Sete dias

Os gastos dos brasileiros no exterior estão na ordem do dia. Até Obama já percebeu o péssimo negócio que seu país está fazendo ao dificultar a obtenção de vistos pela turma mais comprista do Hemisfério Ocidental, e chamou os consulados à ordem: um povo que gasta U$ 21,234 bilhões em viagens não pode ser deixado no ora veja.

O assunto acabou no Twitter, naturalmente, onde o Riq Freire, que escreve sobre viagens e se denomina “turista profissional”, fez um resumo da situação: “80% da motivação de viajar é comprar. Neguinho não tem medo de furacão, terremoto ou vulcão: tem medo de feriado.”

Eu, porém, ando meio cabreira com os números que são brandidos de cá pra lá, como símbolo da crescente pujança da nossa economia, e fico me perguntando até que ponto não gastamos tanto lá fora para evitar fazer maus negócios aqui dentro – e ficarmos com a sensação (muito correta) de que somos todos otários. Afinal, o Brasil é, hoje, um dos países mais caros do mundo, se não o mais caro de todos. Até a Inglaterra, que ainda no outro dia era proibitiva, está com preços atraentes se comparados aos nossos.

Isso não se refere só a eletrônicos. No ano passado, por exemplo, comprei três ótimas blusas de linho numa loja online dos Estados Unidos, a U$ 35 cada (R$ 62). Mesmo com o transporte e as taxas da receita, elas saíram mais em conta do que a similar nacional, que custava R$ 320.  A loja que me pediu este absurdo não é nenhuma grife conhecida, nem faz o antipaticíssimo gênero “moda para poucos”, em que preços ridículos fazem parte da estratégia segregacionista de vendas. Ao contrário, é uma marca discreta de roupas idem. Acredito que seus proprietários teriam gosto em cobrar menos, caso não estivessem atolados até o pescoço no famigerado custo Brasil. Se as suas blusas custassem a metade do preço, eu pagaria de bom grado os R$ 160, apesar da diferença ainda enorme para as equivalentes norte-americanas, já que a conveniência de comprar uma mercadoria que se pode ver, experimentar e levar na hora não deixa de ter o seu valor.

Não sou especialista em economia, mas me parece claro que, se o governo cobrasse menos impostos, e se os encargos trabalhistas fossem mais razoáveis, o Brasil teria preços mais competitivos. E é aí que entra a minha dúvida: quantos dos R$ 21.234 bilhões que gastamos lá fora não ficariam aqui se encontrássemos custos mais razoáveis no nosso dia-a-dia?

Não que eu duvide da fúria consumista dos meus compatriotas, pelo contrário — já vi suficientes brasileiros em Miami para acreditar em qualquer história. Mas vocês sabem tão bem quanto eu que a ocasião faz o consumidor. Diante de preços que parecem miragens, mesmo o viajante mais ajuizado acaba cometendo desatinos…

o O o

Na manhã do último domingo, muita gente acordou cedo e foi às ruas, pelo Brasil afora, para pedir uma legislação mais severa para os casos de crueldade contra animais. Foram realizadas manifestações em dezenas de cidades, de Porto Velho, em Rondônia, a Passo Fundo, no Rio Grande do Sul; os cariocas se reuniram em frente ao Copacabana Palace, os de São Paulo – sete mil deles, formando o maior contingente do dia de protestos — foram para a Avenida Paulista. Há uma ótima coleção de vídeos, fotos e reportagens diversas sobre as manifestações em crueldade-nunca-mais.blogspot.com.

 A idéia do movimento, que se articula pela internet, é recolher mais de um milhão e meio de assinaturas e encaminhá-las ao Congresso Nacional, propondo modificações na atual legislação, que prevê penas de três meses a um ano de detenção. Na prática, isso significa que nada acontece aos psicopatas que maltratam animais, por mais hediondos que sejam seus crimes.

A verdade é que ninguém que gosta de bicho agüenta mais as notícias que circulam pela rede, com horripilante regularidade, dando conta de abandonos, tortura e assassinatos.

(Na quinta-feira mesmo, em Jacarepaguá, uma pequena capivara quase foi linchada por uma turma de boçais armados com paus, pedras e facas. Muito ferida, foi salva por Karla Alves e seu amigo Flávio, e atendida pelo dr. André Sena, especialista em animais silvestres; agora se recupera na casa de outra abençoada protetora, a Silvia, antes de ser devolvida ao seu habitat.)

o O o

Faleceu na semana passada, aos 91 anos, a professora Edília Coelho Garcia, proprietária e diretora do antigo Colégio Brasileiro de Almeida, onde a Laura e eu tivemos a sorte de estudar. Muito do que somos hoje devemos aos sonhos de d. Edilia, à sua fibra invejável, sua capacidade de trabalho e de organização e, principalmente, à sua habilidade de reunir uma bela equipe, para transformar em realidade os seus ideais, sem concessões. Lutar por uma educação de qualidade, estabelecendo um centro de ensino de nível internacional, em moldes inéditos no país, era de fato uma saudável loucura naqueles anos 60 e 70 — e continua a ser, ainda hoje. D. Edília foi uma mulher de coragem e de visão, e — desculpem a expressão tão batida, mas verdadeira neste caso — um exemplo de vida.

