O Google, a EFF e a privacidade

Na semana passada, os usuários do Gmail receberam um email do Google com a nova política de privacidade da empresa, que entra em vigor no próximo mês de março. A medida foi interpretada como um sinal positivo, e amplamente elogiada na rede, embora, de acordo com o teor do email, pouca coisa tenha de fato mudado nos termos do documento:

“Nosso objetivo é fornecer a você o máximo de transparência e de escolha possível, por meio de produtos como Google Dashboard e gerenciador de preferências de anúncios entre outras ferramentas”, dizia o email. “Nossos princípios de privacidade permanecem os mesmos.”

Para descobrir eventuais mudanças, só mesmo clicando no link que levava ao FAQ – coisa que pouquíssima gente deve ter feito. Mas, mesmo lá, a informação não dizia muita coisa:

“O que há de novidade na nova Política de Privacidade? Primeiro, reelaboramos a principal Política de Privacidade do Google do começo ao fim para torná-la mais simples e mais fácil de ler. A nova política substitui os mais de 60 documentos de privacidade específicos de cada produto já existentes. Tudo isso deve facilitar seu conhecimento sobre os dados que coletamos e como eles são usados.

Segundo, a nova política reflete nossos esforços para criar uma experiência de usuário do Google maravilhosamente simples e intuitiva. Ela esclarece que, se você tiver uma Conta do Google e estiver conectado a ela, podemos combinar informações fornecidas por você a um serviço com informações provenientes de outros serviços. Em resumo, podemos tratar você como um usuário único em todos nossos produtos.”

Conseguiram entender alguma coisa? Pois ninguém conseguiu – e oito membros do congresso norte-americano escreveram uma carta ao Google pedindo informações mais claras. A resposta foi postada no último dia 30, e ganhou manchete no site da Electronic Frontier Foundation, entidade que vive de sobreaviso em relação aos direitos dos cidadãos no ciberespaço.

Há uma mudança relativamente importante na história. Até aqui, o Google tratava os dados que coletava a respeito dos seus usuários de forma estanque em cada um dos seus produtos. Em outras palavras, informações sobre as buscas que alguém realiza no Google não iam adiante na cadeia da casa, e não alimentavam, digamos, as indicações oferecidas pelo Google+. A partir de março, essas categorias estanques deixam de existir. Se você habitualmente faz pesquisas sobre felinos, a partir de março, quando entrar no YouTube, receberá indicações de videos de gatos.

Aquilo que o pessoal gosta de chamar de “experiência de usuário” poderá ficar melhor, mas a EFF preocupa-se com o uso de informações coletadas durante buscas. Isso porque, evidentemente, as pesquisas que alguém faz na rede podem revelar muito sobre este alguém, da sua localização física no mundo à sua saúde ou mesmo orientação sexual.

Não fica claro, no site da EFF, em que a mistura de dados entre um serviço e outro pode prejudicar o cidadão. Acho que ninguém tem uma percepção realmente clara disso. A recomendação da EFF para pessoas que queiram manter as suas atividades separadas nos vários serviços Google é a criação de diferentes contas para diferentes usos – o que, é lógico, significa muito trabalho para um resultado discutível.

Pessoalmente, acho isso um exagero; afinal, todos estamos cansados de saber que, nos nossos tempos orwellianos, manter a privacidade intacta é uma tarefa virtualmente impossível — a menos para quem vive no planeta Terra, convive com outros humanos e se conecta à internet.

(O Globo, Economia, 4.2.2012)

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6 respostas em “O Google, a EFF e a privacidade

  1. Informação nunca é demais. Eu (também) tendo a ignorar essas coisas e não lê-las, até por falta de tempo e subsequente desinteresse.
    Obrigado, Cora, por alertas e explicações!

  2. O melhor tutorial sobre como minimizar sua exposição ao Google foi da Wired:

    Hide From Google

    de onde destaco o ‘Multi-Browser Surfing’ (como diz o ditado: “a mão direita ignora o quê faz a mão esquerda“) 😉

  3. Eu sempre considerei a expressão “privacidade na rede” uma contradição em termos e só coloco on-line aquilo que se presta à construção de uma persona pública engraçadinha.. Mesmo em “arquivos ocultos”. Mas, graças ao ItauCultural, minha idade, infelizmente, faz parte do domínio público. 😀
    E, se o Google pretende “acertar” nas minhas preferências, através das buscas, para construir um perfil, da mesma forma como acerta nos links que oferece no GMail, só vejo motivo para riso.
    Na verdade, mesmo tendo certos cuidados, como falei no início, acho muita pretensão e fantasia “invadir a privacidade” de alguém a partir do modo como este ser se apresenta, e comporta, on-line. Estamos longe da sofisticação da teletela- felizmente.
    Há os que convivem com outro ser humano, por anos, sem atinar com aquilo que, verdadeiramente, lhe vai no íntimo. Que o digam os da área “psi”. E os padres, no confessionário. E, as mulheres traidas.
    “Much ado about nothing”

  4. concordo com você, menina: muita especulação e muito exagero para pouca novidade.

    nada mais racional do que tratar o dono de uma conta como um mesmo usuário para todos os produtos, do ponto-de-vista do Google, claro.

    quanto aos neuróticos, que vêem em tudo a possibilidade de invasão de sua intimidade para fins menos nobres, nada mais assustador do que – de repente – ter uma só personalidade na rede e – pior – suspeitar que alguém no Google esteja muito preocupado com isso e prestando total atenção aos movimentos dessa tal personalidade na rede.

    enfim, cada um sabe o quanto tem a esconder, e são esses os que se alarmam a qualquer mínima alteração num sistema.

    eu, que sou daqueles normaizinhos, e adoraria que não somente o Google, mas também todas as outras empresas ficassem mais inteligentes e fossem capazes de me respeitar como indivíduo, gostei da ideia – vamos ver se eles sabem mesmo fazer isso direito.

    odeio quando ligo, por exemplo, para a Telefônica e, a cada novo atendente que fala comigo, tenho de engolir o desgosto de ser tratado como um completo desconhecido, um indigente que estaria ligando pela primeira vez, obrigado a apresentar-se novamente e a contar toda a história de relacionamento com a empresa.

  5. Se você que é craque e bamba não entendeu direito o que o Google pode estar aprontando com nossa privacidade, imagine nós, leigos leitores – mas interessados ::)
    Concordo que na rede tudo é público, por isso evito colocar fotos e usar meu nome, mas isso já está dançando também.
    beijo, vera (é meu nome mesmo 🙂

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