O fim de uma era

Pode ser que eu esteja enganada, mas tenho a impressão de que a CES, grande feira de eletrônicos que terminou ontem em Las Vegas, nos Estados Unidos, começa, enfim, sua marcha rumo à extinção — ou, no mínimo, rumo à obsolência. Não porque a Microsoft anunciou que está tirando o time de campo, e abandonando o que era um dos maiores estandes; afinal, o espaço foi vendido em pouco mais de dez minutos a duas empresas chinesas. Mas porque, em tudo o que li sobre a feira ao longo da semana (e que, como vocês podem imaginar, não foi pouco), a quantidade de matérias reclamando sobre o absurdo que é a CES foi maior do que a quantidade de notícias realmente interessantes vindas de lá.

A CES não é feita só para a mídia, evidentemente. Seu objetivo básico é criar um espaço onde fabricantes e revendedores de eletrônicos possam se encontrar em torno das novidades que irão ou não para as lojas no decorrer do ano. Imagino que a relação que um lojista tem com a CES seja diferente da de um jornalista. O lojista tem um alvo determinado (televisões ou equipamentos para automóvel ou bricabraques chineses) ao passo que o repórter, coitado, tem que cobrir tudo em meros três dias. Mas este repórter exausto é capaz de captar um clima geral, um estado de espírito que informará ao lojista o que ele viveu mas, provavelmente, nem teve tempo de perceber.

O fato de ninguém ter se dado ao trabalho de contradizer as matérias negativas é bastante eloqüente. A cada uma delas eu me lembrava do ano passado, quando percorri centenas de quilômetros de corredores vendo produtos que absolutamente não me interessavam me perguntando o que diabos eu estava fazendo lá. Essa parece ser a sensação geral.

Nem sempre foi assim. A CES (de Consumer Electronics Show) já foi um destino muito atraente, uma feira à qual qualquer um de nós, jornalistas de tecnologia, sonhávamos ir. Antes mesmo do fim da Comdex, que acabou em 2003, era o evento mais quente da área. E, diga-se, sempre foi mais ou menos igual ao que é hoje: milhares de expositores, centenas de milhares de visitantes, muito mais produtos do que tempo hábil para vê-los – e filas gigantescas para tudo, do cafezinho à condução.

Não foi a CES que mudou, mas a nossa relação com a informação. Antes da internet, as grandes feiras tinham uma importância vital para quem quisesse se manter atualizado com a área. Num só lugar encontravam-se todos os fabricantes, seus produtos e projetos futuros. Encontravam-se também os grandes nomes do setor, pensando em voz alta nas dezenas de palestras e debates apresentados simultaneamente à exposição. Perder uma Comdex ou uma CES era um verdadeiro atraso de vida, uma falha técnica pela qual o jornalista pagaria caro ao longo dos próximos seis meses, até a realização da próxima edição.

Lembro que, em algum vago lugar dos anos 90, Cristina de Luca e eu fomos cobrir uma Comdex (espécie de CES mais focada em tecnologia) e voltamos com dez malas de material. Dez! Pagamos uma fortuna de excesso de bagagem na companhia aérea, mas aquilo alimentou o saudoso “Informática etc.” durante muito tempo. Mais do que isso, porém, valia a bagagem que trazíamos na cabeça, e que nos iluminava o caminho.

Ver os produtos ao vivo ainda é uma experiência insubstituível, mas desde que se possa realmente vê-los, pegá-los e passar um mínimo de tempo em sua companhia, coisa impossível de fazer nas grandes feiras. Hoje, a informação que trazíamos a tão duras penas está toda online, assim como os contatos dos fabricantes. O meio de campo que a CES providenciava é feito hoje, com muita eficiência, pela internet; e a idéia de viajar para o outro lado do mundo para uma maratona exaustiva de eletrônicos começa a ser cada vez mais antiga.

(O Globo, Economia, 14.1.2012)

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8 respostas em “O fim de uma era

  1. Na verdade todo esse modelo de trade shows já está sendo questionado. O mesmo que você está observando agora na CES acontece em outros grandes eventos, como o Mobile World Congress. Muitas empresas continuam a investir nesses eventos “por inércia” mas já começam a questionar seu real valor no mundo de hoje.

  2. A grande sensação é a tecnologia 4GLTE para telefones sabidos. 4G = quarta geração, essa é mole; e LTE? Gente, LTE é ´long term evolution’, evolução a longo prazo, meu pobre Deus do céu, mentiras, mentiras, ‘mentiras sin piedad’, como naquele tango de Piazzola, ´lástima grande que no sea verdad tanta belleza’!

    Pra quem gosta de jabá, é só clicar em Wired News.

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