Ano novo, vida nova

— Olá, queridas!

— Olá!

— E aí?

— Sempre atrasada…

— Alguém tem que manter alguma tradição ou, mais um ano ou dois, o mundo ficará irreconhecível.

— Há quanto tempo a gente não se vê!

— É, desde o ano passado.

(risos)

— O mundo não periga ficar irreconhecível não. Há quantos anos a gente faz essa mesma piada sem graça…

— …e há quantos anos a gente ri dessa mesma piada sem graça?

(risos)

— Essa é uma daquelas piadas eternas, das quais a gente ri não porque acha engraçadas, mas porque conhece. E ela foi muito boa em 2000 ou em 2001, quando a gente não se via desde o milênio passado. Quando mesmo é que foi a virada do milênio, em 2000 ou em 2001?

— Não lembro mais.

— Nem eu.

— Vocês já pediram?

— Já, por você também. Umas saladinhas no capricho.

— Engraçado. Vocês sabem do que eu me lembro? Do frisson da chegada do ano 2000, parecia tão longe quando eu era pequena, e agora já veio, já passou e já estamos em 2012.

— E o mundo não acabou com o bug do milênio, vocês se lembram do bug do milênio?

— Aquele que ia destrambelhar todos os computadores quando a data virasse de 1999 para 2000, não era isso?

— Exatamente.

— Bug do milênio não é nada, pior é o bug do ano que me aflige e me faz continuar datando todos os cheques 2011…

— Você também? Eu perdi vários. Agora escrevi 2012 na data em todos eles, e pronto.

— Alguém vai de vinho?

— Não.

— Eu também não.

— Nem eu.

— Ué, o que é isso? Resolução de ano novo?

— É. Resolvi trocar vinho por água na hora do almoço.

— Para mim não é nada tão drástico, é que meti o pé na jaca nesse fim de ano e preciso dar uma segurada.

— Eu estou contando pontos, e prefiro os meus em chocolate. Deixa eu provar um pouco dessa salada mais bonitinha.

— Que assunto deprimente! Como foi a virada?

— Fiquei em casa com a família. Esse ano, com a chuva, ninguém se animou a ir até a praia. E acabamos nos divertido muito.

— Fui à festa de uns amigos no Leblon, foi tranqüilo.

— Nós fizemos um jantarzinho bacana e fomos à praia, a pé, levando champagne e flores para Iemanjá.

— Champagne para Imenajá? Nossa, a divindade está bem cotada…

— Não, inteligência! Champagne para nós, flores para Iemanjá. O astral da praia é sempre maravilhoso, mas acho que Copacabana não comporta mais uma festa dessas dimensões. A gente mal conseguia se mexer e, de onde estávamos, vimos no máximo cinco minutos de fogos, o resto foi fumacê. Não entendo porque não transferem a festa para a Baía de Guanabara, muito maior, com mais opções de transporte para a volta. E, possivelmente, mais opções de latas de lixo. A volta da praia foi linda, porque viemos no fluxo das pessoas que desceram a Francisco Otaviano, sem estresse por condução, todo mundo na maior paz, uma energia muito boa. Se a cidade fosse sempre assim…

— Eu fiquei horrorizada com a quantidade de lixo. Acho que nada justifica a transformação da cidade num lixão daqueles.

— Não cheguei a ver ao vivo, mas fiquei impressionada com as fotos no jornal. Isso é uma daquelas coisas que só vai se resolver com longas campanhas educativas. Eu acredito em campanhas educativas.

— Não sei… acho muito relativo.

— Mas olha a Lei Seca como está funcionando bem!

— A Lei Seca multa os motoristas, tem um “estímulo” extra.

— Tá, mas a campanha da vacinação infantil não multa ninguém e é um sucesso. As pessoas podem ser educadas coletivamente, como não?

— Falar em Lei Seca — tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, apoio geral, mas que barbaridade aquelas bolas na Lagoa! O espelho d’água não foi feito para isso, caramba. Que idéia de jerico!

— Quer dizer que a bola dentro foi uma bola fora?

— Total.

— E aí, resoluções de Ano Novo?

— O de sempre, é claro, ou não seria Ano Novo. Temos que manter certas tradições etc. etc. etc.

— Eu acho uma boa data para começar alguma coisa. E já comecei a dieta dos pontos. Até aqui, estou conseguindo manter.

— Bravo! Estamos no dia 3, que resistência…

— Eu ainda estou pensando, mas acho que vou me inscrever novamente numa academia. Preciso me mexer.

