A saga do mini Steve Jobs

Não sei se vocês se lembram: no começo do ano, uma empresa chinesa anunciou, para fevereiro, a venda de um bonequinho do Steve Jobs. A notícia ganhou destaque em todos os cadernos e blogs de tecnologia – junto com a informação de que os advogados da Apple já estavam de orelha em pé, prontos para fulminar o projeto.

Como todo mundo da área, eu também fui ao site dos chineses, e fiquei encantada com o bonequinho de 30 centímetros de altura, parecidíssimo com Steve Jobs e com uma série de acessórios irresistíveis: óculos sem aro, jeans, camisa preta, tênis, duas maçãs (uma delas mordida), banqueta e três pares de mãos em diferentes movimentos. O preço? US$ 99, mais U$ 20 de transporte.

De início, a minha curiosidade era apenas jornalística. Eu queria ver se o tal bonequinho, que estava dando tanto o que falar, merecia aquela onda toda. Mas, tendo visto como era bonitinho e bem-feito, fiquei muito tentada a comprar um para mim. As informações do site da In Icons – empresa que o fabricaria – eram absolutamente precárias. Não havia um endereço físico, não havia o anúncio de nenhum outro produto que não fosse o mini Steve Jobs, não havia contato para dirigir email a quem quer que fosse. O próprio bonequinho estava cercado de mistério, porque as fotos, segundo o pequeno texto de apresentação, eram de um protótipo; o produto final poderia variar em cor e em aparência.

Procurei informações sobre a In Icons, e tudo o que o Google me retornou foram mais notícias sobre aquele lançamento. Evidentemente a In Icons havia acabado de ser criada, e nunca havia feito coisa alguma. Por tudo o que consegui (não) apurar, o seu site podia ser uma página de fantasia, feita para esfolar geeks incautos. Decidi esquecer o Steve Jobszinho.

Mais tarde, porém, me peguei pensando nele novamente, e no pouco, de fato, que sabemos sobre os sites que visitamos. Há dois anos, comprei duas pequenas capivaras de plástico num site japonês. Não tive a menor desconfiança do site porque ele oferecia mil outros brinquedos e modelos, e porque trazia um endereço “de verdade” em algum lugar do Japão. Mas, pensando bem, quem poderia me garantir que aquele endereço de fato existia? Ou que todos os brinquedinhos anunciados eram reais e chegariam mesmo ao seu destino? Salto no desconhecido por salto no desconhecido, a In Icon e o site japonês se equivaliam.

(As capivaras viajaram durante seis meses. Eu já tinha desistido delas quando, um dia, o pacote chegou à minha casa.)

Resolvi dar um crédito de confiança à In Icons e, no dia 5 de janeiro, encomendei um bonequinho. Paguei através do Paypal, que ainda teve a gentileza de me informar, na finalização do pagamento, que não se responsabilizava por aquela empresa, situada fora dos Estados Unidos; e fiquei na torcida para não ter caído no maior conto do vigário da temporada. Resolvi que os R$ 209 que tinha gasto seriam uma aposta. Na melhor das hipóteses eu receberia um pequeno Steve Jobs dentro de dois ou três meses; na pior das hipóteses, teria uma boa história para contar.

Eis que, no dia 15, fui surpreendida com a notícia de que a In Icons desistira de fabricar o bonequinho, por causa da “imensa pressão” exercida pelos advogados e pela família de Steve Jobs. Um anúncio no site pedia desculpas aos fãs que haviam feito encomendas, e prometia ressarcimento do dinheiro recebido. Comentei o fato com amigos que sabiam que eu havia feito a encomenda, e a reação foi unânime:

— Ah, dançou!

Bando de incréus! No dia 21 de janeiro, o Paypal me informou que um reembolso de R$ 209 havia sido efetuado na minha conta. Não sei bem qual é a moral da história, mas a internet, mais uma vez, subiu no meu conceito. Já a Apple, quanto maior fica, mais diminui.

 

(O Globo, Economia, 28.1.2012)

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13 respostas em “A saga do mini Steve Jobs

  1. pois eu, depois de mais de 10 anos de compras na internet, caí num golpe. anotem aí: shop223 e/ou mfriends, de curitiba. arapuca.
    quanto ao bonequinho, eu não compraria, me cheira a culto a personalidade, mas que a apple está mostrando a cada dia uma face mais arrogante, isso está.

    []’s

  2. A alminha do Steve está por certo tentando em vão enviar um mail aos novos donos do seu nome, família ou não, para que autorizem o bonequinho, desde que ele seja fabricado na sua terra natal. Chega de chinas, porra!

  3. achava a ideia do bonequinho bastante mórbida. já a atitude da empresa foi bacana, coisa a que não andamos muito acostumados, sobretudo quando temos tantos picaretas brasileiros desrespeitando os consumidores e aprontando golpes na internet.

  4. Mas que pena terem proibido a fabricação, @cronai!
    😦
    tão bonitinho…
    ele ia ocupar o lugar do Ken, no coração da Barbie!
    😀

  5. Entendo o lado do Jobs. Se eu tivesse ido dessa para a outra também não ia querer que vendessem meu bonequinho para o mundo todo ficar fazendo vudu. Bom, na verdade se estivesse no beis oylem não ia fazer diferença.

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