(O Globo, Segundo Caderno, 26.1.2012) 

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29 respostas em “Sete dias

  1. Cora, me permita discordar dessa história dos impostos. Brasileiro adora dizer que o preço de tudo no Brasil é um absurdo por causa dos impostos, é a resposta pronta pra tudo. Claro, são sim muito altos, mas as margens de lucro praticadas no Brasil também são. A mentalidade dos empresários brasileiros que os preços de tudo sempre tem que aumentar um pouquinho também é culpada. Porque pelo menos que eu saiba, os impostos não aumentam todos os anos, mas o preço de tudo mais aí sim. Quando mudei pros EUA em 2002, eu passei uns anos ainda comprando roupas, sapatos, bolsas e outras coisinhas quando ia ao Brasil, uma vez por ano, porque o câmbio favorável permitia. Já há vários anos nem o câmbio favorável permite essas compras, porque o preço de um vestidinho de malha numa loja de shopping já alcança inacreditáveis 500 reais (ou mais!). Como esses vestidinhos saltaram de 80-100 para mais de 500 em 9 anos? A culpa é dos impostos? Mas o vestido há 9 anos já pagava o monte de impostos que paga hoje…

    E os números não mentem: em um ranking feito há alguns anos das cias aéreas mais lucrativas das Américas, as duas primeiras da lista eram cias aéreas brasileiras, com lucros na casa dos centenas de milhões de dólares. Pois veja que mesmo convertendo de real pra dólar as empresas brasileiras ainda conseguiam bater de longe a 3a colocada, a americana Jet Blue, que tinha lucro nos dezenas de milhões (30 milhões se não me engano). Então vê-se claramente que o preço altíssimo pago pelo consumidor brasileiro nesse caso não tem nada a ver com impostos, e sim com as margens de lucro estratosféricas que essas empresas praticam. As cias aéreas daqui mesmo com impostos menores, combustíveis mais baratos, não chegavam nem perto do lucro das empresas brasileiras.

    O governo precisa MESMO fazer a famigerada reforma tributária que está devendo desde que eu me entendo por gente, com certeza. Mas quando fizer e os preços não caírem (porque repassar desconto pro consumidor no Brasil não existe) quero ver qual vai ser a desculpa que os empresários vão inventar…

  2. Fico triste quando penso nisso… pagamos impostos caríssimos em tudo que consumimos, os produtos não são de primeira… os preços dos carros eu considero um assalto se comparados ao tal de primeiro mundo e nossos carros vem sem nada e qualquer ítem que nos países onde os carros custam muito menos, é obrigatório, aqui tem que se pagar a mais para que seja colocado… dá vontade de sumir daqui, apesar de gostar demais de viver nesta cidade maravilhosa! É muito imposto sem ver nenhum retorno. É muita roubalheira…
    Acompanhei a trajetória da capivarinha “Batatinha” que felizmente foi resgatada pela Karla e vai para uma reserva protegida perto de Piracicaba. Mas quantas sofrem nas mãos destes vândalos que não tem nenhum respeito pela vida animal?
    O que falta aqui é uma consequência (eu preferia colocar no trema na “conseqüência) da falta de investimento na educação que forma este povo sem disciplina e sem respeito.
    Deveriam existir muito mais pessoas como a D.Edília, que tem um papel importantíssimo na formação de cicadãos honestos, dignos e honrados.

  3. Em pelo menos uma coisa, impostos no Brasil são esplendidamente bem empregados: erradicação de doenças por vacinação pública, do Oiapoque ao Chuí. No início dos 90 passei três meses na horrenda Atlanta, aquela que o vento levou mas trouxe de volta com mil vezes mais mau gosto. Houve um surto de meningite, a mãe solteira negra, miserável e drogada não tinha duzentos dólares para pagar pela vacina, só tinha vales-refeição (food stamps) para trocar por crack. É…

    Eleições informatizadas são outra boa aplicação da grana pública. É verdadeiro milagre que nosso pobre dinheirinho às vezes escape das intenções da maioria dos eleitos.

    • O engraçado é que o Brasil somente copia o que não presta dos EUA.
      Lá há prisão de verdade para todos.
      Aqui, prisão é para pouquissimos. Nem digo só pobre vai preso, porque nem isso acontece….
      Este negócio de eleição informatizada é outra coisa que não me desce pela garganta. Não é possivel que perante estes milhares de milhões de lugares no mundo com eleições, só aqui no Brasil aconteceu de ter um genio para fazer assim ?
      Quanto à coitada acima, realmente é fogo… Se ela tivesse caído no Brasil, teria sido muito bem atendida pelo SUS….

      • Quanto às eleições, acho que não existe nenhum outro país do mundo que tenha a mesma necessidade do Brasil. Somos mais de 130 milhões de eleitores em um país continental, aqui existem eleições diretas em nível nacional e o voto é obrigatório. Isso não existe nos EUA por exemplo.