— Eu decidi que só vou comprar novos cremes depois que usar todos os que tenho. Todo ano jogo fora toneladas de cremes que perderam a validade. Compro cheia de empolgação, depois me dá uma preguiça louca de usar.

— Taí, se livros tivessem data de validade, a minha tarefa seria mais simples. Eu não fiz nenhuma resolução de Ano Novo, mas mais ou menos decidi que preciso levar adiante uma grande sessão de desapego com os livros lá de casa, que começaram a espichar as manguinhas pros lados dos banheiros e da cozinha…

— Ah, essa é uma ótima resolução! Nós ajudamos, não é?

— Com certeza!

— Como não?

— Sobremesa, alguém?

— Deus me livre!

— Nem pensar…

— Vade retro.

— Ai céus, Ano Novo é uma solidão só… Uma fatia de abacaxi, por favor.

 

(O Globo, Segundo Caderno, 5.1.2012)

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24 respostas em “Ano novo, vida nova

  1. Nelson,
    Penso que cada um deve agir como quiser ou como lhe aprouver. Só que há as consequências da pseudo liberdade de escolha, e você terá de arcar com elas. Estou cansada de ver – pelo menos aqui em Sampa – bêbados (ou bêbedos, como queira) dirigir e matar inocentes, ferir e provocar colisões com outros veículos. Em dias de festa, bebo e durmo onde estou (em casa de parentes ou amigos, por óbvio), ou NADA bebo para não incorrer em algum deslize. Que você tenha discernimento para escolher o que queira. É o meu desejo.
    P.S. – Certa vez – e faz muito tempo – bebi bastante e queria ir pra casa. Não queriam me deixar, mas acabaram cedendo. Descobri: quando se tem visão dupla (por causa do álcool, obviamente), para acabar com o problema, basta fechar um dos olhos. Foi o que fiz e deu certíssimo. Vi apenas um cenário. Cheguei em casa “inteiraça”, sem problemas.

  2. Ótima crônica pra começar um ano preguiçoso, chuvoso. Conversa descontraída, tudo junto e misturado! Só não gostei da dispensa da sobremesa, meu pedaço predileto de qualquer refeição 😉

  3. Farei companhia a quem pediu a fatia de abacaxi : nada seria tão bom como começar um ano novinho com o abacaxi já descascado e trazido em bandeja !…

    Delícia de crônica , Cora, enfatizando a grande preocupação reinante com nossa adiposidade galopante,rsrs
    Que 2012 nos sorria , e que possamos –cada um(a) de nós– usar nossos talentos pessoais em prol da humanidade !…

  4. Cora,
    Muito bom seu post, só fiquei triste com um comentário: Até hoje falam que o Bug do milênio foi um fiasco, porque disseram que os computadores iriam parar, etc e tal… e nada aconteceu. Se não pararam, não foi porque foi um fiasco!!! Foi porque milhares de analistas de sistemas conseguiram, heroicamente, trabalhar no bug, evitando que ele acontecesse. Não seja cruel conosco!!!!

  5. Uma delícia! Só não concordo com o desapego em relação aos livros….
    Desde que sobre um lugarzinho para eu dormir, eles podem ficar em todos oa cantos de minha casa….rsrsrsrsr
    Bjs.

  6. eu sou contra a lei seca… não vejo autoridade nenhuma nesse (e em nenhum) governo para se meter na minha vida. eu sei até onde posso ir. independentemente disso, a crônica está ótima.

    []’s

    • Nelson, perdão, mas quem bebe muito não vê a realidade como ela é. Você pode beber, em casa, até cair. Mas não tem o direito de, por causa dela, tirar a vida de alguém na rua, enquanto dirige. É pura irresponsabilidade. Sempre sou contra o governo – qualquer um que seja – porém quanto à bebida, assino embaixo.

      • peralá, lilly, eu não disse que sou a favor de alguém dirigir bêbado. assim como, não sou a favor de alguém dirigir com sono, ou sob efeito de drogas, ou com a carteira comprada, etc. eu sou é contra um governo que não cuida das ruas, que não cuida dos sinais, que não prende e/ou mantém preso quem precisa de cadeia, que rouba desavergonhadamente, vir me impor um limite que tem que ser de minha inteira responsabilidade.

        []’s

      • favor desconsiderar aquela vírgula depois do “assim como”. juro que não tinha bebido nada quando digitei isso ;¬)

        []’s

    • “vir me impor um limite que tem que ser de minha inteira responsabilidade”

      O problema, Nelson, está aí. Não é de sua inteira responsabilidade, pois se vc bater, pode matar outra pessoa. Isso foge do escopo das suas responsabilidades e passa a ser uma responsabilidade da sociedade como um todo.

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