O navio e os imigrantes

Quando vimos as primeiras fotos do Costa Concordia naufragado feito uma baleia ao largo da ilha italiana, Mamãe e eu pensamos a mesmíssima coisa que, com certeza, passou pela cabeça de todo mundo que já embarcou num cruzeiro: “Olha lá do que nós escapamos!” Há menos de dois anos, cruzamos os fjords da Noruega a bordo de um dos irmãos da embarcação acidentada — e se, antes disso, as notícias sobre navios em férias não nos diziam respeito e eram praticamente abstratas, de lá para cá elas adquiriram uma conotação íntima, bem parecida com a das notícias que lemos sobre pessoas que conhecemos.

O mais esquisito é que, apesar de já ter viajado em incontáveis aviões, nunca tive sentimento parecido em relação a nenhum desastre aéreo. Não sei o que faz a diferença, mas imagino que tenha algo a ver com a natureza dos transportes em si.

Aviões nos fazem favor quando chegam sãos e salvos, ao passo que navios traem nossa confiança quando naufragam.

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Durante toda a semana que passamos a bordo do Costa Atlantica, o que mais nos intrigou foi o equilíbrio do navio, um gigante de oito andares cujos movimentos mal percebíamos. A sensação de segurança era total, como se estivéssemos num hotel em terra firme. A tal ponto que, numa das paradas, Mamãe optou por pegar um barquinho para explorar os fjords mais de perto, só para – finalmente! – se sentir al mare.

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Não consigo deixar de pensar no comandante Schettino que, afinal, se desgraçou por causa de uma idéia no fundo amável. Levar o navio para tão perto da costa foi um ato de irresponsabilidade tenebroso, mas, se nada tivesse acontecido, a saudação à cidadezinha do maitre teria sido um gesto de cativante gentileza. Por outro lado, toda a simpatia que se possa sentir por este equivocado comandante desaparece diante da sua fuga do navio, e da sua covarde relutância em voltar para bordo e cumprir com o seu dever.

O personagem é complexo, e pode render um bom papel quando a tragédia do Costa Concordia virar filme ou seriado de televisão.

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Também não consigo deixar de pensar nas vítimas do naufrágio, que deixaram suas casas e seus países em busca da fugidia felicidade das férias e, em vez disso, morreram num cenário de pesadelo. Imagino o caos no restaurante, a aflição de andar pelos corredores emborcados e pelas galerias escuras, e sinto um frio horrível na espinha.

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A coluna da semana passada, sobre Brasiléia e os imigrantes haitianos, deu panos para as mangas:

“Esse nome, Brasiléia, se compõe de duas palavras: Brasil e Hiléia” — escreveu Paulo Ricardo Gadelha Pinheiro. — “Hiléia foi a denominação dada pelo geógrafo e naturalista alemão Alexander Von Humboldt e pelo botânico e médico francês Aimé Bonpland para a Floresta Amazônica. O nome ”hiléia ” foi sugerido por uma lenda que narra a história do herói grego Hylas, companheiro de Hércules, que se perdeu numa mata e não mais foi encontrado. No nome, os pesquisadores tiveram a intenção de marcar o destino de muitos brasileiros que tiveram igual destino. De certo modo, foi também o destino que nos anos 60 teve o meu pai Sinval Pinheiro quando trabalhou na cidade de Brasiléia como militar, engenheiro, geógrafo e topógrafo, depois de exaustivos trabalhos como responsável pela demarcação da fronteira do Brasil com a Bolívia, no interior da selva amazônica. Agora, a cidade de Brasiléia torna-se símbolo não de uma porta de saída para o mundo dos mortos, mas de um ponto de chegada, um porto livre para os haitianos vítimas da truculência política.”

“Nem preciso olhar para colegas e amigos,olho para minha familia e em todos graus de parentesco a miscigenaçao está presente” — disse o Celso. — “Não devemos esquecer nossos antepassados, que ao migrarem para cá, não o fizeram por boniteza, e sim por precisão. Negar aos desvalidos de hoje a oportunidade de mudarem seu futuro é negar o esforço e os riscos que os nossos bisavós, avós e pais correram para sobreviver e construir suas familias. Impedi-los equivale a matar os sonhos que os nossos tiveram e puderam realizar.”

