História de duas cidades

Cidades de fronteira costumam ser animais gêmeos dizigóticos: uma metade cá, a outra lá, dependendo apenas, é claro, de onde a gente se situe em relação ao cá e ao lá. Elas nascem na mesma época, dividem clima e situação geográfica, mas nem por isso são iguais. É o caso de Brasiléia, no Acre, e sua irmã Cobija, na Bolívia, que têm freqüentado muito as manchetes desde a recente invasão de refugiados haitianos.

Com quase igual número de habitantes (21.438 em 2010, em Brasiléia, e 26.872 em 2005, em Cobija) as duas são separadas por um rio, uma ponte e um mundo de diferenças. Brasiléia tem casas de madeira pintadas em cores vivas, ruas limpas boas de passear e árvores com cal pela metade do tronco para desestimular as formigas; é sossegada, tem um comércio pequeno e lojistas atenciosos. Cobija tem muitas construções em alvenaria, uma praça rica, o comércio fervilhante de uma zona franca e muita confusão e sujeira.

Fazia um calor medonho nas duas quando estive lá. Como costuma acontecer quando vou à Amazônia, não conseguia deixar de pensar em Macondo, a cidade imaginária de Gabriel Garcia Marquez, que se torna tão real quando mergulhamos naquela temperatura, naquela umidade e naquela floresta.

O maior delírio de Brasiléia, contudo, é a proximidade com a Bolívia. Nada do que se vê – ou do que se via, antes da chegada dos haitianos – indica que ali é uma cidade de fronteira. Pode-se caminhar à noite, quando fica mais fresquinho, sem qualquer sensação de insegurança.

Já em Cobija é impossível não ver um pouco de faroeste por toda a parte.  Eu andava pelas ruas – durante o dia! — e imaginava biografias para as pessoas que cruzavam comigo. “Este do chapéu é um contrabandista famoso, passou cinco anos na cadeia em Porto Velho, fugiu e correu para cá”; “Este de óculos escuros é um pistoleiro muito procurado, que está vivendo os seus últimos momentos; mais tarde, quando anoitecer, vai se encontrar com outros pistoleiros num bar, vão ter uma briga idiota e ele vai morrer assassinado”; “O da camisa azul matou a mulher e o amante em Iquitos, viveu um tempo consumido pela culpa mas se aprumou, e veio viver aqui a vida que continua” — e assim por diante.

Tirando uma sorveteria supreendentemente boa para um lugar tão perdido, o comércio de Brasiléia é igualzinho ao de qualquer pequena cidade Brasil afora. As lojas são modestas, e vendem bens para o trivial simples de um cotidiano descomplicado. Em Cobija, porém, que recebe toda a sorte de produtos importados do Panamá, as lojas parecem irmãs mais pobres e bagunçadas das que se vêem em Ciudad del Este, com uma profusão de artigos mais ou menos sofisticados pouco relacionados entre si. Do lado brasileiro, aliás, nos recomendavam tomar muito cuidado com os comerciantes bolivianos, especialistas em enganar fregueses incautos.

o O o

Estive em Brasiléia em março de 2007, acompanhando as gravações de “Amazônia”, a minissérie de Gloria Perez. A equipe da Globo estava hospedada lá e no município vizinho de Epitaciolândia. Por toda a parte, casinhas bem cuidadas, ruas limpas e espaços públicos livres de pichações me enchiam de vergonha pelo estado lastimável em que se encontrava a minha cidade, tão maior e — achamos nós aqui sem conhecer nada — tão mais “civilizada”.

Cinco anos se passaram desde então. Muita coisa pode mudar para pior nesse espaço de tempo. A conservação que observei nas cidades do Acre só se mantém com cuidado constante, e basta uma má administração para pôr todo o trabalho anterior a perder.

De qualquer forma, foi nesta Brasiléia de cinco anos atrás que pensei quando comecei a ler as primeiras notícias sobre as levas de refugiados haitianos. Fiquei com pena da cidadezinha humilde, que a duras penas consegue se manter tinindo: como se arranjaria com toda aquela gente? Me lembrei da praça ampla, das palmeiras, do rio e até das capivaras sossegadas que pastam às suas margens.

Também fiquei com pena de que mais gente não saiba que cidade simpática é Brasiléia, para poder avaliar a dimensão do impacto causado por tantas pessoas. Quando lemos nos jornais que os haitianos estão acampados na praça de uma cidade de fronteira, ainda por cima na Amazônia, longe de tudo, imaginamos imediatamente uma espécie de terra de ninguém, sem lei e sem ordem. A verdade é que, sem ter estado lá, nenhum de nós consegue imaginar as ruas limpas, as lojinhas amáveis, as casas dignas.

