O ano do camelo

Recomenda-se a quem vai a Jaisalmer, no Rajastão, que não deixe de ir ao deserto do Thar. O deserto fica logo ali, e tem papel preponderante na vida da cidade que, na fronteira com o Paquistão, era um importante entreposto de caravanas, mas hoje vive essencialmente de turismo. Cada segunda loja de Jaisalmer anuncia aventuras no deserto, de pequenos passeios de meio dia a estirões “não-turísticos” de vários dias, com direito a noites dormidas em tendas e longas horas sacolejando no lombo de camelos.

 As operadoras de turismo levam seus fregueses para a excursão em jipes, o que é uma cruel desilusão para quem imagina que o único transporte apropriado entre uma cidade medieval murada e um deserto é o tapete voador.  Como estávamos com um simpático motorista local, perguntamos se ele poderia nos levar, ao que ele respondeu “sim” sem qualquer alvoroço ou sinal de emoção, mais ou menos como um motorista carioca responderia se lhe pedissem para ir ao Centro: nada mais corriqueiro. Na verdade, é possível chegar ao deserto até de bicicleta.

A estrada corta um território não muito diferente da nossa caatinga, coberto por uma vegetação rasteira que vai rareando à medida em que nos afastamos da cidade. O ar é muito seco, e a poeira que cobre tudo rouba as cores das plantas. A uns trinta quilômetros de Jaisalmer começam a aparecer os primeiros sinais de que estamos indo na direção certa: no meio do nada, alguns homens acocorados ao lado dos seus camelos esperam pelos turistas. Nosso motorista tem obviamente os seus fregueses, e segue em frente.

De repente, avistamos umas dunas. Estão cobertas de camelos, turistas e guias de camelo, todos estrategicamente posicionados para apreciar o pôr-do-sol.  O deserto é uma festa!

Nossos camelos nos aguardam um pouco adiante. Estão lindamente ajaezados, e o meu, menorzinho, tem o pescoço enfeitado com pintinhas de Kohl. É um bicho altivo e elegante, com longas sobrancelhas negras. Meu amigo Marco Antônio Diniz Brandão, nosso intrépido embaixador em Nova Delhi, monta o seu como se não fizesse outra coisa, talento que lhe poderá ser útil no Cairo, posto que assume dentro de alguns dias; já eu subo assustadíssima, nem tanto com o ondular do bicho, quanto com a sua altura. Afinal, um camelo tem mais de dois metros de altura. O medo passa rápido e logo estamos amigos de infância, o camelo e eu. E assim, sacolejando para baixo e para cima, seguimos até uma boa duna para ver o pôr-do-sol.

O Arpoador tem o que ensinar ao Rajastão: ninguém aplaude, e o majestoso espetáculo acaba sendo anticlimático para quem bate palmas para o sol desde criancinha.

Voltamos para a estrada, e desmontamos dos nossos camelos. O ritual se completa com uma xícara de chai, o chá indiano feito com leite, açúcar e cardamomo. Na volta, em frente a uma tenda, dezenas de camelos descansam, livres, enfim, da turistada do dia. Marco Antônio não se contém:

— Olha só! Eis o verdadeiro camelódromo!

Taí. Vou tentar me esquecer de todas as partes ruins, e me lembrar de 2011 como o ano em que andei de camelo no Deserto do Thar.

o O o

Tirando os campeões argentinos “Medianeras” e “Um conto chinês”, não vi nada no cinema, em 2011, que me entusiasmasse. O mesmo não posso dizer das séries de televisão, que acho cada vez melhores. Meu ano se salvou graças a “Mad Men”, que descobri, com muito atraso, no começo do primeiro semestre, e a “Downton Abbey”, cujas duas temporadas existentes devorei nessa última semana. “Mad Men” passa na HBO e quase todo mundo com quem converso já viu; “Downton Abbey” estréia no Brasil nesse ano que vem, e ainda é mais ou menos desconhecida. Para quem não agüenta esperar as idiossincrasias da programação local, recomendo os DVDs ingleses — com salvadoras legendas em inglês! — vendidos pela amazon.co.uk.

A série, que começa em 1912, explora dois mundos paralelos, o dos aristocráticos Crawley, no andar de cima da mansão que lhe dá o título, e o dos empregados, no andar inferior. Se época e personagens lembram, num primeiro momento, o fascinante universo de “Assassinato em Gosford Park”, não é por acaso: ambos são criações do roteirista Julian Fellowes, que levou um Oscar em 2002 pelo filme de Robert Altman, e faturou um Emmy em 2011 com a minissérie. Fellowes sabe do que está falando: seu título completo é Barão Fellowes de West Stafford, e ele é membro (conservador) da Câmara dos Lordes.

A primeira cena de “Downton Abbey” vale o preço dos DVDs. Percebemos que algo muito sério aconteceu por causa de um telegrama e do alvoroço que causam os jornais do dia; mas, se não ficarmos atentos, corremos o risco de não saber  que a notícia momentosa foi o naufrágio do Titanic, importante na minissérie apenas porque nele morrem os herdeiros da casa. E que casa! Downton Abbey é, na verdade, Highclere Castle, o castelo onde nasceu e viveu Lord Carnarvon, aquele que descobriu, junto com Howard Carter, o túmulo de Tutancamon.