“O Brasil não precisa de mais miscigenação” — escreveu Denise. — “Já temos problemas demais, pobreza demais.”

“Oxente!” — retrucou a Matilda Penna. — “E eu pensei que miscigenação hoje fosse resultado da decisão pessoal de um homem e uma mulher, nunca algo que causasse pobreza e problemas, vai ver estou entendendo as coisas erradas!

Concordo com Cora, o Brasil está certo, temos lugar, as fronteiras são políticas, a humanidade nasceu caminhando, procurando oportunidades, civilização é o resultado de costumes advindos de outras partes, afinal o macarrão veio da China, o tomate das Américas e a macarronada é italiana, só para dar um exemplo rápido; a pureza é a mistura, a diversidade, o acolhimento… Eu hein, me poupem que eu tô velha.”

“Sua crônica humaniza e traz para junto do coração e da consciência o tamanho dos desafios que o Brasil enfrenta quando se trata de alçar outros lugares no mundo e mais poder nos espaços chamados de governança global” – arrematou o Atila Roque. — “Ser relevante no mundo implica em mais justiça social no próprio Brasil, assim como delicadeza, generosidade e respeito aos direitos humanos quando as vítimas das tragédias do mundo ao redor começam a nos buscar, mais uma vez, como o lugar de destino e de sonhos de vidas melhores.”

(O Globo, Segundo Caderno, 19.1.2012)

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21 respostas em “O navio e os imigrantes

  1. Já que não consigo mandar mensagem no seu FB, vai por aqui mesmo…
    Há alguns anos, lendo sua coluna no INFO ETC.. (saudades do caderno!!), você escreveu (e avisou) sobre um joguinho extremamente viciante, chamado ‘Blockarelli’.
    Até hoje ele faz parte da minha tela. Nunca desligo! Fica aberto eternamente, esperando momentos de tédio.
    Assisto muitos filmes e, por ser hiperativo, não consigo ficar parado olhando para o monitor.
    A tela de 24″ tem espaço para o navegador com o joguinho e o player com o filme, que praticamente só escuto.
    Faz tempo que não leio sua coluna. De vez em quando pego o jornal de papel, mas o digital vence todo dia,
    Lembro quando minha mãe recortava sua coluna. Ela lembrava das aulas com seu pai, Paulo Rónai, segundo ela, um excelente professor.
    Bom, é isso…
    Obrigado (ou não) pela dica do joguinho viciante (estou lá entre os recordistas).
    E parabéns pela sua coluna. Uma pena que poucos jornalistas escrevem tão bem como você.
    Marcelo Perroni

  2. O Caju Azedo deu uma aula básica de estabilidade e nada há mais a dizer sobre isso. Difícil é explicar o comportamento do comandante. Primeiro, ele tomou uma decisão poética, humana ao extremo. Depois, não demorou a constatar que seu casco fazia muita mais água do que seria capaz de bombear. “Ship was doomed” – a frase repetiu-se, como no Titanic. As casualidades poderiam ser tantas quanto há 100 anos. Por isso, ele tomou a perfeita decisão de levar o navio para as rochas enquanto tinha propulsão e governo funcionando. Quando o fez, na minha opinião, as forças da manobra inclinaram o navio para o bordo contrário das avarias. Pronto! O casco continuou a deitar-se, mas não havia água para a submersão ser completa. A quantidade de vidas que foram salvas com esta manobra, jamais saberemos. Infelizmente, o stress extremo acabou com a resistência psicológica de Schettino, que cometeu suicídio moral ao desembarcar muito antes dos passageiros e tripulantes sob sua responsabilidade!

    • Engraçado, Nelsinho, que ele tivesse levado o navio direto para a ilha a fim de facilitar o salvamento das pessoas, foi a primeira coisa que me passou pela cabeça.
      Por mais que ele desejasse se aproximar para fazer a tal homenagem, não consigo imaginar o comandante de um transatlântico cometendo um erro tão grosseiro.