Por outro lado, o que podem fazer os haitianos, coitados, que não têm para onde correr? Imaginem o que é nascer num país sem qualquer esperança, varrido por violência e corrupção, que, para cúmulo dos cúmulos, ainda é arrasado por um terremoto como nunca se viu?

O Brasil está certo em acolhê-los. Foi assim que crescemos, e assim é que nos tornamos o país deliciosamente misturado que somos. Quem tiver dúvidas a esse respeito nem precisa ir muito longe: basta conferir os nomes dos seus colegas e amigos para perceber quantas nacionalidades diferentes precisaram se juntar para constituir a essência da nossa brasilidade.

(O Globo, Segundo Caderno, 12.1.2012)

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33 respostas em “História de duas cidades

  1. Lógico que os haitianos que estão migrando prá Banânia não conheceram Papa Doc. Pela aparente idade da maioria, na infância conheceram o Baby; por este motivo tenho pena por migrarem para a terra de MamaPac. Terão que apelar ao ecumenismo do Vodu com o Camdomblé para se virarem na aqui no terreiro de Lula Doc.

  2. **Bela crônica Cora, realmente bela!!!**
    Em todos os tempos, migrações internas ou externas aconteceram e acontencem
    pelo fator necessidade, condições melhores de vida, incluindo a liberdade e o
    respeito ao cidadão, de todas as formas. Sempre houve a aventura,a curiosidade,
    o desbravamento, mas isso é outra história…

  3. Pessoal, socorro, sei que é OT, mas estou perplexa: Meu Mozilla enlouqueceu e só mostra os sites (facebook, e o Internetc também) truncados, como se fosse uma versão básica, sem formatação; Um horror! O que faço para ele voltar ao normal? Já tentei desinstalar e instalar novamente, não adiantou….

  4. “o Brasil não precisa de mais miscigenação. Já temos problemas demais, pobreza demais.”

    Oxente!
    E eu pensei que miscigenação hoje fosse resultado da decisão pessoal de um homem e uma mulher, nunca algo que causasse pobreza e problemas, vai ver estou entendendo as coisas erradas, eu hein!
    Concordo com Cora, o Brasil está certo, temos lugar, as fronteiras são políticas, a humanidade nasceu caminhando, procurando oportunidades, civilização é o resultado de costumes advindos de outras partes, afinal o macarrão veio da China, o tomate das Américas e a macarronada é italiana, só para dar um exemplo rápido; a pureza é a mistura, a diversidade, o acolhimento…
    Eu hein, me poupem que eu tô velha…

  5. Li com emoção a sua coluna publicada hoje sobre os últimos acontecimentos ocorridos em Brasiléia.
    Esse nome – Brasiléia – se compõe de duas palavras: Brasil e Hiléia.
    Hiléia foi a denominação dada pelo geógrafo e naturalista alemão Alexander Von Humboldt e pelo botânico e médico francês Aimé Bonpland para a Floresta Amazônica.
    O nome ” hiléia ” foi sugerido por uma lenda que narra a história do herói grego Hylas, companheiro de Hércules, que se perdeu numa mata e não mais foi encontrado.
    No nome, os pesquisadores tiveram a intenção de marcar o destino de muitos brasileiros que tiveram igual destino.
    De certo modo, foi também o destino que nos anos 60 teve o meu pai Sinval Pinheiro quando trabalhou na cidade de Brasiléia como militar, engenheiro, geógrafo e topógrafo, depois de exaustivos trabalhos como responsável pela demarcação da fronteira do Brasil com a Bolívia, no interior da selva amazônica.
    Agora, a cidade de Brasiléia torna-se um símbolo não de uma porta de saída para o mundo dos mortos, mas umponto de chegada, um porto livre para os haitianos vítimas da truculência política.

    • Paulo: “Hylas, companheiro de Hércules, que se perdeu numa mata e não mais foi encontrado” é — digamos — a versão pudica do mito.

      Conta a lenda que Hylas era um belo mancebo por quem Hércules se apaixonou perdidamente, matando seu pai e raptando-o, a contragosto do rapaz.

      Mas, não querendo despertar a ira do fortíssimo semi-deus apaixonado, Hylas submeteu-se.