O seriado é uma alegria só, da reconstituição de época aos diálogos ferinos, da locação aos figurinos — mas, sem elenco à altura, nada teria o brilho que tem. Para nós, o elenco é basicamente desconhecido, o que dá à minissérie o benefício adicional das caras novas; as duas estrelas mais familiares são Elizabeth McGovern e a fenomenal Maggie Smith, que rouba todas as cenas em que aparece. Em suma, quem ainda não viu “Downton Abbey” já tem um ótimo espetáculo garantido para 2012.  Que ele seja apenas a ponta de um iceberg de bons e felizes momentos.

(O Globo, Segundo Caderno, 29.12.2011) 

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13 respostas em “O ano do camelo

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  2. Fiquei feliz quando vi que o seriado Downton Abbey seria exibido no Brasil. É bom poder ver em HD, justo quando pensava economizar no meu pacote tirando o HD. O seriado está sendo exibido às vezes as 22h00, às vezes mais tarde, o que já é bastante ruim. Repetiram o mesmo episódio dois sábados seguidos. Mas o pior foi que inverteram a sequência!! O que eles pensam que somos?

  3. Cora,

    Graças à sua indicação, assisti ontem ao primeiro episódio de Dowton Abbey e adorei, vou devorar essa primeira temporada rapidinho!
    Mad Men eu assisti até a metade da segunda temporada, mas achei os episódios tão repetitivos que desisti.
    Homeland, citada por uma leitora aqui nos comentários, é uma série de espionagem e terrorismo sensacional, focada nos personagens e suas angústias, cheia de suspense e reviravoltas – recomendo fortemente.

  4. Cora, a-do-ro Downton Abbey e, btw, saiu um episódio no dia de Natal (que já estava mesmo prometido) 🙂 bjks

  5. Cora, adorei viajar novamente este ano com você, muito obrigada! Ainda bem que aconteceu a viagem de camelo para fechar o ano com algo de bom.
    Com relação a filmes, saí do cinema encantada com Medianeras, pena que o filme não chegou e acho que nem chegará em terras capixabas, ainda bem que tive a sorte de estar no Rio justamente quando ele estava em cartaz. Também gostei de Melancolia. Esses foram os filmes assistidos no cinema que me foram relevantes em 2011.
    Quanto as séries, Downton Abbey foi o melhor achado deste ano, a série é maravilhosa e merece todos os elogios tecidos, aguardo ansiosa a próxima temporada. Não conheço Mad Men, mas vou conferi-la.
    Um feliz 2012!!!

  6. “ajaezado” é uma palavra linda, cora, e dificílima de usar 🙂 parabéns pela crônica, parabéns pelo “ajaezado” que deixou meu dia mais bonito :*

  7. Eu adoro séries, Cora e estou gostando de Homeland, com a Morena Baccarin.
    Eu tinha gostado de Panam, que o Tom disse que vocês não gostaram e já foi cancelada rsrsrs
    Desejo a todos nós um 2012 mais leve, com menos percalços, mais alegrias, muitos ronrons, bons livros, viagens melhores ainda e – sonhando alto – mais vergonha na cara de nossos políticos! Não custa sonhar, né? Um beijo, querida!

  8. Neste ano vi o extraordinário “A Árvore do Amor (Shan zha shu zhi lian)”, excepcional filme chinês passado na Revolução Cultural, o famoso Salto à Frente do camarada Mao. Lindíssimo. Costumo fugir de filmes “cabeça”( iranianos, chineses, etc… ) mas este ficou na história.
    Vi também o tal “American Horror Story” série da HBO que baixei de cabo a rabo e foi legalzinho. Mas cheio de pontas sem pé e sem cabeça. Vi a nova temporada do “The Office”, também gostei muito. MADMen é também legalzinhho. Comprei pela Amazon em Blu-Ray.
    Baixei todos os episódios dos “Sopranos” e estou vendo um a um junto com a esposa, que está gostando muito mas fecha os olhinhos nas horas de violência. ( que são poucas, mas muito intensas )
    Acabei de assistir a “Drive”, que é super cultuado e é, realmente, um bom filme mas nada que o faça ser tão diferente de outros filmes de muita, muita e muita violência. Fiquei até assustado, porque não imaginava que fosse ser tão forte. De determinada cena em diante, a esposa ficou com os olhinhos fechados na maior parte do tempo.
    Bem… chega !
    Feliz Ano Novo para todos !

  9. E por falar na Câmara dos Lordes, são mais de quinhentos, vários têm acento hereditário, nenhum é eleito, custam uma baba, monarquia é outra coisa, entende? Dame Margareth Thatcher virou baronesa e flana por lá.

    É isso. Creio que agora já podemos dormir sem que o Jáder Barbalho barbalhe nossas consciências,

  10. Taí uma imagem única pra guardar de 2011! Adorei!

    Minha amiga americana me recomendou muito “Downtown Abbey”. Já “Mad Men” me causa uma angústia horrível, só vejo pra dar graças que aquele tempo não volta mais! Ainda amo de paixão “Six Feet Under”, que também só fiquei sabendo que existia em 2010.
    Mad Men aqui é tão influente que todas as lojas de roupas lançaram coleções com cara de anos 60. A Anthropologie tinha um monte de casacos trapézio com mangas 3/4 e a Banana Republic lançou uma coleção chamada Mad Men.

    Que 2012 venha pra compensar 2011. Um abraço apertado pra você, Cora!

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