantil o “dono” de tudo!! Que saudade da vida que era mais doce e gelada, nos dias quentes de uma infância perdida.

  3. O tal gelo seco não podia faltar nas peças de fim de ano que nós professoras montavamos para os alunos. Como o elenco era formado por um bando de mulheres, a peça era sempre A Bruxinha que era Boa e no fundo dos caldeirões lá estava o gelo seco molhado (comprado no depósito da Vol.da Pátria em Botafogo) fazendo fumaça e deixando as crianças enlouquecidas. Sou uma sortuda pq como aluna e depois como professora visitei com meus alunos a fábrica da Kibon muitas vezes. Era maravilhoso! Vc não acha que o cartaz antigo dos produtos está com a cor errada. Acho que o certo é azul escuro onde está em preto.

  4. Presentemente não sou um grande apreciador de sorvete. Contudo, recordo com saudade o sabor delicioso das “casquinhas” servidas pelo sorveteiro que fazia ponto em frente ao Castelo do Queijo, na minha cidade. Nesse tempo, na minha terra, isso ainda se chamava de “sorvete”…

  5. lembro que, quando pequena, diziam que operar as amigdalas não era de todo ruim pois se ganhavam taças de sorvete!!!
    passei anos da minha criancice me lamentando pois, quando operei as amigdalas, não pude tomar as famosas taças de sorvete.
    fiz a cirurgia em estado febril – o médico proibiu os famosos sorvetinhos de hospital…rsrsrs
    ai, ai…se todos os problemas fossem taças de sorvete…rsrrs

  6. Eu já sou a que mistura o morango com o chocolate e vou deixando o crme pelo meio, torcendo para que aluem o tire do caminho, risos.

    Mas sinto falta do sorvete de flocos que só existe na minga lembrança, meio derretido, com tantos flocos esperando no fundo da taça.

  7. Pois eu sempre preferi as partes de morango e nata do napolitano. Até hoje acho a parte de chocolate uó. A única forma de come-la é fazendo um “mexidão” das 3 partes juntas! NHam Nham!

  8. Pois é, Cora. Como estou correndo muito, com meu trabalho um pouco atrasado, nem perguntei pra minha sobrinha o nome do tal maravilhoso. Como disse num desses dias pro Tom, que eu havia comprado um sorvete de chocolate só que da… Nestlé, acabei com o pote agora pouco, pois em Sampa está um calor infernal. Aliás, nada gelado melhora o calor. Temos de não tomar gelado, pelo princípio da homeopatia: “curantis curantur”.
    Estive muitas vezes na porta da Kibon, em Sampa, no Brooklin (bem perto de casa), porém jamais entrei. Mas com um amigo, diretor da companhia, consegui há muitos anos, um freezer para doar para um orfanato que ficava em Embu-Guaçu, do qual eu e amigos cuidávamos.
    Ah… lembrei-me agora que a Kibon – nessa unidade citada – distribuía sorvete para a vizinhança. Mas quis o destino que eu morasse há uns 3 quilômetros dela…

  9. Hmmmmmmmmm… que delícia de crônica… fui até pegar um sorvete de flocos que estava no freezer para ler saboreando o sorvete… que nem sei de onde é, mas era de flocos e bem gostoso…
    Nunca fui à fábrica da Kibon, mas morria de vontade de ir…

  10. Eu também visitei a fábrica da Kibon, com a escola primária, e lembro desta esteira que o Luiz Roberto cita, e dos Chica-bons desfilando, inacreditavelmente duros (era um sorvete que derretia rápido) e intermináveis. Mas, ninguém comentou que o melhor da visita era poder tomar um sunday e quantos picolés a criança desejasse. E aguentasse 🙂 Foi uma delícia poder trocar, com voces, estas memórias. Parabéns- com bolo de sorvete!- pelo texto, Cora.

  11. E reitero (ô palavrinha feia) o q disse sobre os picolés de quindim e de manjar branco com ameixas. Ninguém lembrou, ninguém comprou (só eu , pelo jeito) . Em compensação, da sua crônica, todos avivaram lembranças, todos gostaram . Bisou , Cora.

      • Tom, obrigadíssima pela explicação, mas não consegui postar o avatar. Não quero q abra direto na page do Face, não me lembro como me registrei nesse com símbolo da Wolks, enfim, não rolou. Mas vc foi uma amor explicando, a culpa é minha por não saber. 😉

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