Dados enviesados

Desde que a Nokia lançou seu primeiro cameraphone há exatos dez anos, uma das previsões favoritas do povo da área tem sido o fim das câmeras compactas. Eu mesma já previ isso algumas vezes, e continuo acreditando que as máquinas mais simples, desprovidas de grandes recursos, tendem a desaparecer diante do aperfeiçoamento das câmeras embutidas nos celulares. É só uma questão de tempo. Afinal, as imagens obtidas por aparelhos de ponta, como o Samsung Galaxy IIS ou o iPhone 4S, por exemplo, não deixam muito a dever às das câmeras miúdas – e nós sabemos que o que um celular de ponta faz hoje, amanhã será característica trivial dos aparelhos simplinhos. Basta lembrar que a câmera do 7650, o pioneiro dos cameraphones, era uma modesta VGA de 640 x 480 pixels.

Apesar disso, e apesar de uma pesquisa recente do NPD Group apontar queda de 13 por cento nas vendas globais de câmeras compactas nos primeiros 11 meses do ano passado, a quantidade e a oferta dessas valentes maquininhas não parece diminuir. Ou vocês se lembram de algum Natal com mais ofertas de câmeras boas, bonitas e – sim, até isso! – baratas?

Há vários fatores a se considerar em relação à proliferação de marcas e modelos, e o primeiro ainda é a boa relação custo x benefício. A maioria dos usuários de celular não usa smartphones com câmeras de 8MP, que ainda são exorbitantemente caros, ao passo que mesmo as câmeras digitais mais sofisticadas, pertencentes a segmentos que sobreviverão ao desenvolvimento dos cameraphones, custam bem menos do que seus pares da telefonia.

Pego um exemplo ao acaso, no Submarino: uma Olympus SZ10, 14MP, 3D, com Zoom 18x, que filma em HD, sai a R$ 1 mil, uma pechincha diante da média de R$ 2,1 mil pedidos pelo modelo mais baratinho do iPhone 4S. Na hora do upgrade, o bolso sugere trocar a digital, e não o celular.

Além disso, a câmera faz mais sentido como investimento familiar. Ela é menos pessoal do que o celular, podendo servir como aparelho de uso coletivo. E, afinal, é dela que todos se lembram na hora de tirar as fotos “importantes”.

Que um dia as compactas básicas serão substituídas pelos smartphones já não se discute; mas o que se sabe hoje é que, apesar de tudo, este dia está um pouco mais distante do que imaginávamos.

o O o

O estudo do NPD Group traz também números muito risonhos para a indústria fotográfica, que indicam crescimento de 12% nas vendas de câmeras com lentes intercambiáveis, e de 16% nas vendas de compactas com zoom 10x ou superior.

Acredito que este crescimento pode ser atribuído, indiretamente, ao uso cada vez mais amplo das câmeras dos celulares. Há dez anos, antes do aparecimento dos cameraphones, havia pessoas que fotografavam, e pessoas que não fotografavam. As que não fotografavam não tinham câmera, não se interessavam pelo assunto e confiavam em parentes e amigos para as fotos dos aniversários.

Mas, num mundo em que praticamente todos os celulares têm câmeras, quase todos os usuários tornaram-se seres que fotografam. Nem todos passaram a gostar de fotografar, mas é razoável supor que muitos descobriram um mundo novo, e que, aos poucos, querem ver mais e melhores resultados das suas aventuras na área. Aí entram as câmeras mais sofisticadas e as compactas com zoom poderoso, capazes de oferecer uma experiência muito superior à dos melhores celulares.

o O o

Finalmente, um número muito eloqüente: ainda segundo a pesquisa do NPD Group, 27% de todas as fotos e filmes feitos ao longo do ano passado saíram de celulares.

 

(O Globo, Economia, 7.1.2012)

Anúncios

17 respostas em “Dados enviesados

  1. Se quiserem ver o outro lado da “tecnologia”, sugiro isto: em Rajasthan, na Índia, uma escola extraordinária ensina mulheres e homens do meio rural – muitos deles analfabetos – a tornarem-se engenheiros solares, artesãos, dentistas e médicos nas suas próprias aldeias. Chama-se Universidade dos Pés-Descalços (Barefoot), e o seu fundador, Bunker Roy (indiano), explica como funciona.
    O vídeo tem 19 minutos.

  2. Prezada Cora,
    Desde 2005, utilizo o celular como câmera fotográfica e filmadora. Em 2008, com o fantástico N95, resolvi cair de cabeça e criei um blog onde coloco meus experimentos. Atualmente usando o N8, criei 1 site para expôr os recortes q faço desde 2008.
    http://www.lucianadau.com
    Sou uma artista móvel, por utilizar essa tecnologia q permite compartilhar de forma instantânea outros olhares na internet. Visite qdo tiver 1 tempo e se gostar deixe 1 comentário lá.
    Carinhosamente,
    Luciana

  3. Tenho uma teoria muito simples para isso: celular é para quem fala, filmadora é para quem filma e câmera fotográfica é para quem fotografa. Quem faz tudo isso em um único aparelho, acaba não fazendo direito nenhuma coisa nem outra.

  4. Boa noite Cora.

    Apenas gostaria de lhe desejar um ano realmente novo.Com mais humanidade e menos tecnologia.É isso que realmente interessa.

    Parabéns pelas coisas que escreve.Aquele passarinho de 97 anos era humano.
    Se ser humano já é para poucos,imagine então ser passarinho.
    Meus sentimentos.

    Na sua última coluna havia umas fotografias que me fizeram lembrar de Nikita Mikhalkov e Eduard Artemiev.
    Acho que compreende e gostará.

    Aldo

  5. Tenho um celular Motorola EX sei lá o quê e só tiro fotos c ele. Tem 3 mp (é isso msm?) Minhas fotos (modéstia a parte) saem ótimas , todo mundo gosta e – cá entre nós- não ficam nada nada a dever as tiradas pelas câmeras cheias de mirabolantes recursos. Não sou fotógrafa profissional, não faço altas viagens e pra mim (por enquanto ) tá tudo muito bom. Concordo c vc , Cora, quando diz achar q o futuro das câmeras mais simples está por um fio, por causa dos cels. Se eu, c meu motorolinha ,tiro fotos bem legais, o q dirá os q têm os Iphones da vida?

  6. Acabo de aposentar, mandando revelar o ultimo filme,a minha Olympus analogica. Mas vou continuar a copiar todas fotos interessantes em papel e guardar em albuns. Ja tive porta retratos digital, mas nada se compara a facildiade de uso de fotos em papel.

    • Tb faço isso Celso. Fotos, pra guardar, prefiro em papel. Mais fáceis de carregar e não se corre o risco de perder tudo com uma pane do computador ou um problema no cartão digital.

    • idem!!!! Agora que comprei um telefone com fio num camelo nao preciso mais carregar meu celula!!!! Em caso de falta de luz ja nao fico sem telefone!!!

Diga lá!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s