      • Neria
        O erro FOI grosseiro, porque Schettini esqueceu tudo o que aprendeu para fazer uma homenagem! A reação a um desastre desses num navio tão grande e tecnicamente condenado, é o ponto crucial, Não tenho dados técnicos suficientes para saber exatamente como ele deu um retorno de 180 graus para levar o casco para cima das pedras, mas sem duvida ele o fez! O que faz de Schettini sucessivamente: Um irresponsável, um salvador de raciocínio rápido e finalmente um homem psicologicamente arrazado, desinteressado e incapaz de
        raciocínio lógico. A explicação do Fantástico confundiu, porque o trabalho gráfico mostra colisão por boreste, mas as fotos do fundo mostram que as avarias são do lado de Bombordo.

  3. Ano passado passei sete dias a bordo de uma embarcação no Rio Mekong, no Camboja. Uma viagem tranquila embora sem luxo. Visitamos as comunidades ribeirinhas que quando avistavam a embarcação, vinham todos nos recepcionar, oferecendo seus artesanatos. O barco era de procedencia americana “Marguerita” Dormiamos, comiamos, nos divertiamos tranquilamente ao sabor da agua barrenta do Rio Mekong.

  4. Bom te ler sempre, corinha, concordo com a imigração dos haitianos, mas acho que se precisa mais do que de um lugar para morar, tanto haitianos quanto brasileiros. Há que acolher, mas há que criar condições de vida digna também.
    Acho que aviões e navios partilham da mesma ótima frase – a de que ‘concedem’ quando nos levam e trazem vivos :))
    E o comandante, nossa, que decisão errada, dureza conviver com isso o resto da vida, fora que pode mesmo ir preso.
    beijo, querida,
    vera

  5. Não há explicação lógica para a manobra e o comportamento do comandante.

    Mas é preciso explicar como um navio aderna e naufraga e perde toda energia em menos de uma hora somente por atingir uma pedra. É como se seu carro capotasse e pifasse completamente ao passar por cima de um prego durante o estacionamento.

    Tem m… nessa engenharia naval, cazzo !!!

    • Eu li a explicação disso num dos sites que visitei (infelizmente, não me lembro qual): é que, para ficar estabilizado, o navio precisava navegar numa certa profundidade. Quando ele se aproximou da costa, não havia essa profundidade, e com isso ele perdeu o equilíbrio. Se eu encontrar a explicação de novo trago para você.

      • Muito obrigado, Cora, e perdoe-me por não ser mais breve. Este caju aqui esqueceu de dizer que foi oficial do Corpo da Armada da Marinha do Brasil.

        A profundidade nada tem a ver com a estabilidade de uma embarcação. Barcos ‘balançam’ transversalmente pra direita e esquerda (boreste, bombordo) e também longitudinalmente. Daí o enjoo.

        Considerando apenas o movimento pendular transversal pergunta-se: como, então, o barco se inclina, se inclina para um lado, …, depois volta à posição vertical e passa a se inclinar para o outro lado, etc? Que força é essa que faz o barco retornar do movimento de inclinação? Por que o barco não se inclina até adernar completamente e o comandante brancaleone desertar?

        A resposta está no Eureka de Arquimedes: existe uma força chamada empuxo, de baixo para cima, que é proporcional ao volume dágua deslocado pela área submersa do casco do navio. Pra começo de conversa, sem empuxo nosso amigo sequer flutuaria. Existe também a gravidade, que atua sobre qualquer corpo de cima para baixo e que não deixa nosso próprio corpo levitar por aí.

        Esquematicamente, a gravidade atua sobre o centro geométrico (de gravidade) e o empuxo sobre o chamado centro de carena, que é o centro de gravidade da parte submersa. Enquanto o centro de gravidade é fixo, o centro de carena se move na direção do balanço do navio. Essas duas forças opostas criam o que se chama em física de ‘momento’. O efeito é como numa gangorra: a gravidade puxa uma extremidade para baixo e o empuxo empurra a outra para cima. O empuxo restaurador vai aumentando à medida que a embarcação aderna, até superar a força oposta para reverter o movimento de inclinação. E tome enjoo.

        Aparentemente, o barco italiano foi rapidamente alagado. Para isso acontecer é preciso que o casco seja facilemente rasgável por uma rocha qualquer e também que os compartimentos da área submersa não sejam ‘estanques’, separados uns dos outros por portas de ferro hermeticamente fecháveis. Para a energia pifar totalmente é preciso que não haja nenhuma redundância em sua geração.