      Até que um dia, durante a expedição dos Argonautas, Hylas foi buscar água na floresta em Mísia e sua beleza atraiu um cardume de belas ninfas aquáticas que o salvaram. E ele nunca mais foi visto. Hércules ficou desconsolado, exigindo que os sacerdotes Mísios anualmente chamassem o rapaz.*

      Há um belíssimo quadro “Hylas and the Nimphs” (1896) de John William Waterhouse

      *Fonte: Dicionário de Mitologia – Pierre Grimal (o melhor do gênero)

  6. Nem preciso olhar para colegas e amigos,olho para minha familia e em todos graus de parentesco a miscigenaçao esta presente.
    Nao devemos esquecer nossos antepassados, que ao pra cá migrarem, nao fizeram por ” por boniteza e sim por precisão”. Negar aos desvalidos de hoje a oportunidade de mudarem seu futuro, é negar o esforço e os riscos que os nossos bisavós, avós e pais correram para sobreviver e construirem suas familias. Impedi-los equivale a matar os sonhos que os nossos tiveram e puderam realizar.

  7. Lindíssima e humanitária, a crônica.

    Adorei sobretudo o desenvolvimento, que parece apontar numa direção, mas concluindo inesperada e maravilhosamente na antítese de um ‘macaco, olha teu rabo’.

    Afinal de contas, quem não tem sobrenome indígena, chegou de fora.

    Brava, Coríssima!

    • Tom, às vezes até quem tem sobrenome indígena veio de fora. O sobrenome da minha mãe é Terena (e meu tb), que é uma tribo da região do Mato Grosso do Sul. Não sei se você se lembra mas houve até um cacique da tribo que foi deputado federal, o Marcos Terena.
      Meu avô, no entanto, não tem qualquer ligação com essa tribo, ele era um italiano que veio substituir os escravos nas fazendas de café na virada do séculos XIX / XX. O duro é que ninguém sabe como era realmente a grafia do nome dele, se Terena, Therena, Terenna, Therenna, poucos dos 10 filhos tem a mesma grafia do sobrenome. Será que havia índios na Sicilia?

  8. Cora, por falar em capivara, acabo de chegar da lagoa e avistei uma há cerca de uma hora na altura do Humaitá, onde há uma estrutura de madeira no espelho d’água. Ela ficou uns cinco minutos deixando-se fotografar; mas, como corro sem celular, perdi a oportunidade de tirar uma foto pra você. Espero que alguma boa alma lhe mande o retrato do bichinho. Um abraço.

  9. Uma crônica comovente. Humaniza e traz para junto do coração e da consciência o tamanho dos desafios que o Brasil enfrenta quando se trata de alçar outros lugares no mundo e mais poder nos espaços chamados de governança global. Ser relevante no mundo implica em mais justiça social no próprio Brasil, assim como delicadeza, generosidade e respeito aos direitos humanos quando as vítimas das tragédias do mundo ao redor começam a nos buscar, mais uma vez, como o lugar de destino e de sonhos de vidas melhores. Valeu, Cora. Abraços.

  10. Nem é preciso dizer que leio e releio suas Crônicas com enorme prazer.
    Quanto aos haitianos precisamos ser humildes o suficiente para entender as razões do outro.

  11. Adoro suas crônicas e passo sempre por aqui para acompanhar a vida dos gatinhos.
    Infelizmente, terei que discordar do último parágrafo: o Brasil não precisa de mais miscigenação. Já temos problemas demais, pobreza demais.
    E muito pouca gente fazendo algo produtivo para melhorar a situação do brasileiro que tenta viver com dignidade.
    bjs.

    • Tem brasileiro vivendo e trabalhando em todos os cantos do mundo. Durante décadas foi moda ir juntar uns cobres no Japão ou nos EUA.
      Não faz sentido negar abrigo a meia dúzia de gatos pingados. Não serão os haitianos que vão piorar nossa situação.
      E de mais a mais, já falta mão-de-obra em quase todos os níveis da nossa economia.
      Torço para que sejam muito bem vindos por aqui.

  12. “Temos côco gelado”
    Senti vontade de reler sua crônica e tomar a água de um côco, sorvendo-os de um só concomitante fôlego…
    Reli a crônica sem água de côco que em casa côco eu não tinha. Na sua falta, senti resquícios amargos de trágicos êxodos e de dolorosas diásporas. Que poderei eu fazer senão dirigir um visceral pensamento respeitosamente agradecido ao Brasil de todos os êxodos e diásporas?…

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