  4. Achei ótimos todos os tópicos e comentários. Realmente, somos ROUBADOS todos os dias e todas as horas. Não há nenhum país num mundo civilizado que cobre tantos impostos e que devolva quase nada à população. Você paga um preço justo lá fora e, aqui, paga imposto sobre imposto que tira até sua pele. Vejam como após a volta dos impostos “normais” brasileiros, sobre os veículos automotores, as vendas despencaram. Aqui, pagamos um absurdo por um carro popular sem qualquer conforto. Nos países mais desenvolvidos do mundo, já não se faz mais automóvel mecânico, e sim hidramático. E os preços são MUITO menores do que os nossos!
    Outro problema que me tira o sono é o reajuste dos aposentados. O (des)governo não repõe nem a inflação do ano anterior. A cada ano, o coitado, que já não pode trabalhar, vê sua “renda” defasada em muitos reais. Se procurar emprego, não consegue, pois aqui, no Brasil, quem tem 40 anos ou pouco mais torna-se incapacitado para o trabalho.
    Urge que todos nos tornemos deputados pelo menos por um mandato pois, dessa forma, toda a nossa descendência terá um futuro garantido.
    (Atentem para os pormenores da minissérie da Globo, O Brado Retumbante – muito real.)
    Perdão pelo imenso espaço ocupado, porém quase não disse nada sobre aquilo que penso.

  5. Cora, não vi suas blusas de linho, mas amei a blusa com que vc foi ao teatro ontem. Muito linda e muito chique! (Não só a blusa, mas tb vc!) ( não sei postar a foto aqui, tem como?)

  6. desculpe o OT:

    O Brasil dispensa terremotos, vulcões e terroristas; a corrupção, a ‘ixperteza’ e, sobretudo, a incompetência dos que tocam a administração das coisas nos garante esta vergonhosa cota regular de desabamentos, explosões de bueiros ou cozinhas, descarrilhamento de bondes, barcas desgovernadas e outros desastres
    😦

  7. Brava, Coríssima!
    O brasileiro se ufana com o que gasta lá fora, quando deveria indignar-se com o que paga cá dentro.

  8. No domingo passado caiu uma chuva danada no Recife. Mesmo assim, eu e uma pequena multidão (se é que se pode dizer assim) nos deslocamos para a a praia de Boa Viagem, onde houve a manifestação. Havia muitos simpatizantes da causa, muitos protetores. Em termos macro, foi bonita e emocionante. No entanto eu fiquei um pouco decepcionada. A figura que falava no microfone – me parece que é carioca – tinha uma equipe de pessoas com camisetas que tinham o seu nome. Já previ aí uma certa pretensão eleitoral.

    Além disso, perdeu uma ótima oportunidade de falar sobre políticas públicas (quais?) para a proteção aos animais e sobre a posse responsável. Ficou a passeata inteira falando da importância do veganismo e o vegetarianismo. Também assumiu um discurso religioso, fazendo analogias dos 10 mandamentos da bíblia e convocando os cristãos para essa luta.

  9. Vou explicar o tal problema, que tanto causa indignação.
    Vamos lá: O funcionário ganha R$ 2.000,00
    Há o INSS cujo valor é 20 %, ele paga 8 % e você, como empregador, paga 12 %.
    12 % de 2.000 é R$ 240,00 soma aí.
    Depois temos as férias, que são deduzidas e você paga 1 terço.
    Pegue a calculadora
    1 terço de 2.000 é R$ 666,66 soma aí. ( UMA VEZ POR ANO )
    Tem o FGTS, que você paga 8 % por mês.
    De novo com a calculadora.
    8 % de 2.000 é R$ 160,00 e soma aí.
    Tem o décimo terceiro salário que é o salário propriamente dito, R$ 2.000,00 ( UMA VEZ POR ANO )
    Vamos calcular quanto custa o meu empregado, de verdade por mês ?
    Vamos lá:
    2.000,00 MAIS 240,00 MAIS ( 666,66 / 12 ) MAIS 160,00 MAIS ( 2.000,00 /12 )
    ISSO DÁ: ( agora use uma HP-12c )
    2000,00 + 240,00 + 55,56 + 160,00 + 166,67 = R$ 2.622,22
    That’s it !

    • Seria interessante completar este cálculo:

      – O Funcionário tem um salário nominal de R$ 2.000,00
      – A Empresa desembolsa R$ 2.622,00

      Mas, depois de todos os descontos e impostos, o Funcionário de fato embolsa um Salário Líquido de…

    • Eu tenho apenas uma empregada com carteira assinada, as férias dela coincidem com o final do ano, quase fui à falência nessa época, imagine uma empresa com vários empregados, é uma coisa difícil mesmo.
      E, corinha, essa blusa está muito cara, fica mais barato você dar um pulinho na feira de domingo que tem em Goiânia (onde morei alguns anos), lá tem linhos maravilhosos, além de muitas outras coisas, e era barato, mas não vou lá há algum tempo, estou até pensando em ir só pra rever a feira – e o linho ::). beijo, vera

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