        Acho que o mais importante é o mais básico: não era para o navio estar ali! Com toda a parafernália de instrumentos de navegação e cartas náuticas, é razoável supor que o transatlântico não vai se esborrachar em rocha alguma, logo não precisa dessa estanqueidade toda. Já na minha velha Marinha, qualquer barco sabe que é alvo de torpedo e outros bichos, então a estanqueidade é máxima e portas estanques, que são buracos ovais entre um compartimento e outro, passam a maior parte do tempo esfolando nossas canelas distraídas.

        • Nossa, que aula ótima, acho que entendi tudo! Merci. Pelo que vc expõe, o comandante vacilou e o navio não era lá essas coisas lá no fundo, pois não?
          abraço,
          vera

        • Excelente exposição, Caju Amigo!

          Sim, tem m… proposital nesta engenharia naval: como estes navios perderam a finalidade de serem ‘transatlânticos’, enfrentando com estabilidade longas viagens, mas se tornaram ‘resorts flutuantes’, em cruzeiros de cabotagem, a linha do casco abaixo d’água é desproporcional ao ‘prédio’ de 10+ andares acima. Com o rombo no casco, pelo visto não haviam compartimentos estanques…

          Mesmo assim, este outro, na costa brasileira, fez uma manobra de desvio tão brusca que inclinou-se transversalmente a ponto de alagar as cabines inferiores. Mas voltou à vertical, como esperado…

  6. Puxa vida, @cronai, você devia ter escrito “a Denise que não é Weller “…. etcs.
    🙂 😉
    Avisando, de novo, como já fiz no outro post que a Denise a favor de raça pura- ariana?- não sou eu!
    Cáspite!

  7. “Aviões nos fazem favor quando chegam sãos e salvos, ao passo que navios traem nossa confiança quando naufragam.”

    demais!!!!!!!

  8. Cora, pontualíssima sua crônica. Pontualíssima!

    Se tudo tivesse ocorrido as 1000 maravilhas, Schettino estaria recebendo abraços… porquanto, sua atitude, independente de qualquer outra coisa, deveria ser permanecer na embarcação. Qualquer um que tenha uma Carta de Arrais, Mestre, Arrais e Mestre amadores etc, sabe de seus deveres.
    E ele não cumpriu, além de se comportar como criança.

  9. Cora, sempre concordo com você, gosto disso, me dá a sensação de seguir o fluxo do pensamento de alguém a quem eu muito admiro….Mas, no caso da imigração dos haitianos, eu concordo apenas parcialmente. Neste, eu acho, mesmo tendo antepassados de outros países, que se ficarmos e lutarmos podemos modificar o lugar ao qual pertencemos, afinal, não é o que tentamos fazer, um pouquinho a cada dia, por aqui? No momento, me vem à cabeça o exemplo dos japoneses. Acredito que tenha sido uma a maiores cadeia e desastres da humanidade o que houve por lá ano passado e todos quiseram voltar para as suas cidades, assim que foi possível. A cultura fez toda a diferença….Tanto para se falar mas esse é o seu ofício.
    Bjks

  10. Lá se vão três anos desde que Felipe voltou do Summit e ele sentiu a mesma coisa. Seria um choque ver as cadeiras do Summit boiando num salão inundado, como as do Costa Concordia. O peso da atitude do comandante foi maior pra ele tambem, olhou pra mim envergonhado como se a desonra total tivesse alguma coisa a ver com ele. Navios são lares para os tripulantes. Beijos, Cora.

  11. Veja como são as coisas. Na minha coluna de hoje, no Diarinho (reproduzida no blog http://www.deolhonacapital.com.br/), também falo no capitão, explorando essa idéia que expressastes na frase “se nada tivesse acontecido, a saudação à cidadezinha do maitre teria sido um gesto de cativante gentileza”. Coincidências à parte, aproveito para deixar um abraço e um beijo por esta frase que sintetiza espetacularmente o que também sinto sobre esses “veículos”: “Aviões nos fazem favor quando chegam sãos e salvos, ao passo que navios traem nossa confiança quando naufragam”.

    • Desculpe, mas fazer uma ‘cativante gentilêza” com um navio que não é dêle é o que se costumava chamar de ” dar barretadas com o chapéu alheio”…

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